O prato de lentilha

lentilha

 

Na Bíblia encontram-se histórias impressionantes, que têm a incrível capacidade de explicar com exatidão a humanidade que temos. Uma delas relata um fato acorrido com os irmãos Esaú e Jacó, filhos de Isaque.

Conta-se que Esaú era um exímio caçador e preferido de seu pai, enquanto Jacó, mais novo e pacato, favorito da mãe, Rebeca. A tradição dava ao mais velho o direito de receber a bênção do pai, portanto, a condição de primeiro na linha sucessória, o que incluía herança material e espiritual.

A história relata que certo dia Esaú chegou faminto do campo e encontrou Jacó pronto para saborear um prato de lentilha. Pediu ao irmão que lhe desse o alimento, mas a sagacidade de Jacó o fez aproveitar da situação. Respondeu que lhe daria o prato em troca do direito de primogenitura. Esaú respondeu: “Está bem. Eu estou quase morrendo; que valor tem para mim esses direitos de filho mais velho? Então jure primeiro – disse Jacó. Esaú fez um juramento e assim passou a Jacó os seus direitos de filho mais velho”[1].

Certamente, não podemos mensurar a importância da negociação entre os irmãos, pois os significados e valores culturais que envolveram a questão estão bem distantes do que julgamos ter valor. Porém, existem questões atuais que cabem bem no espaço daquele prato de lentilhas. Vez por outra as pessoas se vêem diante de valores tão modestos e, mesmo assim, acabam negociando o que é valioso por prazeres banais.

O prato de lentilha pode bem representar uma simples ovação, um mero elogio, uma boa impressão de alguém que simbolize algo mais que o comum. A primogenitura pode, de igual tamanho, se referir ao caráter, à coerência, à amizade, à fidelidade. E, infelizmente, o equívoco de Esaú revisita o que somos nos tentando e, em alguns casos conseguido, que troquemos caráter por aplauso, amizade por elogio, coerência e firmeza por um mero status, título ou cargo. Existe quem se sacia facilmente com um simples cozido de lentilhas e um pedaço de pão, vendendo a alma por muito pouco, trocando a própria vergonha por qualquer coisa que satisfaça seu prazer pessoal.

Nem sempre quem come fartamente um prato de lentilhas é alguém que serve como referência e inspiração. Particularmente, tenho admirado mais o exemplo de quem se mantém com fome e, mesmo diante de uma mesa farta, prefere conservar a consciência, a moral, a hombridade, mais do que o estômago.

Infelizmente, nossa sociedade aprecia mais a satisfação do que a convicção. São em maior número os preferem uma mesa onde palavras como fé, humanidade, verdade, justiça, direito e dever precisam ser relativizadas do que outra onde seja preciso falar de partilha, tolerância, responsabilidade e amor.

Que Deus nos abençoe diante dos pratos de lentilha. Que conservemos a honra em ordem mesmo nos momentos em que tenhamos de continuar com fome e sede de justiça.

Rev. Nilson       


[1] Gênesis 25. 32 e 33

Published in: on dezembro 27, 2011 at 10:48 pm  Deixe um comentário  

Mensagem de Natal

Published in: on dezembro 19, 2011 at 4:45 pm  Comments (2)  

Rebecca

Perguntamos ao médico: qual é o caso dela, doutor?
Sorrindo, ele respondeu: é caso de gravidez!
Nunca mais fomos os mesmos!
Primeiro, a divulgação, os telefonemas, a alegria de parentes, amigos…
Depois, as providências, o planejamento…
O cuidado especial com a alimentação, com a saúde,
O acompanhamento, os exames…
Tantas compras, adaptações,
Quartinho, berço, cômoda, banheirinha,
Roupinhas, muitas roupinhas…
O ultrasom e a outra notícia: é uma menina!
Vestidinhos, sapatinhos, tiaras, muitas tiaras…
Enfim, a risada e o parto. Afinal, mamãe pequena com gargalhada forte,
faz romper bolsa de bebê…
Criança de oito meses… correria.
O hospital, a tensão, as dores, a preocupação…
O parto, o choro, a menina…
Da doutora que estava ao lado o que só o tempo viria a comprovar:
Parabéns! Seu sossego acabou!
Nunca mais fomos os mesmos…
Nunca mais seremos os mesmos… nem queremos!
Depois desse sorriso aberto, dessa inquietação juvenil,
Desse olhar apreensivo, da constante atenção,
Do cuidado e do amor tão presente,
Depois de redescobrir a vida,
Depois de te ter tão presente e de aprender tanto a te amar,
Rebecca,
Nunca mais seremos iguais.

Nilson

Published in: on dezembro 15, 2011 at 2:44 pm  Comments (1)  

O rei está nu!

Conta-se que um bandido, se fazendo passar por um alfaiate de terras distantes, diz a um determinado rei que poderia fazer uma roupa muito bonita e cara, mas que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-la. O rei, muito vaidoso, gostou da proposta e pediu ao bandido que fizesse uma roupa dessas para ele.

O bandido recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros e exóticos, exigidos por ele para a confecção das roupas. Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem estúpidas.

Até que um dia, o rei se cansou de esperar, e ele e seus ministros quiseram ver o progresso do suposto “alfaiate”. Quando o falso tecelão mostrou a mesa de trabalho vazia, o rei exclamou: “Que lindas vestes! Você fez um trabalho magnífico!”, embora não visse nada além de uma simples mesa, pois dizer que nada via seria admitir na frente de seus súditos que não tinha a capacidade necessária para ser rei. Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho do bandido, nenhum deles querendo que achassem que era incompetente ou incapaz. O bandido garantiu que as roupas logo estariam completas, e o rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que ele exibisse as vestes especiais. A única pessoa a desmascarar a farsa foi uma criança: “O rei está nu!”. O grito é absorvido por todos, o imperador se encolhe, suspeitando que a afirmação é verdadeira, mas mantém-se orgulhosamente e continua a procissão .

Vez ou outra lembro-me desse conto publicado inicialmente pelo famoso contador de histórias dinamarquês Hans Christian Andersen, em 1837. Apesar de tão antigo, considero-o exato para descrever alguns momentos que vivo, quando, diante de evidencias gritantes, ouso dizer que o rei está nu.

Infelizmente, como há quase duzentos anos, quem ousa contrariar a maioria é considerado incapaz de entender situações, de ver o que, de fato, acontece, é tomado por insensível, infantil. Vivemos numa sociedade que abandonou a crítica, como se ela fosse um pecado imperdoável. Em nome da harmonia, do bem estar, as pessoas dizem sim pra tudo, especialmente se este for o caminho mais cômodo e adequado para todos.

Acredito, sinceramente, que Jesus Cristo encontrou tanta oposição em seu tempo por não se omitir diante de reis nus. Apesar de ser o maior embaixador do amor de Deus, seu amor não foi apático e complacente com situações que contrariavam o que fosse verdadeiro, ético, moral e fraterno. Além disso, Jesus deixou um grande legado a quem se propõe a ser seu seguidor: usar da franqueza diante de evidências.

Quem sabe não fossemos melhores se tivessemos a percepção, ou melhor, a coragem da criança que admitiu a nudez do rei. Quem sabe nossas convivências não fossem mais honestas, afinal é bastante constrangedor permanecer diante de uma pessoa despida.

Que Deus nos abençoe e nos guarde da complacência e que tenhamos coragem de admitir a vergonha de situações embaraçosas para providenciar algo que possa aliviar o vexame de ações não tomadas.

Rev. Nilson

Published in: on dezembro 6, 2011 at 2:20 pm  Comments (2)