Pelos números os conhecereis

Há muito tempo os números fascinam a Igreja. Através deles ela se mostra, se impõe ou se prostra. Não qualificam a fé, mas demonstram quantos são seus adeptos e o que isto pode acrescentar, além de expressar poder financeiro, de mobilização e persuasão. Os números fascinam tanto porque mensuram o domínio ou a rejeição, a dependência ou a liberdade, a prosperidade ou o fracasso. Neles se concentram muitas atenções, em especial, quando a Igreja precisa decidir. Por isso o êxtase diante de sua força e a preocupação ante seu juízo.

As instituições religiosas se tornaram empresas e a fé sua mercadoria. Há nelas um contar sem fim. As ofertas, as pessoas, os percentuais de crescimento. Os números são preocupações permanentes. Existem metas, alvos, relatórios, análises que sinalizam o andamento da religião moderna e é através deles que se contam bênçãos e sucessos. Os sermões buscam exemplos numéricos para persuadir corações aflitos, enquanto as multidões procuram, cada vez com maior interesse, resultados práticos na fé.

A Igreja moderna se entregou incondicionalmente aos números. Além de seu relacionamento público com eles, há também o trato interno, pois, deles provém escolhas, “consagrações”, que elevam os “escolhidos” por votos, contados por mãos humanas. Em processos eleitorais, são necessários para decidir sobre a percentagem de favoráveis, de apoiadores e opositores. Há ainda o número de participantes de plenárias, há número de indicações e quantidade de pessoas para comissões, há número de votos válidos, há número de votos inválidos, há número para deflagrar ganhadores e perdedores. São os números que apontam o êxito da Igreja moderna, se são muitos, demonstram bênçãos, se são poucos, fracasso, descrença, condenação. Eles aprovam e desaprovam seus sacerdotes, os ascende e os depõe. Da mesma forma, por eles se avaliam seus membros, pela frequência, pela contribuição, pela prosperidade financeira. Anunciam maldições e deflagram salvação. No contexto da religiosidade contemporânea, seria possível parafrasear as palavras Cristo (Mt 7.16) dizendo: “Pelos números os conhecereis”! É assim que se concebe a religião da atualidade, contada e recontada por cifras, gráficos, demonstrativos, análises. Tudo é exato, contabilizado. Às vezes, os números parecem falar mais nos Templos que o próprio Deus.

Mas isso não é de hoje. Os números sempre embebedaram o coração da religião. O Antigo testamento já deflagra o dilema de Davi, quando rei, preocupado em quantificar, através de um censo, o tamanho de seu exército (2 Samuel 24). O que estava em jogo era a ambição humana, ele precisava mensurar sua capacidade de guerra para reafirmar sua força, seu mando e estabilidade. Mostrar o quanto podia, significava atrair aliados e impressionar inimigos. Ter muitos apoiadores simbolizava “estar certo”, ter direitos, ter a palavra final.

Confiar em Deus, em Sua providência, parece pouco para a Igreja contemporânea. Os números transmitem mais segurança, mais certeza. Nem sempre uma fé que é ensinada e contada em números pode ser confrontada por dúvidas, incertezas e tragédias. A fé que pode ser contabilizada é bem mais simples, fácil e confortável. Infelizmente, a tentação de Davi parece ter se apoderado da Igreja atual, fazendo-a refém de uma fé utilitarista, numérica e monetária. A exemplo do rei que afrontou a vontade de Deus, a Igreja colherá os resultados de sua iniquidade, só espero que não seja a de ouvir do próprio Deus a terrível afirmação feita nos evangelhos: “apartai-vos de mim pois eu não vos conheço” (MT 7.23).

Rev. Nilson

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Published in: on março 26, 2012 at 12:33 pm  Deixe um comentário  

É preciso cobrir os espelhos…

Gosto dos dias de tempestade…

Gosto do balançar das árvores, do som do vento e da força das chuvas…

Desde sempre, me fascina o clarão dos raios e som dos trovões…

Lembro-me de brincar entre as raízes de grandes árvores caídas no pátio da escola…e de juntar pedrinhas de gelo que logo se derretiam…

Da janela de meu quarto, via o agitar das pessoas abrigando-se nas marquises ou lutando com seus guarda-chuvas que viravam do avesso…

As cortinas das casas se fechavam e os espelhos eram cobertos…

Aprendi que é melhor não desdenhar dos pequenos chuviscos, pois, quando menos se espera, cada gota pode transformar-se em grandes enxurradas que levam tudo que estiver pelo caminho…

Nas tempestades, é melhor estar debaixo de um teto com roupas secas e quentes…

Cubra os espelhos para que não atraiam raios…não coloque sua imagem em risco…na tempestade podemos ver reflexos que não são reais…figuras distorcidas ou expressões que não condizem com o que somos realmente.

Respeite a tempestade, espante-se com o imprevisível. Tenha paciência, saiba que tudo voltará à normalidade…mesmo que essa normalidade não seja a mesma vivida anteriormente.

Previna-se. Tampe os buracos das telhas e os vãos das janelas para que ao deparar-se com a próxima chuva os estragos sejam menores. Fique em paz. A natureza saberá seguir o seu rumo…

Márcia Regina

Published in: on março 19, 2012 at 1:24 pm  Deixe um comentário  

Móbile

É comum ouvir impressões e comentários sobre fatos e pessoas a partir de uma determinada ocasião. Geralmente, é desta maneira que julgamentos, decisões e atribuições são elaboradas. Nem sempre os critérios se firmam em grandes espaços de tempo, nem sempre as análises se consolidam sobre a completude da vida. Normalmente se baseiam num ou noutro evento de destaque, desconsiderando o todo, também importante para valorar com profundidade histórias e contextos.

O sociólogo Max Weber utiliza um conceito de situação interessante para descrever o que dizemos. Considera que uma situação é um momento único, onde a diversidade de questões, eventos e fatos se cruzam para marcar e registrar um determinado instante social, econômico, político característico e, portanto, histórico, que dificilmente se formará novamente com as mesmas características. Desta maneira, entende o autor, os fatos não são estanques na história, mas resultados de contextos móveis que num determinado momento, a partir da formação de tudo que lhes envolve, imprimem uma determinada imagem, como que numa fotografia que, além de não demonstrar com total exatidão aquilo que registra, é incapaz de captar o que está no entorno da cena.

A definição de Weber pode nos lembrar que pessoas e fatos nem sempre são somente o que aparentaram no momento em que foram marcados, mas, resultados de um processo de elaboração contínua de suas histórias, e que não se explicam somente pelo que os destacou, tampouco pelo que os fez chegar àquele instante.

Desta maneira, é preciso considerar a totalidade das coisas ao olharmos para os processos da vida. Julgamentos, impressões e conclusões, não devem, para não cair em grande equívoco, se pautar por imagens únicas, congeladas. É preciso entender e aceitar o andamento das coisas e a diversidade de formações que a vida, em sua complexidade, pode causar às pessoas. Como num móbile, que constantemente se move e se transforma, os acontecimentos, as ações, palavras e olhares, fazem mudar a cada minuto a posição de formas, cores e imagens do que somos. É um erro considerável tabular alguém por uma determinada situação, formada pelas incertezas das ocasiões e pela fragilidade de emoções e anseios. Não é possível conceber heróis infalíveis, assim como aceitar a existência de vilões permanentes. Toda pessoa deve ter a oportunidade e o direito de mudar. Nem sempre somos anjos, nem sempre somos demônios, mas é preciso aceitar que, no movimento da existência, estamos passíveis de sermos confundidos com um ou com outro.

O texto sagrado parece tocar neste drama ao repetir vinte e seis vezes a expressão “cada dia”, quem sabe admitindo a oscilação do tempo, da vida e das direções, lembrando que o raiar de um novo dia pode vir acompanhando novas situações, desafios, composições e imagens, fazendo a vida, a impressão e tudo o que somos alterar-se, hora pra bem, hora pra mal, revelando nossa natureza inconclusa, anunciando que a vida deve ser vista como continuidade, movimento e explicada por trajetórias de momentos que, nem sempre, estão em nosso controle.

Por isso tudo é bom lembrar quão voláteis podem ser as avaliações que fazemos se
considerarmos que, em diversas ocasiões, a força dos acontecimentos pode refletir imagens distorcidas, ou, simplesmente a transição do que iniciou e ainda não acabou.
Quem dera, possamos entender isto e perceber mais os movimentos desse grande móbile chamado vida para discernir com maior inteireza os fatos, as pessoas e nós mesmos.

Rev. Nilson

Published in: on março 16, 2012 at 3:51 pm  Deixe um comentário  

A Igreja que perdeu a alma

Num rincão remoto do interior brasileiro havia uma Igreja Evangélica pequena e pobre, com algumas famílias que tinham o interesse comum buscar a harmonia entre si e com
Deus. Havia ajuda mútua. As necessidades eram sempre comunitárias. Um só coração, uma só fé. A cidade os conhecia bem, contavam com a simpatia do povo. As autoridades se referiam ao pastor como um homem de bem. A cidade, com suas igrejas, vivia a máxima agostiniana: “no essencial, unidade, no não essencial, liberdade”.

Mas o tempo passou, chegou o “progresso”, a mídia eletrônica, a americanização da sociedade e da fé. Vieram os “pastores da televisão” com novas interpretações de Deus e suas pregações se tornaram, pouco a pouco, fonte de inspiração. Eles além de pregar a nova “Palavra de Deus”, apresentavam pessoas que prosperavam, “enriqueciam”. Aos poucos, a harmonia da igreja se desgastou. As mensagens sobre ética, humanidade, amor, respeito, não mais “apeteciam” a religiosidade do povo. Desafios como “andar a segunda milha”, ajudar os fracos, perdoar, relevar, tolerar, perderam o sentido. A proximidade com diferentes, pobres e necessitados, passou a ser testemunho negativo. Alguns irmãos foram convidados a sair da comunidade, outros saíram por si só. O antigo e velho pastor foi substituído. As relações com outras confissões foram cortadas. A pregação tornou-se motivacional e o objetivo passou a ser numérico e financeiro.

O espírito comunitário se perdeu. Vieram a contabilidade, os relatórios e metas. Surgiu a necessidade de construir um templo grande, as campanhas financeiras ganharam significado espiritual – era preciso construir o novo “espaço” a qualquer custo – mesmo que isto significasse “negociar” com o Todo Poderoso. O novo templo e um novo tempo. A necessidade de atrair, envolver, conquistar, também de subsidiar. As carências sociais de desemprego, saúde, formação, fracasso financeiro e de relacionamentos enfraquecem a emoção. Nestas horas o transcendente se torna mais próximo e há urgência de criar esperanças, ânimo, forças para viver. Nada como materializar a relação com Deus criando alvos, desafios, para efetivar compromissos e, infelizmente, interesses. O poder clérigo se reveste de Deus e reivindica o “saber” a vontade do Poderoso, que “se prostra” aos interesses da instituição, na mescla equivocada de poder espiritual com poder financeiro. A bênção passa a significar sucesso e números.

Os valores da alma se distanciaram da comunidade e as cerimônias realizadas para desafiar e apelar. A ênfase teológica voltou para o Antigo Testamento, para elaborar com maior propriedade a religião da guerra que está disposta a rechaçar quem contrariar. A emoção, a sensibilidade, o carinho e as expressões de ajuda, se foram. Não se admite mais aproximações com a diversidade, o novo lema é bíblico: “Quem não é por mim, é contra mim” (MT 12.30).

A Igreja perdeu a alma. Ficou sem chão, sem carne, sem dó, sem dor, sem compaixão, misericórdia e amor. A Igreja virou poder e dinheiro. Rejeitou o Cristo pobre. Alcançou o poder e rejeitou o dever. Aderiu ao capitalismo, ao utilitarismo, à usura e ao consumismo e se desprendeu dos profetas, da crítica, da denúncia da injustiça e o desmando. Conquistou a prata e o ouro e se perdeu da ternura e da simplicidade. Deixou de lado a recomendação de seu Senhor de que “não vale ganhar o mundo se isto representar perder a alma” (Mc 8.36), perder amizade, companheirismo, humanidade e o amor.

Rev. Nilson

Published in: on março 9, 2012 at 4:13 pm  Comments (1)