Medo de assombração

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Quando criança fui um ser muito assustado. Tinha medo de muita coisa e me amedrontava por quase nada. Tinha medo da minha mãe quando olhava brava, de um jeito que fazia a gente tremer por dentro. Não gostava de dormir no escuro, não gostava de andar sozinho, muito menos à noite. Assustava que só, por sombra, por bicho, barulho. Quase tudo era motivo de apavorar, como que numa espreita viesse me pegar. Uma vez, de maldade, meus primos que brincavam com uma foto dada na escola do famoso Tiradentes, me assustaram com a cara feia do barbudo ilustre. Sem dó e sem vergonha, gritei até que viessem me socorrer, mãe, pai, tio, tia. Foi um fuzuê.

Quando cresci, fui perdendo o medo. Aprendi a andar no escuro, a não gostar de luz na hora do sono, encarei noite sem lua, e até algum enguiço de moleque adolescente. Perdi o medo de tudo. Viajei sozinho, fui pra terra estranha, e não lembro de nada que me fizesse temer.

Mas agora, quando já grande, adulto, maduro e de filho criado, dei pra ter medo de novo e, pasmem, medo de gente! Mesmo depois de pegar a malícia da alma, de saber discernir a bondade e reconhecer bem de longe a maldade, peguei cisma de gente criada, dessas que aparecem na luz, no sol a pino. Peguei medo de quem olha pra tudo, menos pros olhos, de quem não para pra nada, nem pra conversa sem graça, pra minuto de prosa, medo de quem ri muito e fala pouco e, quando fala não diz nada, que aproveita, que diferencie, que comprometa. Medo de quem concorda com tudo, de quem bate nos ombros, abraça bem forte, de quem obedece a tudo e não discorda de nada. Cismei com quem é bom demais, ou se julga, e desmerece a gente só com o olhar. Medo de gente que se vê muito certa, muito honesta, muito leal, muito franca, muito boa. Peguei medo de gente que só tem sucesso, que não erra nunca, que só vai pra frente e só faz os outros sorrir.

Na verdade, acho que meu medo tem algum fundamento. E até que sei bem o porquê desse medo todo, é que, pra mim, gente assim não existe, e não é gente que nada, é fantasma, assombração! Porque gente que é mesmo, é sempre um balanço, um meio, um equilíbrio. Num é por inteiro sempre certa, nem sempre errada, nem boa, nem ruim, nem sempre terra, nem sempre céu. Gente que é gente é misto de fracasso e acerto, insistência e constância… e não conta histórias só de festa, também conta temores, erros, receios, e não se empobrece com isso, nem enriquece, permanece natural, mortal, carnal. Tem dor, tem dó, tem sede, tem sangue, sofre, chora, sente, confessa, arrepende, perdoa, magoa, emburra… é gente!

Por isso, tenho medo de quem se sente deus, se sente mais, melhor, maior. Porque esse tipo de vida não existe aqui, na terra da gente, só no céu, só no plano de Deus, do inexplicável, do transcendente. E quando a gente se depara com quem não é daqui, não é normal ou pensa, a gente tem medo, porque gente assim só existe pra dar medo, pra ficar longe, pra tomar cuidado, pra assustar a natureza de gente que é gente, humana e pó, como eu.

Nilson.

 

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Published in: on abril 27, 2012 at 1:35 pm  Deixe um comentário  

GABRIEL

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(aniversário do Gabriel)

Como diria o Chico, “quando nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar”… com a diferença de que ele já tinha nome e não tinha cara de fome… rsss…

Sua calma sempre o fez melhor do que se pode esperar de uma criança comum… sem se preocupar com prodígios e destaques, se fez tranquilo, mesmo nas situações mais tensas e tristes… sua paz transcende o tempo em que todos vivem e o faz viajar por outros tantos que a naturalidade nem entende… gosta de contar histórias, desvendar mistérios, descobrir novidades… seu mundo é só seu, é intenso, é profundo, é suficiente…

Gosta das minúcias, dos detalhes e do que nem percebemos… é desse lugar que ele nos dá informações dos pensadores, filósofos, da ciência, da história, dos dramas da vida e das incoerências das pessoas… soube, já tão pequeno, compreender o que as torna grandes, importantes e plenas… aprendeu a desvendar olhares, sabe discernir valores, pensa grande, pensa longe, pensa muito e procura entender a vida.

Faz das aflições do pai, coisas bobas, banais… faz do coração da mãe um mar de sonhos, encantos e chamegos…

Faz a alma de todos que o rodeiam ser plena… faz da calma, um lugar seguro, da paz uma morada boa, da rotina, um perguntar sem fim, da vida, uma leve caminhada que encanta e apaixona quem se dispõe a percebê-la…

Nilson

Published in: on abril 17, 2012 at 11:46 am  Comments (2)  

“14 de Abril”

(aniversário da Márcia)

Reconhecer o amor da vida da gente pelo carinho, admiração ou mesmo pela paixão é muito bom, mas o melhor sentimento de todos é quando se pode olhar o passado e o presente, as histórias, tristezas e alegrias e vislumbrá-lo eterno, inexplicável e transcendente, a ponto de não ser demonstrado por nada que possa ser cantado, falado ou escrito…

Nilson

Published in: on abril 13, 2012 at 7:38 pm  Comments (1)  

Quem salvará as cabras?

Published in: on abril 11, 2012 at 1:12 am  Deixe um comentário  

J E S U S

Quando se fala em “evangelho”, é preciso lembrar que existem vários evangelhos. Há o evangelho real, vivenciado por Jesus e seus discípulos, há o que foi contato de família a família depois de sua morte e, finalmente, há o descrito no texto canônico, considerado como “o evangelho”, escrito décadas após sua ressurreição. Também é necessário perceber entre estes textos posteriores, os do apóstolo Paulo, que sistematizaram o ensinamento cristão enfatizando a gratuidade e a liberdade como símbolos máximos do cristianismo. Estas considerações nos permitem admitir a existência de um Jesus mais real, despido de lentes, interpretações e interesses que, certamente, formam o Cristo contemporâneo, limitado pelo relato histórico e pelo institucionalismo.

Jesus foi pobre, filho de uma família humilde, pertencente a uma casta menor da sociedade palestina de seu tempo. Seu ministério surgiu de forma independente. Participou dos dramas palpáveis de seu povo, convivendo, desde cedo, com as inseguranças e incertezas da opressão política romana. Isto o fez olhar com atenção para as pessoas normais da sociedade, os lavradores, serviçais, mulheres, crianças, que naquele tempo nem eram consideradas. Neste ambiente que Cristo se forjou, no contato direto com a necessidade de gente comum e discriminada. Desta forma, entendeu a dureza de ser povo e o equivoco gerado pelo poder. Jesus não foi pastor de templo, nem escreveu um tratado teológico, tampouco desenvolveu teorias ou reflexões filosóficas e, possivelmente, não leu os grandes teóricos de seu tempo ou frequentou uma escola clássica, que o transformasse em erudito. Ao contrário, Jesus se dedicou aos problemas comuns e sérios, como fome, dor, dependência, discriminação, pobreza e angústia, mas isso não o levou para longe da Igreja. Os relatos o mostram dentro das Sinagogas, falando das escrituras, das doutrinas, mas a ênfase de sua pregação não se limitou àquele espaço, antes disso, procurou de muitas maneiras, mostrar que se a religião não olhar para o mundo como objeto de seu serviço, não se envolver, se misturar nele e requerer para si seus problemas, dificilmente chegará a ser o sal que dá sabor e a luz que esclarece.

Jesus não foi reconhecido pela Igreja de seu tempo e, possivelmente, não o seria também pela atual. Antes de adequar-se aos formatos legais da religião, Jesus a confrontou. Questionou a postura do clero ao condenar a que sacrifício submetia o povo, questionou o comércio no ambiente da Igreja a ponto de chicotear pessoas e destruir seus pertences, denunciou suas injustiças ao relatar a insensibilidade dos homens da religião na parábola do bom samaritano.

Jesus foi traído, denunciado, preso, torturado, condenado pelos políticos, pela religião e pelo povo, possivelmente, porque não se adequou, porque questionou, porque não se acomodou diante das incoerências e desajustes que viu. Ironicamente, Ele é a referência máxima de uma das maiores crenças do mundo que, mesmo sendo tão expressiva, rica e influente, não tem sido capaz de transformá-lo e aproximá-lo do ideal cristão. Talvez, por isso mesmo, seja imprescindível resgatar o Cristo das ruas, do povo, que, absurdamente, continua desassistido, desamparado, sacrificado e, novamente, repensar a fé que, de muitas maneiras, ainda “mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados” (Lc. 13.35).

Rev. Nilson

Published in: on abril 6, 2012 at 2:29 pm  Deixe um comentário