A palavra que é viva e eficaz

Hebreus 4:12 afirma que a palavra de Deus é viva e eficaz, mas para mim, tem sido bastante difícil ver, de fato e de verdade, sua identificação com a vida e sua eficácia no dia a dia das pessoas. Normalmente, o que mais se observa são palavras recheadas de demonstrações teóricas e vazias, embasadas em um cristianismo estagnado na história e na filosofia.

Nesta semana, no entanto, no culto dominical da Igreja Metodista do Matão, em Piracicaba, presenciei alguma coisa que me fez reencontrar o cristianismo real e transformador que todos e todas nós tanto almejamos.

Em sua mensagem pastoral, o Rev. Levi, sob a inspiração do lava-pés, quando Jesus provoca seus discípulos a se fazerem servos, seguindo seu exemplo, desafiou a Igreja a uma tarefa de extrema prática do amor cristão. A partir de algumas fotos, projetadas no telão, apresentou à comunidade o drama de um senhor chamado Urias. As cenas mostraram o estado da moradia desse senhor, na verdade, algo mais parecido com uma ruína do que com uma casa. Enquanto víamos a precariedade das paredes que pareciam ceder a qualquer momento, soubemos que ele já havia sido retirado daquela tristeza e se encontrava abrigado nas dependências da igreja.

O desafio foi lógico. A necessidade de construir uma pequena casa para dar o mínimo de dignidade de vida aquele homem. Sem apelo financeiro, a igreja foi chamada a construir uma pequena moradia, o que me alegrou muito. Mas o que me trouxe ainda mais espanto, foi saber que aquela comunidade, com este projeto, construirá a terceira casa para pessoas carentes, sendo que a última foi entregue no final do ano passado.

Isto tanto me contenta que preciso testemunhar. Uma comunidade simples como a do Matão, construir três casas para ajudar quem precisa é a manifestação mais viva e eficaz da Palavra, do Amor e da Graça de Deus que vi nos últimos tempos. Enquanto muitas Igrejas brigam pelos poderes, cargos e tradições, vemos uma comunidade transformando, efetivamente, a vida das pessoas.

Que bom saber disso. Que bom participar disso e perceber que ainda existem esses oásis de espiritualidade prática, onde, realmente, os valores do Reino de Deus saem das letras e se materializam fazendo diferença e mudança em quem se aproxima deles.

Parabéns ao Pastor Levi, parabéns a Igreja Metodista do Matão em Piracicaba. Deus seja louvado pela vida e pela sensibilidade dessa gente simples e fraterna!

Rev. Nilson.

Anúncios
Published in: on fevereiro 23, 2010 at 12:00 pm  Comments (1)  

Gaiolas sem portas


Tive um amigo, Gilmar Cardoso, com quem trabalhei numa cooperativa agrícola, muito ligado à natureza. Por isto, passou a cultivar vários tipos de plantas, frutíferas e ornamentais no quintal de sua casa. O lugar se tornou aos poucos um belo espaço verde.

Lembro-me do quanto queria ter pássaros em casa e, apesar da tentação de comprar filhotes para formar um viveiro, descobriu que poderia atraí-los naturalmente com algumas técnicas. Percebeu que se disponibilizasse comida, viriam completar seu recanto. Foi o que fez. Desenvolveu um comedouro de madeira com uma espécie de bandeja sobre uma estaca de aproximadamente dois metros de altura. Ali colocava pedaços de frutas e pequenas porções de grãos.

O resultado foi ver chegar, pouco a pouco, bem-te-vis, pardais, pombas, andorinhas, além de pássaros mais raros, que eu nem saberia lembrar os nomes. O Gilmar transformou seu quintal num equilibrado jardim com a magnífica presença de pássaros que, nas manhãs e tardes, presenteavam a todos com uma bela sinfonia.

Aquela experiência me faz, depois de tantos anos, pensar nos pássaros criados nos quintais das casas. Aves que não têm a mesma sorte daquelas que conheci na casa de meu amigo. Cuidadas, alimentadas, reproduzidas e preservadas, mas sem a liberdade daquelas outras, cantando e embelezando, engaioladas, a troco de um bocado de alpiste.

O que mais me intriga é pensar que, de outras formas, a fé, que se organiza e se institucionaliza cada vez mais, funciona na vida de muita gente como as gaiolas dos pássaros. Gaiolas que podem até ter a intenção de preservar, cuidar, mas, mesmo assim, tiram a liberdade e a espontaneidade. Gaiola que livra do perigo das ruas, das agressões e até da morte, mas ao mesmo tempo, tira o brilho do vôo livre e natural.

Sinto o dilema dos pássaros na realidade da religião, que se por um lado protege, por outro escraviza, se por um lado livra da morte, por outro, priva da vida.

O que será melhor?

Por ironia, uma amiga de minha esposa, ganhou uma gaiola e, não admitindo a possibilidade de criar pássaros presos, resolveu colocá-la como enfeite, sem as portas, num dos cantos de seu quintal. Mesmo assim, disponibilizou frutas e alimentos para aliviar a fome dos passarinhos que por lá voavam e, para sua surpresa, teve a gaiola cheia com muitos deles. Noutro dia contou isto à minha esposa e disse que quando as pessoas a visitam ficam impressionadas com os belos pássaros que possui na gaiola e, ainda mais, quando descobrem que, na verdade, eles estão soltos, podendo entrar e sair quando bem entenderem.

Quem dera pudéssemos reelaborar a prática da religião de forma que não se construísse no coração das pessoas esta encruzilhada que leva ou para a liberdade mortal ou para a clausura. Quem dera tivéssemos a confiança de que o que cremos pode libertar sem a necessidade de engaiolar em conceitos, costumes e interesses.

Quem dera.

Rev. Nilson.

Published in: on fevereiro 7, 2010 at 12:44 pm  Deixe um comentário