SINTONIA

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O velho rádio do meu avô é uma lembrança viva que tenho da infância. Mesmo que muitas famílias já contassem com um televisor, para meus avós, aquele aparelho era a imagem mais pura da alta tecnologia da época. Em certos momentos do dia todos se silenciavam diante dos programas preferidos. Naquele tempo havia poucas emissoras e não se podia optar por preferências e estilos. Na maioria das vezes, as pessoas precisavam sintonizar estações de cidades distantes e se informar de coisas que pouco tinha a ver com elas. Programações de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Rio Grande do Sul faziam parte da realidade de gente simples, como no caso deles, que viviam no interior do Paraná. Mais tarde, as transmissões se aprimoraram. O amadorismo dos antigos apresentadores foi substituído por locuções elaboradas. As emissoras se multiplicaram, fazendo surgir públicos distintos e as FM’s inovaram o padrão e a audiência deste nicho.

A imagem daquele rádio acomodado na sala principal da casa de meus avós leva a pensar em outras formas de sintonia. Na verdade, cada um de nós atua como um receptor que está permanentemente à mercê das inúmeras ondas emitidas pela vida. Através delas, nossa personalidade se forma, nosso caráter se amolda, nossos sonhos se alimentam. Como no aparelho, uma infinidade de estações está disponível para atender os diversos gostos, preferências e ansiedades. Não há uniformidade, nem obrigatoriedade. O botão que muda as estações está lá para girar ao bel prazer e critério de quem lhe comandar. O que não se pode é deixar de escolher. Quem não decide sobre o seu próprio gosto corre o risco de ouvir o que não quer e ter de aceitar qualquer tom e melodia. Num mundo tão mercantil como o nosso é preciso cuidar bem da frequência que se sintoniza, afinal, bem se sabe que uma propaganda bem feita pode ter o poder de transformar desacerto em coisa certa, desonestidade em hombridade, falcatrua em lisura. Por serem belas, bem colocadas e artisticamente ajeitadas, certas palavras podem ganhar tom de bondade, mesmo que estejam repletas de engodo e ilusão. A modernidade inventou formas bonitas de fazer maldade, levando as pessoas a agradecerem por serem passadas pra trás e a terem em alta estima quem promove seu fracasso. São as muitas frequências que desconcentram as pessoas, causando confusão de discernimento e incapacidade de pensar. No tempo de meus avós havia uma ou duas frequências para sintonizar a vida, hoje em dia a infinidade de informações faz desvairar a alma mais temperante.

Parafraseando o texto sagrado[1], “as muitas letras nos fazem delirar”, ou melhor, as muitas frequências e informações fazem enlouquecer a maioria das pessoas. Seja no campo da religião ou na conduta profissional, há quem esteja conturbado diante de mensagens estranhas e difíceis de interpretar. Há quem misture ilusão com vida real, experiência espiritual com desejo pessoal, religiosidade com distúrbio emocional, opinião própria com vontade de Deus. Ao invés de separar a fé da razão, as pessoas deveriam separar o transcendente do real, a intuição da concretude prática, deixando a religião ser o que ela, de fato, deveria ser, um instrumento preciso de solidariedade, sensibilidade, bondade e amor e não um artifício de confusão e aprisionamento.

Quem dera tantas sintonias deixassem de alucinar as pessoas, ou melhor, quem dera as pessoas se sintonizassem aos verdadeiros valores da vida e pudessem entender que, assim como a fé sem obras é morta[2], espiritualidade sem realidade, sem discernimento, sem respeito e diálogo, não transforma ninguém e, ao contrário, ilude e ludibria quem vive carente e ansioso por um tempo melhor, mais humano e justo.  

Rev. Nilson

 

 

[1] Atos 26:24

[2] Tiago 2:26

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Published in: on maio 22, 2014 at 12:12 pm  Deixe um comentário  

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