A Jerusalém que mata seus profetas

A Jerusalém que mata seus profetas é aquela que atrai pelo brilho e pela beleza de seu dossel… enchendo olhos e corações, capaz de se transformar em significado de dedicação e de vida.

Por sua história e simbolismo, esta Jerusalém tem um ‘quê’ a mais que faz emudecer, sonhar… por ela os profetas se emocionam, se entregam, abdicam e até se sacrificam.

Esta Jerusalém toma parte da vida e da história deles, levando-os a capacitarem-se, a esforçarem-se, crendo num ideal maior. Assim ela se faz importante, especial, singular. Por ela são capazes das maiores entregas, sem esperar nada além de um sentido que os faça mais próximos de Deus.

Os profetas se gastam por ela… envelhecem sem nada ter e sem nada almejar.

A Jerusalém que mata é real, diferente da Jerusalém celestial, que é transcendente e mística. Esta outra, terrena, é formada por gente, limitações, interesses e ambições que estão aquém do mundo idealizado pelos profetas.

É a mesma que Jesus encontrou pouco antes de seu martírio… e que o fez indignar-se, entristecer-se, lamentar, decepcionar-se. Talvez por ter visto que ela não mata somente as pessoas, mata ideais de vida, sonhos, utopias, dessas que só são possíveis em corações crédulos, como o de criança.

A Jerusalém que mata é a Jerusalém que resta aos pobres profetas dedicados, deslumbrados e ufanistas, que um dia creram que poderiam, ao contrário do próprio Cristo, sobreviver à avassaladora estrutura da religião de Jerusalém.

Ah! Jerusalém, que mata seus profetas! Que mata sonhos, mata esperanças, mata a fantasia de um cristianismo autêntico e franco, sincero e transparente… sem os disfarces da pequenez humana! Deixa-nos sonhar que ainda somos profetas, que ainda falamos de Deus, que ainda podemos crer e viver acima do que tu és, de seu artifício, de sua insídia, de seu ardil!

Rev. Nilson

Published in: on setembro 25, 2010 at 12:00 am  Deixe um comentário  

bom amigo

Quando adolescente tive um amigo que cursava piano. Como parte do aprendizado, no final do primeiro ano, participou de um recital no teatro municipal da cidade. Depois da apresentação quis saber dos pais sobre seu desempenho. A mãe, com toda boa vontade, considerou bom, mas o pai, que era um tremendo brincalhão, disse: “Olha, não é porque você é meu filho que eu digo, mas você foi o que pior tocou naquele recital”. Como era de esperar, todos caíram na gargalhada por sua franqueza. Aquilo marcou minha mente, especialmente, pela coragem daquele pai em ser extremamente sincero.

Ainda hoje lembro aquele fato quando me deparo com ambientes que classificam um tipo de sinceridade assim, como indelicadeza, falta de amizade ou insensibilidade. Vejo quem considere incabível dizer a alguém, de maneira direta, que não foi bem em algum procedimento, que não acertou ou que deveria rever seus conceitos e atitudes. É comum considerar bons amigos os que só sabem elogiar, incentivar e felicitar. Mas não é bem assim.

Há um fato, acontecido com Davi , o rei bíblico e escritor de grande parte do livro dos Salmos, que demonstra a coragem de alguém que precisava recriminar uma atitude. Davi havia agido mal, e, por ambição, provocado a morte de um dos comandantes de seu exército. O profeta Natã, arriscadamente – já que chamar a atenção de um rei poderia significar a própria morte – repreendeu sua atitude e o acusou de pecador. O resultado disso foi o arrependimento do rei.

Esta experiência mostra que, nem sempre, ser amigo próximo e companheiro verdadeiro, quer dizer ser ‘alheio’ a erros e equívocos. Ao contrário do que muitos pensam, a amizade sincera se demonstra, acima de tudo, pela coragem de se arriscar em favor do aperfeiçoamento de quem admiramos. Amigo, de fato, é aquele que coloca o bom êxito, a boa postura de quem gosta, acima da boa impressão que possa causar. Ser amigo é ter coragem de corrigir, advertir e, até mesmo, repreender, mesmo que o errado seja um superior, um rei.

Uma amizade assim é verdadeira e construtiva, e, ao contrário de garantir benefícios e tranquilidade, preocupa-se em manter o amigo no caminho da dignidade, do respeito e da admiração de todos. O melhor da vida não é receber aplausos e louvores, mas, estar rodeado de quem deseja, acima de tudo, nosso bem, mesmo que isto exija algumas conversas mais sérias. Quem gosta, de fato, tem coragem de falar o que é preciso para nos melhorar, nos reorganizar e nos fazer reencontrar com o sucesso.

No livro de hebreus , aprendemos que o próprio Deus corrige a quem ama, numa clara demonstração que amar, querer bem, pode ter relação estreita com atitudes de correção e exortação. Talvez, pudéssemos parafrasear e dizer que o bom amigo, o amigo verdadeiro, adverte, aconselha, alerta e questiona se preciso for, a quem ama.

Que Deus nos ajude a sermos bons amigos, especialmente, se quem gostamos necessitar de nosso olhar crítico para prosseguir seguro e correto em seu caminho.

Rev. Nilson.

Published in: on setembro 13, 2010 at 12:04 am  Deixe um comentário