Demasia

 

No jardim de nossa casa nasceu, espontaneamente, um mamoeiro. Entusiasmado com a descoberta, iniciei uma adubação sistemática com adubo químico de formulação adequada para o bom desenvolvimento da planta. Pesquisei e descobri que, a partir do início da primavera, seria o momento certo de iniciar o processo, que demandaria numa pequena porção do nutriente a cada mês, sempre depois de uma boa chuva. Depois de algum tempo, vimos formar um robusto pé de mamão e, o mais admirável, com uma florada espetacular. Imagino que pela forte adubação, houve um índice alto de aproveitamento das flores e, como consequência, uma frutificação espantosa.

Mas depois da colheita a planta começou a secar. O tronco, que estava tão vigoroso, ficou enfraquecido e, para nossa tristeza, o mamoeiro morreu. Consultando a literatura, deduzi que eu mesmo provoquei a morte da pequena árvore. Tentando obter bom resultado, exagerei na quantidade de adubo e a boa produção exigiu mais do que a planta poderia dar, não resistindo à sua primeira colheita. 

A experiência que tive no quintal de minha casa, ilustra de maneira singela, um dos equívocos da sociedade moderna, o exagero. De várias maneiras, sabemos de mortes, desgastes e descasos que são causados por não se dar o tom ideal, a força necessária, ou a ajuda adequada aos contextos e dramas da vida. Infelizmente, nossos dias têm sido contados por excessos de ação ou de omissão, de força ou de fraqueza, de presença ou ausência. Vivemos numa sociedade sem limites, sem critérios e sem noção do que seja conveniente para cada situação. Quer seja em relação aos outros ou a nós mesmos, vivemos o drama de falta de dose em atitudes ou emoções.

Há quem sofra em demasia, a quem não sofra nada. Há quem se entristeça muito, há quem se alegre muito, há quem não se alegra nunca, há quem não se entristeça nunca. Com isto, vivemos o equívoco do exagero em impressões, posições, reações e ações. Somos jogados do tudo pro nada de hora em hora, como se pessoas, processos e situações pudessem ser contabilizadas, compreendidas ou avaliadas no parâmetro do “oito ou oitocentos”.

Imagino que, consciente desse espírito volúvel e em constante desequilíbrio, o sábio bíblico tenha aconselhado: “há justo que perece na sua justiça, e há perverso que prolonga os seus dias na sua perversidade. Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas louco; por que morrerias fora do teu tempo? Bom é que retenhas isto e também daquilo não retires a mão; pois quem teme a Deus de tudo isto sai ileso.”[1] Desta forma, ele percebe que todas as demandas da vida carecem de equilíbrio e bom senso. Não há nada, nem ninguém, capaz de ser avaliado por um só ângulo, nem por uma só expectativa. Cada um de nós tem sua própria medida, como seres inconclusos, instáveis, informes, carentes, portanto, de reflexão e cuidado.

Como salienta o sábio, nem a demasia, nem a parcialidade e acrescentaríamos, nem a omissão, nem a insuficiência, são capazes de equalizar, equilibrar, manter a harmonia ou preservar a vida e a paz em qualquer lugar ou situação que seja. Quem dera víssemos revigorar o equilíbrio e o bom senso em todas as coisas, numa perspectiva construtiva e comunitária, onde fosse possível a convivência, a participação e a coexistência.

Rev. Nilson


[1] Eclesiastes 7.15-18.

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Published in: on junho 17, 2013 at 1:57 pm  Deixe um comentário  

Não queime seus navios

Há uma controvérsia sobre a autoria da famosa ordem para “queimar os navios”. Alguns autores atribuem ao conquistador espanhol Fernando Cortez, outros, ao também espanhol, Pizarro e, outros ainda, ao tirano Agátocles. O importante é saber que a expressão teria sido usada por um deles na chegada a uma terra estranha, a ser conquistada. A ordem para atear fogo nos próprios navios significava que não haveria como voltar atrás, restando somente uma hipótese, vencer. Esta frase é normalmente usada na motivação de pessoas que estão em busca de algum objetivo especial na vida. Na verdade, ela se refere a um princípio básico de qualquer vencedor, de não olhar atrás e seguir sempre em frente. Afinal, a possibilidade de um navio seguro ancorado na praia pode significar uma opção pelo recuo e pela desistência.

É claro que o sentido da frase encontra acolhida na sociedade contemporânea. Vencer é uma necessidade urgente para qualquer um e, quem não “vence”, normalmente é deixado de lado e considerado incapaz. A disputa do mercado de trabalho, as exigências curriculares cada vez mais rigorosas, as tendências de consumo, tudo isto movimenta um mundo rígido, que cobra resultados palpáveis, principalmente econômicos. O triste disso é que, em nome da vitória, muita gente, desavisadamente, queima seus navios, seu passado, seus valores, referências e sentimentos. É lamentável perceber que, de várias formas, o fascínio por novas terras tem feito pessoas desprezar coisas importantes como família, passado, origem e história.

Mas a vida não é feita só de idas, existem momentos para seguir em frente, acelerar, enfrentar problemas, situações, ser forte, desbravar. Há outros em que é necessário regressar, retroagir, voltar para as raízes, ao passado e às verdadeiras bases da história pessoal. Não há vida plena só na conquista, os fracassos também ensinam. Os reais valores da existência estão em todo o seu curso, nas vitórias e nas derrotas, nas alegrias e nas tristezas. Por isso é preciso ter navios para voltar, ter referências, onde moram nossas verdadeiras riquezas. Contrariando as teorias motivacionais, acredito que verdadeiros heróis são aqueles que sabem avançar diante de suas lutas, conquistar suas riquezas e, mesmo assim, voltar aos antigos amigos e à pureza dos sentimentos mais modestos. Então é necessário preservar os navios, a família, os amigos e aquilo que nos garanta navegar.

Há um texto bíblico, uma profecia de Jeremias, escrita seis séculos antes de Cristo, que parece estar muito viva neste contexto, que recomenda: “Põe-te marcos, finca postes que te guiem, presta atenção na vereda, no caminho por onde passaste…” . Em outras palavras, o profeta orienta para o cuidado com aquilo que baliza e orienta as aventuras e desventuras da vida.

Que possamos resistir às tentações de queimar navios, e não caiamos no equivoco de pensar que o que passou não tem mais valor. Que não sejamos surpreendidos pela angústia de não poder voltar para algum lugar seguro de nossa história por falta de navios ancorados em nosso passado.

Rev. Nilson

Published in: on maio 29, 2013 at 12:43 pm  Comments (6)  

Troca de agenda

agenda-2013

Como em todos os anos, aproveito um dia depois das férias para preencher minha nova agenda. Transcrevo nomes, telefones, e-mails e alguns endereços e anotações que julgo importantes. Neste ano descobri que este momento é especial e bem mais significativo do que exercitar a caligrafia. Percebi que se trata de um tempo de análise, de rememorar fatos, encontros, pessoas e ocasiões significativas da vida. Da mesma forma, percebi também que esta tarefa exige desprendimento para deixar pra trás o que não é bom lembrar, o que faz mal e entristece. Verifiquei que o fato de trocar de agenda representa a troca de perspectiva, de esperança, cabendo a quem escreve o poder de deixar ou não em pauta o que faz bem e o que faz mal.

Ao mesmo tempo em que vivia a experiência com as agendas nova e antiga, recebi de alguém uma frase atribuída a Albert Schweitzer dizendo que “a felicidade é nada mais que boa saúde e memória ruim”. É claro que há controversas nesta afirmação, mas, de alguma maneira, serve de receita para levar bem a vida, afinal, certas lembranças podem simbolizar fardos emocionais pesados que dificultam a caminhada pelas estradas da existência. Existem questões que merecem cair no esquecimento, na frieza do que já não existe mais e serem deixadas no lugar onde as coisas não têm mais valor. Neste sentido, o texto bíblico parece reconhecer o benefício dessa atitude ao dizer: “esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo…” . Assim, ele nos motiva a agir de maneira sábia ao editar as novas agendas que temos, tendo a sabedoria de conservar o que convém para nossa felicidade e paz e deixar no arquivo do passado o que entristece, deprime e desmotiva.

Este fato, aparentemente banal, pode nos ajudar a avançar, a prosseguir, como salienta o apóstolo. Mais que isto, viabilizar reencontros, restaurar laços, refazer o que, aparentemente, está desfeito. Como disse uma amiga há poucos dias, “neste século não há espaço para quem não quer reaprender”. E acrescentaria: para quem não consegue deixar de escrever dias, semanas e anos, com os mesmos dramas, mazelas, ranhuras e más experiências.

É salutar, portanto, esquecer as coisas que para trás ficaram, agendando novos compromissos, renovando sentimentos e sentidos, relevando os equívocos – dos outros e nossos – que nos fizeram sofrer, deixando que a vida seja leve, sem fardos insuportáveis, que só permanecem nos ombros de quem faz questão de não ser feliz e não se deixa viver, e não entende que a vida precisa ser compreendida através de tempos, fases e períodos que vêm e vão, que surgem e se acabam, aparecem e, de repente, já não existem mais e devem perder seu valor, como uma agenda velha deixada no esquecimento de algum canto do passado.

Rev. Nilson

Published in: on abril 26, 2013 at 1:02 pm  Deixe um comentário  

O prefixo pascal

 

 Imagem

Desde a infância, tenho a Páscoa como um momento especial. Lembro de meu pai e minha mãe nos ensaios do coral e dos preparativos para os cultos às seis horas da manhã. Recordo dos almoços na casa de minha avó e dos ensinamentos sobre o sacrifício de Cristo como o ponto central deste momento. Na fase juvenil, da mesma forma, vivi o envolvimento com as programações da igreja para a data, participando das encenações, musicas, quando a ansiedade de todos se voltavam para o preparo da festa, tão especial. Adulto, deparei-me com outras lições do evento refletindo sobre a traição, a tortura, a humilhação e a morte de Cristo. Celebrei a Páscoa sentindo o gosto amargo do pecado na liturgia da erva amarga e a doçura do Amor de Deus, no gosto da fruta depositada sobre o altar. Cantei “perdão, Senhor”, e “Cristo já ressuscitou” na lembrança daquilo que tanto me dá sentido.

Mas foi há pouco tempo que meditei sobre outras questões que envolvem a Páscoa, percebendo que Jesus, na verdade, não viveu um momento estanque da historia. Entendi que o evento pascal não somente marca a fé cristã como também deve reescrever a vida cotidiana de cada pessoa, pois ao ressuscitar ele adiciona um novo prisma, um novo prefixo para a vida comum, o prefixo “re”. Nesta dinâmica, a ressurreição sinaliza possibilidades corriqueiras como o fato de nos levar, quando necessário, a re-lembrar momentos, pessoas e coisas que nos fazem bem. Da mesma maneira, de re-pensar o que fazemos, re-analisar nossos atos, re-começar antigos projetos, re-atar relacionamentos, re-viver emoções esquecidas, re-acender sentimentos deixados pra trás, re-conhecer ações, iniciativas, re-descobrir novos caminhos, re-viver, re-suscitando valores perdidos.

A Páscoa, pensada assim, não estaria isolada num mês do nosso calendário, tampouco, presa nas liturgias daquele único período, mas disseminada, distribuída pela vida e presente em todas as ocasiões da existência, sinalizando possibilidades concretas de superação, de transcendência, de re-novação e re-frigério.  

Hoje, me sinto mais próximo da Páscoa e também mais desafiado. Vivo o lamento e a tristeza da morte de Cristo nas horas que resisto à possibilidade de re-pensar, de re-ver e re-avaliar meus atos e sentimentos. Em contra partida, me alegro quando, diante de dramas e provações, vejo meu espírito ser re-novado pela confiança e esperança que a fé me dá. Sinto a Páscoa fazer parte de mim, ensinando o quanto é preciso me deixar morrer pelas mazelas que tenho e, ao mesmo tempo, como é importante aguardar pelas ressurreições tão necessárias para manter meu espírito reto.

Que Deus me ajude a re-formular, quando necessário, minha vida, para que a Páscoa seja um evento permanente e vivo, restaurador e dinâmico, que me leve, diariamente, da morte para a vida.

Rev. Nilson da Silva Junior

Published in: on março 31, 2013 at 1:11 pm  Comments (2)  

Carta para qualquer vitória

carta para qualquer vitoria

Tenhas cuidado com o sucesso, ele geralmente nos faz enganar sobre o que somos, sobre o que temos e sobre o que as pessoas realmente pensam de nós… a derrota é, certamente, mais proveitosa, pois quase sempre vem acompanhada de oportunidades para refletir com sinceridade sobre nossa real condição.
Lembre-se: nem sempre as pessoas que se aproximam nos momentos de sucesso o fazem por consideração e carinho, pois, frequentemente, vislumbram mais o que significamos e como poderão se aproveitar disso. Por isso, nunca se esqueça: nem todos os presentes são sinceros e nem sempre abraços e beijos representam admiração, bem querer, consideração… alguns têm intenção de troca e até de compra.
O sucesso é um estado complexo. Com o tempo entenderás que nem sempre ele é resultado de esforço e capacidade. Alguns tipos de sucesso são fruto de ocasião. Os processos de escolha são assistidos por sentimentos de preferência e rejeição, assim, nem sempre a escolha é decorrente de preparo, em certas ocasiões ela é motivada por pura aversão. Com o tempo, entenderás que as pessoas mais iluminadas são em maior intensidade recusadas por incomodarem mais. Tenhas humildade para lembrar-te disso, será útil.
Duvide de ti mesmo. Isto mesmo, duvide! Não te consideres maior, nem melhor e, mesmo que suspeites que sabes, que és, que podes e que tens, duvide. A dúvida é melhor do que a certeza pois faz revisar, pensar, ponderar e protelar por mais tempo decisões importantes, dando maior relevância à prudência. Quanto mais duvidares, mais refletirás sobre tudo que fizeres e, por isso, se aproximarás da ponderação. Assim alcançarás mais sabedoria. Quem não pode duvidar de si mesmo, da humanidade das pessoas, das intenções e atos, não pode ter certeza de nada, pois a duvida é o caminho mais longo e mais seguro para a certeza.
Evites todos os extremos. A muita alegria e a muita tristeza, a muita paz e a muita aflição, o muito bem estar e a muita necessidade, a muita segurança e a muita instabilidade. Todos os extremos são pobres pois a maior riqueza dos sentidos está na capacidade de manter-se equilibrado. Equilibra-te! Sondes teu íntimo para descobrir teus desequilíbrios e apressa-te a compensá-los. É mais difícil viver um minuto de equilíbrio do que uma vida inteira de extremos… a maior arte da vida está em saber dosar com bom senso, sabores, sentimentos e desejos. Tudo o que é demais faz mal, até a bondade, pois a benevolência crua, sem o tempero da justiça, da verdade e do direito, é irrelevante, não adoça nem salga, não faz diferença nem muda, só apóia, só consente, sem crítica, sem análise, sem razão.
Pense sempre sobre o tema da transitoriedade. Aprofunde-se nisto e perceba quão pouco é o que tens e o que és. Observe a grandeza de tudo que te envolve, da natureza, da sociedade, dos poderes estabelecidos, das culturas, hábitos, costumes, e localiza-te nisso tudo. Entenda que és pequeno, que todos são pequenos, que tudo é pequeno e passageiro, só o todo é grande. Aproveita-te disso para julgar, opinar e decidir. Limite-se a ser somente o que és e a fazer bem o que tens a fazer, não excedas. Sejas responsável, mas desvia-te do preciosismo. Por mais que desejes, tu só serás precioso às poucas pessoas que te conhecem. Além de teus muros, pouco se saberá de ti.
Ascendas, mas não percas o que és. Aproveita-te do direito de deliberar, de avaliar e opinar para fazer crescer tua alma, tua hombridade e honra, para que, cumprido teu mandato, ao retornares do reconhecimento e do poder, ainda encontres amigos verdadeiros a te esperar no espaço comum da vida, onde tudo o que te faz feliz está.
Nilson.

Published in: on março 25, 2013 at 5:52 pm  Deixe um comentário  

O tempo e o amor – 25 anos depois

Se, como num sonho, viesse o tempo me inquirir, lembrando-me todos os nossos dias, e se me fizesse reviver os primeiros instantes em que nos olhamos, os meus primeiros suspiros e o interesse tão profundo que você sempre me despertou…

E, mais que isto, se insistisse em relembrar todo o esforço que tivemos para concretizar nossa união, a espera, ansiedades e sonhos… e trouxesse de volta as tensões que tivemos durante a vida, e as dificuldades, medos e renúncias… e se, como num toque de impiedade, me levasse de volta aos dias tristes em que nos frustramos diante de pessoas e projetos… e revivesse os sorrisos tão intensos de nossas alegrias e dos choros tão angustiantes de nossas decepções…

E se me fizesse notar o quando nos dedicamos um ao outro e o quanto lutamos, e o quanto perdemos e o quanto conquistamos… e me levasse a ver todas as limitações que agora temos, fruto de nossa maturidade e, por ela mesmo, como nos tornamos mais sábios…

E se ao me recordar tudo isto, perguntasse sobre o que senti e o que vivi… lhe diria, sem titubear, que fui feliz, que me realizei, que estou feliz e que, se outra vez ele me deixasse escolher, ainda assim, te escolheria de novo, no mesmo tempo, do mesmo jeito e com o mesmo amor com que te amei todos estes anos e hei de te amar pelo resto dos meus dias…

Nilson

Published in: on novembro 28, 2012 at 10:20 am  Comments (3)  

i n s ô n i a

Apague as luzes mais uma vez…procure não lembrar…
Encontre uma posição confortável para recostar sua cabeça…
Não, não ceda a tentação de ligar a internet ou o abajur…
Procure não incomodar quem dorme ao teu lado…
Respire fundo e preste atenção no vento…no grilo…no cachorro que insiste em latir…
Deixe teus pensamentos repousarem, não os atormentes!
Fecha teus olhos, tua indignação, tua dor, tua mágoa…fecha!
Deixa teu corpo morrer e tua alma, simplesmente, descansar em paz…
E, principalmente, nunca deixe papel e lápis ao teu alcance.

Márcia Regina

Published in: on novembro 9, 2012 at 11:21 am  Comments (2)  

Viver e morrer

Há muitos anos li o depoimento de um docente recém diagnosticado de uma grave doença. Dizia ter vivido durante anos numa rotina quase insuportável, trabalhando sem férias em jornadas integrais e que isto havia desgastado gravemente seu organismo a ponto de tirar-lhe a saúde. Mas, além de se mostrar preocupado com seu estado e restrições, ressaltava seu momento de transformação interior. Em suas linhas dizia de novos costumes, como passear de manhã pelo parque da universidade e descobrir a beleza e a suavidade do local. Dizia que nunca havia percebido a quantidade de pássaros, pequenos animais, a beleza das árvores e plantas, além das pessoas que por ali passavam. Aquele professor, muito mais do que temer sua finitude, asseverada pela seriedade da saúde, transparecia o prazer da descoberta de um novo mundo, mágico, agradável e intenso, que conviveu com ele por tanto tempo, mas sem ser notado. Seu testemunho alertava para a descoberta de uma vida essencial, ligada às reais razões da existência, onde mora a emoção e a alegria de viver e respirar, de sentir-se gente, integrado a tudo que compõe a felicidade.

É certo que aquele depoimento serviu de alerta para todos que o leram, em especial a quem já se via ultrapassando os limites do equilíbrio entre ganhar a vida e, de fato, viver. Ainda hoje, este relato nos faz pensar sobre a essencialidade, ou seja, as coisas e hábitos que levam, de fato, às ultimas razões do existir. Por outro lado, nos faz conjecturar sobre o porquê das pessoas se afligem tanto, no acúmulo descontrolado de tarefas, compromissos e responsabilidades, sem respeito aos limites do corpo, da emoção, numa correria desenfreada em direção a morte.

É claro que a modernidade trouxe um ritmo intenso de trabalho e, diferentemente de tempos passados, precisamos apresentar resultados, cumprir metas e inovar a cada momento. É evidente também, que a máxima do “Deus ajuda quem cedo madruga” se tornou um lema para nossa geração, que tem se destacado por conquistas em todas as áreas. No entanto, não podemos nos esquecer de viver e, para isso, nem sempre é preciso andar todas as manhãs pelos parques da cidade, basta deixar que a vida venha conosco para os desafios do dia a dia, mesmo quando eles forem sofríveis e nos exigirem saber dosar a dor em cada sofrimento, o desespero em cada aflição, a preocupação em cada problema. Cristo quis dizer isto ao advertir que “Porque a vida é mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes”[1].

Ao contrário do que possa parecer, Jesus não está incentivando a falta de comprometimento ou o descaso, mas alertando para que a roda viva da vida não nos leve à loucura e à morte. Ele quer nos ensinar que nada é mais importante do que a própria vida, do que a felicidade e o prazer de encontrar pessoas queridas e amá-las. Não há receitas, cada pessoa sabe bem qual o seu limite, onde mora sua felicidade e sua tristeza.

Quem sabe a vida não seja mais leve e mais fácil do que a tornamos. Como diz a poeta, de vez em quando, “basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove”[2].

 Rev. Nilson

 [1] Lucas 12.23.   [2] “Não sei” – Cora Coralina

Published in: on outubro 8, 2012 at 12:16 pm  Deixe um comentário  

Os três ângulos

Quem ainda não passou dos quarenta, não sabe o que é isto. Depois dessa idade, é normal adquirir novos motivos de preocupação com a saúde. O aparelho digestivo, o cuidado com a pressão arterial, o nível de glicose no sangue, postura, audição, dentes e visão, são detalhes que devem ser mais observados. Viver bastante tem seu preço e o melhor investimento nesta fase está no cuidado e atenção com a própria saúde. Foi na busca desse cuidado que recebi uma receita de óculos diferente das que tinha anteriormente, com lentes multifocais, e descobri que vários colegas já viviam este desafio há tempo.

As lentes multifocais, pra quem não sabe, têm três níveis de grau, o que desafia muito o uso dos óculos. O superior, ou seja, a parte de cima, serve para a visão de longas distâncias, o do meio, para alcance intermediário e o de baixo, para perto. O difícil é concatenar a lonjura do que se quer ver com a angulação da cabeça, que deve, obrigatoriamente, se mover para adequar o foco dos objetos. Quando não se tem costume, acontece de tentar ver o que está perto com a lente de longe e o que está longe com a lente de perto. Algumas pessoas não se adéquam e acabam fazendo dois óculos, um pra perto, outro pra longe.

O fato curioso disso é que, ao contrário da maioria das lições da vida, esse desafio só vem com a maturidade, como uma prerrogativa do tempo de reaprender a ver e a olhar as coisas. Neste sentido, os ângulos ganham mais significados, afinal, para se enxergar perfeitamente com eles, é preciso aprender a respeitar as limitações da visão, elaborando um jeito novo, onde cada situação deve ser analisada a partir de um ângulo específico, próprio para aquele evento.

Como nos olhos, a interpretação de certas cenas da vida pode ser melhor se pudermos perceber que alguns acontecimentos necessitam de um olhar especial, acertados todos os ajustes, acréscimos e decréscimos de cada particularidade, caso contrário, corre-se o risco de interpretações distorcidas, por falta de acerto da lente, ou da distancia ideal, ou mesmo da falta de disposição para se encontrar o grau exato àquela determinada análise.

Infelizmente, existe quem nem mexa a cabeça para perceber com mais atenção os detalhes da vida, tentando adequar as cenas ao ângulo de seu olhar, não percebendo que algumas distorções ocorrem por inabilidade do observador e não pela realidade da imagem. Tentar se adaptar às múltiplas formas de ver um mesmo caso pode representar boa vontade, carinho, sentimento de fraternidade, ou mesmo, compaixão. Muitas confusões estão escondidas na lente dos óculos de quem vê distante o que deveria ser observado de perto, considerando o contexto da situação de quem está sendo observado.

Há uma história do folclore judaico que retrata um episódio de Jesus muito propício para ilustrar esta reflexão. Conta-se que “no mercado (bazar) de Jerusalém os moradores aglomeravam-se em torno de um cão morto (era proibido haver cadáveres na cidade), comentando o mau-cheiro, o mau-aspecto; passou Jesus e disse, que belos dentes ele tem! Reluzentes como pérolas! E alguém disse, ‘somente Jesus acharia beleza num cão morto’” . A isto, poderíamos acrescentar outras histórias bíblicas, como a de quando as pessoas trouxeram uma mulher pega em adultério e Ele os fez olhar para si mesmos antes de condená-la; também a de quando foi almoçar com um cobrador de impostos que era repudiado pelo povo, dando-lhe atenção e transformando-lhe a vida. Estes fatos podem demonstrar com qual ângulo Jesus olhava para as pessoas e suas histórias, e nos ajudar a entender que a maneira de se ver pode mudar a interpretação de cenas e, com isto, melhorar relacionamentos, ações, impressões e, até mesmo, a própria vida.

Rev. Nilson

Published in: on setembro 6, 2012 at 11:23 am  Deixe um comentário  

A Espiral do Silêncio

Na década de 60 a pesquisadora alemã Elisabeth Nolle-Neumann desenvolveu a tese da Espiral do Silêncio ao analisar os efeitos da comunicação de massa durante as campanhas eleitorais de seu país, entre 1965 e 1972, e perceber que alguns eleitores mudavam subitamente de opinião para se aproximar de opiniões que julgavam dominantes. Sua tese central teve como hipótese o fato das pessoas serem isoladas de seus grupos caso expressassem publicamente opiniões diferentes das consideradas como ideias dominantes, revelando que o medo da rejeição influencia mais a opinião pública do que o pensamento real das pessoas.

Esta teoria desenvolvida há mais de quarenta anos ainda pode sistematizar muitos dilemas da atualidade, especialmente as estruturas que envolvem hierarquia, comandantes e comandados. Neste aspecto, pode-se observar que dificilmente ações ou observações de contestação são valorizadas e, quando existem, pouco a pouco, são suprimidas e ignoradas. Por mais que se pregue sobre a necessidade da crítica construtiva, esta, por mais construtiva que possa parecer, figura, na maioria das situações, como desaprovação ou rejeição. Poucos ouvem com serenidade as observações que contrapõe suas ideias e interesses.

Reconhecer a ação da Espiral do Silêncio nos diversos processos da sociedade é algo curioso, porém, fato lamentável, é admitir que ela exista no interior das comunidades religiosas. Infelizmente, no ambiente da fé, a espiral extrapola o espaço das ideias e vontades humanas, adentrando o campo dos significados simbólicos ao receber o caráter espiritual. Nesse conceito, ousar criticar ou resistir a decisões, orientações e posturas, ganha o significado de contraposição não a Igreja como instituição, mas a própria vontade de Deus, por mais que isto possa ser discutível. Esta é a evidência de uma Espiral que faz a religião moderna agir e marcar suas ambições sem resistência, por sua capacidade de incutir medo na emoção de seus críticos ou de quem se opuser ao entendimento comum da “maioria”.

Para a Igreja Protestante, com maior intensidade, esta questão é bem provocante, especialmente pela herança histórica recebida de contestadores como Martinho Lutero. Talvez, com a influência do evangelicalismo americano e do fundamentalismo, tenhamos perdido a dimensão espiritual do protesto e da indignação frente aos equívocos, o que nos levaria a algumas perguntas: Onde está Lutero para contestar as novas indulgências e as novas formas de explorar o povo? Onde está Lutero para lembrar o Sacerdócio Universal de todos os crentes que dá a todos o dever de orientar o rebanho e rebater o personalismo do sacerdócio contemporâneo? Onde está Lutero para reavivar a centralidade bíblica diante de tantas heresias que são constantemente transformadas em credo e doutrina? Lutero ainda está vivo na práxis do protestantismo moderno?

Precisamos, urgentemente, ressuscitar o espírito protestante do ilustre reformador para que a religião não prossiga acomodada no conforto e na proteção da omissão, do conformismo e da complacência. Precisamos quebrar as espirais que nos tornam mornos, passivos, frios e silenciosos e salientar que uma nova Reforma carece não somente da reação dos evangélicos, mas da voz de todos que não concordam com as incoerências atuais que transcendem o aprisco de uma ou de outra denominação, para não corrermos o risco de ouvir do próprio Deus a advertência feita à Igreja de Laodicéia: “porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Ap. 3.16).

Rev. Nilson

Published in: on agosto 31, 2012 at 1:52 pm  Comments (2)