Não fazemos qualquer negócio

É mera repetição dizer que vivemos sobre a influência do mercado. Num dia desses assisti pela televisão uma reportagem sobre pais que remuneram os filhos para os pequenos serviços da casa – arrumar a cama, preparar a refeição, limpar o quarto e coisas afins. Segundo eles, esta prática desperta as crianças para a vida, à dinâmica do receber proporcionalmente pelo que se faz, do ganho e da perda.

O mercado permeia a vida. Dentro e fora de casa, vivemos como vítimas de suas tensões. De certa maneira, estamos cotados, diariamente, como que numa bolsa de valores, que pesa, remunera e cobra tudo o que fazemos.

Entre créditos e débitos, existem poderes que nos regem… se temos, exigimos, se devemos, lamentamos. “Quem tem mais, chora menos”… esta é a lei.

Isto nos confunde como um todo, inclusive nossa devoção.

A religião em tempos pós-modernos, serve como moeda de domínio e, pasmem, inclusive de Deus. Quem tem muita fé, obrigatoriamente, precisa ter resultados, porque a “fé de mercado” é regulamentada por certas normas, por exemplo: que quem “paga o preço”, exige. Se a pessoa paga a Deus seus débitos – orando, jejuando e participando de reuniões – ela tem o “direito” de alguns favores, afinal, o mercado se caracteriza por troca.

A nova lógica é que o/a ‘crente’ acumula saldos diante do Altíssimo e, no devido tempo, cobra.

O que coloca em cheque esse mercado da fé, são as provações. Diante delas, geralmente as pessoas encontram duas saídas: considerá-las como pecado – débito – ou como ameaça da concorrência – o diabo.

Os imprevistos, na lógica do mercado, devem ser previstos. Mas na vida, e de forma mais evidente, na fé, existem causas imprevistas e inexplicáveis, não processáveis pela cartilha da “fé de troca”, de direitos adquiridos.

Quando fatos naturais a qualquer pessoa – afinal, segundo o próprio Cristo, Deus “… faz o sol nascer sobre maus e bons” (Mt 5.45) – surpreende os alicerces dessa fé que só vive por decretos e exigências, a “bolsa quebra” e os argumentos faltam.

Talvez nesta hora seja necessário evocar o drama de Paulo, que admitiu ter um espinho incurável, a amargura de Jó, que viu sua vida ruir, ou mesmo a dor de Estevão, diante da morte. Existem momentos em que a fé foge à razão do mercado e, ao contrario dele, conclui-se que não fazemos qualquer negócio.

Aliás, me parece que ter a noção de que não se faz qualquer negócio é a grande tônica do evangelho de Cristo. Quando mais consciência disso se tem, mais força e valor – que contradição com o “evangelho” que se escreve nos tempos atuais!
A lei que contraria o mercado e nos lembra de nossa fragilidade é, no meu modo de ver, a possibilidade da dependência, da humildade, da disposição de andar segundas, terceiras milhas. Parece-me que é assim que nos livramos da arrogância do mais forte, do determinismo do intolerante, do devaneio do autoritário.

Quando leio sobre o Cristo da cruz e me lembro do mercado, fico em crise. Porque um me leva para o auto-sacrifício, o outro para a queda de braços, um me remete ao oferecimento, o outro para o ganho próprio… um para os outros, o outro, para mim mesmo.

Lamento que o mercado venha abarcando nossa vida de maneira tão poderosa e que não existam muitas esperanças de evitá-lo.

Espero que a fé volte logo para a cruz e que voltemos a ser uma contracultura, tal como eram nossos pais… que voltemos a ter, novamente, nossas próprias referências… sem medo de ser sal – que mesmo em pouca quantidade, faz-se notar – e luz, que esclarece, que ilumina sem alardes.

Que tenhamos pudor para não fazer qualquer negócio em nome de nossa fé.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on abril 29, 2008 at 11:18 pm  Comments (1)  

O valor do porquinho de moedas.

O “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, é uma peça clássica do teatro brasileiro. Escrita em 1955 e publicada em 1957, foi adaptada para virar minissérie na TV Globo e posteriormente foi para o cinema, sempre sob a batuta de Guel Arraes – cineasta e diretor de televisão.

No filme, do ano 2000, dirigido por Arraes com roteiro dele e de Adriana Falcão, entre outras tantas, os personagens “João Grilo” (Selton Melo) e “Chicó” (Matheus Nachtergaele) tramam o casamento de João Grilo com Rosinha (Virginia Cavendish), filha de um fazendeiro da região Major Antônio Morais (Paulo Goulart). Acontece que para que o casamento se viabilize, seria necessário o noivo ser rico, o que não era o caso, contudo, Chicó tem uma idéia: como a noiva teria de presente da família, um porquinho de moedas, onde se imaginava existir uma fortuna – já que vinha sendo “engordado” há anos pela família – assim que o casamento se concretizasse, ele, como marido da herdeira, se tornaria rico com a fortuna guardada na barriga do porquinho.

Para a surpresa dos noivos (João Grilo e Rosinha) e, especialmente de Chicó, que esperava ser amigo de um homem rico, o que havia no porquinho eram apenas moedas muito antigas, sem valor financeiro algum.

Deixando a questão do filme como pano de fundo, podemos pensar nos porquinhos de moedas que nutrimos pela vida. Cada um tem o seu. Uns mais gordos, outros magros, uns pequenos, outros grandes.

Cada qual olha pro seu porquinho de uma forma. Há aqueles que se preocupam mais com o do próximo, imaginando a fortuna contida nele… mas também existem os que se perdem na ambição de engordar rapidamente, sonhando com os benefícios que poderá ter.

A alegoria do porquinho nos ensina de várias maneiras. Existem porquinhos que realmente têm valor dentro de si porque foram nutridos com moedas caras, raras… quando quebrados, trazem riquezas admiráveis… mas existem os que não tem valor, somente peso, quantidade, volume. Mesmo assim podem ter importância afetiva… muitos porquinhos nunca serão quebrados… terão suas entranhas desvalorizadas pelo tempo e, apesar disso, haverá quem dispense a eles um valor muito grande.

Quero dizer com isso que as pessoas acumulam apegos diversos dentro de si… pensamentos, posições, impressões e experiências, questões que vão sendo eleitas, escolhidas, para fazer parte de suas vidas e que precisam ser respeitadas, mesmo que não sejam importantes, que não toquem quem está de fora. É preciso respeitar o porquinho de moedas de quem vive ao lado, independentemente de existir ou não algo valioso nele, mas porque alguém que o considera como valor.

Tenho a impressão que vivemos esta crise generalizada de desrespeito. Repetidamente vemos quem desdenhe dos valores alheios, como se existisse um critério mundial de certo e errado e como se o campo das interpretações não contasse para a análise das questões da vida.

Certas “moedas” têm significado bem maior do que o monetário, o visível, representam afetivamente, pessoas, experiências, que transcendem a compreensão de quem não acompanhou o acúmulo dos sentimentos que envolveram o processo pessoal de cada um.

Desprezar o valor alheio, a meu ver, é um ato extremamente anticristão, é pecado, porque afasta do próximo e, conseqüentemente, de Deus.

Concordo que possa haver equívocos guardados em cada um de nós, mas é preciso lembrar que a emoção é um espaço profundo demais para ser tratado de qualquer maneira. Não se pode mensurar quais as significações que cada pessoa traz dentro de si. Por isso mesmo, antes de julgar, medir, falar e magoar, é preciso respeitar.

Que o Pai Valoroso nos ensine a trabalhar isto em nossos relacionamentos.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on abril 26, 2008 at 1:28 am  Comments (1)  

Oração de um pastor.

– pelo dia do pastor e da pastora.

Enquanto calei os meus lábios… enquanto não me livrei dos meus medos…

Enquanto não confiei, somente… em vão busquei a fé.

Não me envolvi, nem me aproximei, nem me fiz amigo… em vão andei…

Sem rumo, sem trabalho, sem função…

Perdi-me em meus projetos, em sonhos que criei, em planos que nunca conclui…

Fuji de Ti… de Teu olhar, de Teu querer.

Mas quando entendi quão saboroso é o caminho de quem contigo está,

Quão gratificante é não ter certezas, apenas ter-te,

Então me ofereci, me apresentei…

Despi-me de mim mesmo, de minha frágil segurança, de meu ambicioso futuro,

Segui Teus passos… fiz-me um dos Teus… mais um pescador.

E Te agradeço por fazer parte desse Reino tão diverso e inexplicável,

Por sonhar ao Teu lado que podemos, todos, ser melhores do que somos,

E, especialmente, por ser, Senhor, Teu discípulo, Teu aprendiz, ser como fostes, um pastor.

Amém!

Rev. Nilson

Published in: on abril 14, 2008 at 12:38 pm  Deixe um comentário  

A fraqueza dos fortes.

Vivemos num mundo impiedoso quase sem espaço para as fraquezas e seus fracos.

Normalmente somos surpreendidos pelos sinais da força, onde as pessoas se desumanizam para esconder aquilo que lhes é natural, o sentimento, a dor e a tristeza.

Ignoramos os “dias maus”… como se eles pudessem ser esquecidos… como se não tivessem nenhum proveito. Em geral, os processos de embates sérios como morte e doença são bastante dolorosos para quem quer que seja… fragilizam a alma de qualquer ser… mas precisam ser contabilizados na contagem da nossa emoção, para que não nos achemos credores demais.

Lembro-me de quando perdi meu avô, depois de um longo período de luta contra o câncer… recordo com precisão de seus últimos dias, extremamente magro e debilitado… tornou-se praticamente uma criança, carente dos cuidados mais básicos.

Aquele tempo foi amargo, mas valioso. Vi meu avô se transformar fisicamente, pelas limitações que a enfermidade trouxe mas, de uma forma muito profunda, também observei que, de alguma forma, ele transcendeu o corpo, chegando, a meu ver, àquilo que Paulo, o apóstolo, chamou de Perfeita Varonilidade.

A cena de meu avô forte em meio a doença, me faz ponderar sobre os novos conceitos que a fraqueza e a força ganharam. No campo da fé, de uma forma assustadora, esses conceitos não convivem mais, numa negativa trágica ao conceito paulino de que “quando sou fraco, então, é que sou forte.” (2 Cor. 12.10) ou ainda que “o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Cor. 12.9).

Para a surpresa geral da nação, nasce uma fé que, cada vez mais, se firma na força e se exclui da naturalidade humana… como se a fé fosse um processo de “desumanização”, talvez até, uma justificativa cabível para a forma atroz que os seguimentos da nova religião trata a maioria de seus seguidores.

O maior drama disso é quando a natureza, ou melhor, os processos comuns à nossa humanidade – lembremos aqui novamente da dor e da morte – assolam pessoas declaradamente fortes, fiéis, “usadas” por Deus. Aí, o que é natural torna-se negação de poder, de fé e, o mais grave, da presença de Deus – como se Deus não estivesse conosco em todos os momentos, inclusive nos que nos abatem, nos ameaçam e nos fazem sofrer.

Ao contrário do que pensava Paulo, ser fraco, ter problemas, provações, agora é feio, é falta de fé… normalmente os “novos heróis da fé”, fogem da doença, negando sua carne, sua aflição, porque ser pobre, carente, de qualquer coisa que seja, é sinal de distanciamento de Deus.

Meu Deus, quem são os fracos? Quem são os fortes? Quem “é”, realmente, de Deus? onde está o sinal de bênção? Na voz forte, determinante e imponente do Fariseu ou no sussurro do Publicano?

Porque esconder a dor… porque esconder o choro… se Deus também chora com o choro dos abatidos e entristecidos? Porque se esconder, negar-se, omitir-se, se Deus conhece a todos desde o íntimo mais profundo… intenções, pensamentos… tudo?

Talvez, o caminho de Deus deva nos levar, antes de tudo, para nossa mais vergonhosa fraqueza, fazendo-nos lembrar que somos pó… infinitamente menores do que pensamos ser… ínfimos em nossas inseguranças e medos.

Talvez, o caminho de Deus esteja mais em assumir quem realmente somos, do que em dizer aos quatros ventos quem imaginamos ser.

Sinceramente, espero uma fé mais madura… como a de Paulo… que se aperfeiçoa na fraqueza, que entende a maravilhosa lição de admitir-se pequeno, com espinhos vitalícios, doloridos, mas com o poder de nos livrar da soberba e da arrogância, ajudando-nos a chegar ao mais alto e sublime posto de uma vida verdadeiramente cristã, a servidão.

Que Deus nos dê a coragem de admitirmos nossas fraquezas e, que assim, fortaleçamos nossa fé.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on abril 5, 2008 at 12:36 am  Deixe um comentário