Velhos amigos

A gente vai se deixando e se perdendo…
Sem perceber, a gente vai deixando de se ver, de se falar, de se entender… aos poucos…
Na correria, vamos perdendo a companhia para o café… as palavras jogadas sem pretensão, a informalidade… os assuntos corriqueiros…
De um passo, caminhos, impressões, perspectivas vão se distanciando e se tornando ausentes…
O linguajar, o gosto, o som, o tom… a gente vai se deixando e se perdendo…
De repente só persiste a distância… o ouvir falar, o saber uma ou outra notícia, o saber pouco, o saber nada…
De repente, permanece só a falta, aos poucos notada, aos poucos sentida… aos poucos, bem aos poucos…
Fica a ausência presente e tão forte, tão intensa, no lugar do que foi um “todo dia”, um “muitos anos”, do que foi quase uma vida, do que foi “um tempo bom”… e do que é uma grande saudade.
É assim que surge a surpresa e o sentido… o encanto e o consolo… de que velhos amigos só são velhos por culpa do tempo e do espaço… pois o sentimento de amizade verdadeira os fazem sempre perto, sempre jovens, sempre queridos, sempre amigos.

Nilson

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Published in: on setembro 29, 2011 at 11:19 pm  Deixe um comentário  

Felizes os que choram

O choro, o pranto, o lacrimejar, são efeitos fisiológicos de todo ser humano. Dizem os especialistas que o sistema límbico, que é a parte cerebral do lobo límbico, responsável pelas emoções, age associando estímulos emocionais, resultando respostas cerebrais, sendo uma delas o choro. Várias substâncias são liberadas no processo das emoções, como a noradrenalina e serotonina, o que ativa o sistema nervoso independente do nosso controle ou vontade. O choro faz parte do instinto de defesa, precavendo, sinalizando ou suavizando fortes emoções.

Chora-se por vários motivos. Por tristeza, medo, dor, saudade, ansiedade, depressão, alegria, raiva, aflição, ou seja, por qualquer razão que interfira em nossa emoção. E, o interessante, o choro, quase sempre, sensibiliza, atingindo a emoção de quem não está próximo, ou vitimado pela razão do lamento.

Chorar é um processo complexo que envolve o indivíduo por inteiro. A emoção, o corpo, a razão, a ética, o caráter, a personalidade. Chorar é um exercício de reconstrução. Já foi dito que chorar “lava a alma”. Talvez por isso mesmo, a maioria das pessoas não gosta de chorar, pois isto deflagra sentimentos, virtudes, defeitos e a liberalidade para reconhecer-se feliz, tocado, condoído ou mesmo triste e frustrado.

Quem chora, se expõe. É difícil chorar e não ser notado. A emoção chama a atenção, abala a tranquilidade geral, faz preocupar, ajudar, mobilizar, pois demonstra o resultado da essência de quem se emocionou, deixando a humanidade à mostra. Quando choramos, somos frágeis, vulneráveis, indefesos. Apesar de não parecer algo bom, por lembrar a dor e a tristeza, Jesus afirma que são felizes os que choram (Mateus 5:4). E o que pode ser à primeira vista intrigante, torna-se plenamente edificante se pensarmos sobre a lógica de Cristo. Talvez pudéssemos imaginar algumas razões que levaram Jesus a estas palavras.

Chorar, é sinal de humanidade, é assumir a natureza própria de homem, mulher, sem os enganos que, de várias formas, procuram nos transformar em deuses. Chorar é sinal de que não se tem olhos somente para si, é abrir o coração para sentir a dor do outro, entender o outro, sofrer com o outro. Chorar é mostrar fraqueza, a fraqueza da indignação, do inconformismo, da impotência. É, ainda mais, entender-se pobre, mesmo quando se é rico, e rico, mesmo quando se é pobre. Chorar é transcender a percepção, é entender o que não é dito, o que não é transparente.

Talvez, por isso tudo, Jesus entendeu quanta felicidade há para quem aprendeu a chorar e se deixou ser menos duro, abrindo sua vida para a possibilidade de demonstrar emoções, expressar sentimentos… não ter vergonha de dizer que dói, que sofre ou que está feliz. Mas acima de tudo, Jesus talvez quisesse dizer que o melhor de chorar é se deixar levar ao estado imaturo, infantil, capaz de revisitar os sentimentos da criança, sua pureza e espontaneidade, reorganizar a naturalidade da vida, reencontrar-se com a dependência, a inocência e, por fim, redescobrir o caminho dos céus… pois como Ele mesmo afirmou, quem não receber o Reino de Deus como uma criança nunca entrará nele.

Rev. Nilson

Published in: on setembro 21, 2011 at 3:38 pm  Deixe um comentário  

O que tenho te dou

Há tempos, atendi na porta de minha casa um senhor pedinte, andarilho, desses que vagam pelas ruas da cidade. Ele queria um prato de comida. Respondi que aguardasse, preparei e aqueci o alimento para dar-lhe. Quando lhe entreguei, fui surpreendido por uma atitude que me emocionou. Ele, do lado de fora do portão, pegou minha mão e, sem palavras, a levou para junto de seu coração e me olhou nos olhos, que, imediatamente se encheram de lágrimas por perceber quão significativa ajuda lhe dei, embora aquilo fosse tão pouco pra mim.

Infelizmente, nossas ruas estão cheias de pessoas que precisam de um favor e, mais lamentável ainda, da insegurança que nos faz duvidar de tudo e todos que se aproximam. As placas de alerta da prefeitura, recomendando não dar esmolas, agrava sempre os sentimentos. Confesso minha dor diante de quem estende as mãos suplicando um auxílio e admito que, em várias situações, corro riscos baixando a janela do carro.

O certo é que, palavras como carência, necessidade, ajuda e compaixão, permeiam a vida, mais do que imaginamos e, mais que isto, transcendem as ruas e seus moradores. Há carentes de todas as formas e lugares. Há necessidades que se instalam nos corações, mais que na conta bancária. Há ajudas que partem de pessoas extremamente desprovidas de recursos financeiros e atendem a carência de quem é detentor de muitas posses. Há pessoas extremamente ricas que conseguem avançar para além de sua ambição e riqueza e partilhar com quem nada tem.

O relato bíblico mostra um momento interessante vivido por Pedro e João às portas do Templo de Jerusalém, onde se assentavam pessoas com deficiência física para esmolar. Conta-se que um desses olhou para eles esperando uma ajuda e Pedro o respondeu dizendo: “Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda! E, tomando-o pela mão direita, o levantou; imediatamente, os seus pés e tornozelos se firmaram; de um salto se pôs em pé, passou a andar e entrou com eles no templo, saltando e louvando a Deus”.

Por mais estranho que possa parecer, o que mais me impressiona nesse texto não é a cura do homem, mas a boa vontade de Pedro, que era um ex-pescador, rude, pobre, e, naquele momento, considerado contraventor por estar entre os seguidores de Cristo. Mesmo assim, encontrou dentro de si algum valor que pudesse ser partilhado, oferecido a alguém tão carente, uma vez que todo e qualquer deficiente daquele tempo era considerado pecador, portanto, desconsiderado socialmente.

As palavras do apóstolo “o que eu tenho te dou” parecem ter o poder de reorganizar nossos conceitos sobre ajuda e necessidade. Se reconhecermos que cada pessoa tem deficiências, também podemos admitir que dentro de cada um de nós sempre existe algo a ser oferecido para a melhoria do bem estar de alguém. Se, a exemplo de Pedro, tivermos disposição para oferecer o que temos, poderemos reaver a esperança de um mundo melhor e livre de necessitados.

A percepção de Pedro nos iguala e nos provoca, tornando-nos ao mesmo tempo, ajudados e ajudadores, pobres e ricos.

A partir disso, volto para o olhar do homem à porta de minha casa e concluo que ele poderia muito bem ser um anjo, enviado de Deus, para me ajudar através daquela experiência a entender que “mais bem-aventurado é dar que receber” , pois de muitas maneiras, a mão que oferece nunca volta vazia, pelo contrário, traz sempre um algo a mais capaz de agregar valor à nossa humanidade e nos levar para mais perto de Deus.

Rev. Nilson

Published in: on setembro 16, 2011 at 11:06 am  Deixe um comentário  

Eh, vida de gado!

No íntimo ser de um bezerro nascido, repousa a essência de um animal indômito, livre e sem fronteiras. Tudo lhe é natural, é próprio e possível. Nada lhe está privado. Tudo é seu, lhe diz respeito, pois assim é a vida, é o sangue, é a alma.

Basta, porém, que seja bonito e adequado para que alguém se interesse pelo seu corpo, sua carne, que é viva e, por isso, aguça a ambição de quem não é, de quem não nasceu munido da altiva forma de ser, só por ser, e mais nada.

Sua força é ao mesmo tempo sua e de quem lhe quer. É sua porque tudo é seu: a vontade, a coragem, o entusiasmo, a vida. É de quem lhe quer, porque é dependente, preso, tolhido do bem prazeroso da liberdade.

Se fosse pobre de valores, seria morto. O descarte é algo próprio de quem não reconhece nada além do que o utilitário, alimento da ambição mais fria da humanidade. Mas é rico, por isso é alvo, por isso precisa ser preso.

Quem o quer, o quer para conduzi-lo. Não há valor em quem não se deixa conduzir. Não há interesse num valor não admoestado. Se fosse pensante, com a força que tem, seria indomável, solto, autônomo, e não há propósito numa energia insolente, sem regras, mando e cabresto. Só há importância nele se puder ser contido, se seguir o bando, cabisbaixo, sem pensar, sem querer, sem ser nada, sendo só força, que sirva para quem o quer.

E não há sentido em sua beleza e vitalidade se não puder ser lucrativo. É necessário arriscá-lo na caminhada rumo ao ganho. Sua vida é um produto e, para tanto, precisa resultar, transformar-se em lucro. Sua carne vale muito.

Na estrada dos caminhantes romeiros não existem cercas. Uns gritos aqui, outros ali, balizam o interesse de quem manda. A força é do grito. O mando é do grito. Mas não há cordas, nem arames farpados, só gritos. Também não há sentido, tampouco há conhecimento. Só gritos. Mas nem todos percebem que só os gritos balizam a marcha. Apenas o bezerro, com sua vitalidade e desejo por liberdade que reconhece a ausência de razão naquilo tudo.

De um lance e um pulo ele se lança para um infinito incerto e escuro, para um nada de futuro, para a fascinante solidão da liberdade, e corre, com sua força e sua beleza… mesmo não tendo para onde ir, não tendo o que saber, o que querer, não tendo ajuda, não tendo água, pasto, foge dos gritos, da mesmice, da falta de sentido e razão, da falta de destino, da falta de ar, de espaço, de sonho, de lógica, da falta de vida. Conta somente com sua inocência e pureza e com a ânsia de ter o domínio de seu próprio querer.

Uns poucos se alvoroçam com o tropel, também ameaçam se libertar, mas os gritos, tantos gritos, sem sentido, mas são tantos, causam medo, dor, pânico, e todos voltam para seu lugar, seu passo, sua mesmice.

Para o guerreiro, a busca, o laço, o grito, a perseguição, o silêncio, a morte.

Um olhar de longe, dos antigos companheiros. Um minuto de paralisia, um minuto de dor, um minuto de indignação, um minuto, e mais nada. Mais nada para quem sonhou com liberdade, mais nada para quem ousou olhar além, mais nada do que a carne de seu corpo para saciar a fome de quem o dominou durante seu pouco tempo de vida. Nada além dos gritos, da morte, da omissão e do silêncio.

Eh, vida de gado! Do gado que volta à marcha, que volta ao mando, que se rebaixa aos gritos e se submete à dor da desventura sombria de quem não pode nada, nem pensar, nem sonhar, nem viver.

Nilson.

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Published in: on setembro 10, 2011 at 2:20 pm  Comments (2)  

FUNDAMENTALISMO

O dicionário Houaiss define fundamentalismo como “movimento religioso e conservador, nascido entre os protestantes dos EUA no início do século XX, que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs. Embora militante, não se trata de movimento unificado, e acaba denominando diferentes tendências protestantes, porém, considera também que possa ser “qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos”. Desta maneira, se num passado recente, ser fundamentalista significava algo relativo à religião, agora, como que numa ironia, isto se propagou no vento de maneira tão intensa, sendo capaz de pousar em qualquer lugar do mundo, transcendendo cultura, religião e moral.

Quando se pensa em fundamentalismo, vem à mente fatos que se tornaram históricos. O “11 de setembro” é o mais significativo, como o maior atentado terrorista da História que destruiu as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e o edifício do Pentágono, em Washington, em 2001. Arquitetado e executado pelo grupo islâmico radical Al Qaeda, liderado pelo milionário saudita Osama Bin Laden, este evento simboliza o mais puro resultado da mistura religião e fundamentalismo.

Infelizmente, os sinais fatídicos dessa conduta não terminaram há 10 anos, e ainda germinam em outros lugares e tempos. Há pouco mais de um mês, um norueguês de 32 anos, Andes Behring Breivik, provocou um dos atentados mais lamentáveis em seu país desde a segunda guerra mundial, matando 77 pessoas, sob a alegação de querer modificar a sociedade através de uma revolução, manifestando ódio contra os europeus que defendem a tolerância e a inclusão dos imigrantes. Para o teólogo Leonardo Boff , este acontecimento demonstra que, ao contrário do que tentou mostrar o governo dos EUA durante muito tempo, o fundamentalismo também pode ser “branco, de olhos azuis, com nível superior e cristão”. O fundamentalismo é uma doença mundial, contemporânea e perigosa.

Pessoalmente, considero que a luta de Cristo foi exatamente contra o fundamentalismo. Sua pregação representou o rompimento com uma religião fria e cega, que usava a lei de Deus a favor do sectarismo e da discriminação. Para os religiosos daquele tempo, mais importante era a letra do que a mensagem, o dever do que o sentido. A vida estava oprimida pelo rigor da conduta e a mensagem religiosa se resumia numa só palavra: obediência. Com isto, as pessoas viviam abandonadas, havia desprezo pelos mais pobres. As mulheres eram desconsideradas e tratadas como animais domésticos. Não havia misericórdia, nem compaixão, a sociedade era dividida em castas e a religião endossava tudo isto, sob o pretexto da onipotência de Deus.

Jesus confrontou esta lógica perversa. Questionou o ascetismo, dignificou a mulher e a criança, valorizou o pobre e enfatizou o sentimento mais que a lei, a graça mais que o direito, questionando o fundamentalismo judaico frontalmente ao afirmar que a “suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Coríntios 3.5 e 6).

O espírito a que Cristo se referia era o espírito do amor. O espírito que se desvencilha da letra e faz aflorar sentimentos como a compaixão, a tolerância, a comoção e a paz. Este é o Espírito de Deus, é o espírito contrário ao fundamentalismo, contrário ao desrespeito e a falta de sensibilidade. Este é o espírito que tanto carecemos para nos tornarmos cada vez mais, verdadeiros seguidores do Jesus de Nazaré.

Rev. Nilson.

Published in: on setembro 6, 2011 at 12:58 pm  Comments (2)