Amor exigente


Noutro dia, participando de uma reunião de pessoas envolvidas no combate e prevenção de dependência química, ouvi esta expressão: ‘amor exigente’. Pouco depois, soube que se trata de um movimento que trabalha voluntariamente pela valorização da vida. Na verdade, o ‘amor exigente’ nasceu da experiência de um casal norte-americano que enfrentou sérios problemas com suas três filhas que eram dependentes químicas.

Consta que chegando ao Brasil, o movimento se transformou numa espécie de programa de reeducação familiar, como uma proposta comportamental, destinada a pais, orientadores, educadores e familiares em geral como forma de prevenir e solucionar problemas com os alunos, filhos, entes queridos. Em grupos de apoio e ajuda mútua, os pais, professores e familiares são encorajados a agir em vez de só falar; desencorajados de usar violência ou agressividade e levados a construir a cooperação familiar e comunitária.

Mas o principal de tudo isto foi o fato de ver juntas duas palavras, que no meu entender, há muito, estão separadas. Amor e exigência. Isto que me assustou. Desde muito não vejo com frequência o que era normal em meus tempos de infância, pais, mães, professores e pessoas mais velhas sendo rígidas, mesmo que se tivesse plena consciência do amor, respeito e consideração.

A união dessas duas palavras também levaram meu pensamento a outros níveis de relacionamentos, como a amizade, por exemplo. Amizade que atualmente vive o paradoxo do não compromisso, da não consideração, da não fidelidade, do não amor. É lamentável para quem viveu em outros tempos, hoje, se deparar com o lema “amizade, amizade, negócios à parte”. Mais que isto, sabemos que em tempos atuais, não são só os negócios que vivem à parte das amizades… também a ética, a confiança, a lealdade, a verdade, e por aí vai. As amizades modernas vivem à parte de quase tudo. Vivemos num tempo em que não se exige mais nada de ninguém, nem de quem se ama.

Ao contrário desse ‘amor ligth’, preconizado pela modernidade, o amor de Deus e por Deus, está acompanhado de exigências. Não de exigências legais, circunstanciais ou punitivas, mas de reivindicações naturais de quem ama e de quem é amado. No evangelho de João, cap. 14 lemos: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama”. O amor em relação a Deus não é isento de responsabilidades, compromissos… parece mesmo que o amor de Deus é o tal ‘amor exigente’.

Quem sabe concluíssemos que vivemos a crise do amor não-exigente. Do amor que não exige, portanto, não espera, nem cria sonhos em conjunto, nem se compromete, nem se oferece, bem menos, se sacrifica. Assim, insistimos viver em sociedade, em família, em coleguismo, em amizade, sem ter alguém que se possa exigir, portanto sem alguém com quem se possa contar e, efetivamente, amar.

Quem sabe seja o momento de exigirmos mais de nós mesmos, de nossos amores, de nossas amizades, para que haja, de forma real e palpável, a tão esperada vida comum, amiga, irmã, fraterna.

Rev. Nilson.

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Published in: on março 29, 2010 at 5:22 pm  Comments (2)  

Meus amores, eu, o chimarrão e os gatos.

Desde sempre sou pequeno… por incapacidade, modéstia, ou opção mesmo… não sei. O que sei é que não sou grande porque não quero, não gosto… ser grande é ruim… chama a atenção.
Desde sempre sou eu… pouco me importam as impressões que provoco… pelo menos não forjo os sentimentos que, quase sempre, emito com muita facilidade.
Gosto da língua simples… mesmo que não consiga me expressar bem nela… nem nela, nem na qualificada… me confundo com as palavras e com os pensamentos… nem sempre verbalizo bem o que sinto, o que quero.
Gosto de quem sou… a minha vida é sempre plena, mesmo quando não tenho tudo o que gostaria… na verdade, posso dizer, que me faltam só os acréscimos… aliás, confesso, tenho mais que o essencial… meus amores, eu mesmo, o chimarrão e os gatos.
Deles, sou um orgulho só… meus amores são belos… minha esposa, meus filhos e poucos amigos de verdade… além disso, o chimarrão, que me aquece a alma – e o esôfago – e os gatos… amigos preguiçosos, sinceros, sistemáticos, mas presentes e belos… ternos.
Sou o que gostaria de ser… sei o que quero saber… tenho mais do que imaginei. Tenho alma, sentimentos, carinho e presença… tudo isso, mais nada.

Nilson.

Published in: on março 15, 2010 at 6:00 pm  Deixe um comentário  

A crise do porco sem dono

Quando criança, ouvia muitas histórias, contos e termos que mostravam em palavras nossa cultura. Dentre as várias frases que me lembro, ficou marcada em minha mente a curiosa afirmação de que “é o olho do dono que engorda o porco”.

Ainda pequeno este pensamento não fazia muito sentido pra mim. Tentava encontrar uma explicação que me convencesse como um porco poderia ser engordado apenas com o olhar de alguém. Com a maturidade, entendi que este ‘olhar’, na verdade, se referia ao cuidado, à presença e à dedicação do criador por seu animal, o que, fatalmente, traria melhor desenvolvimento.

De muitas formas, hoje em dia, me reporto àquela afirmação que ouvia na infância. Sempre que me deparo com processos onde existe descuido e desatenção, sou levado à crise do porco sem dono, imaginada pelo ditado que aprendi.

Seja na família, em relação ao cuidado que pais devem ter com seus filhos, no contexto conjugal, ou mesmo no relacionamento entre líderes e liderados, podemos afirmar que não há desenvolvimento, harmonia, saúde e vitalidade onde não haja cuidado e atenção.

Para ver crescer, prosperar e realizar qualquer coisa, é preciso dedicar tempo, vontade, olhar e carinho. É impossível, assim como para o animal sem cuidado, que alguma coisa boa resulte do desamparo, da distância e da ausência.

Infelizmente, a modernidade, e com ela a tecnificação da vida, tem gerado um sonho de que possa ser possível construir pessoas e alianças sem proximidade. Infelizmente, a tecnologia tem embaçado a consciência de muitos líderes, confundindo sua função e responsabilidade enquanto inspiradores de pessoas. Assim, nasce a convivência à distância, na ‘presença’ imaginada da virtualidade.

A própria fé, agora, se rende a esta distância falsificada em proximidade, inventando orações, reuniões, confissões, interações, ‘on-line’… e o mais drástico é que esta ferramenta corre o risco de substituir, de fato, a relação pessoal, a imagem real. O que poderia ser meio, acaba sendo objeto último, fim absoluto.

Quanta gente sofre de ausência de sentido, de orientação e inspiração. Quanta gente vive equivocada, resultado de uma liderança equivocada e distante, incapaz de perceber o atrapalho que seu distanciamento gera nas estruturas e direcionamentos. Quem deveria se fazer presente, vive como se fosse Deus, na presunção de ser onipresente, onisciente e onipotente, decidindo, resolvendo, agindo e reagindo como se em todo lugar estivesse, de tudo soubesse e de tudo fosse capaz.

É preciso cuidar com a resignificação dos valores da vida. Especialmente se isto colocar em risco o essencial da vivência comum, o relacionamento, a proximidade, a intimidade e o companheirismo.

Espero que a crise do porco sem dono não se transforme na crise da ovelha sem pastor, que é incapaz de crescer e se desenvolver porque sofre da falta de cuidado, de presença, de orientação e de amizade.

Rev. Nilson

Published in: on março 4, 2010 at 1:43 am  Deixe um comentário