S C R I P T

 

Em 1998 Jim Carrey estrelou “O Show de Truman”, filme que conta a história de um rapaz que viveu desde o nascimento sob as câmeras de um programa de reality show, transformado num grande astro, mesmo sem ter consciência disto. Feito objeto, mercadoria do empresariado televisivo, Truman passa a observar que algumas pessoas repetiam diuturnamente as mesmas ações, aguçando sua curiosidade e desconfiança, levando-o a romper com o script que, até então, havia dirigido cada minuto de sua vida. Motivado pela saudade de uma namorada de infância que não se sujeitara a mantê-lo manipulado e ignorante e, por isso, tirada do elenco, aventura-se no mar cenográfico do mundo feito só pra ele. Depois de enfrentar tempestades e lutar contra a direção do programa, Truman, encontra a saída do imenso cenário e, ao vivo, em rede nacional, rompe com aquele estado, declara independência e sai para a vida simples, à procura de seu grande amor.

Esta história, embora fictícia, é capaz de nos lembrar dos vários mundos que compreendem a vida. Na verdade, pouco a pouco, a rotina de cada um se encarrega em elaborar os cenários que haverão de restringir a existência e, como no cinema, construir scripts a serem cumpridos. O tempo impõe situações, espaços e regras que nos prendem e, quando percebemos, já estamos sob os holofotes de um show que, em alguns casos, nem escolhemos.

O sentimento de prisão é um dos mais deprimentes para o ser humano. Em nossa essência, somos criados livres e independentes e o fato de nos sentirmos cativos contraria nosso maior prazer, de decidirmos sobre nós mesmos. Mas como responder às exigências da vida e ao mesmo tempo preservar a liberdade que nos motiva e encanta? Como atender aos roteiros impostos e mesmo assim alcançar a felicidade?

A imagem humana de Cristo nos ajuda a descobrir caminhos para viver entre os roteiros e, ainda assim, ter alegrias. Como agregador de multidões, Jesus, certamente, tinha seus momentos de stress e, com isto, provavelmente, se sentia intimidado e pressionado diante de tantas expectativas. Nos evangelhos, um registro especial de seus hábitos, mostra que além de se ocupar com atividades junto do povo, preocupava-se também consigo mesmo ao retirar-se sozinho para as montanhas, de tempos em tempos, para orar e, com isto, reorganizar a vida (Mt 14.23; Lc 6.12; Lc 9.28). Este exemplo nos orienta sobre a necessidade de encontrarmos formas de nos retirarmos dos mundos restritos de nossas obrigações para o cultivo da própria individualidade, do próprio prazer, junto de pessoas, coisas e atividades que nos dizem à alma e à vida.

Quem gosta de si, nutre bem seus espaços pessoais e, por isso, busca não ficar circunscrito a cenários específicos, podendo transcender e libertar-se, a qualquer momento, dos estados de aprisionamento que a vida impõe. O simbolismo das montanhas de Cristo pode nos despertar para a descoberta desses lugares de refúgio, onde possamos encontrar inspiração para enfrentar as determinações da existência sem nos sentirmos encarcerados e infelizes. Esta é uma tarefa pessoal e importante para que sejamos lúcidos e, mesmo assim, leves, atarefados e, ao mesmo tempo, tranquilos, em contato com as turbulências do dia a dia e, ainda assim, serenos.

Rev. Nilson

Published in: on junho 20, 2012 at 1:04 pm  Deixe um comentário