… à sombra de uma palmeira que já não há…

Um dia fomos diferentes do que somos agora.

Éramos seres pensantes, críticos e inteligentes… nossas palavras, gestos, opiniões, eram densas, pois se comprometiam com a vida, a dignidade e a verdade…

Tínhamos amigos verdadeiros e em nossas relações havia uma sinceridade pura, bondosa, profunda…

Nossas casas eram comuns… igualmente, nossos sonhos.

Cantávamos as mesmas canções… onde estivéssemos… não havia cultura que destruisse nossa identidade… nossas canções eram serenas, mas profundas e encontrávamos sentido nelas.

Nossas mãos eram generosas… trabalhávamos em prol dos outros, de outro pensamento, de outra conduta… nossa bondade não tinha preço, não tinha troca…

As pessoas nos reconheciam pelo olhar, somente, pelo que éramos, e mais nada… não precisávamos de propaganda, alarde… nosso silêncio era diferente e, por vezes, incomodava…

Pelo que críamos, vivíamos… e mesmo que algum sofrimento nos ameaçasse, mantinha-mo-nos fiéis… nossas convicções eram mais importantes do que a vida, o ganho, a perda e a conveniência…

Éramos, realmente, diferentes do que somos…

Agora, tal qual quem se senta “à sombra de uma palmeira que já não há“*, resta-nos um sonho por outros tempos, melhores do que o nosso hoje, mais próximos do nosso ontem, capaz de nos revigorar a vida, a esperança e nos resgastar, finalmente, a dignidade e a paz.

Nilson.

* da música “Sabiá” de Chico Buarque de Holanda e Tom Jobim.

Anúncios
Published in: on maio 23, 2011 at 4:53 pm  Comments (2)  

O peso e a balança

Como a maioria dos meninos de minha idade, era minha a obrigação de ir, de vez em quando, à mercearia que havia na esquina de casa para fazer pequenas compras. Muitas coisas lá me encantavam, uma delas era uma cocada branca que eu adorava. Outro objeto intrigante daquele lugar era a balança. A balança daquele tempo funcionava na lógica de uma gangorra; de um lado se colocava a mercadoria, de outro, pesos de ferro de várias medidas, assim, era possível precisar o quanto havia em quilos. Às vezes o vendeiro perdia um bom tempo procurando os pesos que iam de quilos a gramas.

Quando vou aos supermercados atuais percebo a evolução tecnológica dos últimos 30, 35 anos. Aliás, as balanças do nosso tempo não têm nada a ver com as do passado. Agora, a tecnologia digital nos cerca. Não existem mais ponteiros, vemos, apenas, números que precisam o quanto vale e o quanto pesa.

O interessante é que, nem sempre o que se pesa, pesa, de fato, o que se mostra. As balanças de hoje precisam ser constantemente aferidas por órgãos que garantam sua fidelidade, contudo, permanecem suscetíveis aos enganos tecnológicos. Pode haver algum dano técnico que desregule, desoriente e roube a precisão. Mesmo as balanças domésticas, não digitais, carecem de uma regulagem. A maioria tem um botão capaz de garantir a justiça do ponteiro, mas, mesmo assim, em caso de dano mecânico, podem mentir.

É emblemático pensar na figura da balança. De alguma forma, no decorrer da vida, existe o desafio de pesar e ser pesado, para precisar valores e prioridades que orientam atitudes e decisões. Pesar, assim, significa avaliar, mensurar, discernir pessoas e processos. É desta maneira que se enfrenta o dia a dia.

A figura da antiga balança na mercearia da esquina também pode provocar uma reflexão interessante. O peso dela, ao contrário das novas balanças, era garantido por critérios sólidos. Não era um parâmetro imaginário, construído na incerteza de um mundo digital, era uma avaliação referendada por peso e consistência. Os pesos de ferro não eram vulneráveis a simples enganos, antes, existiam para resistir a qualquer tipo de variação, climática, temporal.

Talvez, se possa, assim, imaginar a necessidade de pesos confiáveis para as aferições diárias. Pesos capazes de contrabalançar posturas, ações, reações e intenções. Imagine… ética, contraposta a intenção, fidelidade, contraposta a postura, sensibilidade, contraposta a reação, humanidade, contraposta a interesses, dignidade, contraposta a ambição.

Em vários momentos de Cristo pode-se perceber a utilização desse contrapeso. Num dos casos, várias pessoas pediam a condenação de uma mulher pega em adultério e Jesus contrabalança os acusadores com sua própria consciência. Noutro, um injusto cobrador de impostos procurava vê-lo disfarçadamente no alto de uma árvore, talvez envergonhado pela própria desonestidade, e Jesus contrabalança a desonra daquele homem com ternura e sensibilidade, chamando-o para comerem juntos. Jesus sempre colocou um peso diferente do outro lado da balança, que fosse capaz de analisar o real valor das pessoas.

Se pudéssemos, e quiséssemos, pesar tudo e todos com pesos mais humanos, mais éticos, honestos, e que não fossem tão influenciáveis por questões pessoais, ou de interesse próprio… que tivessem o peso e consistência das responsabilidades que temos, poderíamos, se não transformar o mundo, transformar, em muito, nossos ambientes de convivência. Se quiséssemos, seríamos bem mais amistosos em nossas relações, ternos, em nossas palavras, pacientes, em nossas atitudes, sábios em nossas decisões e felizes em nossas vidas.

Rev. Nilson

Published in: on maio 11, 2011 at 3:57 pm  Comments (3)  

Uma mãe cheia de graça

Lembro-me de um amigo de infância que tinha a mãe muito severa. Ela, efetivamente, controlava todos os seus passos, especialmente quando se tratava de estudo. Longe dos exageros que toda pessoa dedicada a um propósito possa cometer e, ao contrário do que se possa imaginar, o resultado daquela educação rigorosa transformou meu colega num dos melhores cirurgiões plásticos do estado, senão do país, dando-lhe o reconhecimento de uma pessoa honrada. Particularmente, creio que meu amigo é em grande parte, fruto do esforço incansável de sua mãe.

O texto sagrado relata um fato idêntico, na história de Samuel. Ele foi o último dos juízes e liderou seu povo. Foi um grande líder, só que, além de ter a conotação administrativa, tinha também a dimensão espiritual – Era o Profeta – o homem através de quem Deus falava. Samuel ungiu os reis Saul e Davi.

Ao lermos o texto de 1 Samuel 1. 1-28 conhecemos a história de Ana, a mãe desse famoso profeta e, através dela podemos descobrir algumas referências de uma mãe dedicada e comprometida com a boa formação de seu filho.

Ela não pensava somente em si, mas, sobretudo se preocupava com a dimensão familiar. É triste olhar para alguns lares e ver pessoas que, apesar de serem parentes, não formam uma família. Existem casas cheias de pessoas que pensam somente em si, em seu emprego, em seu sucesso, em sua particularidade e não se dedicam à comunidade, a integração, vivem solitárias, sozinhas dentro de um espaço coletivo. Ana era uma mulher totalmente voltada para a tarefa de promover harmonia, felicidade dentro de sua casa. Sua casa era sua maior prioridade.

Ana também era uma mulher religiosa, que buscava o equilíbrio de seu espírito valorizando e praticando a dimensão da fé.

Ana significa “Graça”. Podemos dizer que Ana, a mãe de Samuel foi, realmente, uma mulher sábia, cheia da Graça de Deus, alguém que conduziu bem a sua vida e contribuiu para o bem estar da sua família.

Neste dia tão especial, Dia das Mães, trazemos o exemplo de Ana…uma pessoa abençoada e abençoadora. Cabe lembrar o exemplo tão edificante dessa mulher que se preocupava com a sua casa, que promovia a espiritualidade no meio de sua família e que teve a felicidade de saber conduzir seu filho para bons caminhos.

Que Deus abençoe as mães! Que o exercício da maternidade seja reconhecido como uma dádiva de Deus e um sinal da Sua Graça em cada família. Que possam seguir o exemplo de Ana, sendo mulheres sábias, capazes de conduzir seus filhos e filhas pelos caminhos da paz, da justiça, da solidariedade e do amor.

Rev. Nilson

Published in: on maio 8, 2011 at 12:05 pm  Deixe um comentário  

Diamante

Albert Einstein (1879 – 1955) foi um físico teórico alemão radicado nos Estados Unidos. É considerado o mais memorável físico de todos os tempos e conhecido por desenvolver a teoria da relatividade, o que o tornou mundialmente famoso. Nos seus últimos anos, sua fama excedeu a de qualquer outro cientista na cultura popular: “Einstein” tornou-se um sinônimo de gênio. A revista Time o elegeu como a “Pessoa do Século”, e a sua face é uma das mais conhecidas em todo o mundo.
Nasceu na região alemã de Württemberg, na cidade de Ulm, numa família judaica. Em 1880 mudou-se para Munique e, apesar da tradição, sua formação não foi dada à religião. Seu pai considerava os ritos judeus como superstições antiquadas. Em sua casa imperava o espírito não dogmático. Com três anos, Einstein tinha ainda dificuldades de fala, apesar disso, revelou-se um aluno brilhante. Sua juventude é solitária. Aos cinco anos de idade, recebe instrução de uma professora em casa, mas isto termina quando, aborrecido, arremesa uma cadeira sobre ela. Aos seis anos de idade, tem aulas de violino, que a princípio não lhe agradam, terminando por abandoná-las. Mas ao longo da sua vida tocar violino, e em particular as sonatas de Mozart, torna-se uma das suas atividades preferidas.
Uma lenda amplamente divulgada diz que Einstein teria sido reprovado em matemática quando era estudante, entretanto, quando lhe mostraram um recorte de jornal com esta questão, teria rido e dito: “Nunca fui reprovado em matemática, antes dos quinze anos, já dominava o cálculo diferencial e integral”.
Einstein, na verdade, foi mais que físico. Não que sua vida particular sirva de exemplo, mas, algumas frases atribuidas a ele são célebres pela inteligência e perspicácia. Uma delas afirma que “um diamante é um pedaço de carvão que soube lidar bem com a pressão”.

Certamente, como físico, o cientista podia bem avaliar quais processos promoviam a transformação de um carvão em diamante, porém, esta frase pode nos levar para além de uma análise química, fazendo-nos pensar sobre os valores humanos que podem ser atribuídos a ela.

Pressão, pode ser sinônimo de stress, aperto, coação, circunstância difícil. De várias maneiras a vida surpreende com situações assim, onde a dificuldade se apresenta de maneira tão intensa que passa pela mente a possibilidade de não ser possível suportar. O carvão, que é nada mais que um pedaço de madeira ou de pedra passada pelo fogo ou por um aquecimento extremo, pode simbolizar a naturalidade humana, própria da natureza, do comum, da vida. O diamante, ao contrário, não é nada comum, antes é um carbono puro, cristalizado, diferenciado pela sua robustez e dureza que, trabalhado, simboliza a riqueza e o glamour.

No sentido humano, porém, o fato de resistir, simplesmente, à pressão, não significa sinal de enriquecimento e distinção. Existem pressões que denigrem as substâncias da nobreza, da ética e da pureza. O fogo da ambição, do individualismo, do lucro pessoal, por exemplo, só fazem empobrecer a matéria natural da vivência humana. Ao contrário, as tensões que exigem verdade, honradez, honestidade, fidelidade, são capazes de transformar a vida, mesmo que haja prejuízos materiais, elevando-as à categoria de pedra pura, rara e cara, simbolizada pelo diamante.

O que difere grandeza de pequenez, diamante de carvão, é o tipo de pressão a que se está submetendo a vida e à capacidade de resistir com dignidade. O carvão que deseja ser diamante não negocia seus princípios, sua ética e fidelidade, mesmo que, para isto, padeça com o calor da inveja, da perseguição e da presunção. O carvão que se torna diamante é extremamente testado, exigido, conquistando sua preciosidade à custa de um tempo de resistência, determinação e compromisso com aquilo que acredita.

Se não é fácil viver, quanto mais difícil é resistir, e mais ainda, resistir às tensões que podem nos transformar em diamantes.

Que a alegoria de Einstein nos sirva como exemplo de força. Que não abramos mão do caminho que leva ao valor efetivo da vida, mesmo que haja algum fogo consumidor a nos ameaçar.

Rev. Nilson

Published in: on maio 4, 2011 at 12:32 pm  Deixe um comentário