O elefante e a verdade

 

elefante

Há uma parábola antiga, bem conhecida, que vale relembrar. Conta de um príncipe que mandou chamar um grupo de cegos de nascença e os reuniu no pátio do palácio. Ao mesmo tempo, mandou trazer também um elefante e o colocou diante do grupo. Conduzindo os cegos pela mão, levou-os até o elefante para que o tocassem. Cada um examinou uma parte do animal, então, o príncipe ordenou que explicassem, uns aos outros, como era o elefante. O que tinha apalpado a barriga, disse que o elefante era como uma enorme panela. O que tinha apalpado a cauda discordou e disse que o elefante se parecia mais com uma vassoura. O que apalpara a orelha, interrompeu, dizendo: “Se alguma coisa se parece é com um grande leque aberto”. Outro ironizou, dizendo: “Vocês estão por fora. O elefante tem a forma, as ondulações e a flexibilidade de uma mangueira de água”. “Essa não”, replicou o que apalpara a perna, “ele é redondo como uma grande mangueira, mas não tem nada de ondulações nem de flexibilidade, é rígido como um poste”. Os cegos se envolveram numa discussão sem fim, cada um querendo provar que os outros estavam errados, e que o certo era o que ele dizia. Cada um se apoiava na sua própria experiência e não conseguia entender os demais. Quando o príncipe percebeu que eram incapazes de aceitar que os outros podiam ter tido outras experiências, ordenou que se calassem. “O elefante é tudo isso que vocês falaram.”, explicou[1].

Este conto, lamentavelmente, ilustra a realidade de várias discussões da sociedade contemporânea sobre temas que estejam sujeitos à diversidade de pensamentos e impressões e que requeira tolerância, respeito, altruísmo e, acima de tudo, humildade para reconhecer que o conceito de verdade é muito extenso para se adequar a um ou a outro ambiente ou contexto. Este tem sido o desafio da maioria das discussões do mundo, falta de prudência para ouvir, de sobriedade para refletir ou mesmo de humildade para, vez ou outra, reconhecer equívocos. Nem sempre há disposição para uma mesa de conversa, principalmente, se na mesa estiverem desiguais, ou quem seja alheio ao contexto analisado.

 O desafio de avaliar elefantes, através do diálogo e da troca de informações é, cada vez mais, necessário para os diversos lugares da vida. Sem isto, é impossível conviver, unir, reunir pessoas, propósitos, interesses e desempenhar projetos de sucesso. Sem isto, é impossível encontrar a verdade, porque a verdade não sobrevive a uma única ideia, a uma única visão e forma de interpretação. A verdade é, sempre, coletiva, e é capaz de morrer na clausura. A verdade é livre e, por isso mesmo, transcendente, abstrata e pesada demais para um só ombro, carecendo de muitas mãos e muitas mentes para ser sustentada.   

 Salomão disse que “na multidão de conselheiros há segurança[2]”. Talvez, seja possível parafraseá-lo e dizer que na multidão de conselhos é que se encontra a verdade que nos dá segurança. Que Deus nos agracie com leveza de espírito para admitir que a verdade não está só em nossas mãos, mas na diversidade das impressões. Que haja humildade para conhecer elefantes, contextos, culturas, momentos e ideias. Que possamos admitir a contribuição de quem está ao lado e, mesmo assim, tem outras formas de interpretar a vida e os problemas. Que quem está ao lado tenha humildade para acolher nossas impressões sobre aquilo que nos é comum. Que possamos, assim, reunir visões, vivências e capacidades para encontrar as verdades da vida, especialmente as necessárias para nos dar esperança e paz.

 Rev. Nilson


[2] Provérbios 11.14

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Published in: on agosto 9, 2013 at 11:56 am  Deixe um comentário  

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