A formiguinha e a neve

Quando criança, lembro-me de muitas vezes ter me comovido com uma história da coleção “Disquinho”, chamada “A formiguinha e a neve”.

Esta história contava de uma pequena formiga que, um dia, por infelicidade, teve seu pezinho preso por um
bloquinho de neve.

Em sua narrativa surgem inúmeros pedidos de socorro para que alguém a salvasse da neve e, por consequência, do frio.

Começando pelo sol, muitos passam pela formiguinha e se dizem incapazes de ajudá-la, empurrando a responsabilidade para outros, mais fortes e poderosos…o rato para o gato, o gato para o cão, o cão para o homem, o homem para a morte e, por fim, a morte para Deus que, enfim, recolhe a pequenina em uma carroagem, levando-a para o céu.

Apesar de chorosa, queria ouvir esta fábula repetidas vezes em nossa ‘radiola’, como se em algum momento o final pudesse ser modificado, indignada ao perceber que, na verdade, a personagem morrera por falta de assistência…

Será que em nossas vidas, quase todos os dias, não nos deparamos com situções iguais a esta?

Olhamos ao nosso redor e vemos pessoas à margem de nosso caminho, presas, com frio, aflitas, esperando de nós um gesto de generosidade, de apoio, de auxílio…

Que Deus nos ajude a estarmos cientes de nossas responsabilidades e não passarmos adiante aquilo que depende de nós…que ninguém se perca pela nossa negligência…

Amém.

Márcia Regina.

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Published in: on setembro 29, 2008 at 2:23 pm  Deixe um comentário  

Fiz-me fraco…

Quando eu era menino, tínhamos brincadeiras bem diferentes das que vemos hoje… nada de play station, computador, celular, mp3, mp4, aluguel de filmes. Vivíamos mais fora de casa do que dentro… nosso passa-tempo era andar de bicicleta, correr, jogar bola.

É certo que as crianças de hoje em dia correm riscos que não vivíamos há 30 anos… não havia seqüestro-relâmpago, não existiam tantos carros nas ruas, motos, caminhões… éramos felizes e não sabíamos!

As coisas mais simples nos entretinham, mas, na maioria das vezes, as brincadeiras nos motivavam a uma competição camuflada sobre quem era o mais forte. O cabo de guerra era uma das mais excitantes. Lembro-me de uma ocasião, já no ensino médio, que tivemos a “feliz” idéia de virar o carro de uma professora ao contrário… que dó, vê-la manobrar tanto para tirá-lo da posição inversa no estacionamento da escola. Fizemos aquilo somente como uma demonstração de força… dez, quinze, adolescentes levantando o carro no braço.

A vida passou e veio a fase adulta… os novos desafios, estudantis, profissionais, nos fizeram perceber novas formas de força… na luta da existência, na competição pelo ter, ser, aprende-se que, quase sempre, é preciso força para conquistar objetivos, ou mesmo, para resistir os grandes embates.

Normalmente aprendemos que precisamos ser fortes… o mundo que vivemos procura pessoas fortes… seja numa entrevista, num concurso ou numa conversa, nosso subconsciente nos leva a exibir o quão forte somos… como que para impressionar.

A força passa por diversas mutações… a física, parece ser uma das mais frágeis em nossos dias… ela se mostra pequena diante das que gerem a economia, a ciência, a política… pois esse tipo de força abala a sociedade em geral, ameaçando famílias, estados.

Vivemos sob o domínio da força em suas várias demonstrações.

Diante disso tudo somos confrontados com a surpreendente afirmação do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 9.22 onde se lê “fiz-me fraco com os fracos…”.

Imagino que a primeira questão que podemos levantar é que Paulo viveu num mundo diferente do nosso, com outra cultura… ou, que sua intenção aqui, a partir do contexto, seria a de evangelizar os fracos. Mas não poderíamos, também, nos perguntar, ante suas palavras, até que ponto estamos dispostos a admitirmo-nos fracos, diante dos fracos?

Diante de quem está enfraquecido em sua emoção, sem encanto e esperança, como nos apresentamos? Ou de quem se entrega em sua inanição espiritual, sem capacidade de perceber Deus, sua presença e amor… ou mesmo frente a quem padece em sua debilidade física… ou diante de quem se empobreceu de capacidade pensante e não pode discernir, diferenciar o bem e o mal… o que fazemos?
Infelizmente, vivemos numa sociedade de fortes… de uma força que nos desumaniza, nos separa e nos condena a maior de todas as perdições, a perda de amor… somos treinados a rechaçar quem é fraco… e rejeitamos qualquer um que pareça ser menor e sem preparo.

É na incoerência dessa força desastrosa e destruidora que o evangelho de Cristo nos chama, através de Paulo, a nos enchermos da força que nos capacita a nos tornarmos fracos com os fracos, para ajudar quem é menor, ensinar quem necessita, melhorar o desfavorecido, e, de alguma forma, dividir a força da vida, da alegria com quem precisa.

Quem dera fôssemos corajosos como Paulo… repartiríamos o que somos, o que temos, o que podemos… construiríamos uma nova dimensão de existência, a sociedade da comunhão, da paz e da igualdade e proveríamos, na prática, o projeto de Cristo, que veio para que todos tenham vida em abundância.

Rev. Nilson

Published in: on setembro 26, 2008 at 11:12 pm  Deixe um comentário  

A reinvenção do pecado

Lembro-me do meu avô, religioso da velha guarda, me ensinando as coisas que não podia fazer. Existia uma classificação engraçada… algumas atitudes eram pecado mesmo, mentir, me parecia o mais grave, mas, em sua forma singela de ensinar, falava também de outras categorias, como, o que ‘o papai do céu não gosta’ e o ‘que é feio’.

Eu custava a aprender bem aquelas lições esquisitas, mas, desde muito cedo, meu subconsciente aceitava que certas coisas não podem e outras não convêm. Havia um certo padrão de pecados feios… uns eram suportáveis, mas outros, como responder aos pais, eram intoleráveis. De alguma maneira, na simplicidade de criança, absorvi a equivocada compreensão de ‘pecadinho’ e ‘pecadão’.

Com o tempo, percebi melhor que pecado é tudo aquilo que nos afasta de Deus e, daí, desencadeia-se um sistema complexo, envolvendo também e, principalmente, o relacionamento com quem convivemos, que se transforma em uma certa condição de nos relacionarmos bem com o próprio Deus.

Quando Cristo tratou desse assunto, sobre o que seja certo ou errado, trouxe para a discussão temas muito subjetivos… Ele desorganizou a escala de ‘pode e não pode’ e amplificou nosso drama, requerendo-nos posturas que questionam nossa ética, nos levando além das convenções que fazemos pois, nem sempre o moral é ético, existem momentos em que a reflexão ética questiona a moral válida. Foi o que Ele alertou ao dizer que “…se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5.20).

Jesus reorganiza um novo padrão, uma nova baliza para quem Lhe quer como mestre, transferindo o parâmetro da moral para a ética. Assim, inaugura-se uma nova lista de pecados… que não se vêem, que não se provam, que são camuflados pela relativização… que são perdoados, não por Deus, mas pela ambição, pela ganância e sede de poder.

Jesus restaura a pessoalidade do pecado, livrando-o da religiosidade, do institucionalismo. Pecar passa a ser separar-se de Deus também através da intenção, da má fé, da má vontade… talvez por isso o famoso desabafo: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.22 e 23).

Para nossa surpreza, Jesus nos alertou sobre os pecados do coração, do sentimento, que se escondem no íntimo, que tem o poder de se esconder por trás das mãos erguidas, da música e das belas palavras. A Graça, dádiva imerecida que Deus nos dá em Cristo, requer de nós um exame mais rígido do que a Lei.

Não seria este o motivo de comportamentos tão ‘inexplicáveis’ de Cristo, como o que teve com Zaqueu, o cobrador de impostos, desonesto; com Maria Madalena, mulher de vida incerta; com a Mulher surpreendida em adultério, trazida por alguns Mestres e Fariseus? Qual seria o critério de Jesus para tratar com essa gente errante? Não seria o da Graça, que é capaz de observar as pessoas com mais profundidade?

Como cantava Elis, “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam”… mas não enganam o crivo da Graça, que vê mais do que a Lei, que sonda o campo das intenções e a profundeza dos corações.

Que Deus tenha misericórdia de nós e nos afaste das novas faces do pecado.

Rev. Nilson.

Published in: on setembro 18, 2008 at 10:59 pm  Deixe um comentário  

Um cometa que passa

O Tribunal Superior Eleitoral lançou uma campanha publicitária alertando para a importância do voto. Em uma delas, vemos a cena de um rapaz que aguarda a passagem de um cometa… acampado num monte, munido de barraca, lampião, alimentos, o jovem está numa noite escura observando o céu com uma luneta, mas, para sua infelicidade, o gás do lampião acaba e a luz apaga. Dividido entre a atenção ao céu e a falta de luz, decide por reabastecer o equipamento, deixando de lado sua observação. O cruel disso é que, exatamente quando ele está procurando o refil de gás, o cometa passa, sem ser visto.

A tragédia encenada pela propaganda, trata, de alguma forma, da tragédia da vida de muitos de nós que, distraídos com questões pequenas, deixam de perceber os grandes eventos da vida.

Infelizmente, não nos damos conta de alguns “cometas” que riscam o céu de nossa história… existem momentos, pessoas, lugares, palavras, canções e gestos que cruzam conosco sem darmos importância… e, o dramático, é que, depois de algum tempo, com a maturidade da vida, nos surpreendemos saudosos e murmurantes, reclamando das oportunidades que se foram.

Muitas coisas nos fazem distrair… o ativismo, a preocupação desmedida, a ambição, o preconceito, a falta de lucidez, o comodismo, a falta de discernimento.

Existem pessoas que trombam com eventos valiosíssimos para a história sem se dar conta do que está acontecendo, do que se trata… trocando moeda rara por balela… por quantas desatenções passamos, sem reparar o olhar de um filho, a expressão da pessoa amada, o sentimento de satisfação de um sorriso, a admiração de um rosto distante. Quantas pessoas passam por nós clamando nossa paciência, nosso momento… como que mendigando um bocado de nossa atenção… e não compreendemos.

Existem muitos sentimentos não notados… amizades, considerações não correspondidas, oportunidades únicas, talvez, de grandes parcerias.

O mais lamentável é quando o cometa é um sinal do próprio Deus e, mesmo assim, risca o horizonte despercebidamente.

É lamentável quando não se discerne as manifestações divinas… quando se recebe milagre e, mesmo assim, se “passa batido” diante do Criador do Universo. Quantas pessoas seguem sem saber o porquê se sua sorte, de seu livramento, sem expressar, sequer, um mínimo interesse em pensar sobre aquilo.

No evangelho segundo Lucas, no capítulo 24, a história bíblica relata um momento desses, vivido por dois apóstolos que caminharam ao lado do Cristo ressurreto sem reconhecê-lo, e, quando perceberam, era tarde, ao que disseram, lamentando: “Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava…”?

A pergunta dos dois apóstolos pode ser reeditada em certos momentos de nossas vidas… quando não estamos atentos para as manifestações do amor de Deus… que, como um cometa, vez em quando, sinaliza sua graça e favor a todos nós.

Fica o desafio de não deixar o cometa chamado Deus cruzar o céu de nossas vidas de maneira pequena… e que Ele mesmo nos ajude a estamos atentos para retribuirmos e admirarmos seu grande amor por nós.

Rev. Nilson.

Published in: on setembro 13, 2008 at 11:11 pm  Comments (5)  

Como um ‘fusquinha’ desregulado

Meu primeiro carro foi um ‘fusquinha’ 1970. Pra quem gosta de relíquia, como eu, sabe o que significa ter um. Ele era branco, com rodas originais, frisos, pára-choques, calotas, estofamento. Chamava a atenção por onde passava. Havia um verdadeiro ritual aos sábados, quando me dedicava ao meu passa tempo preferido, embelezar a “máquina”.

Mas não bastava a aparência do veículo, era preciso manter a parte mecânica em ordem e, para isso, gastava minhas economias em manutenções freqüentes, afinal, não ficava bem ser visto empurrando um carro na rua – apesar de acontecer muitas vezes.

Lembro-me de uma ocasião em que inculquei que o motor não estava bem regulado, “é o carburador”, pensei, sem prever a ‘dor de cabeça’ que teria por isso. Mais que depressa, resolvi desmontar o carburador – e pra quem conhece, sabe como isso é complicado. Tirar parafuso é a coisa mais fácil que existe, mas recolocá-los novamente! Enfim… consegui, depois de limpar tudo, montar, mas aprendi que entre saber colocar tudo no lugar e fazer o carro funcionar tem uma diferença gritante! Depois de chamar mecânico e gastar algum trocado, vi o carro em ordem de novo.

Aquela experiência tão trivial me faz pensar em outras questões da vida que também precisam de atenção… nos diversos setores de nossa existência precisamos de manutenção… não podemos descuidar de nada… é preciso equilibrar as coisas… aparência, saúde, pensamento, ética, relacionamentos. Se deixarmos alguma área sem cuidado, corremos o risco de pararmos inesperadamente.

Um ponto fundamental de nossa vida tem a ver com a espiritualidade. Queiramos ou não, somos seres físicos, emocionais e espirituais. As questões ligadas à mística nos perseguem, mesmo quando não percebemos, isto é natural em nós, faz parte do nosso projeto de construção, não há como fugir.

O preocupante é que a falta de manutenção espiritual nos ‘desregula’, nos tira da naturalidade… ficamos como que um carro mal regulado, sem bom funcionamento. E quando os problemas se agravam conosco ou com quem gostamos, entramos em crise.

Algumas pessoas sofrem sem motivo… experimentam a tristeza de forma inexplicável, sem razão aparente… o complicado é que essa dor da alma, normalmente, resulta em depressão, que, quase sempre, se transforma em dor física.

Davi deixa transparecer, no Salmo 32, alguns sintomas desse desconforto de alma, diz ele: “… envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia… e o meu vigor se tornou em sequidão de estio.”

O mais grave é quando se procura resolver as coisas de maneira rudimentar – como eu tentando regular o motor do fusquinha – através de improvisações, relativizações, tratando coisa séria de maneira pequena, como que se nossa alma e espírito não fossem importantes na vida.

Assim é preciso lembrar de Deus, que fomos projetados com esse departamento precioso chamado espírito, que tem como função dar-nos a experiência transcendente e curadora de falar com Deus.

Mais que isso, é necessário procurarmos essa manutenção de nossa vida espiritual, capaz de nos equilibrar e nos fazer tocar no que seja a alegria de viver, de conviver, de sorrir, de cantar.

Rev. Nilson.

Published in: on setembro 9, 2008 at 1:41 pm  Deixe um comentário