Prefeitura cor de abóbora

cor de abobora

Há algum tempo soube por um telejornal, de uma cidade que estava indignada com seu prefeito por ter mandado pintar a prefeitura de cor de abóbora. Perguntado sobre qual a razão da pintura, ele argumentou que queria dar ao município novos ares e sinalizar o começo de um novo tempo. Para os moradores, o artifício não passava de uma estratégia de marketing para desfazer a imagem deixada pela última gestão, com o agravante de ridicularizar a imagem da cidade que se tornara notícia em nível nacional.

Contraditoriamente, a cena da prefeitura cor de abóbora me fez lembrar a frase atribuída a Isaac Newton como parte de uma carta endereçada a Robert Hooke, em 1676, que dizia “Se vi mais longe, foi porque estava sobre os ombros de gigantes”. Os gigantes da questão seriam pesquisadores como Copérnico, Galileu e Kepler, a quem atribuía grande valor, reconhecendo que não poderia ter feito tantas descobertas se não o tivessem antecedido com seus estudos.

Infelizmente, atitudes como a de Newton são cada vez mais raras. Dificilmente há quem reconheça algo ou alguém que faça parte do passado, mesmo que tenha lhe servido de degrau. O que mais se vê, são pessoas que tentam passar tinta forte sobre a história dos outros, como se coisas e projetos surgissem do nada, pelo mero acaso, sem esforço, empenho ou amor. Tentam maquiar sua insegurança camuflando a contribuição de outros, na ilusão de ludibriar a lembrança e a inteligência de todos.

Ao contrário do que se possa imaginar, Isaac Newton, ao se referir à grandeza de seus antepassados, não se fez pequeno, como alguém que depende de outro para ver horizontes mais longínquos, antes disso, mostrou-se grande também, pois quem tem a coragem de valorizar o trabalho dos outros sabe que só poderá ser valorizado a partir de uma perspectiva imaginária que estabeleça o que foi herdado e o que está sendo acrescentado.

Reconhecer não é somente um ato de respeito, mas também de grandeza. Apenas os grandes reconhecem, porque a capacidade de saber olhar à frente para descobrir novos caminhos é a mesma de olhar atrás para aprender com quem passou. A percepção é dom único. Quem não percebe o que se foi, pouco perceberá o que virá. O ombro dos gigantes só é disponível para quem se faz pequeno, dependente e aprendiz, portanto, só se servirá dele quem o puder admiti-lo.

É lamentável perceber a quantidade de prefeituras, escolas e igrejas pintadas em tom forte. Mais lamentável ainda é ver escondido seu passado, já que passado, via de regra, só pode ser lembrado através de datas, momentos e nomes. E somente o nome de gigantes pode ser lembrado. Sem os dados do passado, somem-se os gigantes, perde-se a história, empobrece-se a vida, desmotiva-se a fé. Usar cor berrante nem sempre é boa estratégia pra quem quer ser admirado. Quase sempre, ao invés de embelezar, ridiculariza. Gosto não se discute, por isso é recomendável usar cores neutras, que podem até não chamar a atenção, mas quase sempre evitam a vergonha.

Que o grande Deus de todos nós, nos ajude a encontrar o tom certo para a vida. Que o respeito e a consideração nos garantam sempre a grandeza. E que a história seja contada pela soma de muitas mãos que tiveram a leveza e a humildade de partilhar a mesma pena na escrita de uma só vida.

Rev. Nilson

Published in: on março 29, 2014 at 2:33 pm  Deixe um comentário