Meu gato branco

No início de 1999, na Igreja onde trabalhava, nasceu uma ninhada de gatos embaixo da escada que dava acesso ao salão social. Na verdade, a gata deu à luz na hora do culto, o que chamou a atenção de muitas pessoas. Logo me interessei por um que nasceu totalmente branco, como o pai, um gato albino, muito grande, que vivia nas redondezas da igreja. Tratei de ‘reservá-lo’, o que foi bem aceito por toda a família, afinal, um bichinho daqueles encanta qualquer um.

Chegando em casa, procuramos dar-lhe um nome. Depois de muita conversa, que durou alguns dias, não tivemos nenhum resultado. Sem nome, passamos a chamá-lo de ‘branco’, um fato lógico, devido à sua pelagem que parecia um ‘leite’, acompanhada de focinho e pés rosados.

O ‘branco’ sempre foi muito arteiro. No primeiro ano era impossível mantê-lo quieto em casa. As correrias e brincadeiras surgiam sem nenhum motivo aparente. Desde uma tampa de caneta, até um detalhe na toalha da mesa, tudo era ocasionava uma folia. Além disso, com o tempo, virou um ‘boêmio’, passando quase todas as noites fora e, além das ‘noitadas’, vieram os períodos de um, dois, três dias sem aparecer. Quando voltava, quase sempre vinha com ferimentos, arranhões, às vezes bem graves. Depois de castrado, passou a ter uma vida mais tranquila, ainda assim, preservando sua vivacidade e espírito de caçador.

Hoje, o meu amigo branco, com seus quase doze anos – o que equivaleria a oitenta e tantos, comparando com um ser humano –tornou-se um sujeito dorminhoco, rabugento e muito sistemático, com horário para comer, dormir, e lugar exclusivo para seu descanso diário.

Com a idade, o ‘branco’ tem atitudes que me chateiam… mas, mesmo assim, tenho aprendido que se quiser conviver com ele – e quero – devo aprender a lidar com seus costumes e limites desenvolvendo em mim a habilidade de tolerar, conciliar e relativizar.

A partir da experiência com esse companheiro felino é possível pensar também nos círculos de relacionamento que temos pela vida, amizades que nos são caras, que fazem parte de nossa história e lembranças. Pessoas que, mesmo queridas, trazem em sua personalidade traços, marcas e costumes que, de vez em quando, nos tiram do sério. Um tipo de gente que faz parte do que somos com tanta intensidade que seria impossível contar nossos dias sem a presença deles, portanto, merecedoras de doses generosas de compreensão, amor e carinho.

Num dos momentos mais significativos dos ensinamentos de Cristo – o sermão da montanha – o vemos recomendar algo que tem relação com o que falamos. No evangelho de Mateus, 5.41 ele orienta: “Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas”, e esta expressão tinha um significado bem maior para quem ouvia Jesus. É que os soldados romanos que ocupavam o país naquele tempo, podiam obrigar qualquer pessoa a carregar sua carga por uma milha, o equivalente a um quilômetro e meio, sem pagamento, pouco importando os afazeres de cada um.

Longe de incentivar uma servidão dócil e submissa, a indicação de Cristo é para um protesto pacífico e, de alguma maneira, compreensivo das limitações do outro. Ele sinaliza a importância do ‘ir além’ – no caso, da prepotência. Há sempre uma forma de convivência, mesmo com quem não tem alcance para entender intenções e posturas.

O que fica, de fato, é a necessidade desse exercício contínuo de respeito, amizade e tolerância. Para que sejamos mais que colegas, para que sejamos amigos, companheiros, e a vida não se conte apenas por números, direitos e exigências, antes, que seja escrita através de relações envolvidas de sensibilidade, fraternidade, tornando-se, realmente, humanas, mesmo que, como no meu caso, isto aconteça com um gato albino.

Rev. Nilson.

Published in: on agosto 21, 2010 at 8:01 pm  Deixe um comentário  

Casa no campo


A década de 70 foi marcada por significativas mudanças sociais, políticas, culturais e religiosas. Em 1970 o Brasil foi tri-campeão mundial de futebol e o mundo começava a ter acesso à televisão a cores. Em 72, surge o primeiro videogame. Em 73, o Chile passa pelo golpe militar do general Pinochet e, simultaneamente, os Estados Unidos terminam derrotados na guerra contra o Vietnã. No ano de 74 a Revolução dos Cravos acaba com o domínio militar em Portugal; enquanto isso, sobe ao poder no Brasil, o general Ernesto Geisel. Nos Estados Unidos, Richard Nixon renuncia ao governo, após o caso Watergate.

Na economia, no início de 70, o Brasil vive o chamado ‘milagre econômico’, mas, em 73, com a crise na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), o barril do óleo sobe mais de 300%. Ainda em 70, os Beatles se acabam e em 77 morreria o rei do rock, Elvis Presley.

Em terras brasileiras, foram 10 anos de muita qualidade no campo da música. Para se ter ideia, revezou-se nas paradas de sucesso, artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elis Regina, João Gilberto, Gal Costa, Tom Jobim, Erasmo Carlos, Rita Lee, Chico Buarque, Jair Rodrigues e Vinicius de Moraes. Fora de nossas fronteiras falava-se de Elton John, John Travolta, Donna Summer, Elvis Presley, Rod Stewart, John Lennon e Bob Marley.

Mas foi uma música simples, composta por José Rodrigues Trindade, o “Zé Rodrix”, lançada em 71 ao vencer um festival em Juiz de Fora, que demonstrou um pouco do sentimento que se tinha: “Eu quero uma casa no campo”, cantava o artista.

Aquela letra, na verdade, relatava o anseio de quem procurava a paz… na utopia de um lugar mágico, caracterizado por uma bela casa, possivelmente, com rede na varanda, onde, segundo o autor, se pudesse ter “somente a certeza dos amigos do peito”… um lugar para ficar “no tamanho da paz”… se ouvisse apenas “o silêncio de línguas cansadas”… onde fosse possível formar um “filho de cuca legal”… e se plantasse “amigos, livros e nada mais”.

O sonho de Rodrix reflete a busca pela paz… a mesma que ainda é motivo de interesse… a paz que parece fugir, a cada minuto, da possibilidade, da concretude, e está, supostamente, reservada apenas para as poesias e sonhos.

Na verdade, a paz não é um drama da histórica década de 70, mas uma busca eterna de cada ser humano que procura, a todo tempo, desvencilhar-se de tudo que incomoda: limitações da saúde, tensões profissionais, acadêmicas, de relacionamento, da família. Tudo isto, ao mesmo tempo em que motiva, aflige, tirando a tão esperada calma.

Parece impossível ter paz se este sentimento de intranquilidade transpõe praticamente todos os limites… do tempo, dos grupos de convivência, do espaço, da cultura. Ninguém, aparentemente, está isento da aflição, da perturbação do dia a dia. Nem mesmo quem tem uma casa no campo, como ansiava o compositor, pode assegurar-se desse estado mágico que cada pessoa procura, a não ser que a possibilidade deste sonho esteja relacionada com a capacidade interna, ligada à emoção e à espiritualidade… à habilidade, à disposição de exercitar a confiança e a esperança, de tal forma que se possa encontrar, mesmo em meio aos dilemas da vida, a paz tão necessária para a felicidade. Ter paz não é viver longe de guerras, mas estar certo do que se quer e do que se acredita.

A paz não está na resolução de todos os problemas, mas na condição de gerir a vida apesar deles. A paz está na certeza de se ter com quem contar e na alegria de uma felicidade que acontece ainda que não se tenha somente vitórias… mas, especialmente, está na esperança de que a vida plena acontece além do ‘sucesso pleno’. É preciso ter em que acreditar, de quem esperar…

Certamente, a afirmação bíblica cabe bem para quem procura a paz, no exemplo de um profeta que, apesar de todo o drama que passava, encontrou a alegria de viver e a coragem de garantir: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação” (Habacuque 3. 17 e 18). Certamente esta é a paz transcendente, possível de ser vivida e sentida através de uma espiritualidade palpável, durável.

Rev. Nilson.

Published in: on agosto 13, 2010 at 6:48 pm  Deixe um comentário  

Pai mercadológico


Vivemos num mundo fortemente baseado na ideia de ‘mercado’. Praticamente todas as relações se voltam para a lógica de que em tudo que se faça há algo a oferecer e, em contra partida, alguma coisa a ganhar. Parece que não se pode mais viver sem essa dinâmica de ganho e perda, de investimento e retorno. Em quase todos os setores da vida, as pessoas parecem fazer contas do que se tem a investir e o que se tem a receber.

Um dos aspectos que caracterizam esta nova dialética social é o do ‘interesse’. Em processos que envolvem receitas e despesas, pessoas, objetos, lugares e filosofias, passam a ter um peso adicional, além do que, realmente, possam valer. Tudo o que possa simbolizar ‘pertença’, ganha status de valor, portanto, de ambição e interesse. Não é mais o valor sentimental, afetivo ou simbólico que dita a regra do desejo, mas o do quanto isso ou aquilo pode ‘agregar’ ao ‘patrimônio’ pessoal de cada um. Portanto, ter um determinado objeto, ou ser ‘amigo’ de uma determinada pessoa, pode significar mais do que gostar ou admirar, já que ‘ter’, para o ‘mercado’, se relaciona com ‘poder de barganha’, de compra ou de venda.

Ao contrário do que se pudesse prever, a religião se manteve como figura ativa neste cenário mercadológico. Assim como a sociedade, ela cedeu aos apelos do ‘interesse’, do ‘ganho’ e, por consequência, da ‘troca’. Nesse sentido, Oliveira (2006), afirma que “o capitalismo, em sua face neoliberal, reforça as idéias de que é possível a satisfação pessoal a partir do consumo, (e) as propostas religiosas de prosperidade reúnem as melhores condições para alargar as suas possibilidades e alcance”. A demonstração prática do que falamos se traduz por ‘Teologia da Prosperidade’, amplamente visualizada nos programas diários dos tele-pastores. Segundo Mariano (1999), esta ‘teologia’ valoriza a fé como meio de obtenção dos favores divinos. Assim como no mercado, onde tudo tem um preço e pode ser adquirido a partir de um pagamento, a fé, a fidelidade institucional, e, principalmente, a doação de ofertas, age como ‘moeda de troca’ na obtenção de saúde, sucesso e dinheiro.

Essa degradação ética e religiosa observada na fé, provocada pelo interesse social e econômico, tem suas raízes num patamar bem mais profundo do que o eclesiástico, na verdade, ela se localiza numa sociedade que transita por processos complexos que Bauman (2001) chama de ‘liquidez’. Para o sociólogo, a sociedade atual se caracteriza por um mundo de sinais confusos, prestes a se transformar de hora para outra, portanto, imprevisível. O autor acredita que isto é sustentado por relacionamentos frágeis, flexíveis, sem formato, sem firmeza.

Nesse ambiente, a família também passa por transformações. A troca, o interesse, a dimensão de ganho e perda, investimento e retribuição, parecem ditar as relações íntimas de pais, filhos e irmãos. Ao mesmo tempo em que se desconstrói a gratuidade da sociedade, com o enfraquecimento de sentimentos coletivos de solidariedade e fraternidade, dentro de casa as pessoas têm representações ligadas ao mercado capitalista. Pequenos gestos, característicos da harmonia familiar, passam a ‘custar’, e mesmo, funcionar como um ‘banco’ de créditos e débitos.

Desta maneira as imagens da afetividade vão sendo substituídas pelas do interesse. Os pais ganham maior ou menor grau de interesse por aquilo que podem disponibilizar de seus recursos à sua família. Os filhos também encantam e desencantam os pais à medida que dispõe ou não de aptidão para prosperar. Presentes adquirem significado de pagamento ou gratificação por metas e deveres pré-estabelecidos, deixando de conotar carinho e amor. Pais, mães e filhos começam a ‘valer’ e a não ‘valer’ segundo os recursos que possam dispor.

Portanto, os mesmos critérios do mercado, de premiação, de condenação, adentram o ambiente que outrora era distinto pelos ares do amor, do incentivo, compreensão, carinho e tolerância. Assim como se gerencia uma empresa, pais, mães e filhos são surpreendidos pelas regras do capitalismo selvagem e retribuidor. Os relacionamentos, antes temperados pelo tom compassivo de pessoas que se amam, são agredidos pelos apelos de um tempo que só dá valor a vencedores e capacitados. De várias formas, a ética desse tempo líquido, confuso, desestabiliza a família. O filho que passa a não mais valorizar o pai quando ele não é referência de prosperidade, de capacidade acadêmica, de projeção social. O pai que desafia ao invés de apoiar, que privilegia o sucesso e ignora a aptidão ou a limitação do filho.

Para um reequilíbrio do que seja sociedade, religião e família, há de se reencontrar com os caminhos de um passado não muito remoto, onde sentimentos como afeição, carinho e amor estavam acima dos valores do interesse, do ganho, da perda, da troca e da pretensão. Caso os valores desse ambiente mercadológico não sejam mantidos fora do interior dos lares, corremos o risco de ver se perder o maior simbolismo da referência humana e social, a família.

Que os pais desse mundo líquido, mercadológico e confuso possam manter-se seguros no exemplo do Deus que sabe alertar o desatento, exortar o altivo, consolar o desanimado e fortalecer o prostrado. Para que, diante d’Ele, inspirem a si mesmos e a seus filhos na construção de uma sociedade melhor, mais humana, fraterna, amiga e digna de ser considerada civilizada.

Rev. Nilson
______________________________________________________
BAUMAN, Zigmunt. Modernidade Líquida. Tradução Plínio Dentzien. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais – sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1999.

OLIVEIRA, Cláudio Ribeiro. O que um cristão precisa saber sobre teologia da prosperidade. Revista Caminhando v. 12, n. 19, p. 129-140, jan–jun 2006.

Published in: on agosto 6, 2010 at 4:21 pm  Deixe um comentário