Nem demais, nem de menos.

balança

Já se disse que tudo que é demais faz mal. Gostaria de dizer que tudo que é de menos, também.

Num dia desses, o Jornal Hoje, da Rede Globo, fez uma reportagem mostrando que a dose correta de cálcio, pode reduzir a gordura do abdômen e, para a minha surpreza, a matéria apresentou uma senhora que perdeu quinze quilos com uma dieta à base de leite e queijo, ou seja, rica em cálcio. Porém, no final, o repórter, alertou que para um bom resultado, é preciso que se ingira a dosagem certa de cálcio, de 1000 a 1200 ml/dia, nem mais, nem menos.

A partir do telejornal, reforcei minha antiga convicção: os excessos são prejudiciais, mas a dose certa, é sempre salutar. Tudo é bom e tudo é ruim, sem exceção. Água em pouca quantidade, mata, mas em grande quantidade, também. Assim acontece com a alimentação, com os exercícios físicos, com a proximidade com as pessoas. A propósito disso, um amigo que tem uma tese muito sábia, diz ele: amizade boa, acontece quando se tem a distância de um braço esticado… se você se aproxima menos que isto, é ruim, mas se afasta mais que isto, também.

Há quem se prejudique com muita razão e quem, ao contrario, tenha danos sérios na vida, por ser só emoção. Há quem sorria muito e seja de difícil relacionamento, mas há ainda quem seja tão sisudo que espante todo mundo. Por isso insisto: tudo que é demais, faz mal… qualquer extremo é patológico. Pra mim, isto deve ser levado em conta para se viver bem. Nada justifica o excesso e qualquer excesso é um princípio de obsessão.

O ideal é a dose certa, a boa medida, o bom tempero do que fazemos. Isto nos remete ao equilíbrio da vida, que em sua plenitude, não é tanto lá, nem tanto cá, é equilibrada.

Apesar disso, o meio termo, o equilíbrio ou a dose certa, como queiramos chamar esse ideal do bem viver, é um exercício muito complexo. Normalmente, as pessoas vivem mais confortáveis quando estão desequilibradas, ou equilibradas num ponto diferente do que seja o central. Por incrível que pareça, isto acontece. Existem pessoas que preferem se manter a alguns metros da linha central das questões mais tensas. Quem se coloca no meio, buscando um maior balanceamento, é rejeitado pelos dois pólos da balança, pois não pertence a nenhum dos dois pontos. Quem assim procede, é acusado de não ter lado, de não ter opinião, e de querer a amizade de todos. Quase sempre, quem procura contrapesar amizades, tensões, tendências e pontos de vista é quem consegue ver qualidades e defeitos dos dois lados e almeja a amizade mais do que discutir opiniões.

Procurar uma dose certa, ideal, equilibrada das coisas, passa a ser pecado mortal num mundo que se constrói em partidos, facções, linhas de pensamento e tendências, porque existem pessoas que preferem se ferir e se matar por conta de suas diferenças.

Quem procura a dose certa, não é quem procura a neutralidade. A neutralidade é, quase sempre, transvestida de omissão, que é, em todas as horas, maléfica e há formas difíceis, mas possíveis, de se manter em equilíbrio, sem se manter neutro. Basta fazer bom uso da coerência, da honestidade, da imparcialidade, do bom senso e da boa vontade.

Acredito que um dos grandes ensinamentos de Cristo seja o de viver equilibradamente, sem exageros, afinal, suas ações demonstraram isto… talvez o que o possibilitou ser tão ríspido no relato de Mateus 7.28, com uma mãe que o procurava para curar seu filho, ou tão tolerante no relato de Lucas 19.5, com um cobrador de impostos, desonesto, com quem foi almoçar. E o que dizer de como era exigente com Pedro, o apóstolo e, ao mesmo tempo, compassivo com Judas, que o traiu.

Jesus podia ver o bem e o mal das pessoas e o que as tornaria mais equilibradas em sua auto-estima, em sua fé. Jesus tinha a capacidade de puxar o desacreditado de sua amargura, assim como de resistir a falsa carência de um necessitado. Jesus queria que as pessoas que com ele estavam, percebessem, que o bem da vida está na capacidade de manter-se equilibrado entre a crença e a dependência, a força e a fraqueza, a ação e a espera, o saudável e o doentio.

Rev. Nilson.

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Published in: on junho 23, 2009 at 1:32 pm  Deixe um comentário  

Olhai os lírios do campo

lírio do campo

Enquanto aguardávamos para passar nossa compra no caixa de um supermercado, eu e minha esposa, notamos que uma senhora que estava à nossa frente – grávida e com dois filhos pequenos – selecionava o que ia levar. Alguns produtos iam para a cobrança e outros eram deixados no carrinho. Percebemos que o caso era financeiro… e, quando, finalmente terminou a ‘seleção’, fechou a compra e pagou com alguns trocados que tinha na bolsa.

Um dos filhos, de aproximadamente cinco anos, ao perceber que o pacote de bananas fora deixado, começou a chorar, exclamando alto: “a banana, mãe! A banana!”… aquilo cortou nosso coração. Imediatamente chamamos a senhora e dissemos que passaríamos o pacote de bananas, ao que ela e o menino nos agradeceram muito. O pacote custou pouco mais de um real!

Fatos assim, apesar de serem, quase sempre, invisíveis aos nossos olhos, acontecem frequentemente… debaixo de nosso nariz. Infelizmente, existem carentes de migalhas, que, todos os dias, caem de nossas mesas… sem que percebamos. Pessoas que passam por necessidades pequenas demais para considerarmos possíveis.

A vida urbana, ao contrário disso, nos faz olhar para outros lados. Somos atraídos pelas janelas que nos assediam em nossas ‘navegações’ pela internet… televisores, celulares, computadores de última geração e automóveis, muitos automóveis, dos mais diversos modelos e marcas, cada um mais sofisticado que o outro.

Temos nossa vida atormentada pela diversidade da cidade… e pelos seus vários encantos. Os supermercados com suas guloseimas, os shoppings com seus atrativos sem fim. As roupas, os sapatos, relógios, eletrodomésticos, eletrônicos, artigos de decoração, perfumes, cosméticos, cinemas, teatros, restaurantes e coisas afins. Tudo isto distrai nossa atenção, nos enchendo de um ‘sem fim’ de necessidades.

Isto nos leva à ansiedade! Nos faz precisar de mais… preparo, para sermos mais competitivos, dinheiro, para comprarmos mais, beleza, para seduzirmos mais e termos mais atenção, destreza, para chegarmos primeiro às melhores conclusões, inteligência, para melhor nos destacarmos.

Assim, corremos muito, sem nem saber aonde ir… somente pela excitação da velocidade, que nos faz mais rápidos que os outros, sem perceber os que vão pelas margens, sem condição, sem oportunidade, sem saúde, sem tudo o que os colocaria em pé de igualdade com o mundo feroz que os cerca.

Esse cenário nos faz lembrar das palavras de Jesus, descritas por Lucas (cap.12) ao tratar exatamente sobre este assunto dizendo: “…não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir (…) observai os lírios; eles não fiam, nem tecem. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.” Jesus advertia para que seus discípulos não entrassem nessa ‘roda viva’, nesse frenesi que contagia a sociedade, que distancia da vida, da essência, do principal.

Mais que isto, Jesus dizia, “olhem para os lírios”, para a simplicidade da vida, para a naturalidade e a fragilidade que é capaz de trazer paz, sossego, verdade, sentimento e sentido. E cá com meus botões, penso que ao recomendar “olhem para os lírios”, Jesus queria ponderava também, “olhem para aqueles que não têm ninguém por si, que vivem sós, desamparados, sem as condições que vocês têm, de se alimentar, de se vestir, de prosperar, de pensar e querer algo melhor do que possuem” … “olhem melhor para suas vidas, para o que estão fazendo com elas, para o exemplo que estão dando a quem vem depois, e o que estão construindo dentro de si”.

Rev. Nilson

Published in: on junho 11, 2009 at 1:19 pm  Comments (3)  

A ilusão de Pasárgada

Pasárgada

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886. Depois de muitas idas e vindas, passando pelo Rio de Janeiro e Santos, Bandeira, em 1903, já residindo em São Paulo, se matricula na escola politécnica, pretendendo ser arquiteto, onde estuda, simultaneamente, desenho e pintura. Somente em 1912 é que começa escrever seus primeiros versos livres.

É dele um dos mais famosos poemas brasileiros… “Vou-me embora pra Pasárgada”. Pasárgada significa “campo dos persas” e é atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, no Irã, situado 87 km a nordeste de Persépolis. Foi a primeira capital da Pérsia Aqueménida, no tempo de Ciro II da Pérsia, e coexistiu com as demais, dado que era costume persa manter várias capitais em simultâneo, em função da vastidão do seu império: Persépolis, Ecbátana, Susa ou Sardes. É hoje um Patrimônio Mundial da Unesco .

Mas para Bandeira, Pasárgada era uma terra fantasiosa, onde, de alguma forma, todas as suas frustrações e mazelas poderiam ser esquecidas ou superadas. No sonho dessa terra, o poeta deflagra suas utopias mais íntimas, reiterando o motivo desse desejo intenso de partir. Muitas alegações são colocadas… diz ele: “Lá sou amigo do rei”… “lá tenho a mulher que eu quero”… “aqui não sou feliz”… “lá a existência é uma aventura”… “e como farei ginástica”… “montarei em burro brabo, subirei no pau-de-sebo, tomarei banhos de mar! … e quando estiver cansado, deito na beira do rio”. E no seu iludido devaneio, justifica: “Em Pasárgada tem tudo, é outra civilização (…) tem telefone automático…”.

Segundo a crítica literária, Manuel Bandeira não tinha lá uma vida feliz. Seus problemas de saúde impediam que ele fosse “tomar banhos de mar”, e a realidade em si era algo deprimente. Pasárgada é um reino no qual ele pode ser feliz. O desejo de escapar da realidade foi o que consolidou Pasárgada, lugar no qual ele é amigo do rei, pode ter a mulher que ele quiser, terá mimos da infância (afinal, alguém vai contar histórias para ele), poderá praticar exercícios sem temer os problemas oriundos da tuberculose.

Mas não se pode julgar mal este poeta que encontrou em sua poesia uma solução transcendente para seus dilemas mais profundos… afinal, de alguma maneira, em algum momento, cada pessoa constrói uma Pasárgada para si… um país imaginário, ou mesmo real, onde as frustrações dos problemas diários encontram solução… um lugar para onde se deseja partir, ou fugir… mesmo que seja somente para ter a chance de deixar pra trás o que, supostamente, não é bom.

O cenário bíblico nos conta de uma pasárgada também… nos evangelhos, logo após o sacrifício de Cristo, dois de seus discípulos partem para uma pasárgada chamada Emaús – uma cidade próxima de Jerusalém. Era um momento difícil, triste e frustrante… o mestre Jesus, havia sido preso, mal tratado, humilhado, torturado e morto e todo o projeto de vida daqueles homens, aparentemente, havia caído por terra.

De algum jeito, cada pessoa, passa por momentos difíceis, desses em que se deseja partir. Normalmente, a visão da emoção, nessas horas, se volta para algum lugar que, diante da ansiedade e da aflição, torna-se ideal e, assim como no caso do poeta, a ilusão toma o lugar da razão criando oásis de felicidade e realização, mesmo que isto não corresponda com a realidade.

A esperança de viver melhor, longe de limitações e situações desagradáveis, para o poeta, estava em Pasárgada e para os discípulos de Jesus, o melhor lugar para estar naquele momento de decepção, era longe de Jerusalém, mesmo que fosse num vilarejo chamado Emaús. Mas a Pasárgada imaginária de Manuel Bandeira, nunca existiu de fato, assim como Emaús, era somente uma fuga da realidade dura e desafiadora.

É preciso tomar cuidado com a ilusão de Pasárgada, para não cair na tentação de deixar a Jerusalém da vida, que é simbolizada pela situação difícil, mas necessária para quem quer passar pela incrível experiência de ver Cristo ressuscitar, trazendo de volta a possibilidade da vida plena, de alegria, sucesso e realização.

Rev. Nilson.

Published in: on junho 1, 2009 at 10:51 am  Deixe um comentário