O outro Deus

Não é impressão minha. Nunca se falou tanto de Deus. Nem mesmo as grandes tragédias da humanidade que indagaram sobre o seu paradeiro puderam tirá-lo de cena. Basta voltar a atenção para personagens como Bin Laden e George Bush para entender o que digo. Deus ainda é a tônica das grandes discussões. Em nome d’Ele é que se guerreia, se mata. Bin Laden e Bush requerem o mesmo título de mensageiros, messias, com licença para fazer e acontecer em nome do Todo-Poderoso.

Surgem novos deuses, digo, candidatos a representantes d’Ele… outros Osamas, digo, Obamas… que procuram provar, a todo custo, sua proximidade com o Criador, na tentativa de receber o título de primeiro-ministro do céu.

Imagino que o quadro é mais grave do que parece… vai além da intenção de falar em nome de Deus… pra mim, a questão dá voltas em torno do “querer ser deus!”

Se eu estiver errado em minha impressão, diria que na melhor hipótese, cada um de nós tem um deus próprio, construído dentro de nossa intimidade… segundo as leituras que fazemos da vida e das pessoas… e é esse deus que cultuamos, a despeito d’Aquele que está fora de nossa compreensão.

A minha teoria é que vemos através de uma lente… olhamos todos para um mesmo deus com óculos pessoais, revestidos de princípios, valores, conceitos, práticas nossas, que formam imagens ímpares de Quem é, segundo o texto bíblico, “único”! Acredito que seja esta a lógica do apóstolo Paulo (1 Cor. 13:12) ao dizer que “… agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face”.

Mas o drama maior disso tudo, a meu ver, está em aceitar o outro Deus, o Deus que está fora do nosso imaginário, da nossa convenção, do nosso aceite, do nosso preconceito. Porque esse outro Deus, na maioria das situações, nos questiona e nos desafia mais do que aquele que vive sentado no trono de nossas próprias convicções. Confronta algumas idéias que temos, reage a alguns posicionamentos que defendemos e está além do que pensamos.

O deus que mora dentro de nós, nos dá conforto e paz, sempre… o outro, que está fora, nos angustia e ameaça nossa estabilidade. O deus de dentro, sempre nos consola, nos dá razão, mas o outro, de fora, nem sempre aprova o que fazemos em nosso dia a dia. O outro Deus vê além do nosso umbigo, entende a gente como mais um, não como único. O deus de dentro é exclusivo, o outro, de fora é de todos.

Nem sempre aceitamos com naturalidade essa dimensão maior de Deus, que “é próximo e dentro de nós, mas também distante e sempre para além de nós”

Tenho a impressão que este foi o maior ganho na experiência de Jó que, através da dor e do sofrimento, conseguiu perceber o outro Deus, que estava além de sua imaginação, distante de sua percepção. Sua vitória foi poder vê-lo tal como era, afirmando “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem” (Jó 42:5).

Creio que a lição de Jó cabe para todos nós e se faz necessária a cada dia… pois a aceitação de um Deus que está para além dos reducionismos que fazemos, é a possibilidade de salvação do mundo.

Que o outro Deus, que não o nosso exclusivo, nos ajude nas mudanças que precisamos.

Rev. Nilson

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Published in: on outubro 24, 2008 at 11:06 am  Comments (1)  

Tudo tem seu tempo?


Segundo a Folha de São Paulo , a classe médica brasileira acaba de criar o termo “doença da pressa”. A reportagem afirma que “nossa sociedade gratifica quem está ocupado todo o tempo”. O jornal mostra uma pesquisa realizada pela International Stress Management Association, onde se verifica que 30% de nossa população sofre dessa doença. O mais drástico é o que isso causa: distúrbios físicos (hipertensão e problemas cardiovasculares), emocionais (angústia) e comportamentais (alcoolismo). Isto tudo é demonstrado nos diversos relacionamentos que temos em nosso dia a dia.

Ana Maria Rossi, presidente da Instituição que encomendou o estudo, diz que existe uma conceituação equivocada do que seja padrão de profissionalismo e competência. O imaginário popular entende que “quanto mais correr, melhor”.

O trabalho mostra ainda que apenas 8% dos entrevistados admitem a necessidade de diminuir a velocidade de seus afazeres, enquanto que 13% consideram que o ritmo deve ser menor.

Rossi observa que as pessoas que procuram romper com esta “cultura” acabam esbarrando na resistência do mercado, uma vez que “o modelo predominante é o de cultuar a velocidade”, contudo, acredita que as coisas tendem a mudar, uma vez que a qualidade dos serviços de quem faz as coisas com muita pressa é inferior e quem tem mais calma, pode ganhar espaço no campo profissional.

Esse drama cultural, agora validado pela medicina, nos chama para a reflexão de um tema essencial à vida, o tempo, na verdade, questiona nossa habilidade em equilibrar esse bem precioso que nos ajuda ou nos atrapalha no caminho da felicidade, fazendo toda diferença no que somos.

Isso é tão importante, que Salomão, o sábio bíblico, escreveu a famosa epígrafe intitulada “Tempo para tudo”, uma reflexão simples e profunda sobre o Tempo, onde afirma: “Tudo tem seu tempo, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”.

Há, realmente, tempo pra tudo? Há tempo para ouvir as pessoas, percebê-las em suas emoções, em seus desejos… há tempo para redescobrir os caminhos que percorremos repetidamente pela vida, seus encantos, seus medos… há tempo para responder aos clamores de nossos queridos, que merecem tanto nossa atenção, cuidado e carinho… há tempo para nosso corpo, para nossa paz, para o nosso descanso… há tempo para buscar alegria… há tempo para ficar quieto?

A impressão que temos é que não há! Salomão deve ter errado… não há tempo para nada… há pressa, há urgência, há correria, acúmulo, cansaço, stress… tempo não há… pra gente, pra festa, pra vida.

Isto é muito claro… quando achamos tudo demorado, olhamos sempre no relógio, quando perdemos a paciência, quando temos dificuldades para esperar… dar tempo ao tempo. Bem mais sério é não ter atenção para as demonstrações de Deus… não parar a pressa para dedicar um espaço às suas expressões… e abrir a alma para Ele nos trazer paz.

Nosso desafio é parar, de tempos em tempos, para equacionar nossa agenda de prioridades… colocando, como recomenda Salomão, tempo pra tudo… garantindo equilíbrio e felicidade na vida.

Rev. Nilson.

Published in: on outubro 20, 2008 at 11:08 am  Comments (2)  

Pêndulo

Todos nós somos um pouco bons e um pouco maus. Não há quem seja totalmente bom, não há quem seja totalmente mau… somos um misto de perfeição e aberração.

Somos pobres, mas também ricos… cada um de nós tem riquezas imensas e, ao mesmo tempo, pobrezas lamentáveis… todos temos do que chorar e do que rir… cada qual de seu jeito, com seu motivo, sofre e ao mesmo tempo festeja… como num pêndulo que nos leva pra lá, e ao mesmo tempo nos traz de volta, pra cá.

Existe um tanto de sabedoria em cada um de nós, e um tanto de loucura… não há lucidez absoluta, nem ignorância completa… somos sempre parte, pactuada com acertos e, ao mesmo tempo, fracassos.

Quem sabe seja assim, e por isso, nossa dificuldade em conviver… porque não há quem se aceite, não de forma ampla, não totalmente… vivemos o misto de nos aceitarmos e nos escondermos de nós mesmos, num revezamento de vergonha e prazer.

É nossa vida… parte bondade, parte maldade, parte aceitação, parte disfarce… um eterno engano… uma eterna tentativa de mostrar-se e, ao mesmo tempo, esconder-se… uma representação do que gostaríamos de ser e do que precisamos ocultar.

Mas se algo nos livrasse dessa peça… dessa camuflagem que esconde o que é tão evidente? Se cada um de nós passasse a se aceitar, se desnudar, sem pretensão, sem gracejo, sem representação… então, o que seria? Seria bom? Seria ruim, melhor, pior?

Pode ser que seria a gente… como gente, realmente… sem rodeios… sem embaraços, sem desfarces…

Todos certos, todos errados, todos bons, todos ruins…

Seria o real… como, de fato somos, como bem sabemos,

Metade bons, metade maus, metade alegria, metade tristeza… seriamos felizes, porque seriamos gente, simplesmente, gente.

Rev. Nilson.

Published in: on outubro 4, 2008 at 12:54 am  Deixe um comentário