Orquídea

Há aproximadamente dois anos, recebi numa formatura, como parte das homenagens dos alunos, uma belíssima orquídea. Considerei um dos gestos mais expressivos daquele momento acadêmico, pela sensibilidade e carinho demonstrados através da flor. Por quase três meses ela enfeitou nossa sala de estar, com suas cores que iam do branco ao verde, em nuances esplêndidas, que faziam encher os olhos.

Depois de caírem as pétalas, secou-se o talo, restando apenas as grandes folhas que, sempre vivas, nos levavam a perguntar sobre quando teríamos novamente a flor. Nutrimos esperanças por um longo ano. Minha esposa cuidou da rega, da claridade, das raízes. Mas nada aconteceu. Nenhum sinal de que veríamos voltar sua exuberante beleza. Mais um ano, e novamente a dedicação, o esforço, a expectativa, a esperança, quando que, por um passe de mágica, a planta emite um pequeno pendão, muito tenro, fazendo nascer a dúvida. A espera, agora, havia sido recompensada. O pendão formaria três pequenos botões, que, pouco a pouco, trariam novas flores e, novamente, a beleza máxima da planta.

Olhando para a orquídea que ornamenta nossa casa, penso na minha própria vida e sobre os sonhos que convivem comigo, dentro de minhas esperanças. Sonhos que me fazem esperar por tempos, situações, soluções de problemas, decisões, acontecimentos. Sonhos que parecem nunca mais chegar, e, por vezes, sinto-me até tentado a pensar que nunca os verei realizados. E a exemplo da flor, lembro-me que certos tipos de sonhos, têm tempo certo, pois carecem de clima, de ambiente e naturalidade, que só a magia dos próprios sonhos entende.

Esperar é experimentar o tempo, minuto a minuto, com a consciência de que só ele é capaz de dar concretude aos desejos que nascem nos devaneios do coração humano. Esperar é ser preparado, capacitado com a maturidade da certeza e da temperança que possibilita usufruir com doçura o fruto tão aguardado. Esperar é aprender a confiar no que transcende a razão e o controle das situações, para que se chegue à compreensão de que os bons sonhos nascem do inexplicável e são alcançados quando a natureza da vida assim o quer.

No Salmo 40, Davi nos inspira ao dizer: “Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro”. Para o escritor bíblico, que afirmou nessas palavras ter obtido o socorro de Deus no momento de aflição, o sonho de ser salvo se realizou depois da espera e da confiança.

Para mim, esperar e confiar, é como tratar da planta que gesta uma flor. Significa regar constantemente, com dedicação e amor, perceber suas raízes, sua folhagem, cuidar da luminosidade, observar sua cor, sua disposição, trabalhar com ela, querer entendê-la, estar próximo, pronto. Ainda mais, é preciso deixar-se esperançar pela flor. Sonhar com ela, lembrar-se de outros momentos bons, inspirar-se… superar a espera com a esperança, a demora com a confiança, a solidão com o envolvimento, a frustração com a ternura, a realidade com o sonho.

Quiçá o exemplo da orquídea inspire nossa vida, ilumine nossos momentos de espera e nos console nos enleios de nossa alma.

Rev. Nilson.

Published in: on agosto 31, 2011 at 11:55 am  Deixe um comentário  

Mosaico

Foi lançado há poucos dias o livro “Cristianismos – Questões e Debates Metodológicos” de autoria de André Leonardo Chevitarese. O autor é historiador, professor doutor do núcleo de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultor das revistas Superinteressante e Galileu. Em entrevista ao “Programa do Jô”, da Rede Globo (19/07), comentou que o livro apresenta alguns resultados da pesquisa histórica relacionada à religião e à vida de Jesus. Segundo o autor, os trabalhos demonstram que nenhuma denominação religiosa pode utilizar o cristianismo como motivo para intolerâncias e o ponto central do texto está na questão de que toda percepção religiosa deve ser entendida no plural, por isso, o título utiliza a palavra Cristianismos e não Cristianismo. Chevitarese afirmou que se esse entendimento for aplicado, as relações entre indivíduos podem se tornar bem melhores.

A provocação desta obra é interessantíssima e pertinente, afinal, um dos fatores mais prejudiciais à boa convivência religiosa sempre esteve no entorno de tentar ignorar a existência da pluralidade. Sejam nos pensamentos ou nas tradições, na interpretação ou na contextualização, a religião é um oceano vastíssimo, formado por experiências e conclusões individuais, que quase nunca se repetem da mesma forma, por mais que se tente.

Por isso, tratar Cristianismo como Cristianismos, talvez seja a melhor maneira de entender e aceitar a característica facetada desta religião, que é diversa nos vários países, nas várias culturas e nas muitas denominações. E talvez, uma ação ainda mais contundente seria usar esta percepção para outras áreas da vida, redimensionando questões do cotidiano com a mesma lógica. Por exemplo, poderíamos conceber a existência de ideias, ao invés de ideia, conclusões, ao invés de conclusão, e substituíssemos outras palavras… pensamento, por pensamentos, visão, por visões, ação por ações.

Esta é uma lição infinita que poderia transcender não somente a religião, mas também os costumes, a maneira de interpretar, de falar, de agir. Além do mais, admitir a pluralidade é caminhar em direção ao respeito, a tolerância, a participação, à comunhão. Não há como o mundo ser mundo sem a variedade das cores, formas, raças, opiniões. Ele só será bom e bonito se nos entendermos como um grande mosaico, capaz de formar beleza a partir da individualidade existente em cada um de nós.

Ao olharmos para o relacionamento de Jesus com seus discípulos, nos deparamos com um verdadeiro mosaico. O evangelho de Lucas demonstra que o Mestre escolheu doze homens, “aos quais deu também o nome de apóstolos: Simão, a quem acrescentou o nome de Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que se tornou traidor” (Mateus 6.13-16). Dentre estes, existiam ex-pescadores, um ex-cobrador de impostos, além de outros personagens comuns do povo e, até mesmo um traidor, como destaca o texto. Essa variedade de indivíduos, com histórias, experiências e personalidades diversas, é que compôs o primeiro mosaico cristão da humanidade, que, com seus defeitos e qualidades, nos desafia até hoje na luta da convivência e da religião.

Quem sabe possamos aceitar a indicação do historiador para considerar a pluralidade como parte integrante de nossas vidas. Quem sabe tenhamos a capacidade de imaginar algo maior do que a nossa individualidade e sermos mais receptivos em nossas relações, tolerantes em nossas posições e compreensivos em nossas diferenças.

Rev. Nilson

Published in: on agosto 24, 2011 at 1:43 pm  Deixe um comentário