O meu relógio de pêndulo.

Eu e minha esposa fomos visitar uma irmã da igreja que ainda não conhecíamos. Éramos recém-chegados à cidade e ela viajava muito. Tínhamos ouvido que seu esposo respeitava muito a comunidade, apesar de não fazer parte dela.

Fomos acolhidos com muita alegria, o marido não estava, mas logo chegou. Fui impactado com a simpatia daquele homem… nos tratou com a mais alta estima… conversamos sobre várias coisas, falamos da vida, soubemos de sua história, quando, entre outras coisas, disse a ele do quanto gostava de objetos antigos, e de nosso singelo museu cultivado numa pequena mesa em nossa sala de jantar.

O homem me olhou de maneira diferente. Para meu espanto, se levantou e pediu que o seguisse… foi entrando pela casa e chegou num pequeno quarto, me parecia que de visitas. Trouxe uma pequena escada e disse: “O senhor que é mais novo, sobe aqui”, eu prontamente atendi… “dê uma olhada aí em cima do guarda-roupas, tem uma caixa de papelão aí”? Pediu para que eu a tirasse de lá.

Naquela caixa existia um relógio antigo… de pêndulo, desses “à corda”, que badalam nas horas e nas meias-horas. Ele me olhou e disse: “é do senhor”! Fiquei muito grato.

O “seu Luiz”, marido da “dona Dirce”, me preveniu: “Pastor, o senhor vai ter que levar num relojoeiro, o relógio não está funcionando. “Não tem problema” respondi, muito feliz com o presente.

Encontrei um relojoeiro que aceitou revisar a relíquia. Depois de poucos dias me ligou dizendo que se tratava de um relógio com maquinário alemão, e era uma peça rara… só teria um problema, o eixo principal não seria tão preciso… desconsiderei o defeito, autorizei o concerto e até hoje temos o nosso relógio de pêndulo enfeitando nossa casa… é um dos objetos que mais gosto em casa, apesar de marcar nossas horas de forma um tanto quanto indiscreta, especialmente para quem deseja dormir perto dele.

Nosso relógio, é querido e admirado e trabalha com rigor germânico. Contudo, aquele pequeno defeito o acompanha… ele sempre bate as horas dois ou três minutos depois… nunca na hora certa… na verdade, o ponteiro tem uma “folga” que faz a diferença acontecer, mas não tem problema, já sabemos dessa característica dele e não levamos em conta.

Outro dia, olhei pra ele e fiquei pensando que tenho muitos/as amigos/as como ele, que batem com alguns minutos de diferença comigo. São pessoas queridas, por quem nutro muito carinho, mas que tenho consciência clara de que, em algumas coisas, temos minutos de diferença… seja em questões de religião, política, ou até, futebolísticas!

Imagino que não deixarei de gostar delas… são como o meu relógio… preciosas na minha admiração, mesmo que tenham o ponteiro um pouco avançado, ou atrasado em relação aos meus “horários”.

Creio até que essas diferenças poderiam ser problemáticas… mas não quero que sejam! Aprendi a lidar com elas… sei que em algumas horas importantes, preciso fazer contas, descontando ou acrescendo “minutos”, para que viabilizemos encontros, momentos de amizade e alegria.

A meu ver, muita gente sofre por conta de uma rigidez sem sentido, fazendo minutos de diferença ocasionar grandes desencontros… causando atrasos espantosos nos processos de humanidade, de paz, e até de cristianismo.

Fico com o meu amigo “relógio de pêndulo”… que traz, minuto a minuto a lembrança do quanto devo me esforçar na viabilização dessas horas de harmonia. Fico com a esperança de ver pessoas se encontrando e se reencontrando consigo mesmas e com as novas amizades que só o tempo certo, acertado todos os compassos da indiferença, pode dar.

Que o Senhor do Tempo nos ensine… e que tenhamos paz.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

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Published in: on maio 10, 2008 at 1:10 pm  Comments (2)  

Não fazemos qualquer negócio

É mera repetição dizer que vivemos sobre a influência do mercado. Num dia desses assisti pela televisão uma reportagem sobre pais que remuneram os filhos para os pequenos serviços da casa – arrumar a cama, preparar a refeição, limpar o quarto e coisas afins. Segundo eles, esta prática desperta as crianças para a vida, à dinâmica do receber proporcionalmente pelo que se faz, do ganho e da perda.

O mercado permeia a vida. Dentro e fora de casa, vivemos como vítimas de suas tensões. De certa maneira, estamos cotados, diariamente, como que numa bolsa de valores, que pesa, remunera e cobra tudo o que fazemos.

Entre créditos e débitos, existem poderes que nos regem… se temos, exigimos, se devemos, lamentamos. “Quem tem mais, chora menos”… esta é a lei.

Isto nos confunde como um todo, inclusive nossa devoção.

A religião em tempos pós-modernos, serve como moeda de domínio e, pasmem, inclusive de Deus. Quem tem muita fé, obrigatoriamente, precisa ter resultados, porque a “fé de mercado” é regulamentada por certas normas, por exemplo: que quem “paga o preço”, exige. Se a pessoa paga a Deus seus débitos – orando, jejuando e participando de reuniões – ela tem o “direito” de alguns favores, afinal, o mercado se caracteriza por troca.

A nova lógica é que o/a ‘crente’ acumula saldos diante do Altíssimo e, no devido tempo, cobra.

O que coloca em cheque esse mercado da fé, são as provações. Diante delas, geralmente as pessoas encontram duas saídas: considerá-las como pecado – débito – ou como ameaça da concorrência – o diabo.

Os imprevistos, na lógica do mercado, devem ser previstos. Mas na vida, e de forma mais evidente, na fé, existem causas imprevistas e inexplicáveis, não processáveis pela cartilha da “fé de troca”, de direitos adquiridos.

Quando fatos naturais a qualquer pessoa – afinal, segundo o próprio Cristo, Deus “… faz o sol nascer sobre maus e bons” (Mt 5.45) – surpreende os alicerces dessa fé que só vive por decretos e exigências, a “bolsa quebra” e os argumentos faltam.

Talvez nesta hora seja necessário evocar o drama de Paulo, que admitiu ter um espinho incurável, a amargura de Jó, que viu sua vida ruir, ou mesmo a dor de Estevão, diante da morte. Existem momentos em que a fé foge à razão do mercado e, ao contrario dele, conclui-se que não fazemos qualquer negócio.

Aliás, me parece que ter a noção de que não se faz qualquer negócio é a grande tônica do evangelho de Cristo. Quando mais consciência disso se tem, mais força e valor – que contradição com o “evangelho” que se escreve nos tempos atuais!
A lei que contraria o mercado e nos lembra de nossa fragilidade é, no meu modo de ver, a possibilidade da dependência, da humildade, da disposição de andar segundas, terceiras milhas. Parece-me que é assim que nos livramos da arrogância do mais forte, do determinismo do intolerante, do devaneio do autoritário.

Quando leio sobre o Cristo da cruz e me lembro do mercado, fico em crise. Porque um me leva para o auto-sacrifício, o outro para a queda de braços, um me remete ao oferecimento, o outro para o ganho próprio… um para os outros, o outro, para mim mesmo.

Lamento que o mercado venha abarcando nossa vida de maneira tão poderosa e que não existam muitas esperanças de evitá-lo.

Espero que a fé volte logo para a cruz e que voltemos a ser uma contracultura, tal como eram nossos pais… que voltemos a ter, novamente, nossas próprias referências… sem medo de ser sal – que mesmo em pouca quantidade, faz-se notar – e luz, que esclarece, que ilumina sem alardes.

Que tenhamos pudor para não fazer qualquer negócio em nome de nossa fé.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on abril 29, 2008 at 11:18 pm  Comments (1)  

Jerusalém, Jerusalém.

Estamos na última semana da Quaresma, a última semana de Jesus.

Este é um tempo onde os extremos de Cristo e da sociedade em que viveu são escancarados.

Tudo começa na sua chegada a Jerusalém… o povo coloca ramos pelo caminho, honras para uma grande personalidade. Ovacionam, gritam: “hosana”.

Os dias se sucedem, os evangelhos contam de um Jesus irritado com pessoas que tiravam proveito financeiro da religião… descreve curas, milagres, parábolas, lamentos, relata uma visita a amigos queridos numa cidade próxima, Betânia.

A semana termina… Jesus sai de Jerusalém, preso, chicoteado, escorraçado, carregando uma cruz para nela ser crucificado e morto… sai primeiramente para a cruz, para a morte, depois para o sepulcro, depois para a Glória de Deus.

Qual seria o problema de Jerusalém… ou – que ironia – o problema de Jesus, para uma mudança dessas em tão pouco tempo? O mesmo povo, a mesma cidade, o mesmo Cristo e atitudes tão destoantes!

Em várias situações somos como Jerusalém… saudamos o Cristo de forma tão evidente em determinado momento mas, quase sem explicação, passamos da vida para a morte, da ovação para a rejeição de maneira inesperada, a despeito do Cristo que se oferece em sacrifício, do amor demonstrado, do Deus entristecido.

Espero que tenhamos um momento de reflexão profunda para pensarmos no tratamento que damos ao Cristo que vem a Jerusalém, que vem a nós.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on março 21, 2008 at 2:03 pm  Comments (1)  

No subsolo social.

Sabe aquele botão que a maioria dos elevadores tem com um “SS” que leva a gente para o subsolo? Pode ser loucura minha, mas sinto que certas pessoas selecionam voluntariamente esta opção no elevador da sociedade.

Não estou falando dos/as desfavorecidos/as, necessitados/as, marginalizados/as… estes/as, quase sempre nem tem escolha… não têm o privilégio de adentrar num elevador desses… pelo contrário, me preocupo com quem se exclui por excessiva exigência, excessiva crítica, rigor.

Existe quem seja tão austero em seu senso crítico que acaba por ficar sem ter o que recomendar, o que gostar, admirar. Assevera com tanta rigidez seus padrões mais íntimos que passa a excluir quem não se enquadre ao seu “esquema”.

O que acontece? O sujeito vai se afastando do que seja “ruim”… encontrando ruindades e defeitos por onde quer que vá, em pessoas, em organizações… nada lhe cabendo, nada lhe despertando entusiasmo.

Conheço pessoas que estão tecendo casulos! Gastando seu tempo e energia para detectar problemas, ou melhor, justificativas que fundamentem seu distanciamento, seu desligamento social… sem perceber o quanto é difícil encontrar alguém ou alguma coisa que lhes complete o grau de reivindicação que construíram ao longo da vida.

Com a distância vem o “encasulamento”, o ostracismo e o enclausuramento… desencadeando um processo crônico de frustração e tristeza, onde não há quem sirva.

Diante disso tudo, procuro olhar com os olhos de Cristo… aquele homem palestino, de profissão modesta, de aparência simples, amigo de pescadores rudes, com aparência de glutão e beberrão… visto no meio de gente pobre… e considerado por alguns até mesmo um descumpridor da lei.

Com que medida julgava Jesus? Qual seu grau de exigência? É certo, Ele foi crítico, incisivo, duro com os santarrões da época, contudo, não os desprezou… a meu ver, Jesus não considerava a imperfeição, a “falta de alcance”, como um pecado tão sério, a ponto de deixar de lado, discriminar, marginalizar quem quer que fosse.

Pelo contrário, Jesus amava as pessoas equivocadas de sua época… existia sempre uma segunda chance, uma segunda milha, uma segunda face para garantir que os/as “errados/as”, os/as equivocados/as, tivessem o direito de serem acolhidos/as no novo reino que Ele propunha.

Jesus foi o crítico mais doce desse mundo! Talvez porque atrás de sua crítica, houvesse sempre sentimentos como paz, perdão, reconciliação e boa vontade.

Ninguém foi mais duro e ousado… o azorrague é um exemplo clássico! No entanto, ninguém foi mais gentil… o ladrão – símbolo de rompimento total com o Reino de Deus – ouviu d’Ele, “… hoje mesmo estarás comigo no paraíso…”.

A crítica Divina, demonstrada em Cristo, é absurdamente transformadora! Ele não somente continua ao lado das pessoas que criticava – os exemplos de Pedro, Judas mostra isso claramente – mas tem a coragem de dar tudo para melhorá-las – a própria vida.

Jesus não se excluiu, não optou pelo “SS” do elevador, não se enfiou dentro de um casulo de observações… pelo contrário, se meteu no meio de um povo complicado… sentou com eles, teve longanimidade, participou de suas festas – chegou até a providenciar vinho para que uma delas não acabasse antes da hora – mas também esteve com eles em seus momentos de dores… andou e chorou com eles!

Não houve distanciamento na critica de Cristo… ele sempre se retirava – para orar – e voltava ainda mais comprometido… ele não se escondeu, não se esquivou… criticou e conviveu.

Fico com a tristeza de não ver em nosso tempo uma crítica eminentemente cristã… em loco, presente. Temos que parafrasear aquela propaganda tão conhecida: “não adianta ser crítico, tem que participar”! Não adianta saber onde está o erro, tem que ajudar a resolver! Não adianta falar, tem que estar presente e fazer alguma coisa!

Que Deus nos ajude com sua Graça e nos dê, sempre, a paz!

Rev. Nilson

Published in: on março 15, 2008 at 5:30 pm  Comments (1)  

Menino passarinho.

O homem sempre teve vontade de voar! Isto me faz lembrar de Luis Vieira (1962) cantando “… sou menino passarinho, com vontade de voar…”!

Talvez seja esta a causa de invenções tão fabulosas como o avião, o balão, a asa-delta e todos os objetos voadores identificados.

Mas o desejo de voar abalou o imaginário humano de uma forma mais profunda… mais do que sonhar e concretizar os vôos, nós mortais não alados, tratamos de resignificar esta possibilidade. Voar passou a ser tarefa de conquistar alvos distantes… assim, isto pode representar a conquista de um reconhecimento especifico na intelectualidade, ou num grupo de pessoas, ou ainda, um status social qualquer.

Voar pode não significar alçar um vôo físico… pode ser conseguir um emprego, um/a namorada/o, uma projeção financeira, moral, ou coisa parecida.

Vivemos sonhando com um jeito de chegar as alturas… de alguma forma, cada um de nós, tem um auge que almeja… uma nuvem… um ideal.

O que ainda não nos demos conta, foi que voar, especialmente para quem não tem o hábito, é algo bastante perigoso.

Voar tem a ver com um “lançar-se no vazio”… confiar no invisível e no desconhecido… crer que a força da gravidade associada à anatomia das asas, garantirá a possibilidade do maravilhoso milagre de deslizar no vento… de viajar sobre as correntes do ar.

Além disso, voar também é desafiar o impossível… todos nós sabemos que tudo que sobe cai… com exceção de quem sabe voar… de quem aprendeu a planar e é habilidoso/a na arte da aerodinâmica… voar é crer que o inacreditável vai acontecer… é ter fé no que não se vê, no ar, em Deus…

Quem quer voar tem que estar preparado para os acidentes… algo pode sair errado… a inabilidade pode surpreender… os imprevistos podem aparecer.

De maneira comum, é bom voar baixo quando não se sabe voar bem… vôos altos são para quem domina as técnicas do tempo, do ar, das nuvens.

A altitude desperta um fascínio avassalador… não há quem não vislumbre as nuvens… mas a altura que excita é a mesma que mata… existe êxtase e morte no ar… é preciso respeitar os céus!

Se o desejo de voar é incontrolável… se os conselhos, as indicações e a prudência não acompanharem quem assim deseja, isto é perigoso.

Por outro lado, se não existir desejo de voar, não existe sonho, não existe céu, horizonte, encanto, gosto, paixão!

É preciso respeitar o ar, respeitar o céu. É preciso voar… mas nunca esquecer de que nos vôos curtos, breves, se simula o perigo das grandes alturas… e se pode prevenir, aprender, perceber as nuances do ar, da terra, do céu… entender que o desafio de voar se desenvolve aos poucos… não se atinge o céu de uma hora pra outra.

Para os sonhadores de plantão, como eu, fica o desafio dos ares… respeitar os céus… estar ciente de que quanto mais alto sonharmos, mais risco teremos… e que é preciso ter serenidade para aprender a querer… para não buscar, querer – voar – mais do que as nossas forças, anatomia, autonomia… para não nos esquecermos que, na maioria das vezes, somos apenas “… meninos, passarinhos, com vontade de voar”.

Que Deus, dos altos céus, nos ilumine com sua graça e paz,

Rev. Nilson.

Published in: on março 9, 2008 at 9:46 pm  Comments (1)  

Olha aí… é o meu guri!

Nas férias de janeiro tivemos um privilégio raro, reunir boa parte da família. Estavam lá, na casa da sogra, quatro famílias – a dela e de mais três filhos/a.

Todo mundo já sabe… muita alegria, muita comilança. Coisa de família.

Um desses momentos foi cômico. Estava de longe, numa sala ao lado, mas não pude deixar de ouvir a conversa dos/as cunhados/as falando sobre seus filhos/as. Um se envaidecia daqui, outro retrucava mais vaidade dali… nada mais que pais/mães orgulhosos de seus rebentos. Quanto sonho… quanto enleio e esperança sobre o futuro, a vida e a realização… coisa de família!

Foi inevitável a comparação… num repente me vi cantando “O meu guri”, de Chico Buarque (1981)… não por algum tipo de ligação ao equívoco que a personagem da música vive em relação ao filho, mas a este incontrolável sentimento de orgulho e vaidade que pais e mães sentem, quase que num rompimento com a crítica e a realidade… a pouco de perceber que o que é seu, quase sempre, não se difere muito ao que é do outro… praticamente sem notar um certo grau de normalidade que envolve o todo, o todos… sem aceitar que somos bem parecidos/as, humanos, participantes de um jogo de virtudes e defeitos que nos equilibra e nos iguala.

A cena me fez pensar mais longe… em outros ambientes, que, da mesma forma, se caracterizam pela diferença de tratamento com o que é meu e o que é teu, em reuniões, lugares, contextos que, de alguma forma criam “pais” e “mães” emocionados/as falando de suas “crianças”, agora representadas por crenças, posições ou pensamentos… levando-me novamente ao encontro com o dilema que nós mortais temos em tratar com o “meu” e o “teu” guri.

O problema é que em situações assim, um, não tem paciência para ouvir sobre o “filho” do outro, o gosto, a opinião, o pensamento, a preferência do outro. Um canta aqui e o outro ali… sem sintonia, sem concordância ou harmonia.

Aliás, até, vemos gente cantando alto, grosso, para impressionar… como se a qualidade da “criança” se alterasse pela altivez do pai, da mãe… são “crianças”, idéias, encaminhamentos, criados no grito, na garganta, no argumento… rebentos gerados sem explicação cabível… sem crítica.

Fico assustado com a disputa desses pais e mães pós-modernos… que “compram a briga” do que é seu e ignoram o que é alheio… somente porque é seu, somente porque é alheio.

No caso da música, o “guri” era um menor delinqüente… um assaltante, talvez… mas o/a pai/mãe não sabia… ou não queria saber… driblava a realidade, e, como no futebol, defendia a camisa, mesmo vendo que o seu time era o pior do campeonato.

Imagino que exista muita gente enganada com seus filhos/as… e, o mais triste, consigo mesma. Cega diante do que é seu – posturas, pensamentos, posições, filosofias – defendendo com unhas e dentes valores de que não se tem certeza, crenças que não são bem claras, direções sombrias.

Tem gente morrendo por motivos baratos… brigando, se desentendendo por banalidade… fazendo questão do que não conhece a fundo, cantando a vanglória de filhos/as delinqüentes… porque não quer parar, criticar e criticar-se, ouvir, esperar, humilhar-se, aceitar.

Que Deus – o pai sincero e crítico – nos ajude com lucidez e bom senso… diante de nós mesmos/as, diante do que criamos, diante de quem está conosco.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on fevereiro 29, 2008 at 11:45 am  Comments (4)  

Filho de pais separados.

Sou filho de pais separados. Lembro-me de como foi amarga a experiência de ver minha família sendo fracionada… isto aos doze anos de idade ganha uma proporção ainda mais desastrosa. Recordo como foi difícil para meu pai achar uma explicação para o que estava acontecendo… fiquei dias impactado com a noticia.

Depois da separação em si, os problemas foram ainda mais complexos. Se eu já não tinha meu pai presente o tempo todo – era representante comercial e viajava muito – com a oficialização do divórcio, aconteceu um distanciamento ainda maior. Ele praticamente não me visitava e, se eu quisesse vê-lo, tinha que viajar até sua nova residência.

Com o passar dos anos o relacionamento com meus pais passou por um processo triste. Para evitar que os rancores viessem à tona, o melhor a fazer era não falar de um pro outro. Se estava com meu pai, evitava assuntos que lembrassem minha mãe, mesmo porque ele imediatamente, contraiu novo casamento, e o ambiente não seria propício. Se estivesse com minha mãe, agia da mesma forma.

Após muito tempo passado a animosidade diminuiu, mas as lembranças daquela época não são boas.

Numa situação assim, quem fica à berlinda é o/a filho/a… por amar além do fato, das razões, dos equívocos. Para um/a filho/a, o que acontece nas desavenças de pai e mãe, são menores do que o amor, o carinho e o respeito que se tem.

Normalmente o que acontece é que os dois lados quer que o/a filho/a entenda sua forma de ver e interpretar e lhe dê razão. Não é uma situação cômoda ficar no meio, além da desarmonia.

Um coração de filho/a, tem outras preocupações. Pai e mãe, são referencias de amor e consideração. As lembranças do cuidado e da dedicação são infinitamente maiores do que os desafetos… superam por amor.

Imagino que o coração de um cônjuge numa situação dessas esteja tão magoado que não consiga coordenar devidamente seu ritmo. A tristeza do fracasso de um sonho, especialmente na área conjugal, deve ser traumático.

Em alguns momentos, de outra maneira, revivo essa situação toda que passei há quase trinta anos diante de pessoas que gosto, mas que não têm harmonia entre si. Especialmente nas dimensões da Igreja, sinto-me, novamente, como ‘filho de pais separados’… entre pensamentos, posturas, interpretações.

Seja entre carismáticos e tradicionais, progressistas e pentecostais, ecumênicos e não ecumênicos, sinto-me tolhido de pensar, agir, gostar e me aproximar de um ou de outro.

Vivemos um momento que se você não tem um estereotipo que o identifique numa tendência evidente, você é taxado como “pecador” por ambas as parte e rejeitado.
Sinto-me traído por quem me discipulou num evangelho onde o amor lança fora todo o medo, a amargura, o desrespeito. Sinto-me triste em conhecer um ‘outro evangelho’, onde a pessoa tem que vestires uniformes de carismatísmo ou de tradicionalismo, de progressismo ou de pentecostalismo para ser aceita e sobreviver, e pior, onde gostar de um ou de outro tem representações políticas.

Quero, em nome de Deus rejeitar essa tendência. Quero gostar de quem quiser! Quero bater palmas quando quiser, e ficar quieto também, se assim me aprouver… e quero ter liberdade de pensar, de viver e de sonhar num mundo e numa Igreja onde o amor seja maior que a ambição, o respeito continue tendo lugar de privilégio, onde o Espírito Santo tenha liberdade de converter pessoas, opiniões, e de desfazer mal entendidos, desfazer inimizades e, mais que tudo, onde haja lugar para perdão e reconciliação!

Não quero mais me sentir como me senti há trinta anos. Nunca mais quero ficar dividido, impedido de dizer que amo esse/a ou aquele/a… quero viver esse evangelho utópico que me ensina a Bíblia e me inspira João Wesley, onde seja possível sonhar com unidade em meio a diversidade, onde coisas não essenciais sejam tratadas como tal e o essencial seja alvo de tolerância, de amor e paz!

No desejo de graça e paz,

Rev. Nilson.

Published in: on fevereiro 25, 2008 at 11:09 am  Comments (1)  

Absorção de Impacto

Há duas ou três semanas fomos surpreendidos por um barulho estrondoso – nosso prédio se localiza numa avenida bem movimentada – e logo associamos a confusão a um acidente de trânsito. Dito e feito. Dois veículos colidiram fortemente em frente a nossa janela da cozinha.

Para a nossa surpresa, ninguém se machucou gravemente. Veio a polícia, os bombeiros, para-médicos, macas e, óbvio, dezenas de curiosos.

Um dos carros sofreu mais, ficou com a dianteira destruída. O interessante é que se tratava de uma desses jipes importados, com aquelas rodas grandes… que nada, retorceu tudo. Como que um papel, a lataria, aparentemente tão reforçada, moeu, dobrou.

Foi aí que lembrei… a nova tecnologia das carrocerias tem exatamente esta intenção, “sanfonar” o carro… é um processo interessantíssimo… a parte frontal e traseira são feitas para absorver… e o habitáculo, o espaço onde abriga os passageiros, preparado para resistir, preservar a vida de quem ali está. A tecnologia prepara a aerodinâmica e a estrutura para facilitar e preservar o essencial… a vida. O motor, o pára-choque, pára-lamas, tudo é predisposto para estragar com mais facilidade, diante de um impacto violento.

A lógica automobilística agora não aceita mais aqueles ferros rígidos nas extremidades do carro – lembra daqueles pára-choques feitos de trilho de trem? Todos os ocupantes morriam, mas o automóvel ficava intacto – que ironia!

Olhando para aquele carro retorcido pensei sobre a vida, o cotidiano… lembrei dos impactos que temos nas esquinas de nossas histórias… as frustrações, desilusões, decepções… e isto não é privilégio de um ou de outro, cada um de nós vive coisas difíceis… problemas sérios, que chegam com a mesma surpresa dos acidentes… sem ter como evitar, como desviar… violentando, agredindo, impactando a calmaria, a tranqüilidade… acidentes e incidentes que nos surpreendem, enfermidades, mortes… embates complexos para a alma, para a vida!

A filosofia do carro retorcido, que absorve o impacto e desconsidera sumariamente a possibilidade de resistir, a meu ver, tem muito a nos ensinar.

Em nossa tendência natural, somos programados para resistir ataques… imagino que em nossa alma instintiva isso também aconteça… diante da agressão, automaticamente, resistimos… enrijecemos músculos, retraímos o corpo… procuramos uma forma de rechaçar as ameaças… a exemplo daqueles pára-choques feitos de linha de trem. Não choramos, não falamos, às vezes até sorrimos, como se isso fosse coerente com as horas de impacto… nos mostramos fortes, imbatíveis, para passar uma impressão equivocada de resistência, de rigidez e firmeza.

O que realmente sofre com isso é a nossa emoção. Em nome da aparência, destruímos sonhos, esperanças, ternura, amor. Para não “darmos o braço a torcer” vale dilacerar nossa alma, causar feridas, rancores e mágoas profundas naquilo que temos de mais precioso para enfrentar o dia a dia, nossa emoção.

Na maioria das situações, não absorvemos os impactos. Não cedemos, não paramos, não destruímos a beleza aparente em detrimento da preservação da alegria e harmonia interior.

Recordo-me de Davi, o Rei, o homem. Capaz de ser tão destruidor nas guerras e conquistas, mas tão sofrido e quebrantado diante das dores da vida. Hábil para reinar, decretar, festejar, cantar em horas de calmaria e, com a mesma sinceridade, se trancar num quarto, chorar, lamentar, sofrer e se arrepender.

Quem sabe a vida não seja melhor diante desse equilíbrio, desse rompimento com o orgulho da força aparente. Quem sabe não sejamos melhores se aprendermos a absorver, a aprender e aceitar com mais naturalidade os momentos de provação que temos nos cruzamentos do dia a dia.

Desejo estar sempre preparado para absorver os embates… em nome de minha alma, de minhas emoções… em nome de me aceitar, sempre, humano, passível diante do sol que nasce sobre maus e bons.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on fevereiro 21, 2008 at 11:53 am  Deixe um comentário  

O que fazer com os bancos velhos.

07.01.2008

Nesses tempos de recomeços e desafios de um novo ano, lembro de um relato que ouvi há muitos anos de um colega pastor que foi transferido para uma igreja centenária.

Além de sentir um esperado tradicionalismo da comunidade, notou que os bancos do templo eram demasiadamente antigos e desconfortáveis. Não sei ao certo quando, se no primeiro ou no segundo ano de trabalho, o pastor resolveu propor uma campanha para a aquisição de novos bancos, o que causou esperança pra uns/umas e tristeza para outros/as, além de algumas crises de relacionamento.

Pelo que sei, os bancos foram substituídos, assim como o pastor, depois de um breve período.

O caso do colega me põe a pensar sobre a questão de que, certos assuntos, em determinados contextos, são extremamente importantes, mesmo que não pareçam e precisam ser tratados, especialmente para quem chega, de forma cautelosa.

Existem situações aparentemente simples… como bancos descascados, mas, absurdamente afetivas, como histórias e acontecimentos. Existem olhos práticos que miram demandas de formas práticas, sem perceber que existe sentimento de outras pessoas envolvidos naquilo.

O fato lamentável é quando o prazer da organização e da prosperidade sobrepõe, mesmo sem má intenção, a emotividade, o apego e a tradição de alguém… isto pode ser um problema sério.

Os dois lados podem ter razão, mas há que se encontrar lugar para o amor mútuo e a tolerância… existem processos que devem ser construídos com jeito, sem atropelos, com sensibilidade, porque podem ter a ver com a história e a lembrança de pessoas, e temos que respeitar coisas assim!

Bancos velhos precisam ser realmente trocados, mas porque não fazê-lo com tempo, com carinho, ouvindo e explicando, agindo e integrando, valorizando, promovendo e harmonizando?

Certamente, cada um de nós encontrará neste novo tempo bancos, cadeiras, púlpitos e cruzes para serem gerenciados, adequados… e, que tal procurarmos, antes de agir, de empolgar e lançar mãos à obra, olharmos para os lados, entendermos o contexto, a vontade e a emoção de cada pessoa envolvida?

Creio que muitos conflitos podem ser evitados se soubermos usar da boa vontade, de carinho e da compreensão com o que é alheio aos nossos sentidos e sentimentos…

Provavelmente teremos um ano diferente… com mudanças vestidas de harmonia, de alegria e satisfação.

Que o Senhor nos ajude a trabalharmos com os bancos velhos que temos pela frente e nos ajude a fazermos tudo o que precisamos pautados em sua graça e paz.

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 20, 2008 at 5:26 pm  Comments (1)  

Nem tudo que move é sagrado.

28.12.2007.

Cá com meus botões, imagino que quando Beto Guedes escreveu a poesia da canção – Amor de Índio – tinha intenção de dizer que todos os bons sentimentos, especialmente os que atingem o coração, a emoção, tem um toque de sagrado.

Concordo com ele… existem momentos que, mesmo vividos distantes de um templo, percorrem o espaço reservado à religiosidade que reside dentro de cada um/a de nós… são majestosos pela sua simplicidade e pureza.

Lembro-me com grata satisfação de pessoas que desencadearam dentro de mim sentimentos assim… lembro-me de uma senhora, descendente de alemães, que freqüentava nossa comunidade na missão do Mato Grosso… recordo com alegria que numa de nossas festas, acho até que de Natal, ela veio participar conosco, toda produzida, trazendo com satisfação uma “Cuca Alemã” – deliciosa, por sinal, recheada com uvas inteiras. Aquele gesto foi significativo para nossa pequena congregação… uma lição que nos tocou fundo pela liberalidade e boa vontade dela.

Acontecimentos especiais são recorrentes… vivemos coisas assim no decorrer da vida… mas é preciso pensar que, ao contrario do que canta Beto Guedes, nem tudo o que nos move, nos emociona e nos faz chorar, tem relação com o sagrado.

Nesses anos de vida religiosa, tenho olhado para diversas experiências… as que mais me intrigam são as que movem as pessoas, as tocam, e que as confundem, as desorientam a ponto de transformar fatos comuns, humanos, em coisas santificadas.

Vejo gente que diante de um arrepio, vislumbram Deus – e quanta fé alicerçada em lágrimas e emocionalismo!

Crer assim, fatalmente, fragiliza a razão, a lógica, a prudência. Ter uma crença suscetível aos micróbios da ilusão faz com que não se tenha noção do ridículo, não se tenha limite, medida.

Talvez, por isso mesmo, por se deixar mover por essa onda, um considerável número de pessoas tem caído nas teias do engano e, pior, da decepção e do fracasso. Assim, decepcionados/as com “Deus” – que nunca associou fé à emoção – distanciam-se d’Ele, verdadeira fonte do que seja sagrado, eterno e divino.

Nem tudo que move é sagrado! O contexto bíblico demonstra isto com total clareza no relato de Mateus (7.21) quando o próprio Cristo afirma: “ Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus (…) Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.”. Em outras palavras, podemos garantir, não bastam as manifestações, as declarações públicas, se não houver sintonia, coerência com as coisas do Poderoso… mesmo que sejam fatos emocionantes, mesmo que desencadeiem processos comoventes, tocantes… mesmo assim, podemos estar diante de coisas que movem nossa alma, mas não tem parte com Deus… são apenas produções humanas.

Quantas comunidades são dilaceradas por crer demais… em tudo que move… em cânticos que movem, em tons de voz que movem, em gestos, sinais, “prodígios”, motivações, interpretações…

Quantas pessoas amigas vemos caindo no engodo de confundir Deus com engano… de trocar a pacífica presença da verdade, pela emocionante melodia de interesses humanos!

Sinto contrariar os/as que continuam crendo que Deus, bênção, está no “tudo” que o “mercado religioso” tem oferecido, mas preciso propor, por amor e por responsabilidade que neste início de ano, possamos reorganizar dentro de nós os padrões do que seja sagrado e benéfico para nossa fé.

Entendo que assim teremos oportunidade de esperar um ano – especialmente no ambiente cristão – mais coerente, menos leviano e mais substancial.

No desejo de um Novo Ano voltado para a graça, a paz e para tudo o que, de fato, tenha a ver com O Sagrado.

Rev. Nilson.

Published in: on dezembro 29, 2007 at 10:19 pm  Comments (6)