Os dois cães

Sentimentos são universos inteiros que possuímos dentro de nós e são capazes de proporcionar as melhores e as piores experiências, mesmo que quem esteja a nossa volta nem imagine o que vivemos. Sentimentos nascem e crescem independentes de nossa vontade… quando percebemos, amamos profundamente, ou, pelo contrário, odiamos mortalmente.

Não há explicação clara para eles… são como o vento que vem e vai, surgindo e sumindo do nada, sem razão e, aparentemente, sem propósito… são uma parte independente do que somos.

Sentimentos fazem doer, emocionar, chorar, sorrir, gritar, temer, confiar. São instantâneos diante dos fatos e perspicazes frente às pessoas… lutam com tudo o mais que nos faz gente… nem sempre coincidem com a razão, nem sempre são sutis, às vezes nos envergonham, às vezes nos fazem desistir.

Para uma vida minimamente tranquila, é preciso aprender a lidar com os sentimentos. Em várias situações eles são frutos da nossa própria mazela, da nossa limitação. As experiências sociais, a cultura absorvida durante nossa história, os preconceitos, a formação, tudo isso filtra as impressões fazendo-os nascer.

Saber administrá-los, portanto, pode ser fundamental para um bom trânsito nos espaços que vivemos… não há como fugir deles, de vez em quando é preciso percebê-los, discerni-los e trabalhá-los.

Num dia desses li uma mensagem que dizia assim: “Um homem sábio descreveu certa vez seus conflitos internos: Dentro de mim existem dois cachorros, um deles é cruel e mau, o outro é muito bom e dócil. Os dois estão sempre brigando. Quando lhe perguntaram qual dos dois ganharia a briga, o homem sábio parou, refletiu e respondeu: “Aquele que eu alimentar”.

Certamente, esta pequena parábola se aplica bem ao que tratamos. Como dissemos, não temos o controle sobre o que sentimos… os sentimentos são independentes. Como cães raivosos, alguns deles geram dentro de nós intenções de violência, desrespeito, desigualdade e guerra. Outros, surgem dóceis, como que cãezinhos domésticos, que só levam ao carinho, à harmonia e à paz. Sem possibilidade de evitá-los, resta-nos a opção de tratá-los ou não, incentivando-os e fortalecendo-os ou deixando-os desfalecer, sem estímulo e atenção.

Temos, sim, condições de trabalhar nossos sentimentos. Imagino que nesta é direção que o apóstolo Paulo recomendou: “… tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.” Pensamentos são alimentos importantes para os sentimentos, por isso o escritor bíblico se preocupou em alertar sobre eles.

Certamente, cabe a cada a um saber cuidar de seus sentimentos, sobretudo, na sabedoria de nutrir os bons e enfraquecer os maus.

Que Deus nos ajude nesta tarefa tão importante para a vida. Que tenhamos bons sentimentos, bons relacionamentos e encontremos a paz.

Rev. Nilson.

Published in: on março 20, 2011 at 4:36 pm  Comments (2)  

Da terra do meu silêncio

Escrevo para meus amigos, do meu próprio silêncio. Resolvi vir pra cá… as palavras e os pensamentos têm me fugido diante das mazelas que tenho visto… não há como entender nem explicar muitas coisas que surpreendem minha sinceridade e crença. Vim há poucos dias, vim sem avisar, vim por um tempo incerto. Para os que querem saber de mim, como estou, aí vão as últimas.

Esta é uma terra boa e bem diferente das que já vivi. É óbvio, não existem palavras, nem boas, nem ruins, o que de certa forma traz tranquilidade. Não existem riscos, nem controversas, nem debates, nem desavenças. Quem vem prá cá, vem para descansar das palavras, e há muito que fazer sem elas. Há muito tempo aqui para discerni-las com maior cuidado. Interpretá-las demoradamente é mais emocionante… pode-se descobrir outros sentidos, outros sons, mesmo quando não as mudamos de lugar.

Por isso, o tempo aqui é longo. Não há como completá-los com barulhos, habituais das vozes, tão comuns aí. O tempo aqui serve para ler, pensar, esperar. Não há formas de cercá-lo com a balbúrdia dos verbos, gerúndios, nomes e pronomes… é preciso aprender a ouvir sem ruído qualquer. Isto é bom, faz a gente compreender que nem só de palavras vive o homem, nem só de argumentações. Vive-se bem sem palavras, aliás, é possível comunicar-se sem elas… aqui a gente vive assim.

Aqui, no silêncio, aprende-se a valorizar coisas despercebidas aí. Os olhares, os sorrisos, as expressões corporais, falam muito. Comunica-se bem através delas. Existem gestos que dizem bem mais do que muitas palavras e que, provavelmente, nem poderiam ser traduzidos por elas. É possível chorar ou sorrir a partir de um olhar. Nesta terra é preciso saber olhar mais que falar, sentir, mais que explicar. Há muitas expressões aqui, no silêncio, desconhecidas daí.

No silêncio têm-se o privilégio de conhecer lugares antes nunca vistos, especialmente aqueles que existem dentro de nós mesmos. E a surpresa maior é quando se encontra a paz desses espaços. É uma experiência incrível. Só quem vem pra cá experimenta.

Aqui, no meu silêncio, posso conversar comigo mesmo na mais profunda intimidade. A privacidade que este lugar oferece é espetacular. Aqui falo, sem palavras, tudo o que penso e quero, sem que ninguém me conteste… aliás, há, sim, quem me contraponha aqui… eu mesmo. São embates difíceis, mas bem proveitosos. Os pensamentos, aqui, ganham maior valor, tornam-se amigos mais próximos e tem-se o privilégio de descobri-los melhor… mais serenos e, ao mesmo tempo mais polêmicos… há muito o que conversar com o pensamento por aqui.

É uma terra boa, a terra do meu silêncio. Foi bom ter vindo pra cá. Será uma temporada boa pra mim. Sentirei saudades dos amigos e das boas conversas. Sentirei saudades de ouvir as vozes e as canções. Não se trata de uma fuga. Serei aqui, como aí, um mero forasteiro a procura de alguma paz, a paz que não tenho encontrado no inconformismo de minhas palavras e pensamentos.

Mas eu volto… um dia volto do meu silêncio.

Nilson

Published in: on março 15, 2011 at 4:39 pm  Deixe um comentário  

Água Cristalina

Questionado sobre o que pensa de Deus, Rubem Alves disse que Ele “é como uma fonte de água cristalina. Através dos séculos os homens têm sujado essa fonte com seus malcheirosos excrementos intelectuais” e que apesar disso “a fonte de água cristalina ignora as indignidades que os homens lhe fizeram. Continua a jorrar água cristalina, indiferente àquilo que os homens pensam dela”.

A alegoria da fonte, utilizada pelo escritor, faz lembrar a problemática ecológica de nosso tempo que tem o grande desafio de manter águas e fontes limpas e preservadas.

Porém, se entendermos esta bela figura como algo que possa representá-lo, então, poderemos pensar que, como a fonte, Deus é quem nos garante a vida, suprindo nossa sede e nosso anseio por todas as formas de refrigério. Na mesma lógica, seria Aquele que se renova continuamente, trazendo a novidade da água, a possibilidade da vida, do vigor e limpeza.

O Deus-fonte, ainda mais, representaria o milagre que faz surgir, de maneira inexplicável, água da rocha, do chão, sem motivo, sem pretexto, motivada somente pela natureza da vida. Seria também uma generosidade gratuita, disponível a quem d’Ele precise, como acontece com o rio, o lago, a água.

Mas a abordagem de Alves supõe que a humanidade tem sujado, ou tentado sujar, o Deus-fonte. Em sua hipótese, há quem busque invadir esta nascente, criando explicações, dizendo-se proprietário e responsável por ela. E a maior tristeza é causada pelos que criam exigências, condições, procurando cercá-la, restringindo as pessoas que querem se servir da água da vida… como se uma fonte pudesse ser privada de quem dela careça.

As reivindicações se avolumam. A fonte-Deus passa a ser condicionada a inúmeras questões… as da razão, que privam pensamentos, indagações, questionamentos, dúvidas. As da convivência, que aproximam e distanciam pessoas sob alegação da diversidade cultural, social, econômica, intelectual.

E mesmo que haja quem procure sujá-la, a fonte continua jorrando… a despeito de pararmos pra perceber a maravilha de viver, da provisão, saúde, trabalho, sonhos… apesar de nem sempre entendermos que, diariamente, a fonte renova em nós a inexplicável bem-aventurança da existência, das amizades, dos desafios e das vitórias que encontramos pelo caminho. Porque a fonte representa a bondade e a misericórdia que Deus tem por nós, lançando sobre tudo e todos a vida abundante da água, a quem dela queira usufruir.

Diante disso, e desta comparação, vivemos o dilema da fonte da vida. Entre ela e nós está, como supõe o escritor, a sujeira da mazela humana. Não há como acabar com essa impureza… ela faz parte de nossa fraqueza e está impregnada no que somos. E, lamentavelmente, por conta disso, muita gente se separa da fonte, confusa pela imundice que procura destruí-la, não saciando sua sede de plenitude, de alegria e esperança. É preciso dissociar a fonte do lixo e buscar a vida que está na água eterna.

O Deus-fonte é quem adverte: “aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” .

Que possamos encontrar meios de aproximação ao manancial divino que nos proporciona uma vida abundante, mesmo em meio aos desafios da decepção e do engano.

Rev. Nilson.

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Published in: on março 4, 2011 at 4:14 pm  Comments (2)