Demasia

 

No jardim de nossa casa nasceu, espontaneamente, um mamoeiro. Entusiasmado com a descoberta, iniciei uma adubação sistemática com adubo químico de formulação adequada para o bom desenvolvimento da planta. Pesquisei e descobri que, a partir do início da primavera, seria o momento certo de iniciar o processo, que demandaria numa pequena porção do nutriente a cada mês, sempre depois de uma boa chuva. Depois de algum tempo, vimos formar um robusto pé de mamão e, o mais admirável, com uma florada espetacular. Imagino que pela forte adubação, houve um índice alto de aproveitamento das flores e, como consequência, uma frutificação espantosa.

Mas depois da colheita a planta começou a secar. O tronco, que estava tão vigoroso, ficou enfraquecido e, para nossa tristeza, o mamoeiro morreu. Consultando a literatura, deduzi que eu mesmo provoquei a morte da pequena árvore. Tentando obter bom resultado, exagerei na quantidade de adubo e a boa produção exigiu mais do que a planta poderia dar, não resistindo à sua primeira colheita. 

A experiência que tive no quintal de minha casa, ilustra de maneira singela, um dos equívocos da sociedade moderna, o exagero. De várias maneiras, sabemos de mortes, desgastes e descasos que são causados por não se dar o tom ideal, a força necessária, ou a ajuda adequada aos contextos e dramas da vida. Infelizmente, nossos dias têm sido contados por excessos de ação ou de omissão, de força ou de fraqueza, de presença ou ausência. Vivemos numa sociedade sem limites, sem critérios e sem noção do que seja conveniente para cada situação. Quer seja em relação aos outros ou a nós mesmos, vivemos o drama de falta de dose em atitudes ou emoções.

Há quem sofra em demasia, a quem não sofra nada. Há quem se entristeça muito, há quem se alegre muito, há quem não se alegra nunca, há quem não se entristeça nunca. Com isto, vivemos o equívoco do exagero em impressões, posições, reações e ações. Somos jogados do tudo pro nada de hora em hora, como se pessoas, processos e situações pudessem ser contabilizadas, compreendidas ou avaliadas no parâmetro do “oito ou oitocentos”.

Imagino que, consciente desse espírito volúvel e em constante desequilíbrio, o sábio bíblico tenha aconselhado: “há justo que perece na sua justiça, e há perverso que prolonga os seus dias na sua perversidade. Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas louco; por que morrerias fora do teu tempo? Bom é que retenhas isto e também daquilo não retires a mão; pois quem teme a Deus de tudo isto sai ileso.”[1] Desta forma, ele percebe que todas as demandas da vida carecem de equilíbrio e bom senso. Não há nada, nem ninguém, capaz de ser avaliado por um só ângulo, nem por uma só expectativa. Cada um de nós tem sua própria medida, como seres inconclusos, instáveis, informes, carentes, portanto, de reflexão e cuidado.

Como salienta o sábio, nem a demasia, nem a parcialidade e acrescentaríamos, nem a omissão, nem a insuficiência, são capazes de equalizar, equilibrar, manter a harmonia ou preservar a vida e a paz em qualquer lugar ou situação que seja. Quem dera víssemos revigorar o equilíbrio e o bom senso em todas as coisas, numa perspectiva construtiva e comunitária, onde fosse possível a convivência, a participação e a coexistência.

Rev. Nilson


[1] Eclesiastes 7.15-18.

Published in: on junho 17, 2013 at 1:57 pm  Deixe um comentário