Chapéu redondo

Meu sogro costumava ter expressões muito curiosas que nem sei se eram frutos de sua própria imaginação ou tinham vindo da experiência de algum lugar. Uma dessas era a do “chapéu redondo”. Para ele, ter ‘chapéu redondo’ significava não ter posição, não ter firmeza naquilo que se pensa. Em sua teoria, o chapéu redondo, que não tem ponta, portanto não aponta para lugar nenhum, tampouco tem um jeito certo para ser usado, serve bem para simbolizar quem, da mesma forma, não aponta pra lado nenhum, vivendo sem rumo próprio, sem direção, convicção e ponto de vista que lhes sejam seus.

Na verdade, ele se irritava muito quando encontrava pessoas que agiam subservientes, que se negavam a si mesmas, sem uma postura, um pensamento que as identificasse.

A imagem do ‘chapéu redondo’, infelizmente, tem sido recorrente em minha mente. Nos diversos processos e lugares que ando, tenho encontrado sentido para a teoria do meu sogro de forma frequente. Parece que nosso tempo tem fabricado com muita facilidade pessoas que preferem esse tipo de chapéu àqueles com ponta, com direção. Quase sempre, vejo quem se diminua diante de idéias, posturas, orientações, como que incapazes de desenvolver algo que lhes seja próprio, genuíno.

De igual modo, cria-se uma sociedade de chapéis redondos, que, por conveniência, medo, incapacidade, ou sei lá o quê, se uniformiza, numa complacência mórbida, que destrói o poder criativo, a participação coletiva e a vitalidade social. Somos um mundo cada vez mais padronizado. E o mal disso, a meu ver, é o comodismo.

Quem tem chapéu redondo corre riscos incalculáveis. Primeiro porque se desacostuma de pensar e criar, e não há nada mais lamentável do que uma pessoa que não saiba elaborar críticas, pensamentos e posicionamentos sobre os diversos assuntos da vida. Segundo, porque esse chapéu é uma ferramenta de despersonalização, tirando do indivíduo o poder de ser diferente, de ousar, de contribuir e até de contestar. O chapéu redondo tira da pessoa o que lhe é mais nobre: a personalidade, a essência que a caracteriza como gente, como cidadã, única.

Um dos dramas que vivo no mundo contemporâneo é ver gente que eu imaginava séria trocando de chapéu por conta da comodidade, e até da omissão. Deixando ir por água abaixo convicções, valores, princípios, para não se sentir pra trás.

Um dos orgulhos que tenho na vida é o de pertencer a um grupo de pessoas – chamadas cristãs – cujo precursor teve a ousadia e a coragem de dizer em alto e bom som o que pensava, o que queria e o que era. Alguém que pagou caro pra não aderir à moda do chapéu sem pontas, sem abas, sem direção, sinalizando ao mundo que a vida não pode se curvar à vontade de uns a despeito de outros.

Não prego uma revolução chapeleira, de chapéis quadrados e triangulares. Apenas defendo que o direito de pensar deve estar garantido em todos os níveis da vida. E esse direito é o caminho mais honroso para se discutir o mundo, pois como aponta a própria bíblia, da boca de pequeninos, de pessoas pobres e humildes, pode vir solução para problemas mais tensos e complexos da sociedade.

Creio que o apóstolo Paulo já sabia, de alguma forma, da teoria do meu sogro, quando alertou em sua carta aos romanos (12:2) “…não vos conformeis com este século” – não usem o chapéu da sujeição servil, “…mas transformai-vos” – transformai a vida, a sociedade, os grupos e comunidades que frequentam, “… pela renovação da vossa mente” – pensando, elaborando posições, reflexões, “… para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Amém.

Rev. Nilson

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Published in: on abril 20, 2010 at 3:47 pm  Comments (5)  

Filhos

(pelo aniversário do Gabriel em 17.04)

Sempre defendi a idéia de que quem não tem filhos não experimentou a plenitude da vida… e me desculpem os que não têm.

É que, pra mim, quem não passou por uma noite mal dormida, com a preocupação de uma enfermidade que insiste ou pela angústia de ver uma criança, que é carne de nossa carne, sofrer com dores, não tocou naquela dependência de Deus, tão necessária para nos mostrar, de fato, quem somos.

Ser pai, ou mãe, é assumir um projeto de vida… de viver para fazer viver… alimentar-se para alimentar, acreditar para ensinar a acreditar.

Ter um filho, ou uma filha, é mais que conceber uma vida, cuidar, ensinar… é também inspirar, sonhar, prever, querer, sofrer e esperar… esperar sempre. Esperar que tudo vá bem na escola, que existam amigos, que haja sucesso, que aconteça integração, compreensão… é esperar um ‘caminhar sozinho’, autônomo, próprio.

Também é torcer pela afinidade com a vida… pela descoberta de uma vocação… pela personalidade equilibrada, e, sem dúvida, por ética, consciência, princípios.

Ser pai, ou mãe, é lançar-se num complexo projeto, numa parceria de vida, de amizade gratuita, de amor sem reservas, de sonhos comuns, de alegrias e desafios.

Creio ainda, que mais do que toda esta incumbência genética, emocional e instintiva, ser pai, ou mãe, é ter o privilégio de construir relações de amizades únicas, e experimentar o inexplicável prazer de encontrar num filho, ou numa filha, a imagem de um querido amigo, uma querida amiga.

Nilson.

Published in: on abril 16, 2010 at 6:59 pm  Deixe um comentário  

Abril

(pelo aniversário da Márcia – 14.04)

Sinto novamente o frio de abril…
O cheiro da lã e o calor de todos os meus aconchegos.
Penso nos abris que vivi…
As páscoas, o aquecer no sol, as árvores friorentas com suas folhas já sem brilho…
Lembro dos trigais, das poncãs, da geada fina sobre o chão liso… e das manhãs reservadas no silêncio da sala de estar…
O café com leite quente, o pão, a manteiga, o mel… e, claro, o bom mate, que sempre aquece a vida, a alma…

Sinto novamente o perfume de abril…
Lembro das sibipirunas, dos ipês, das flores e folhas no chão… o jardim da praça…
O vento intenso e gelado que assovia nas janelas…
Revivo boas coisas… reuniões, violões, canções… e bons amigos,
Sinto a saudade de muitos abris… abris gelados, e, ao mesmo tempo, tão quentes e doces.

Mas o que fascina esse tempo é o significado de ternura que ele tem,
E o que me encanta mais que o frio que tanto gosto, a páscoa que tanto me inspira e o aconchego tão bom que sinto…
É que abril é o mês do meu amor, da minha Márcia, da minha paz.

Nilson.

Published in: on abril 13, 2010 at 6:08 pm  Comments (4)  

Seja feita a Tua vontade

A vontade de Deus, supostamente, não se prende aos pequenos atos que tanto valorizamos… é bem maior… tanto, que nem sempre podemos alcançá-la. Antes de estar nos feitos simbólicos, que quase sempre enganam o que somos, se refere à nossa essência e sentimento.

Imagino um Deus que não está debruçado a compreender o que falamos, os gestos que temos, tampouco o que aparentamos… mas que se importa com o que sentimos e com o que nos dá sentido… mais que isto, não requer de nós somente os versos bem cantados, antes, espera o que fazemos em segredo, o que aspira e inspira nossa alma.

Acredito que Deus não é Deus de apresentação, mas de ação e reação… mais do que se interessar pelo que representamos em nossos teatros diários, presta atenção na lágrima que nasce em nossos olhos, nas dores que sentimos em nossas desilusões, na indignação que temos frente às injustiças e na coerência ou incoerência que transparecemos.

Creio que mais do que com nossas celebrações, Deus se comova com o sofrimento que nos faz chorar e com a alegria que nos provoca o canto. Não são as palavras de nossas orações que tocam Deus… são os nossos sentimentos, convicção e ética. Bem menos as liturgias, os testemunhos, mas o quanto temos d’Ele em nossos sonhos, ambições e valores. Deus ignora nossa aparência para perscrutar nosso íntimo, nossas intenções.

Penso que Deus nos prefira a sós, longe dos sons do tempo e da sociedade… Ele nos espera sintonizados em sua vontade da maneira mais profunda de nosso ser. Deus sabe bem quando queremos cumprí-la através das normas e vontades nossas, que insistimos dizer que são d’Ele.

Por isso, podemos imaginar como é difícil fazer a vontade de Deus. Talvez, fazer Sua vontade, seja, antes de mais nada, questionar a nossa própria, colocar em cheque o que somos de verdade, desvestindo nosso ego daquilo que nos torna ambiciosos, imaturos e egoístas. Fazer a vontade de Deus é lançar fora o fascínio da aparência, da omissão e a cumplicidade com o que não é justo.

Fazer sua vontade não está na palavra que emitimos, mas no calor que transmitimos através do que falamos.

Quem dera entendêssemos a vontade de Deus como algo além do que pensamos, fazemos e queremos, assumindo, desta maneira, esse caminho como uma questão inexplicável, inteligível, não correndo, portanto, o risco de reduzir o querer do Criador a quem somos e a pequenez que temos. Quem sabe, assim, isentos de toda a presunção que nos é natural, começássemos a entender melhor, como diz o apóstolo Paulo , qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Rev. Nilson (mais…)

Published in: on abril 12, 2010 at 5:49 pm  Deixe um comentário  

Um doce refúgio

Quando trabalhava nos campos do Paraná, visitando fazendas e sítios, vivia momentos especiais, que só eu, com as minhas lembranças, posso reviver. Lá conheci pessoas, lugares, sabores tão singulares e encantadores que somente o cheiro daquela terra pode descrever.

Num desses caminhos, descobri um pé de poncã… um tipo de tangerina que não é tão cheirosa, nem tão suculenta, tampouco saborosa, mas, uma delicia para quem aprecia, como eu. Ficava no meio de uma grande plantação… solitário e expressivo, reservando sua doçura para quem se aventurasse na longa caminhada que o separava da estrada.

Cada vez que vistoriava as plantações daquele campo, especialmente os trigais, quando era época de poncã, estendia um pouco meu cuidado, para alcançar a árvore com seus frutos. Até hoje sinto ‘encher a boca de água’, quando penso no sabor.

A lembrança daquele lugar e das frutas, que eram produzidas no silêncio da árvore distante, me traz o sentido das coisas boas da vida que, na sua maioria, vivem escondidas em algum caminho de nossa existência.

Nem sempre esses prazeres são públicos, conhecidos, contados… na maioria das vezes são íntimos, restritos ao nosso gosto… como segredos pessoais, familiares, que só pode usufruir quem é próximo.

Nisto podem se incluir hobbys, momentos, lugares, canções, amizades, grupos… coisas que nos dão prazer e nos fazem bem ao coração, à alma. São estes sabores secretos que podem garantir a saúde emocional. Cada um de nós precisa ter do que gostar, do que dá prazer, de um lugar, um oásis no meio dos dramas da vida, pra onde se possa voltar de vez em quando.

Não é possível viver só com a dureza da realidade que envolve sistematicamente nossos afazeres e obrigações. Precisamos criar lugares de descanso, de paz e deleite, onde possamos apenas sorrir e encontrar tranquilidade. Para viver bem, carecemos de um sabor, de alguém, de saudades, de lembranças. Quem não constrói isto, não tem pra onde correr nas horas de aflição.

Nem sei se aquele pé de poncã ainda está lá, naquele trecho de terra boa da zona rural da minha cidade. Tenho aquela lembrança como um refrigério para minhas saudades, o que, de alguma forma, me ensinou a criar outros tantos espaços na vida que me deram condição de sobreviver nos momentos difíceis. Lugares, pessoas, sabores, que garantiram o equilíbrio capaz de trazer novamente o sorriso e a paz.

Rev. Nilson.

Published in: on abril 7, 2010 at 11:28 pm  Comments (2)