Fiel da balança

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Na infância, conheci o que se chamava de “venda”. Era um pequeno mercado – os supermercados ainda não existiam, pelo menos nas pequenas cidades do interior do Paraná – onde podia se encontrar quase tudo que fosse necessário para a vida simples que se tinha. Existiam lá coisas diferentes… como a espécie de um “cachipô” gigante, feito de vidro, com várias repartições e tampas de metal. Esta engenhoca, que rodava apoiada num eixo e estava sempre à mostra no balcão, ocupava o imaginário da maioria das crianças, afinal, era nele que ficavam balas, doces, maria-mole, gomas, e coisas afins.

Havia também, outros ‘departamentos’, como o de frios, de panelas, de ferramentas para pequenas atividades agrárias, além de um espaço para quem quisesse experimentar alguns ‘aperitivos’.

Outra coisa engraçada era a balança, que também tinha lugar privilegiado no balcão. As mais antigas, eram compostas de dois pratos de metal equilibrados por suportes que mediam o peso de forma bem rudimentar. O produto era colocado num deles, e, no outro, iam uns pesos de ferro, com medidas de 10, 50, 100, 250 gramas, meio-quilo, um quilo. Quando um pino central se alinhava com a marca do centro da balança, o peso estava aferido – este pino se chamava ‘fiel da balança’. Os produtos eram pesados ali, na frente do ‘freguês’. Depois de pesada, a ‘conta’ era anotada numa caderneta e, no fim do mês, é que se pagava – era uma espécie de cartão de crédito da época.

Não sei porque, de vez em quando, aquela imagem de infância volta à minha mente… numa alegoria da balança que pesava quase tudo que comprávamos. Nessa inexplicável lembrança, alguns termos tornam-se profundos, trazendo um sentido para outras dimensões da vida… talvez por não mais conseguir juntar, com facilidade, palavras como “fiel” e “equilíbrio”, “justiça” e “confiança”.

O pino central da balança, chamado “fiel”, era a orientação máxima, o juízo, a “ultima palavra” da negociação que se fazia. O pino centralizado, equilibrado entre o produto e o peso de ferro, era indiscutível. Ninguém o questionava, ninguém o reprimia… era a imagem da medida justa, entre o produto e o valor.

O ‘fiel’ do nosso tempo, agora ilustrado pelo simbolismo de quem se veste com a roupagem da religiosidade, infelizmente, na prática, pouco se relaciona com a imagem de “orientação”, “juízo”, “medida justa”. Infelizmente, passou o tempo e passaram-se também as relações entre fiel e exemplo, fiel e justiça, fiel e padrão. O ‘fiel’ de agora, não é mais confiável, antes, é duvidoso, é alguma coisa comum… surgiram muitas formas de “fiel”.

A questão do equilíbrio, então, nos deprimi. Nem sempre ser “fiel”, ainda no contexto religioso, quer dizer sobre ser equilibrado. Parece até que estas palavras romperam! Na maior parte dos casos, religiosidade é sinônima de desequilíbrio. Seja porque é transcendente, irreal, distante do cotidiano, seja por que é longe do céu, da emoção e da espiritualidade. Às vezes, confunde-se religião com charlatanismo, às vezes, confunde-se com movimento político. Parece muito difícil se resgatar alguma coisa entre espiritualidade e vida prática.

Parece que a religiosidade contemporânea inventou um tipo de “fiel”, capaz de viver sem equilíbrio, sem medida e, por decorrência, sem justiça, confiança e valor.

Sem saudosismo, gostaria que aquele tempo voltasse… pelo menos no que diz respeito aos valores daquela época… onde ser “fiel” (religioso) implicava em algo mais do que freqüentar esta ou aquela igreja. Onde a nomenclatura correspondia aos atos, e a vida às palavras.

Rev. Nilson

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Published in: on março 30, 2009 at 12:31 pm  Comments (3)  

Escreva suas impressões a lápis

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Seja sereno, sempre, mesmo quando a tentação de uma opinião pronta bater à porta de sua mente ou tentar seduzir seu coração… dê um tempo, em todas as situações, não emita juízos, nem para os outros, nem para você mesmo… espere… espere muito, resista ao imediatismo, à aparência, à precipitação… coma um saco de sal… se não junto, coma sozinho, e construa nesta demora boas coisas pra pensar, pra acreditar, pra querer.

Equilibre suas emoções… não deixe que elas te confundam, seja fleumático, mesmo que sua personalidade te peça um sorriso largo, um abraço forte, um grito emocionado… controle-se… não se iluda por nada, deixe que a noite te faça compreender melhor o dia e que o dia te reorganize novamente a cada manhã… entenda as coisas com paciência, não tenha pressa de nada, nem do que é urgente… só se isso valer a vida, então, só então, arrisque… haja, reaja.

Não dê crédito totalmente, nem duvide de forma radical… aguarde… construa suas impressões como se constrói uma casa… cave buracos, carregue pedras, assente tijolos… alicerce seus conceitos antes de confiar sua vida a eles.

Escreva suas impressões a lápis. Não afirme nada até gastar um tempo pensando… não julgue ninguém antes de um ciclo inteiro… não defenda ninguém sem antes olhar em seus olhos, e nem acuse sem entender seu coração. Acalme-se antes de falar… melhor, acalme-se antes de pensar… pense bem… sem tendências, sem conceitos e, principalmente, sem preconceitos… treine seu íntimo de forma imparcial… livre-se das estradas prontas… reinvente antigos caminhos… ouse.

Seja pacífico com os briguentos e brigue com pessoas muito pacíficas… seja um instrumento de equilíbrio… não permita que nada penda para um só lado… faça contrapeso se for preciso… procure viver de forma mais leve, mesmo quando tiver que carregar pesos insuportáveis… procure ser mais denso quando tudo estiver muito fácil… aprenda a ir e a vir, não se permita parar… aprenda a se manter em movimento, dance.

Experimente coisas diferentes… mesmo que não goste, experimente assim mesmo. Aprenda que o gosto e a beleza são muito amplos para serem qualificados… não existe um padrão só para eles, não existe um padrão só para a bondade, para a felicidade, para o certo e o errado… existem muitos olhos olhando para um só ponto e várias mentes refletindo uma só imagem… respeite.

Seja tolerante, mas repreenda… repreenda, mas seja bondoso. Não perca a emoção das coisas… não perca a paz, se for possível… não brigue sem um motivo muito grande. Doe-se, comprometa-se, chore com os que choram. Aprenda a não se sentir muito mais do que os outros, mas não desacredite de si mesmo… equilibre-se numa crítica madura sobre quem você é, o que você acredita ser e o que as pessoas dizem que você é. Duvide de você… coloque-se sempre em suspeita. Ria de si e permita que outros façam isto também.

Seja consciente de sua inconstância, de seu estado interminado, de sua complexidade e de que a vida é sempre um caminho, uma busca, onde todos somos parte, processo, construção e emoção.

Livre-se da vaidade, emancipe-se da soberba, seja leve, seja livre, seja apenas você.

Rev. Nilson.

Published in: on março 16, 2009 at 12:17 am  Comments (2)  

Não desista do seu tesouro

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Acompanho há muitos anos o “hobby” de um grande amigo, colecionar moedas. Pelo que sei, o gosto vem da infância e começou quando ganhou as primeiras. Lembro-me de tê-lo acompanhado várias vezes em feiras de numismáticos onde o vi adquirir cunhagens especiais, inclusive em ouro, confeccionadas pela Casa da Moeda. Quem não é da área, não pode imaginar o mercado que se forma em torno disso

Visitei com ele várias feiras antigas, onde comprou centenas de moedas. Numa dessas, eu e mais dois colegas, o ajudamos a transportar várias sacolas pesadas, repletas delas e, diga-se de passagem, isto pesa muito!

É curioso perceber que algo que tem valor para uma pessoa, pode não significar nada para outra, por isso, presenciei algumas vezes, as pessoas fazerem chacota daquele hobby. Numa delas, alguém perguntou com ironia se ele aceitaria trocar uma moeda daquelas por um carro – apesar de alguns exemplares valerem mais do que alguns modelos de carro.

Há poucos dias, enquanto conversávamos, soube que existe um teste químico para comprovar a veracidade de moedas e que já havia submetido várias delas ao teste, confirmando que muitas são verdadeiras, portanto valiosas. É claro que estas coisas têm uma forma especial de comercialização e um público restrito. Mas o fato é que, comprovadamente, as peças têm valor, muito valor.

A persistência de propósito de meu amigo, por anos a fio, comprando, limpando, selecionando e guardando as moedas que agora se transformam em tesouro, podem servir como inspiração para nossa vida prática. Se não temos moedas colecionadas para guardar, certamente temos sonhos, vontades, objetivos que podem se comparar a elas.

Em várias dimensões da vida nutrimos aspirações dentro de nós… que são secretas para uns, públicas para outros, conservadas com carinho, acalentadas nos momentos íntimos… com significações profundas. Por elas nos envergonhamos ou nos orgulhamos… por elas resistimos aos sarcasmos de quem não nos entende… nelas esperamos… por elas nos dedicamos.

Existirá uma hora em que nossa persistência e dedicação se transformarão em tesouro! Um tempo de vermos o que tanto nos é valoroso significar algo importante para todos e todas que convivem conosco… e nos alegrarmos com a paga de nossa espera… com o reconhecimento de quem nunca entendeu o valor que trazíamos guardado dentro de nós.

A exemplo desse meu querido amigo, é preciso persistir… acreditar e conservar os tesouros pessoais, mas não só isso, também é necessário testá-los, colocá-los à prova, sem temer os resultados. A crença é sempre um processo de construção que acontece entre provações, constatações, alegrias, frustrações e surpresas.

Somente quem tem a paciência de persistir, a coragem de avaliar e o cuidado para conservar, encontra tesouros verdadeiros. Quem não sabe esperar, não sabe duvidar e tem pressa, dificilmente adquiri algo que seja valoroso.

O texto santo ainda lembra que o tesouro é algo gerado e nutrido na alma e sinaliza aquilo que somos, de fato… “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal…” (Lc 6.45). Portanto é preciso ter bons olhos para reconhecer bons tesouros e guardá-los. Normalmente, o que temos ou adquirimos, revela quem somos!

Que possamos acreditar em nossos valores mais íntimos como quem cuida de um bom tesouro… que tenhamos paciência e cuidado para conservá-los, desprendimento para submetê-los às provas… e que Deus nos ajude a termos a alegria de vê-los reconhecidos, valorizados e úteis.

Rev. Nilson.

Published in: on março 11, 2009 at 2:53 pm  Comments (1)  

Complemento divino de nossa alma… (pelo Dia Internacional da Mulher)

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Aprouve Deus que elas saíssem de nós… de nossa costela… há quem diga ser este um simbolismo de nossa responsabilidade em abrigá-las e protegê-las… que brincadeira, nós é que viríamos a depender delas… de seu cuidado, de sua doçura e proteção.

Elas receberam o duro encargo da gestação… dos incômodos, das dores… mas trabalharam isto de uma forma tão natural a ponto de ser este o desejo intrínseco da maioria delas… ser mãe.

Deus equipou essa “costela” maravilhosa com novidades… melhorias que faltavam em nós… deu a elas o poder de temperar a vida… refletiu em seus rostos a imagem do amor, do aconchego, do carinho e da ternura… sem o que não poderíamos resistir.

Deus as fez mulheres… Deus as fez amor.

Algumas coisas na vida, imagino, são especialidades das mulheres… harmonizar, apaziguar, acalmar, consolar, incentivar, aconselhar… o que seria de nós sem esta coordenação amorosa nos momentos mais complicados da vida!

Basta um abraço… namorada, esposa, irmã, mãe, não importa, para fazer reviver em nosso coração sentimentos como esperança e tranqüilidade.

A história não foi bondosa com esta criação aprimorada de Deus… houve indiferença, discriminação… foram tratadas como objeto, adereço somente, no decorrer dos tempos… e infelizmente, não podemos negar, ainda são em muitos lugares.

A “primeira” criação, o homem, não entendeu a intenção de Deus ao receber o magnífico presente… tratada somente como “segunda”, a mulher ficou, por muito tempo, impedida de cumprir seu majestoso papel de adoçar, de perfumar, de colorir e pensar a vida humana… que ironia… era tudo que o homem mais queria e precisava!

Mas ainda há tempo! Há muito que saborear de seu encanto… de seu sorriso, de seu afago.

Queira Deus sejamos sensatos e sensíveis a ponto de reconhecermos esse complemento divino da nossa alma… esse pêndulo glorioso de nossa alegria… capaz de tranqüilizar nosso ânimo e instigar nossos sonhos e esperanças chamado “Mulher”!

Queira Deus saibamos entendê-las e protegê-las das tristezas do mundo e de nós mesmos, especialmente de nossa falta de percepção, de sentimento.

Que sejamos dignos de sua brandura e singeleza… aptos de seu amor, preocupação e cuidado.

Para que a vida se complete em nós, como sonhou Deus ao concebê-las… para que haja cores em nossas aspirações, sorrisos nas horas de frustração, ternura nos momentos de desilusão.

Rev. Nilson.

Published in: on março 6, 2009 at 11:11 pm  Comments (1)