Jerusalém, Jerusalém.

Estamos na última semana da Quaresma, a última semana de Jesus.

Este é um tempo onde os extremos de Cristo e da sociedade em que viveu são escancarados.

Tudo começa na sua chegada a Jerusalém… o povo coloca ramos pelo caminho, honras para uma grande personalidade. Ovacionam, gritam: “hosana”.

Os dias se sucedem, os evangelhos contam de um Jesus irritado com pessoas que tiravam proveito financeiro da religião… descreve curas, milagres, parábolas, lamentos, relata uma visita a amigos queridos numa cidade próxima, Betânia.

A semana termina… Jesus sai de Jerusalém, preso, chicoteado, escorraçado, carregando uma cruz para nela ser crucificado e morto… sai primeiramente para a cruz, para a morte, depois para o sepulcro, depois para a Glória de Deus.

Qual seria o problema de Jerusalém… ou – que ironia – o problema de Jesus, para uma mudança dessas em tão pouco tempo? O mesmo povo, a mesma cidade, o mesmo Cristo e atitudes tão destoantes!

Em várias situações somos como Jerusalém… saudamos o Cristo de forma tão evidente em determinado momento mas, quase sem explicação, passamos da vida para a morte, da ovação para a rejeição de maneira inesperada, a despeito do Cristo que se oferece em sacrifício, do amor demonstrado, do Deus entristecido.

Espero que tenhamos um momento de reflexão profunda para pensarmos no tratamento que damos ao Cristo que vem a Jerusalém, que vem a nós.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on março 21, 2008 at 2:03 pm  Comments (1)  

No subsolo social.

Sabe aquele botão que a maioria dos elevadores tem com um “SS” que leva a gente para o subsolo? Pode ser loucura minha, mas sinto que certas pessoas selecionam voluntariamente esta opção no elevador da sociedade.

Não estou falando dos/as desfavorecidos/as, necessitados/as, marginalizados/as… estes/as, quase sempre nem tem escolha… não têm o privilégio de adentrar num elevador desses… pelo contrário, me preocupo com quem se exclui por excessiva exigência, excessiva crítica, rigor.

Existe quem seja tão austero em seu senso crítico que acaba por ficar sem ter o que recomendar, o que gostar, admirar. Assevera com tanta rigidez seus padrões mais íntimos que passa a excluir quem não se enquadre ao seu “esquema”.

O que acontece? O sujeito vai se afastando do que seja “ruim”… encontrando ruindades e defeitos por onde quer que vá, em pessoas, em organizações… nada lhe cabendo, nada lhe despertando entusiasmo.

Conheço pessoas que estão tecendo casulos! Gastando seu tempo e energia para detectar problemas, ou melhor, justificativas que fundamentem seu distanciamento, seu desligamento social… sem perceber o quanto é difícil encontrar alguém ou alguma coisa que lhes complete o grau de reivindicação que construíram ao longo da vida.

Com a distância vem o “encasulamento”, o ostracismo e o enclausuramento… desencadeando um processo crônico de frustração e tristeza, onde não há quem sirva.

Diante disso tudo, procuro olhar com os olhos de Cristo… aquele homem palestino, de profissão modesta, de aparência simples, amigo de pescadores rudes, com aparência de glutão e beberrão… visto no meio de gente pobre… e considerado por alguns até mesmo um descumpridor da lei.

Com que medida julgava Jesus? Qual seu grau de exigência? É certo, Ele foi crítico, incisivo, duro com os santarrões da época, contudo, não os desprezou… a meu ver, Jesus não considerava a imperfeição, a “falta de alcance”, como um pecado tão sério, a ponto de deixar de lado, discriminar, marginalizar quem quer que fosse.

Pelo contrário, Jesus amava as pessoas equivocadas de sua época… existia sempre uma segunda chance, uma segunda milha, uma segunda face para garantir que os/as “errados/as”, os/as equivocados/as, tivessem o direito de serem acolhidos/as no novo reino que Ele propunha.

Jesus foi o crítico mais doce desse mundo! Talvez porque atrás de sua crítica, houvesse sempre sentimentos como paz, perdão, reconciliação e boa vontade.

Ninguém foi mais duro e ousado… o azorrague é um exemplo clássico! No entanto, ninguém foi mais gentil… o ladrão – símbolo de rompimento total com o Reino de Deus – ouviu d’Ele, “… hoje mesmo estarás comigo no paraíso…”.

A crítica Divina, demonstrada em Cristo, é absurdamente transformadora! Ele não somente continua ao lado das pessoas que criticava – os exemplos de Pedro, Judas mostra isso claramente – mas tem a coragem de dar tudo para melhorá-las – a própria vida.

Jesus não se excluiu, não optou pelo “SS” do elevador, não se enfiou dentro de um casulo de observações… pelo contrário, se meteu no meio de um povo complicado… sentou com eles, teve longanimidade, participou de suas festas – chegou até a providenciar vinho para que uma delas não acabasse antes da hora – mas também esteve com eles em seus momentos de dores… andou e chorou com eles!

Não houve distanciamento na critica de Cristo… ele sempre se retirava – para orar – e voltava ainda mais comprometido… ele não se escondeu, não se esquivou… criticou e conviveu.

Fico com a tristeza de não ver em nosso tempo uma crítica eminentemente cristã… em loco, presente. Temos que parafrasear aquela propaganda tão conhecida: “não adianta ser crítico, tem que participar”! Não adianta saber onde está o erro, tem que ajudar a resolver! Não adianta falar, tem que estar presente e fazer alguma coisa!

Que Deus nos ajude com sua Graça e nos dê, sempre, a paz!

Rev. Nilson

Published in: on março 15, 2008 at 5:30 pm  Comments (1)  

Menino passarinho.

O homem sempre teve vontade de voar! Isto me faz lembrar de Luis Vieira (1962) cantando “… sou menino passarinho, com vontade de voar…”!

Talvez seja esta a causa de invenções tão fabulosas como o avião, o balão, a asa-delta e todos os objetos voadores identificados.

Mas o desejo de voar abalou o imaginário humano de uma forma mais profunda… mais do que sonhar e concretizar os vôos, nós mortais não alados, tratamos de resignificar esta possibilidade. Voar passou a ser tarefa de conquistar alvos distantes… assim, isto pode representar a conquista de um reconhecimento especifico na intelectualidade, ou num grupo de pessoas, ou ainda, um status social qualquer.

Voar pode não significar alçar um vôo físico… pode ser conseguir um emprego, um/a namorada/o, uma projeção financeira, moral, ou coisa parecida.

Vivemos sonhando com um jeito de chegar as alturas… de alguma forma, cada um de nós, tem um auge que almeja… uma nuvem… um ideal.

O que ainda não nos demos conta, foi que voar, especialmente para quem não tem o hábito, é algo bastante perigoso.

Voar tem a ver com um “lançar-se no vazio”… confiar no invisível e no desconhecido… crer que a força da gravidade associada à anatomia das asas, garantirá a possibilidade do maravilhoso milagre de deslizar no vento… de viajar sobre as correntes do ar.

Além disso, voar também é desafiar o impossível… todos nós sabemos que tudo que sobe cai… com exceção de quem sabe voar… de quem aprendeu a planar e é habilidoso/a na arte da aerodinâmica… voar é crer que o inacreditável vai acontecer… é ter fé no que não se vê, no ar, em Deus…

Quem quer voar tem que estar preparado para os acidentes… algo pode sair errado… a inabilidade pode surpreender… os imprevistos podem aparecer.

De maneira comum, é bom voar baixo quando não se sabe voar bem… vôos altos são para quem domina as técnicas do tempo, do ar, das nuvens.

A altitude desperta um fascínio avassalador… não há quem não vislumbre as nuvens… mas a altura que excita é a mesma que mata… existe êxtase e morte no ar… é preciso respeitar os céus!

Se o desejo de voar é incontrolável… se os conselhos, as indicações e a prudência não acompanharem quem assim deseja, isto é perigoso.

Por outro lado, se não existir desejo de voar, não existe sonho, não existe céu, horizonte, encanto, gosto, paixão!

É preciso respeitar o ar, respeitar o céu. É preciso voar… mas nunca esquecer de que nos vôos curtos, breves, se simula o perigo das grandes alturas… e se pode prevenir, aprender, perceber as nuances do ar, da terra, do céu… entender que o desafio de voar se desenvolve aos poucos… não se atinge o céu de uma hora pra outra.

Para os sonhadores de plantão, como eu, fica o desafio dos ares… respeitar os céus… estar ciente de que quanto mais alto sonharmos, mais risco teremos… e que é preciso ter serenidade para aprender a querer… para não buscar, querer – voar – mais do que as nossas forças, anatomia, autonomia… para não nos esquecermos que, na maioria das vezes, somos apenas “… meninos, passarinhos, com vontade de voar”.

Que Deus, dos altos céus, nos ilumine com sua graça e paz,

Rev. Nilson.

Published in: on março 9, 2008 at 9:46 pm  Comments (1)