Atestado de Loucura

Fui criado num ambiente evangélico. Meus pais cantaram os grandes clássicos da fé protestante. Fui batizado duas vezes – o pastor se esqueceu de registrar no livro da Igreja e, por dúvida, repetiu um ano depois, insistindo com minha mãe que eu ainda não tinha passado pelo ritual.

Aprendi desde cedo a orar… fui embalado com cânticos infantis que me ensinaram de Jesus… ouvi as histórias bíblicas uma a uma do meu avô, que me punha pra dormir. Ouvi de José do Egito, de Moisés, Davi, Paulo, Estevão, e tantos outros/as.

Tornei-me um membro ativo da Igreja… cantei minha fé ainda muito jovem e a professei, publicamente, com muita emoção… cri, descri, venci, sofri, orei, jejuei e construí uma singela e profunda devoção… o pequeno templo onde sonhei minha fé já não existe mais… mas vive em minha lembrança com um colorido muito especial… meu casamento e o batismo de minha filha, mas, de igual modo, recordo do batismo de meu filho e a celebração de recepção de membros de ambos, em outros lugares e momentos.

Com a Teologia, sistematizei alguns conceitos… explorei outros ambientes de minha crença, exercitei a razão de maneira concreta… concluí que a religião institucionalizada nem sempre responde os anseios da religiosidade… e que as pessoas continuam sendo gente, por mais que cantem, orem, levantem suas mãos ou chorem.

Em alguns embates, percebi que a vivência comum, tão sugerida no Texto Sagrado, exige mais do que fé… porque a utopia bíblica não se concretiza somente com a “espiritualização” das palavras… é preciso ser ético dentro de qualquer comunidade, religiosa ou não, porque honestidade, dignidade, fidelidade e transparência, não são ganhos naturais da conversão, são conseqüências, sim, de boa formação.

Tudo isso me cansou muito… e até me decepcionou em alguns momentos. Perdi muito da ilusão e me deparei de forma dramática com a realidade de alguns assuntos que envolviam minha crença.

Mas, ao contrário do que poderia acontecer, sinto minha fé fortalecida… diante da fraqueza, da humanidade, da incoerência e da frustração… tive a experiência da loucura da fé… do crer, apesar do caos, do sorrir, apesar da tristeza.

Por isso, não quero explicar os meus fracassos… quero ressucitar esperança… não me importa com que intenção as pessoas me olhem… quero sorrir… tampouco pretendo me preocupar com as ameaças que possam fazer contra as minhas seguranças, quero experimentar a loucura da certeza… de não ter, de não ser, de estar solto, sem alicerces, sem quem me garanta.

Quero sorrir sem motivo, crer no inexplicável, sonhar com o que não tenho, louvar em meio a dores.

Quero me confortar com orações silenciosas e acreditar que elas movem os céus! Quero esperar que Deus mova os montes e abra os mares… não me importa que digam que não penso… quero crer… sem medo de ser politicamente correto, de estar coerente com o que sistematizaram de minha fé.

Vou orar por minhas dores, por minhas provas…vou evocar a proteção dos céus… e quero crer que os anjos estarão acampados ao redor de mim… vou espiritualizar… quero tocar o Sagrado de forma inexplicável… não quero dizer “o porque”, nem os pressupostos de minha espiritualidade. Quero viver a fé de maneira pura e inocente… tocar a loucura do crer… sem a preocupação de entender Deus, de explicá-lo… querendo apenas me entregar ao Inefável, ao Absoluto, num exercício de piedade abnegada. Quero aprender a loucura de Deus… crendo, como Paulo, que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.” (1 Cor. 1.25)

Que Deus me ajude!

Rev. Nilson

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Published in: on maio 29, 2008 at 8:30 pm  Comments (2)  

A lição da borboleta

Published in: on maio 20, 2008 at 1:51 pm  Deixe um comentário  

O meu relógio de pêndulo.

Eu e minha esposa fomos visitar uma irmã da igreja que ainda não conhecíamos. Éramos recém-chegados à cidade e ela viajava muito. Tínhamos ouvido que seu esposo respeitava muito a comunidade, apesar de não fazer parte dela.

Fomos acolhidos com muita alegria, o marido não estava, mas logo chegou. Fui impactado com a simpatia daquele homem… nos tratou com a mais alta estima… conversamos sobre várias coisas, falamos da vida, soubemos de sua história, quando, entre outras coisas, disse a ele do quanto gostava de objetos antigos, e de nosso singelo museu cultivado numa pequena mesa em nossa sala de jantar.

O homem me olhou de maneira diferente. Para meu espanto, se levantou e pediu que o seguisse… foi entrando pela casa e chegou num pequeno quarto, me parecia que de visitas. Trouxe uma pequena escada e disse: “O senhor que é mais novo, sobe aqui”, eu prontamente atendi… “dê uma olhada aí em cima do guarda-roupas, tem uma caixa de papelão aí”? Pediu para que eu a tirasse de lá.

Naquela caixa existia um relógio antigo… de pêndulo, desses “à corda”, que badalam nas horas e nas meias-horas. Ele me olhou e disse: “é do senhor”! Fiquei muito grato.

O “seu Luiz”, marido da “dona Dirce”, me preveniu: “Pastor, o senhor vai ter que levar num relojoeiro, o relógio não está funcionando. “Não tem problema” respondi, muito feliz com o presente.

Encontrei um relojoeiro que aceitou revisar a relíquia. Depois de poucos dias me ligou dizendo que se tratava de um relógio com maquinário alemão, e era uma peça rara… só teria um problema, o eixo principal não seria tão preciso… desconsiderei o defeito, autorizei o concerto e até hoje temos o nosso relógio de pêndulo enfeitando nossa casa… é um dos objetos que mais gosto em casa, apesar de marcar nossas horas de forma um tanto quanto indiscreta, especialmente para quem deseja dormir perto dele.

Nosso relógio, é querido e admirado e trabalha com rigor germânico. Contudo, aquele pequeno defeito o acompanha… ele sempre bate as horas dois ou três minutos depois… nunca na hora certa… na verdade, o ponteiro tem uma “folga” que faz a diferença acontecer, mas não tem problema, já sabemos dessa característica dele e não levamos em conta.

Outro dia, olhei pra ele e fiquei pensando que tenho muitos/as amigos/as como ele, que batem com alguns minutos de diferença comigo. São pessoas queridas, por quem nutro muito carinho, mas que tenho consciência clara de que, em algumas coisas, temos minutos de diferença… seja em questões de religião, política, ou até, futebolísticas!

Imagino que não deixarei de gostar delas… são como o meu relógio… preciosas na minha admiração, mesmo que tenham o ponteiro um pouco avançado, ou atrasado em relação aos meus “horários”.

Creio até que essas diferenças poderiam ser problemáticas… mas não quero que sejam! Aprendi a lidar com elas… sei que em algumas horas importantes, preciso fazer contas, descontando ou acrescendo “minutos”, para que viabilizemos encontros, momentos de amizade e alegria.

A meu ver, muita gente sofre por conta de uma rigidez sem sentido, fazendo minutos de diferença ocasionar grandes desencontros… causando atrasos espantosos nos processos de humanidade, de paz, e até de cristianismo.

Fico com o meu amigo “relógio de pêndulo”… que traz, minuto a minuto a lembrança do quanto devo me esforçar na viabilização dessas horas de harmonia. Fico com a esperança de ver pessoas se encontrando e se reencontrando consigo mesmas e com as novas amizades que só o tempo certo, acertado todos os compassos da indiferença, pode dar.

Que o Senhor do Tempo nos ensine… e que tenhamos paz.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on maio 10, 2008 at 1:10 pm  Comments (2)