Um dia vou ter um sol!

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Minha esposa recomeçou sua vida docente após ser aprovada num concurso público. Dar aulas para crianças do ensino infantil é um ‘sonho de consumo’ para ela.

Após a primeira impressão, veio a aproximação maior com os pequeninos – ela está num momento de estágio para se ambientar com os processos pedagógicos. Observando a professora que, sabiamente, trata com a diversidade de personalidades do grupo de alunos, passou a formar dentro de si as personagens que fazem parte dele.

Existem lá os chorões, os briguentos, os que sabem se expressar, outros que, segundo ela, falam muito, mas ninguém entende o que dizem… uns precisam de assistência maior, outros são mais independentes, enfim, o que seria natural numa turminha de crianças com idade média de quatro anos.

No segundo dia, ela percebeu um detalhe… melhor, dois… dois “bebezinhos” ainda, deficientes visuais, o que muito a consternou. Contou que um deles é emburrado, quieto e de trato mais difícil, enquanto que o outro é sorridente e brincalhão. Disse que as professoras das “classinhas”, têm um jeito especial com ambos e sabem tratá-los com naturalidade, desafiando-os à vida que, certamente, é mais complexa para eles.

Mas uma cena especial fez doer seu coração… quando o menino mais extrovertido, num dos momentos de brincadeira com os amiguinhos, exclamou alto e, aparentemente, sem motivo: “Um dia vou ter um sol!”.

Quando ouvi esta pequena história, que me comoveu muito, comecei a pensar como o menino pôde falar aquilo… sem perceber a dimensão do impossível que tocou e, ainda que tenhamos fé e saibamos que diante de Deus sua deficiência pode se reverter, é impactante imaginar qual sentimento o levou a dizer aquilo.

É a esperança! Concluí. A mesma esperança que faz aquecer o coração dos que olham para a realidade, sem ver saída para o seu problema… do faminto que sonha com a possibilidade de se alimentar, com o desabrigado que se infla na certeza que poderá reconstruir seu lar… do desprotegido que espera pelo socorro na hora da angústia.

Mais que esperança, a afirmação daquele menino tem a ver com um sonho… que o faz ter o prazer antecipado do que ainda não é possível… num exercício de consolo e conforto que o faz superar a desolação.

Mais que isso tudo, é Fé! É essa certeza que o improvável um dia se tornará realidade, que o impossível se tornará possível, que o inexistente virá, inexplicavelmente, a existir e, acima de tudo, que vale a pena viver, sorrir, querer… mesmo sem ver o sol que todos vêem, mesmo sem ter a luz tão necessária para se guiar, mesmo que haja uma esperança diferente de que se o sol de todos não for possível, haverá um sol a brilhar na escuridão de suas limitações… um sol, mesmo que seja só seu, e que somente ele possa ver.

Quem dera tivéssemos também essa fé transcendente, declarada por aquele garoto… quem dera tivéssemos a alegria da espera, mesmo que fosse de algo improvável, ou mesmo impossível, quem dera pudéssemos nos encher de uma esperança maior do que nossa possibilidade, para poder sorrir, viver e sonhar diante do sentimento mais desafiador da vida, a fé.

Rev. Nilson.

Published in: on maio 23, 2009 at 2:42 pm  Comments (1)  

A nova família, a antiga recomendação (pelo mês da família)

A família

Presume-se que em algum lugar do passado tenha sido tarefa fácil pensar sobre família. Este parece não ser o caso do mundo contemporâneo. Se entendermos família como um grupo de pessoas que vivem sobre o mesmo teto e se caracteriza, especialmente, pelo laço sanguíneo, étnico e de ancestralidade, podemos dizer que as coisas não funcionam mais desta maneira. A família moderna, ou pós-moderna, não se amolda mais nos antigos padrões sociais. Nem sempre contém um pai, ou mesmo, uma mãe. E se existem filhos, não é de se esperar que sejam do mesmo pai, ou da mesma mãe. Pode até ser que sejam somente de um ou de outro, sem ligação de parentesco. Os casais nem sempre são casados – da forma tradicional, civil e religioso – às vezes são como namorados. A propósito, o namoro atual é como o casamento antigo, com relações mais sérias como vida sexual e financeira.

Segundo dados do IBGE nas duas últimas décadas houve uma queda substancial do tamanho da família em todas as regiões: de 4,3 pessoas por família em 1981, chegou a 3,3 pessoas em 2001. O número médio de filhos por família é de 1,6 filhos. Em 2002, o número médio de pessoas na família se manteve o mesmo em quase todas as regiões e por isso a média para o país se manteve em 3,3 pessoas, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2003. O número médio de filhos apresentou uma diferença mínima em relação ao ano anterior: de 1,6 para 1,5 filhos na família em domicílios particulares. A socióloga Ana Lúcia Sabóia, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), diz que o processo de queda do número de pessoas na família brasileira “além de intenso, aconteceu em um tempo muito curto. Nos países europeus, esse decréscimo demorou cinquenta anos”, afirmou a especialista.

O formato familiar também sofreu acomodação. Em nossos dias sabe-se de avós que cumprem o papel dos pais, ou famílias lideradas somente pela mãe, ou somente pelo pai. Há também estruturas mais complexas, com mãe e avó ou pai e avó, ou ainda, mãe e pai com padrasto e madrasta. Também casais homossexuais que passam a formar famílias de pai, pai e filho ou mãe, mãe e filho. Além disso, algumas famílias são formadas somente de irmãos e irmãs, outras somente de casais, outras de pessoas que se aproximam sem fins afetivos, mas que por diversas razões, acabam exercendo mutuamente o papel de cuidadores.

Os valores presentes na modernidade também incidem sobre os moldes familiares. O pluralismo, como capacidade multidisciplinar de interpretação das questões da existência, tão adequado aos novos contextos da civilização, favorece o surgimento de conceituações diversas sobre a qualidade e o modelo de vida. Assim, as variadas opções do comportamento humano tornam-se plausíveis numa mesma sociedade. Por consequência, surge o individualismo, que valoriza a autonomia individual em detrimento da hegemonia da comunidade, formando em cada um o status de ‘ser exclusivo’, enfatizado por conceituações pessoais em prejuízo de um comportamento familiar.

A ocorrência de fatores tão diversos faz nascer uma nova personagem social, capaz de estabelecer sua individualidade de maneira evidente, mesmo como participante de um grupo característico como a família. Este fato gera um antagonismo pessoal diante do sentimento de pertença e de autonomia, criando ambientes de proximidade e distanciamento simultâneos, onde a pessoa torna-se distante de quem é próximo e alheio de quem com ela come e dorme. Nesse contexto está a família contemporânea, como instituição reorganizada pelos diversos desafios que a vida moderna impõe.

Além de tudo isto, porém, estão fatores como afetividade e emoção, que tratam sobre quais sejam os últimos anseios da vida humana. Próximos, distantes ou em relacionamentos diversos entre pais, irmãos, padrastos, madrastas, avós e companheiros, os processos de convivência estão sempre dependentes desse fato e por mais que se queira evitar embates que envolvam a alma, como sentido do que somos, a vida sempre nos remete ao mesmo ponto, como numa insistência intensa de nos fazer viver cada vez melhor.

Um ponto importante dessa discussão está além de nossa razão, toca diretamente o coração e se traduz por uma só palavra: amor. A partir disso, nos lembra o apóstolo: “…se não tiver amor, nada serei” , quem sabe nos provocando para o fato de que para se viver, há que se amar e, de maneira mais específica, para se viver em família, há que se promover a prática desse sentimento transformador.

Se, frente aos novos momentos sociais existem desafios que unem pessoas diferentes de baixo de um mesmo teto e, ao mesmo tempo, separa os que são iguais… se a revolução de poder, ciência, sexo, direito e religião nos desestrutura em nossos antigas bases… se nem sempre existem explicações prontas para as novas situações a que somos submetidos… há de se pensar, primeiramente, em temas como respeito, tolerância, persistência e desprendimento, como valores que garantam as ligações da amizade e do bem viver. Se, como pais, filhos, parentes ou agregados, não formos capazes de garantir que o amor complete nossos espaços de diferença, num exercício permanente de quem se deseja próximo, então haveremos de lamentar a tristeza da desesperança e da separação.

Se, de tempos em tempos, for necessário, rever processos, posturas e comportamentos, precisamos saber que isto não poderá ocorrer sem antes garantir o básico da vida, a veia mestra que alimenta nossa capacidade de sonhar e sorrir, a habilidade de amar. Como lembrou o apóstolo, é impossível viver sem amar… é impossível conversar sem amar, entender, ceder, reverter, reviver.

Talvez seja oportuno lembrar a memorável poetisa Cora Coralina:

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar

Que Deus abençoe nossas famílias através de nós e nos abençoe através da possibilidade de amar.

Rev. Nilson.

*ilustração: A família, de Tarsíla do Amaral
Dados do IBGE, em http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/familia.html#anc1 – visitado em 12 de maio de 2009

Published in: on maio 18, 2009 at 12:12 am  Comments (3)  

Sobre a pressa

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Alguém disse que ‘a pressa é inimiga da perfeição’… quem sabe poderíamos dizer que ela tem outras inimigas… a paz, a tranquilidade, a sensibilidade, a harmonia e a felicidade.

A pressa nos leva a ignorar questões significativas da vida, nos impulsionando mais do que precisamos. Na velocidade da pressa, não notamos amizades potenciais, não nos detemos pelos olhares, sorrisos, expressões de afeto… a pressa nos isola de um sem número de momentos especiais, desses que tem a finalidade de adoçar a vida.

Ela quase sempre nos surpreende com preocupações distantes… o amanhã, o depois, o mais tarde, que deveriam ser calmamente aguardados e que se tornam foco de nossa atenção… a pressa, nos faz viver a incrível experiência do transitório, já que tem o poder de nos tirar do agora, que é real, e nos levar para a irrealidade do que ainda não chegou. Assim, não vivemos nem o hoje, nem o amanhã… vivemos, simultaneamente, a esperança do que não temos e a frustração do que está passando sem merecer nosso cuidado.

A pressa rouba de nós a vida.

Quem tem pressa, come cru, não vê a vida passar, não observa integralmente a ternura da pessoa amada, não percebe a evolução dos filhos, não sabe bem como é o nascer e o pôr do sol, não cultiva com atenção as amizades, não se integra totalmente em um grupo, não se alegra por pequenas coisas, não percebe os grandes motivos de estar vivo, não se lança totalmente no propósito de ser feliz, nem se detém… quem tem pressa perde tempo precioso… perde boas oportunidades de crescer, de entender, de aprender, depender e sentir. Pois quem não contempla, não emociona e se emociona, não toca e não é tocado, não passou pela magnífica experiência de olhar a vida frente a frente.

Mas a vida, de certa forma, requer de nós que tenhamos pressa, nos acelerando em suas preocupações e demandas. O cotidiano nos mostra que tempo não é somente dinheiro… tempo é oportunidade, agilidade, astúcia… pois, no imaginário social, quem tem o poder de executar várias tarefas ao mesmo tempo, supostamente, pode mais do que quem só se concentra em uma tarefa… por isso, rapidez ganha agora significado de competência e eficiência… ser rápido remete à inteligência e ao sucesso.

Mesmo parecendo ser impossível viver sem pressa, é necessário repensar a velocidade da vida… encontrar um ritmo que nos equilibre entre a pressa e a lentidão, a satisfação e a ansiedade, o atropelo e a mansidão.

A solução para esta questão parece estar próxima do que o contexto bíblico chama de ‘espera’. Um dos textos que mais nos faz lembrar desta expressão está nos Salmos (Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR – Sl.27.14). A palavra que é traduzida por espera ali, é qavah, que tem origem hebraica e significa aguardar, esperar.

Conjugar estes verbos parece complicado diante de todas as tensões que nos assediam diariamente, mas, aparentemente, necessário para a preservação de nossa saúde física e emocional. Aguardar a concretização das suposições que se formam constantemente dentro de nós, esperar a chegada dos momentos que tanto nos inquietam e, mais que isto, confiar em Deus, em sua justiça, providência e amor, nos momentos em que nos surpreendemos na ansiedade que nos acelera em direção ao amanhã, ao depois e ao que virá, parece bastante salutar.

Esperar pode ser uma boa prevenção contra a pressa, além de nos ajudar a controlar as aflições que tiram nossa paz.

Que o Deus de todo o tempo nos ajude a viver com a serenidade da calma, da espera e da confiança para percebermos que o tempo que temos precisa ser observado, sentido, vivido com a intensidade do que é único, do que passa e não volta, do que vai e não vem.

Rev. Nilson.

Published in: on maio 9, 2009 at 12:23 am  Deixe um comentário  

Uma vida que vai além

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É lamentável, mas, em várias situações, até compreensível, o fato de uma grande parcela da sociedade ser arredia ao ambiente das igrejas. Algumas situações são catastróficas e agridem fortemente a inteligência e o bom senso.

Noutro dia a imprensa noticiou o caso de uma igreja que instalou um ‘ringue’ dentro do salão de cultos, justificando que se tratava de uma estratégia para atingir a juventude. Para a tristeza de quem tem um mínimo de decência em sua espiritualidade, aberrações como estas são cada vez mais visíveis.

Se não bastasse esta confusão toda, existe ainda a questão dos exageros que, além de ofenderem a lógica e a razão, confrontam repetidamente a teologia e a história de muitas instituições sérias. Há muitos eventos que degradam a boa imagem das igrejas do nosso tempo… homilias mal elaboradas, liturgias sem nexo, despreparo e destempero de quem deveria ser símbolo de acolhimento e afetuosidade. Ainda bem que existem exceções… poucas, mas existem.

Por outro lado, vemos a sociedade se lançar no racionalismo, atribuindo valor somente à razão e ao pensamento lógico. Desta maneira as pessoas percorrem caminhos firmados em resultado prático, visíveis e examináveis. A comprovação científica, a constatação e a experiência tornam-se instrumentos para entender e gerir a realidade humana… as pesquisas, os fatos e a demonstração de resultados passam a explicar e a ditar os dramas e sofrimentos da vida.

Existe quem não creia em quase nada pelo fato de não encontrar comprovação… vivendo uma eterna experiência com resultados que são sempre relativos… desprezando tudo o que seja lúdico, emocional, e que envolva algum tipo de sentimento.

Mas a vida humana vai além de tudo isto… de qualquer drama religioso ou institucional… e de qualquer comprovação… viver é experimentar uma realidade inexplicável, incerta, imprecisa e transcendente, algo que não tem receita e não está preso a qualquer convenção, humana ou mística.

Viver é equilibrar sentidos e permitir-se ao metafísico… sem isto, a vida fica fria, rija e pobre. A racionalidade por si só não responde aos dramas que temos em nossa alma, assim como a mística por si só não resolve as questões de nosso corpo.

Mas a fé está longe disso tudo… ela é um evento isento de qualquer explicação… é certeza, quando não existem possibilidades, crença, quando não se vê comprovação, visibilidade, quando não existe luz.

Então, é imprescindível orar, da forma mais espontânea que possa haver, crer, da maneira mais singela, perceber, do jeito mais crédulo… cantar, com o mais profundo sentimento e esperar com a esperança de quem não pode explicar nada.

Para viver bem, precisamos nos libertar das distorções que temos de Deus para nos libertarmos das prisões que criamos para nós mesmos… prisões que nos impedem de exercitarmos livremente nossa religiosidade a fim de encontrarmos um ambiente para Ele dentro de nós.

Que Ele nos ajude a alcançarmos isto.

Rev. Nilson.

Published in: on maio 2, 2009 at 1:31 pm  Comments (1)