A Espiral do Silêncio

Na década de 60 a pesquisadora alemã Elisabeth Nolle-Neumann desenvolveu a tese da Espiral do Silêncio ao analisar os efeitos da comunicação de massa durante as campanhas eleitorais de seu país, entre 1965 e 1972, e perceber que alguns eleitores mudavam subitamente de opinião para se aproximar de opiniões que julgavam dominantes. Sua tese central teve como hipótese o fato das pessoas serem isoladas de seus grupos caso expressassem publicamente opiniões diferentes das consideradas como ideias dominantes, revelando que o medo da rejeição influencia mais a opinião pública do que o pensamento real das pessoas.

Esta teoria desenvolvida há mais de quarenta anos ainda pode sistematizar muitos dilemas da atualidade, especialmente as estruturas que envolvem hierarquia, comandantes e comandados. Neste aspecto, pode-se observar que dificilmente ações ou observações de contestação são valorizadas e, quando existem, pouco a pouco, são suprimidas e ignoradas. Por mais que se pregue sobre a necessidade da crítica construtiva, esta, por mais construtiva que possa parecer, figura, na maioria das situações, como desaprovação ou rejeição. Poucos ouvem com serenidade as observações que contrapõe suas ideias e interesses.

Reconhecer a ação da Espiral do Silêncio nos diversos processos da sociedade é algo curioso, porém, fato lamentável, é admitir que ela exista no interior das comunidades religiosas. Infelizmente, no ambiente da fé, a espiral extrapola o espaço das ideias e vontades humanas, adentrando o campo dos significados simbólicos ao receber o caráter espiritual. Nesse conceito, ousar criticar ou resistir a decisões, orientações e posturas, ganha o significado de contraposição não a Igreja como instituição, mas a própria vontade de Deus, por mais que isto possa ser discutível. Esta é a evidência de uma Espiral que faz a religião moderna agir e marcar suas ambições sem resistência, por sua capacidade de incutir medo na emoção de seus críticos ou de quem se opuser ao entendimento comum da “maioria”.

Para a Igreja Protestante, com maior intensidade, esta questão é bem provocante, especialmente pela herança histórica recebida de contestadores como Martinho Lutero. Talvez, com a influência do evangelicalismo americano e do fundamentalismo, tenhamos perdido a dimensão espiritual do protesto e da indignação frente aos equívocos, o que nos levaria a algumas perguntas: Onde está Lutero para contestar as novas indulgências e as novas formas de explorar o povo? Onde está Lutero para lembrar o Sacerdócio Universal de todos os crentes que dá a todos o dever de orientar o rebanho e rebater o personalismo do sacerdócio contemporâneo? Onde está Lutero para reavivar a centralidade bíblica diante de tantas heresias que são constantemente transformadas em credo e doutrina? Lutero ainda está vivo na práxis do protestantismo moderno?

Precisamos, urgentemente, ressuscitar o espírito protestante do ilustre reformador para que a religião não prossiga acomodada no conforto e na proteção da omissão, do conformismo e da complacência. Precisamos quebrar as espirais que nos tornam mornos, passivos, frios e silenciosos e salientar que uma nova Reforma carece não somente da reação dos evangélicos, mas da voz de todos que não concordam com as incoerências atuais que transcendem o aprisco de uma ou de outra denominação, para não corrermos o risco de ouvir do próprio Deus a advertência feita à Igreja de Laodicéia: “porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Ap. 3.16).

Rev. Nilson

Published in: on agosto 31, 2012 at 1:52 pm  Comments (2)