Os pontos e as vírgulas.

No ano de 2000, a poetisa e estilista Vanúzia Leite Lopes teve uma atitude surpreendente, escreveu um livro totalmente sem pontuação.

“Em sua obra (com o título: Nem Ponto nem vírgula) a autora decidiu polemizar o uso dos sinais de pontuação na língua portuguesa. São 220 páginas escritas sem ponto, sem vírgula, sem exclamação e sem interrogação. Segundo Vanúzia, a atual “era digital” requer mudanças em todos os âmbitos, inclusive na escrita. Para a poetisa, a pontuação pode se tornar um entrave para a vida das pessoas. Todos nós sabemos que uma vírgula pode modificar o sentido de uma frase. (…) No prefácio da coletânea, a escritora e terapeuta Edinilsa Saraiva de Oliveira, pós-graduada em Letras, chega até a “romancear” o vínculo dos homens com a pontuação. “Vivemos presos a estes pontos gráficos… Interrogações??? Vivemos sempre encarcerados… detidos entre as vírgulas,,, As vírgulas usadas como justificativas… Quanto tempo ficamos cativos das pontuações… prisioneiros…Tolhidos por sinais !!!???,,,;;;”, escreve” (http://abcreticencias.wordpress.com/2007/09/20/pontuacao-e-coisa-do-passado visitado em 20.08.2008).

Certamente isto é inconcebível para qualquer profissional da escrita, a pontuação é mais que um adorno da linguagem, ela, por si só, também fala, expressa sentimentos, e, através de suas nuances, podemos captar intenções. Bem que se diz: em determinadas situações um ponto ou uma vírgula falam mais que uma frase.

José Miguez Bonino, um renomado teólogo Argentino, reconhecido em toda a América Latina e no mundo, escreveu: “você é o autor de seu mundo” (Citado pelo Prof. Dr. Ronaldo Sathler-Rosa em aula do dia 13.08.2008 no Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP , São Bernardo do Campo). Quem sabe podemos parafraseá-lo dizendo que cada um de nós é autor de sua vida, como que num livro, escritor de sua própria história e, segundo minhas abstrações pessoais, diria que nossas vidas poderiam ser comparadas a um livro sem pontuação, onde as pessoas, fazem leituras umas das outras a partir de suas próprias pontuações.

Você já conheceu pessoas que são decifradas de maneiras desiguais? Representando afirmações pra uns, exclamações pra outros e interrogações pra outros? Infelizmente, nos utilizamos da variedade de sinais para ‘pontuar’ o que vivemos com nossos colegas e amigos… colocamos vírgulas, parênteses, aspas, e até pontos finais segundo o nosso bel prazer nas histórias das pessoas que convivemos.

O pior é pensar que as pontuações que damos aos outros são expressões de nossos preconceitos, padrões morais, histórias pessoais… que, na maioria das vezes, deturpam a leitura e estragam a interpretação.

Jesus foi exemplo do que os pontos e as vírgulas mal utilizados podem fazer. No capítulo 12 do evangelho de Mateus, Ele foi chamado de Belzebu e chefe de demônios por ter livrado um homem de uma cegueira. Naquele momento, o Deus-encarnado foi lido com pontuação errada e confundido com satanás, que absurdo!

Para nosso lamento, as aberrações ainda acontecem. Vez por outra vemos gente ser submetida a interrogações, afirmações e exclamações equivocadas e, mais que interpretar, as pontuações equivocadas ganham o status de julgamento e até de condenação.

Eis aí um grande desafio para garantirmos boa convivência, cuidarmos dos pontos e das vírgulas que colocamos nas leituras que fazemos dos que estão à nossa volta.

Que o Senhor Deus nos ensine e nos ajude.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on agosto 31, 2008 at 11:19 pm  Comments (7)  

Quadro de Medalhas

Depois da surpreendente cerimônia de abertura, com direito a pessoas correndo no ar e uma incrível produção audiovisual, as Olimpíadas de Pequim começam a mostrar seus bastidores.

Segundo informações da imprensa, a esfuziante participação popular pode ter uma explicação, no mínimo, curiosa. Grande parte do público presente, tanto na abertura como nos jogos, seria contratado, mais que isso, o governo teria forjado a apresentação musical da menina cantora Lin Miaoke, já que seu encantador rostinho seria apenas de uma intérprete, dubladora da verdadeira cantora infantil, Yang Peiyi. O governo alegou que queria passar uma imagem de perfeição, o que não seria possível com a dona da voz.

Outras notícias dão conta que as incríveis pegadas produzidas por fogos de artifício teriam sido gravadas anteriormente, para não se correr o risco de algum erro na hora da apresentação.

Além disso tudo, paira no ar, o mistério sobre um acidente ocorrido com um acrobata no intervalo de um jogo de basquete que teve seu nome divulgado somente 40 horas após. A organização dos Jogos emitiu uma nota dizendo que se trata de um ginasta da equipe francesa “Crazy Dunkers”: Florian Januel. O atleta estaria internado no Hospital 301, em Pequim. “O boletim oficial não menciona que trata-se de um hospital militar e afirma que Florian lesionou uma vértebra torácica, mas omite a informação mais importante: se a medula foi atingida. Uma lesão de medula numa vértebra torácica pode acarretar paraplegia”. A falta de informações seria para preservar a imagem de sucesso na organização.

O ‘cuidado’ pela imagem de sucesso e perfeição passada pelo governo Chinês não desmerece a beleza dos jogos, mas camufla a realidade… e o porquê de atitudes como essa, talvez seja mais complexo do que possamos imaginar, afinal, não existe, pelo menos oficialmente, um ranking internacional que premia quem faz a melhor olimpíada.

O que acontece, imagino, é que nossa fragilidade humana, mesmo sem um aparente motivo, dedica-se em classificar tudo que fazemos e o que está em volta como maior ou menor, bom ou ruim, melhor ou pior… existem avaliações, julgamentos e pontuações sublineares em nossos olhares, pensamentos e atitudes que se preocupam em nos medir, formando um quadro de medalhas imaginário que nos organiza no ranking social de aceites e recusas.

Quem é maior, quem é melhor, mais forte, mais rico, mais bonito? Esta preocupação ronda nossa vida, mais que pensamos. Os próprios discípulos de Jesus viveram esse drama. Os evangelhos contam que, num dado momento, eles chegaram a discutir sobre quem seria o maior entre eles.

Infelizmente vivemos tensões seríssimas por conta da ambição. Países, empresas, famílias, pessoas, passam a vida se acotovelando na ganância de serem mais que as outras. Tudo é motivo de disputa. Finanças, estética, formação.

Para nossa ciência, Deus não participa dessa loucura, pelo contrário, seus padrões são totalmente diferentes dos nossos. O contexto bíblico nos desafia dizendo que “se alguém quer ser o primeiro, será o último” e se pretender ser servido, deverá servir primeiro. Ainda, nos adverte, que é mais feliz quem pode doar do que quem precisa receber … e segue, que para se chegar ao céu, é preciso ser simples, humilde e sincero como uma criança.

As coisas de nossa vida, pra Deus, funcionam de forma inversa e inexplicável, porque nos levam a caminho do que é mais humano, mais ético e perfeito.

Que possamos reorganizar nossos desejos… que nossas ‘medalhas’ tenham caráter mais coletivo… que possamos abdicar da mediocridade e nos interessarmos mais em viver a harmonia da amizade a despeito da ganância da disputa… e que encontremos o caminho de Deus, que nos leva à paz.

Rev. Nilson.

Published in: on agosto 22, 2008 at 12:25 pm  Comments (1)  

O que falam de mim

Esta pergunta ronda a vida de cada um de nós, somos seres extremamente interessados em saber o que as pessoas dizem a nosso respeito.

Pode ser que queiramos descobrir qual o real valor que temos para nosso grupo de relacionamentos, talvez porque, infelizmente, pouca gente tenha disposição de deflagrar o que pensa dos outros de maneira direta.

Admitindo ou não, vivemos a preocupação sobre o que parecemos, assim, vamos nos tornando escravos do estético, do aparente.

O que vestimos, o que representamos, toma conta de uma grande parte de nossa atenção, por isso nos ornamentamos tanto, nos embelezamos, procurando a performance ideal que possa impressionar as pessoas com quem convivemos.

Isto é tão humano que o próprio Deus, ao tocar a humanidade através de Cristo, experimentou nosso drama. Contam os evangelhos que Jesus num determinado momento de sua vida perguntou aos discípulos sobre o que as pessoas diziam sobre Ele, a que responderam que consideravam-no um profeta. Imagino que instigado por mais curiosidade ou, quem sabe até, avaliando seus companheiros, quis saber deles: e vocês, quem acham que eu sou?

Saber o que somos para os outros é importante pra nós, porque, de certa maneira, somos, todos/as, divulgadores/as de uma mensagem pessoal, de uma ideologia que construímos durante a vida e, quando descobrimos que não somos compreendidos plenamente por quem convive conosco, queremos mais que depressa dizer, esclarecer, explicar a que viemos.

Mas nem sempre conseguimos. Por limitação, por intenção ou por vontade, de vez em quando, encontramos pessoas que não nos entendem ou que não querem nos entender.

Jesus também sofreu com isto. Viveu sendo perseguido por quem não o conheceu, não o entendeu, de fato. Foi morto pela condenação de quem não pôde atingir o que propunha, porém, soube com absoluta lucidez o que era, qual sua função e o que queria e isto fez dele o Cristo, o Salvador.

A lição de Jesus é profunda. Quando temos certezas a nosso respeito, não importa o que pensam sobre nós, pois o que somos fala mais alto do que parecemos ser… bastam os dias e as pessoas saberão quem somos.

Pelo contrário, se temos dúvidas sobre nós mesmos, não haverá ornamento suficiente que nos faça construir alguma coisa proveitosa. Seremos, nas palavras dos Salmos, como a palha que o vento dispersa.

Por isso é preciso, antes de tudo, pesquisar nossa intimidade de maneira profunda na busca de um alto conhecimento que nos faça saber quem somos, o que cremos e para onde queremos ir. Saber quem somos, é mais importante do que saber o que as pessoas pensam que somos. Foi sabendo quem era que Cristo deu rumo à vida de muita gente e sabendo o que somos que podemos organizar nossa própria vida e inspirar outros/as também.

Que a presença do Deus que é, possa nos ajudar a descobrir quem somos e que a crença que temos n’Ele nos encha de valores geradores de vida, paz e harmonia.

Rev. Nilson

Published in: on agosto 15, 2008 at 9:30 pm  Deixe um comentário  

Você não pode ter um lugar no céu sem uma barba! Portanto, rogo-lhe que deixe crescer a sua imediatamente.

O Professor José Carlos Barbosa abre com esta frase o décimo primeiro capítulo de seu belíssimo livro “Adoro a sabedoria de Deus” , no qual transcreve uma boa parte do diário de John Wesley. Segundo o historiador, esta teria sido uma exortação feita a Wesley por um homem com uma longa barba branca.

Certamente a abordagem não teve nenhuma relevância para Wesley, uma vez que não se têm notícias de que tenha deixado sua barba crescer depois desse episódio.

Esse relato, porém, nos leva a uma reflexão sobre a questão das verdades pessoais. Cômicas ou não, as palavras daquele senhor nos mostram que cada pessoa constrói verdades dentro de si que, pouco a pouco, tomam dimensões maiores.

Talvez possamos imaginar que, na cultura do século XVIII, em determinadas regiões da Inglaterra, ter uma bela barba tivesse algum significado. Por estética ou por vaidade, os barbudos daquele tempo deviam ter lá seu motivo para cultivá-las.

O crítico do fato ocorrido com Wesley não era a verdade enraizada no sentimento daquele homem, mas o que ele tinha feito com ela, uma vez que uma preferência particular sua passava a ter um peso de verdade pública, social.

Ter uma barba para aquele senhor tinha uma dimensão celestial! Para ele, os homens que não tivessem a sua, não teriam direito a viver a eternidade ao lado de Deus, no céu!

As verdades sobre a barba, segundo o senhor inglês que abordou Wesley, nos levam a pensar em outras dimensões de nosso tempo que partem do pessoal e, com o tempo, ganham o status de “condição” para todos/as.

No campo sagrado ou profano, existe quem vincule Deus, sucesso, moral, ética, bem estar, certo ou errado aos seus próprios conceitos e padrões e, pior, discrimine quem não aceita suas condições.

Jesus foi a própria verdade encarnada que, como ninguém, soube respeitar as pessoas. Suas verdades não agrediam, apesar de anunciar a vida… Jesus foi o ‘dono da verdade’, mas não se indispôs com ninguém por isso… falou delas e respeitou sentimentos.

Quanto podemos melhorar nossos relacionamentos se aprendermos com Cristo a lidar com nossas verdades pessoais… quanto podemos melhorar nossos ambientes se deixarmos de discriminar pessoas pelas verdades que têm.

Jesus é o exemplo prático de que as verdades pessoais podem ser trabalhadas com amor e respeito, independentemente de serem equivocadas ou não… com olhos de compreensão… com palavras de sabedoria, que agregam, que cativam.

Que nossas convicções sejam ferramentas de construção onde vivemos… que nossos conceitos mais íntimos sejam expressões de paz e de harmonia e que o que somos e pensamos seja percebido em nossas ações, mais que em nossas palavras.

Rev. Nilson.

Published in: on agosto 10, 2008 at 6:43 pm  Deixe um comentário