O arco e o violino

 

Scilla Franco foi bispo da Quinta Região Eclesiástica da Igreja Metodista no Brasil até 1989. Dizem que sua eleição representou uma mudança nos rumos da região por significar o desejo de uma ala minoritária da Igreja. Por este motivo, sua habilidade pastoral foi mais necessária, especialmente no início de seu mandato, devido às tensões provocadas pela sucessão. Nesse clima, relatam seus contemporâneos, que numa das primeiras reuniões com a liderança, alguns membros cobraram posturas duras e rápidas, que atendessem as transformações esperadas. Conta-se que em sua sabedoria cabocla, o bispo retrucou: “Calma: isso é como tocar violino, você tem que deslizar o arco pra lá e pra cá, se não a música não toca”, numa clara alusão ao desafio de ser bispo numa comunidade tão diversa.

A fala do saudoso bispo e a sabedoria que ela trás ao concluir que determinadas circunstâncias só se viabilizariam diante da habilidade de tocar todas as notas de uma mesma música, sem partidarismos, extremismos e posições estáticas, é inspiradora, afinal, o simbolismo do arco de um violino, que se movimenta, parece suficiente para ilustrar o desafio de gerir diante da variedade de clamores e experiências, sugestões e contribuições, tão comuns a qualquer função de liderança.

Infelizmente, o que mais se vê, são tentativas frustradas de executar o violino sem a participação do arco. Nem sempre há disposição para o movimento que é capaz de compreender e invocar a potencialidade de cada corda, de cada nota. O resultado é que, na prática, a música não sai, ou, quando sai, é através de um dedilhar de cordas, mas isto nem sempre coloca pra fora todo o potencial do instrumento. Não é possível executar uma sinfonia inteira sem o arco.

Certamente, a imagem da última ceia de Cristo, ilustra a lição do violino, ministrada com sabedoria pelo bispo Franco. Ali se sentaram homens e mulheres diversos, com histórias e particularidades tão próprias que somente a generosidade de um líder como Jesus poderia reunir e, mais que isto, promover neles e nelas a harmonia necessária para que suas diferenças não se sobrepusessem à utopia de, mesmo nos ambientes difíceis, tensos e perturbadores, executar uma canção harmônica, coletiva, que trate de amor, que traga esperança e que sinalize a paz.

Rev. Nilson

 

Published in: on setembro 16, 2013 at 1:35 pm  Deixe um comentário