Projeto Estrutural

Há muitos anos vimos num terreno perto de nossa pequena igreja, o início da construção de um grande edifício. Em poucos dias o cenário da tranquila rua mudou completamente. Primeiro vieram os engenheiros, depois tratores da terraplanagem, por fim, caminhões de terra, de pedra, madeira e, finalmente, o grupo de operários responsável pela obra.

Quando a construção começa, realmente, não se vê muito… são gastos dias, semanas e até meses nas perfurações, montagem de estruturas metálicas, concretagem e tudo mais. De repente, pode-se ter noção do tamanho da construção, da dimensão dos pilares e, assim, entender o desenho do prédio.

Depois de algum tempo de avanço ininterrupto, soubemos que a edificação tinha parado. Já havia uns cinco andares levantados e o motivo da paralisação foi um defeito na fundação. Por um problema qualquer, o prédio pendeu alguns centímetros e todo o trabalho, o tempo e o investimento, estavam ameaçados.

Não foi rápida a solução. Somente após algumas semanas é que uma empresa de engenharia, especializada em fundação, resolveu o problema levantando a grande estrutura com a formação de um imenso bloco de gelo na base, fazendo com que todo aquele peso voltasse ao prumo para ser consertado.

A lembrança daquela construção faz pensar que, como seres humanos, também somos formados de estruturas e ornamentos. Ornamentos são os detalhes que, por assim dizer, nos enfeitam, nos vestem… o trabalho, o estudo, os grupos de relacionamento, o lazer. Fundamentos seriam questões mais sérias, pessoais, como a saúde, afetividade, religiosidade, convicções, princípios e culturas. Na verdade, esta escala de valores pode ser variável pra cada um em função daquilo que a personalidade e o desejo orientam, porém, todos sabem que certas questões são essenciais para a existência e a felicidade, enquanto outras são corriqueiras e até supérfluas.

O certo é que a vida depende, de fato, da estrutura que se tem… a família, a emoção, a saúde, a espiritualidade. Se, por algum motivo, alguma dessas questões não está bem, corremos o risco de desequilibrar e a gravidade disso é ver toda a construção de nossa história ir ‘por água abaixo’.

Existe quem tente se equilibrar em cima de fundações defeituosas, que não dão firmeza. Um casamento em crise, problemas de relacionamento com uma pessoa querida, com um filho, um amigo. Questões de saúde física, psicológica e mesmo, assuntos relacionados à administração da vida, do trabalho, das finanças. O pior disso tudo é o desgaste de manter-se em pé quando existem problemas que desequilibram.

Infelizmente a modernidade nos faz priorizar o que não é prioridade e deixar de lado o que é essência. O tempo para a pessoa querida, para os filhos, para os pais… o cuidado com a saúde, com o próprio sentimento… tudo isto é fundamental para manter em ordem questões realmente importantes. Não se pode construir um prédio relacional, profissional e até emocional, sem bases sólidas… sem base, nossa vida sobe somente alguns andares e depois corre o risco de cair por si só.

É preciso dedicar tempo, atenção, emoção, dinheiro, naquilo que sustenta, efetivamente, a vida. Imagino que seja nesta perspectiva o conselho de Salomão em Eclesiastes 9 ao recomendar: “Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras. Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol.”

Quem sabe assim, a vida não seja mais prazerosa, mais abençoada, feliz e produtiva.

Rev. Nilson

Published in: on maio 21, 2010 at 11:48 pm  Deixe um comentário  

Visita

Vez por outra, o passado, como que saudoso, vem me encontrar de novo… numa cena, num olhar, em pessoas que nem conheço, ele se revela, me fazendo reviver um pouco do que fui.

Nestas ocasiões, quase sempre, surpreendo o presente que tenho, no confronto daquilo que vivi…

Não é fácil reencontrar-me com tristezas superadas, dramas, dificuldades, desilusões. Afinal, aquilo que a memória tanto custou para adormecer, que parecia ter morrido, passado, perdido… de volta? Frente a frente?

Sentir o devaneio de um momento antigo… a dor de um instante, esquecido nos dias vividos… rever-me como eu era, como queria e pensava e sabia…

Encontrar-me com um outro eu, que é parte de mim, mas não totalmente… um outro sonho, que com o tempo se realizou e já não é mais importante… experimentar novamente a angustia de problemas que hoje considero pequenos, modestos, e que foram tão imensos e incompreensíveis.

Que ironia é essa, passado meu, visitar-me assim, trazendo a ilusão como surpresa, de um tempo que eu nem me lembrava mais… e que foi, ao mesmo tempo, tão difícil e tão bom… fazer-me ver, agora, no hoje de minha história, feliz, por ter vivido o quanto quis?

E o melhor de mim, presumo, diante do que sou e de ti, é que ainda posso te ver, te sentir… não negando quem fui, nem escondendo as dores que chorei…

Te reconheço sim… também te respeito… sei quanto és meu e o quanto sou teu… como que o tempo que nos distingue nunca existisse… tornando-me um eu inteiro, íntegro, composto de um só barro… de uma só essência, de um só ontem, de um só hoje.

Nilson.

Published in: on maio 12, 2010 at 12:42 pm  Deixe um comentário  

Casa alugada

Quem já viveu em casa alugada sabe bem como é uma situação tensa. A casa alugada não é bem de quem mora nela nem de quem a tem. É metade de um, metade de outro. Um usa, cuida e paga pra isto. O outro recebe, não cuida, mas se preocupa sobre o que acontece com ela, afinal, é algo que lhe pertence.

Quem é locador, recebe o aluguel, mas, quase sempre, o considera insuficiente. O locatário, paga o valor, mas se entristece, pois usa e não adquire, desfruta, mas não tem.

O imóvel de aluguel é um espaço de passagem, não existe segurança quando se pensa nele. O proprietário vive sempre em suspeita por quanto tempo terá o aluguel… o morador, por quanto tempo terá o imóvel. Desta maneira, ninguém faz planos longos a respeito da moradia… porque ela não tem perspectiva, não inspira futuro pra nenhuma das partes.

A partir desta imagem, da casa alugada, alguém ilustrou o exercício da vida com palavras despretensiosas, mas sábias, afirmando: “Como as pessoas seriam diferentes se lembrassem que a vida é nada mais, nada menos, do que uma casa alugada”. Aquela afirmação me encabulou, trazendo, de maneira tão modesta, a realidade da existência humana, que pode ser comparada a uma casa alugada, onde ninguém tem previsão de tempo, permanência, perspectiva ou futuro.

Afinal, a vida, a saúde, o bem estar, é tudo provisório e passageiro. Não há quem possa dizer que tem ou não tem. Pois nada, na dinâmica da existência, parece ser pleno, estático e garantido. Tudo é muito transitório, temporário, instável, momentâneo. Por mais que se cuide, por mais que se previna, não há nada seguro, não totalmente, tudo é sempre cedido, alugado, somente para o uso.

Na mesma condição as coisas que se tem… o status, os postos, cargos… tudo alugado… nada eterno, tudo emprestado. Bens, que hora se tem, hora não se tem mais. Hora se domina, hora se perde… tudo muito rápido, tudo temporário e súbito.

E por mais que haja jardins, hortas, pomares e flores, cultivados com todo o apresso e dedicação… quando o proprietário pede a casa, tudo se perde. O locatário tem um, dois, no máximo três meses, se bem conversado, para sair… mas terá que deixar a moradia… que é sempre mais que casa… pois envolve bons vizinhos, boas amizades, comodidades, histórias, gratidões. Mesmo assim… tudo será ditado a partir da transitoriedade da casa alugada.

Talvez, por isso, pela sabedoria da comparação, seria, realmente, bem melhor, viver, relacionar, tratar e conceber a vida e tudo que faz parte dela tendo na lembrança que nada é tão próprio quanto parece. Quem sabe, com este tom de realismo, seria possível tratar o que se tem, o que se é e se pretende, apenas com o valor do efêmero, para que o dia a dia não seja dominado por nenhum tipo de presunção, de pertença indevida ou pela soberba de posses imaginárias.

Quem sabe assim, seja mais fácil manter a leveza de uma vida pautada no cuidado generoso de um mordomo, que, apesar de não ser dono do que usufrui, sabe tratar bem de tudo quando lhe é confiado.

Assim, será possível viver a vida com a consciência de que somos somente inquilinos de tudo que representamos… postos, cargos e funções. Como diz o texto sagrado, “Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tg 4:14).

Rev. Nilson

Published in: on maio 2, 2010 at 2:42 pm  Deixe um comentário