O desafio de Mary Daly

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Mary Daly é feminista, filósofa e teóloga. Nascida em 16 de outubro de 1928 em Schenectady, Nova Iorque, ensinou no Boston College, uma instituição jesuíta, por 33 anos. Antes de obter seus dois doutoramentos em Sagrada Teologia e Filosofia pela Universidade de Friburgo, Suíça, ela recebeu seu BA em Inglês a partir do Colégio Santa Rosa da Catholic University of América, e um doutoramento em religião de St. Mary’s College.

Daly publicou uma série de obras e, talvez seja mais bem conhecida por seu segundo livro, Beyond Deus, o Pai (1973) onde ela tenta explicar e superar o androcentrismo na religião ocidental. É freqüentemente considerada por um trabalho fundamental na teologia feminista. É notável por seu estilo brincalhão e a sua tentativa de reabilitar “Deus-talk” para o movimento de liberação feminina sobre a escrita de teólogos existencialistas, como Paul Tillich e Martin Buber.

Sobre o tema “Igreja”, Daly apresenta uma percepção interessante ao considerar que estas têm facilidade com procissões e dificuldades com processos. Segundo ela, as procissões são trabalhadas como rituais comuns… existe sempre alguém que conduz… não é preciso pensar muito no que se faz, basta caminhar, seguir a multidão, mesmo que de maneira automática. As procissões são ações programadas… todos sabem de onde sairão e aonde chegarão. Ninguém pode sair do caminho… sair, significa romper com o grupo… é preciso seguir obedientemente quem vai à frente. Os processos, por sua vez, não são previsíveis. É preciso seguir sem saber aonde chegar. É avaliando o caminho que se escolhe, se decide… o caminho é descoberto à medida que é explorado.

Isto faz lembrar a religiosidade brasileira contemporânea, com seus inúmeros desdobramentos denominacionais e sua incrível capacidade de formar procissões. Seja em que área for, as igrejas, cada vez mais, se uniformizam em torno do mercado. As canções, as pregações e os apelos repetem, sempre, a mesma litania, sem grandes destaques, sem maiores diferenças, sem algo que seja teológica ou filosoficamente novo, independentemente do local, da raiz, do credo. A mesmice predomina sempre, mudando só o endereço e a voz de quem dirige. A revista Galileu (nov/2008 in: “A nova era do espiritismo”), afirma que o “fenômeno da procissão” tem atravessado a fronteira do cristianismo, levando a tendência do mundo gospel para outras religiões, sem que isto represente em conversão religiosa, mas num absurdo sincretismo mercadológico.

A teoria de Mary Daly, nos leva a pensar em muitas outras dimensões da vida. Nos diversos desafios a que somos submetidos, o movimento da vida pode copiar uma procissão ou um processo. Na via da procissão, temos segurança, tranqüilidade, mas não mudamos nada, não decidimos nada, não fazemos nada novo, só seguimos. A caminhada é um sinal de movimento, mas não faz relação com uma mudança profunda. É só uma agitação que se acaba à medida que volta sempre ao ponto de partida. Na outra opção, a dos processos, existem mais riscos… surpresas, contestações, desigualdades, renúncias… nessa dinâmica, é preciso pensar para onde vai, ter sensibilidade, ter coragem, espírito de aventura… mas quase sempre, colhe-se mudanças que fazem diferença.

Este é o nosso grande dilema, decidir entre a segurança e a mesmice da procissão ou a aventura e a mudança do processo. Talvez, nesse contexto, possamos lembrar Paulo, o apóstolo, falando sobre ‘vontade de Deus’ em sua carta aos Romanos, (cap. 12, vs. 2): “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Que tenhamos uma boa escolha.

Rev. Nilson

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Published in: on janeiro 30, 2009 at 1:02 pm  Deixe um comentário  

O último general

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No tempo da abertura política no Brasil eu tinha aproximadamente quinze anos e vi pela TV a anistia ser colocada em prática… a volta de Leonel Brizola, Betinho, ovacionados nos aeroportos brasileiros, marcavam a tão esperada “abertura”… a nação respirava um ar de liberdade e, mesmo sem entender bem, sabia que algo significativo estava acontecendo. A frase “Anistia: ampla, geral e irrestrita”, embalava o clamor de milhares de pessoas. Isso tudo aconteceu no governo do general João Batista de Oliveira Figueiredo, o último general no poder, que assumiu a presidência em 15 de março de 1979, jurando fazer do Brasil uma democracia.

Figueiredo foi um presidente muito polêmico, dizia o que vinha a cabeça… certa vez perguntaram sobre o que faria se tivesse que viver com salário mínimo, ele respondeu: “Daria um tiro na cabeça”. Era franco e espontâneo em suas reações. Ao inaugurar, numa cidade, a “vaca mecânica” que iria produzir leite de soja para a merenda escolar, experimentou o produto, fez uma careta e exclamou: “Bah, nenhuma criança vai conseguir beber isto!”. Ao sair do governo disse: “vocês vão sentir saudades dos militares no governo”, além da famosa frase: “prefiro sentir cheiro de cavalos que cheiro de povo”. Mas a afirmação mais equivocada foi, justamente, ao ser questionado sobre a abertura política… havia quem resistisse e, provocado por repórteres, declarou: “É pra abrir mesmo. Quem não quiser que abra, eu prendo e arrebento!” imagina, promover a anistia à base de violência! Só mesmo o general Figueiredo!

Passados quase trinta anos, depois de quase quatro mandatos presidenciais no Brasil, dois mandatos de George Bush, várias guerras e um “11 de setembro”, ainda vivemos o clima da eleição de Barak Obama à presidência dos EUA. Nada de novo se Obama não fosse jovem, negro e com uma proposta totalmente diferente da de Bush – abertura e diálogo.

A eleição de Barak Obama é mais do que a eleição de um candidato comum. Em seus discursos estão frases como: Cooperação entre nações não é uma escolha. É o único caminho. O caminho para garantir a segurança do nosso povo. Por isso, o maior perigo de todos é deixar que novos muros cresçam entre nós” – 24 de julho de 2008, em discurso para mais de 200 mil pessoas em Berlim e “Sou filho de um homem negro do Quênia e de uma mulher branca do Kansas. (…) Trata-se de uma história que não fez de mim o mais convencional dos candidatos. Mas ela tornou parte de minha composição genética a idéia de que este país é mais que a soma de suas partes – a idéia de que, múltiplos, sejamos um só” – 19 de março de 2008, em discurso sobre raça.

Talvez possamos dizer que a era Obama deflagra a proposta de um dos maiores países do mundo. Sua vitória, parece mais um grito de quem aprendeu com a própria dor que o mundo mudou e que é preciso conversar, juntar forças, encontrar caminhos comuns entre as diferenças, até por uma questão de sobrevivência. Obama é uma resposta que os Estados Unidos dão à intolerância, à brutalidade e ao desrespeito espalhados pelo mundo.

É preciso lembrar que não há mais espaço para os generais. Devemos a eles o respeito de quem defende e guarda a dignidade de nossa nação, mas não podemos andar na contramão do tempo que vivemos. Não há mais espaço para quem não quer conversar, não quer ouvir, não quer ser questionado, não quer ceder ou negociar.

Talvez o mundo e as expressões políticas atuais nos lembrem da orientação bíblica: “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos. Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens…” (Rm 12.16).

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 20, 2009 at 11:41 am  Comments (1)