Não queime seus navios

Há uma controvérsia sobre a autoria da famosa ordem para “queimar os navios”. Alguns autores atribuem ao conquistador espanhol Fernando Cortez, outros, ao também espanhol, Pizarro e, outros ainda, ao tirano Agátocles. O importante é saber que a expressão teria sido usada por um deles na chegada a uma terra estranha, a ser conquistada. A ordem para atear fogo nos próprios navios significava que não haveria como voltar atrás, restando somente uma hipótese, vencer. Esta frase é normalmente usada na motivação de pessoas que estão em busca de algum objetivo especial na vida. Na verdade, ela se refere a um princípio básico de qualquer vencedor, de não olhar atrás e seguir sempre em frente. Afinal, a possibilidade de um navio seguro ancorado na praia pode significar uma opção pelo recuo e pela desistência.

É claro que o sentido da frase encontra acolhida na sociedade contemporânea. Vencer é uma necessidade urgente para qualquer um e, quem não “vence”, normalmente é deixado de lado e considerado incapaz. A disputa do mercado de trabalho, as exigências curriculares cada vez mais rigorosas, as tendências de consumo, tudo isto movimenta um mundo rígido, que cobra resultados palpáveis, principalmente econômicos. O triste disso é que, em nome da vitória, muita gente, desavisadamente, queima seus navios, seu passado, seus valores, referências e sentimentos. É lamentável perceber que, de várias formas, o fascínio por novas terras tem feito pessoas desprezar coisas importantes como família, passado, origem e história.

Mas a vida não é feita só de idas, existem momentos para seguir em frente, acelerar, enfrentar problemas, situações, ser forte, desbravar. Há outros em que é necessário regressar, retroagir, voltar para as raízes, ao passado e às verdadeiras bases da história pessoal. Não há vida plena só na conquista, os fracassos também ensinam. Os reais valores da existência estão em todo o seu curso, nas vitórias e nas derrotas, nas alegrias e nas tristezas. Por isso é preciso ter navios para voltar, ter referências, onde moram nossas verdadeiras riquezas. Contrariando as teorias motivacionais, acredito que verdadeiros heróis são aqueles que sabem avançar diante de suas lutas, conquistar suas riquezas e, mesmo assim, voltar aos antigos amigos e à pureza dos sentimentos mais modestos. Então é necessário preservar os navios, a família, os amigos e aquilo que nos garanta navegar.

Há um texto bíblico, uma profecia de Jeremias, escrita seis séculos antes de Cristo, que parece estar muito viva neste contexto, que recomenda: “Põe-te marcos, finca postes que te guiem, presta atenção na vereda, no caminho por onde passaste…” . Em outras palavras, o profeta orienta para o cuidado com aquilo que baliza e orienta as aventuras e desventuras da vida.

Que possamos resistir às tentações de queimar navios, e não caiamos no equivoco de pensar que o que passou não tem mais valor. Que não sejamos surpreendidos pela angústia de não poder voltar para algum lugar seguro de nossa história por falta de navios ancorados em nosso passado.

Rev. Nilson

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Published in: on maio 29, 2013 at 12:43 pm  Comments (6)  

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Entendo a expressão “queimar navios” apenas como um ato de coragem e disposição para um desafio. O navio representa uma rota de fuga e queimá-lo significa não deixar espaço para recuar. Nada tem a ver com os princípios ou olhar para trás. Afinal quer motivo melhor para olhar para trás que navios incendiando no mar?
    Não se trata disto e sim de pegar sua tropa (valores, família, amigos) e enfrentar desafios maiores. Os navios significam a mediocridade, a inferioridade, a falta de visão. Queimá-los e seguir para a batalha está implícito o fato de ser derrotado. Neste caso só cabe duas possibilidades: vencer ou morrer!
    Mas esta não é a verdade, apenas a minha opinião.

    • Prezado Jack,  Agradeço sua leitura e comentário, mas presumo que você não tenha compreendido o sentido do meu texto. Minha interpretação aqui, para o “queimar navios” foi uma referência a quem queima, no sentido de menosprezar, desconsiderar ou deixar de lado, valores que lhe foram importantes como a família, os amigos e fatos que num determinado momento da vida lhe deram sustentação. Há quem queime tudo isto por valores banais, ou mesmo quando existem valores palpáveis, defendo a importância de valorizar aquilo que, mesmo ultrapassado, foi necessário para condução de nossa história pessoal.   Espero que tenha auxiliado na compreensão do meu texto que, a dispeito do que intenciona a fábula, ganha um sentido próprio.   Obrigado mais uma vez,   Nilson.

      De: rev. nilson da silva júnior <

    • Sim. Não é sua opinião. É a verdade! Navios queimados! Pode-se cinstrí-los novamente! Rsrs. Homens mortos, vencidos! Derrotados! Não se constroe novamente!

  2. Compreendi sim Reverendo e concordo com sua opinião. Relendo seu texto, vejo de outra forma agora.
    Mais do que a minha compreensão equivocada, importa mesmo é o valor de suas palavras, para a reflexão e o autoconhecimento do ser humano na busca de uma convivência de harmonia e paz, consigo e com o próximo. Isto eu percebi na primeira vez que li o texto. Mas à época, estava buscando esta experssão para correlacionar com outras coisas, referente à liderança e perseverança. Um grande abraço. Jack

  3. O que o homem não pode ter é o sentimento da derrota dentro de si! Mesmo que o seu mundo queime, se pulverise! Que ela caia morto! Mesmo assim dentro dele o sentimento de derrota deve prevalecer! ” Caia ele sete vezes! Levanta-se oito! E vença! ” Morte onde està vc? Eu a venci”! Verdade absoluta! De mais de dois mili anos!

    • Corrigindo: Dentro dele o sentimento de derrota não pode prevalecer!


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