Agridoce

Com o passar dos anos fui deixando de gostar de doce… meu paladar foi perdendo o prazer em saborear as iguarias de antes… passei a apreciar alguns salgados, depois até coisas amargas… hoje gosto de chimarrão e, por incrível que possa parecer, considero seu sabor muito agradável.

O intrigante nisso tudo é que depois de um período, considerei os sabores que não adocicavam a boca, da mesma forma, incompletos, imperfeitos… se, de alguma forma o doce não satisfazia, o salgado também se tornou insuficiente… foi então que descobri o agridoce, a mescla de um e de outro, o encontro das diferenças no paladar.

Agora, prefiro, quando possível, misturar alimentos. Acho um luxo comer pão salgado com margarina e mel… ou um bom chimarrão acompanhado um biscoito confeitado. Aprecio algumas saladas que mesclam o doce de frutas com o sal dos legumes… acho nisso um motivo excelente para uma boa refeição.

Mas não é só a preferência culinária que mudou… a opção agridoce me levou por outros caminhos que também envolvem gostos, precedências e sabores… nesse vai e vem de apreciações aprendi a enjoar fácil de pessoas muito adocicadas… daquelas que grudam no céu da boca, desse tipo de doce tão intenso que a gente não gosta nem de pensar, nem de lembrar. De outra forma, existe quem seja amargo, rijo, ou sem sabor mesmo. São extremos iguais, exagerados, incompletos, que não agradam, não sustentam, não dão prazer, não encantam. Carecem, igualmente, de equilíbrio, de mistura e diversidade.

Por isso, aprendi a saborear melhor e com mais admiração quem é agridoce… que carrega dentro de si, em sua postura e posição, a despretensão de só adoçar ou só salgar. Pessoas assim sabem, como que num dom divino, viver de maneira direta, franca e sincera, sem cair na tentação de querer agradar sempre. Antes, trazem consigo o desafio de mostrar e propor novos sabores possíveis para a vida, novos pensamentos, formas de ver, convicções… transformando, ousando e fugindo de mesmices e conveniências.

Não é que mudei de paladar… acho que aprendi, ou entendi, que, a exemplo da vida, as pessoas precisam ser admiradas por inteiro… com os dramas e valores que as envolvem. Não há quem seja palatável por completo. Não há quem agrade em todo o tempo, mas sim quem saiba entender o tempo que rege o bem e o mal, o acerto e o erro, o belo e o feio, o bom e o ruim.

Acredito mais nos agridoces do que nos de sabores únicos… são mais reais… talvez, um pouco mais indigestos no começo, mas, certamente, mais honestos a respeito do que são, pois mostram sempre suas nuances.

Deus queira que eu continue aprendendo cada vez mais a entender e aceitar os sabores que a vida apresenta… assim, terei o privilégio de conhecer lugares e pessoas mais distantes do que sou… numa regalia ímpar de conhecer a vida de uma forma mais abrangente, mais intensa e mais autêntica.

Nilson

Published in: on outubro 21, 2011 at 10:16 am  Deixe um comentário  

CRISTIANISMOS

Published in: on outubro 13, 2011 at 10:16 pm  Comments (2)  

Ajuda

Published in: on outubro 4, 2011 at 7:07 pm  Deixe um comentário