Ciranda, cirandinha…

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Published in: on junho 21, 2008 at 1:06 pm  Deixe um comentário  

Não é o diabo.

O preconceito não tem fronteiras… ele se instala em qualquer paragem, é como uma doença, não escolhe raça, lugar, grau de instrução… ele não se dirige por nada, a não ser pelo interesse.

Pode ser coisa pouca, pode ser muita coisa, se a pessoa não está no foco de privilégios do outro, mais que depressa, sem defesa, sem chance, é taxada e condenada. Não importam as qualidades, as virtudes, se o interesse não aprova, o preconceito é a melhor arma para banir alguém de um ambiente, de um círculo qualquer de convivência.

Nem o tempo pôde dominá-lo, nem a modernidade, imagino que nem a pós-modernidade poderá fazê-lo… ele é como vírus, bactéria… sobrevive de forma imutável, alimentado, especialmente, pela ambição humana.

Com Cristo não foi diferente. Ele foi alvo do preconceito de Natanael quando, chamado por Filipe a conhecer Jesus, disparou: “E será que pode sair alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo 1.46), como se dissesse, ele não é um dos nossos, é estranho, é diferente… já não tem as primeiras condições para ser “bom”.

Assim é em nosso tempo… se não for do mesmo time, estado, cidade, igreja, faculdade… se não fala o mesmo idioma, se não acredita nas mesmas coisas, se não faz do mesmo jeito… não pode ser aceito, acolhido, ouvido.

O preconceito é mau por si só, mas, especialmente, pelo fato de impedir a aproximação. Quem pré-conceitua, dificilmente dá espaço, dá tempo para conhecer… normalmente o pré-conceito se fundamenta em algum “ouvi dizer”, ou num “eu acho” qualquer. Ele tem o poder de separar, de desmerecer… é dele que nasce a antipatia, e até o ódio.

No meu modo de entender, de maneira destacada, na caminhada cristã, o preconceito é a raiz de muitos males. Quando ele se enraíza no coração, é capaz de destruir comunidades inteiras… porque age diretamente num dos fundamentos do amor, na aproximação… ninguém pode amar de longe.

Existem pessoas que estudam as estratégias de Deus para o crescimento de suas igrejas, mas se esquecem de pensar quais táticas e ações humanas faltam. Eu acredito que muito do fracasso de algumas comunidades está no estilo preconceituoso de Natanael, ao dizer: “pode existir alguma coisa boa onde você está?” Aí, normalmente, se emenda a frase, “se você não vier pro nosso convívio você nunca saberá o que é bom”.

Esse marketing é um furo terrível na lógica cristã que parte da hipótese de que Deus está com todos/as aqueles/as que “o invocam em verdade” (Sl 145.18). Portanto, não existe melhor ou pior lugar de culto, isso é um devaneio nosso, porque o culto, a liturgia, a forma de adoração, estão baseados em nossas preferências culturais, de amizade e convívio.

Da mesma forma, existe quem diga o tempo todo que o diabo é que estraga isso ou aquilo na “fé” – como se ele partilhasse com Deus o mesmo espaço no meio do povo. Não é o diabo que nos torna preconceituosos, arrogantes, “ensimesmados”, egoístas… isso é coisa nossa, humana… ele pode até desejar e trabalhar para que isto ocorra, mas somos nós que fazemos opção em aceitar suas provocações.

O preconceito, que rechaça tudo o que não acompanha o “eu” de cada um de nós, é mais terrível do que as obras de satanás! Precisamos pensar se as ações demoníacas não têm nossa participação, se não damos o clima para o mal atuar em nosso meio.

Acredito que necessitamos de pré-conceitos mais amorosos… que trabalhem mais a perspectiva do bem.

E que Deus nos abençoe.

Rev. Nilson.

Published in: on junho 18, 2008 at 11:20 am  Deixe um comentário  

As tempestades e seus benefícios

Published in: on junho 11, 2008 at 11:44 pm  Comments (1)  

Descrença

”Sou um crente porque creio na descrença”
Millôr Fernandes

“Nossa época se caracteriza por uma suspeita geral contra todos os discursos que tentam traduzir o definitivamente importante e o radicalmente decisivo da vida humana”.
Leonardo Boff.

Por quantas descrenças passamos… somos um mundo descrente, que duvida constantemente, vive sempre a espera do que está por detrás, tentando descobrir o que não foi escrito, o que não foi dito, o que não é claro, e, em muitas situações, o que nem existe.

Gastamos mais tempo tentando desvendar possíveis códigos, segredos, do que procurando ver, simplesmente ver, o que está explicito.

A desconfiança nos aflige… temos medo de acreditar, de interpretar da forma convencional… não acreditamos com facilidade, aliás, quase nunca temos fé em nada… a dúvida é mais cômoda, traz um status de esperteza, de astúcia, é mais “glamuroso” desconfiar.

Por isso, vivemos no sobressalto da suspeita… demoramos para elaborar pensamentos… somos lentos para tirar conclusões.

Assim, vivemos a lógica da descrença… de forma geral, não cremos no que nos falam, no que vemos, no que lemos… nas pessoas… não cremos em nossos familiares, tão pouco em quem não conhecemos, bem menos nas promessas que nos fazem… não cremos nas previsões… do tempo, dos sacerdotes, dos visionários… há quem não creia na morte, quem não creia na vida… não creia nos outros, nem em si mesmo… há quem não creia em Deus.

É assim que estamos, descrentes, desconfiados, esta é a contribuição que levamos do mundo que nos cerca… frente às frustrações sociais que já tivemos, aos traumas que nos marcaram.

E, sem perceber, estamos perdendo o encanto da vida… a possibilidade de crer. O que faremos se não acreditarmos em quem somos, no que temos, em nossas virtudes e que nossos erros nos levarão a um estágio maior? O que seremos sem canções que nos movam para a conquista de novos objetivos? O que faremos se não crermos que podemos viver de forma comum, social, dentro de uma harmonia possível?

Perderemos a cor, o tom, o canto, o encanto… não sorriremos mais… não sonharemos.

Crer é sinônimo de viver…

Nosso projeto original nos fez crentes… vivemos porque cremos constantemente numa nova possibilidade… a vida se move, de certa forma, pela possibilidade de acontecer algo que nos realize ainda mais… somos incompletos… nunca estamos prontos… como diz Mário Quintana “Esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte quase sempre às tontas, pois nunca as nossas malas estão prontas, e a nossa conta nunca está em dia”. E, diga-se, esta interminável caminhada acontece porque cremos… em tudo… que nossas dores cessarão, que as inimizades acabarão, que as lágrimas secarão… que haverá vida, que atingiremos a felicidade.

É preciso voltar humildemente à credulidade… para viver… perceber que a necessidade de acreditar na vida, nas pessoas, nas ações, nas intenções é que garante a possibilidade de respirar…

É necessário voltar para a loucura da crença, que de forma irracional traz à vida a esperança de que o nada pode se transformar em tudo, e de que não existe caos permanente para o que crê… humilhar-se, despir-se de explicações… admitir-se frágil, pequeno, dependente, crente.

É preciso beber da crença de pessoas simples… lembrar da mãe desesperada de Marcos 7 que arranca o milagre de Cristo por crer… de Bartimeu, cego, mendigo, que creu e foi curado de maneira surpreendente… do ladrão da cruz, que, por acreditar que Jesus era o Cristo, recebeu a melhor de todas as promessas… entrar no paraíso.

Espero, tenhamos a coragem de crer como Rubem Alves, ao parafrasear o profeta Habacuque:

“Embora a seca seque fontes e rios
E os campos fiquem esturricados,
E o gado morra de sede e fome,
E as queimadas devorem os pastos
E os machados transformem florestas verdes em desertos áridos,
E os palácios estejam cheios de corruptos –
A despeito disso minha alegria continuará a florir
E farei poemas diante do Impossível.” (Habacuque 3:17-18. Paráfrase).

Oração.

Deus, livra-nos da descrença… especialmente daquela que nos leva a desacreditar de nós mesmos, de que somos sua imagem, semelhança, portanto, seres providos de virtudes como o sentimento e a sensibilidade.

Leva-nos pelos caminhos da confiança, faz-nos perceber que Tua presença pode ser viva, sentida, falada… sem sombras e esconderijos.

Permita-nos perceber a humanidade… nossa e de quem conosco vive… de que existem erros no caminho dos acertos, e que nem tudo é embalado por intenções e ambições maldosas.

Cerca-nos de esperança… de que nossos objetivos poderão ser alcançados… de que existe vida feliz, de que é possível realizar sonhos quando se acredita.
Ajuda-nos a ver sinceridade… a acreditar nela… a valorizá-la, e a nutri-la de forma palpável.

Cria em nós um espírito de fé… traz de novo a pureza da criança, que não tem medo de se lançar no vazio das certezas inexplicáveis…

E que creiamos em Ti… simplesmente por Te sentir… nada mais que isto, sem interesses… por crer, somente.

E que, assim, vivamos em paz!

Por intermédio de quem nos fez crer que podemos superar todo o mal que nossa natureza desperta em nós…

Amém.

Rev. Nilson.

Published in: on junho 8, 2008 at 3:45 pm  Comments (1)