Olha aí… é o meu guri!

Nas férias de janeiro tivemos um privilégio raro, reunir boa parte da família. Estavam lá, na casa da sogra, quatro famílias – a dela e de mais três filhos/a.

Todo mundo já sabe… muita alegria, muita comilança. Coisa de família.

Um desses momentos foi cômico. Estava de longe, numa sala ao lado, mas não pude deixar de ouvir a conversa dos/as cunhados/as falando sobre seus filhos/as. Um se envaidecia daqui, outro retrucava mais vaidade dali… nada mais que pais/mães orgulhosos de seus rebentos. Quanto sonho… quanto enleio e esperança sobre o futuro, a vida e a realização… coisa de família!

Foi inevitável a comparação… num repente me vi cantando “O meu guri”, de Chico Buarque (1981)… não por algum tipo de ligação ao equívoco que a personagem da música vive em relação ao filho, mas a este incontrolável sentimento de orgulho e vaidade que pais e mães sentem, quase que num rompimento com a crítica e a realidade… a pouco de perceber que o que é seu, quase sempre, não se difere muito ao que é do outro… praticamente sem notar um certo grau de normalidade que envolve o todo, o todos… sem aceitar que somos bem parecidos/as, humanos, participantes de um jogo de virtudes e defeitos que nos equilibra e nos iguala.

A cena me fez pensar mais longe… em outros ambientes, que, da mesma forma, se caracterizam pela diferença de tratamento com o que é meu e o que é teu, em reuniões, lugares, contextos que, de alguma forma criam “pais” e “mães” emocionados/as falando de suas “crianças”, agora representadas por crenças, posições ou pensamentos… levando-me novamente ao encontro com o dilema que nós mortais temos em tratar com o “meu” e o “teu” guri.

O problema é que em situações assim, um, não tem paciência para ouvir sobre o “filho” do outro, o gosto, a opinião, o pensamento, a preferência do outro. Um canta aqui e o outro ali… sem sintonia, sem concordância ou harmonia.

Aliás, até, vemos gente cantando alto, grosso, para impressionar… como se a qualidade da “criança” se alterasse pela altivez do pai, da mãe… são “crianças”, idéias, encaminhamentos, criados no grito, na garganta, no argumento… rebentos gerados sem explicação cabível… sem crítica.

Fico assustado com a disputa desses pais e mães pós-modernos… que “compram a briga” do que é seu e ignoram o que é alheio… somente porque é seu, somente porque é alheio.

No caso da música, o “guri” era um menor delinqüente… um assaltante, talvez… mas o/a pai/mãe não sabia… ou não queria saber… driblava a realidade, e, como no futebol, defendia a camisa, mesmo vendo que o seu time era o pior do campeonato.

Imagino que exista muita gente enganada com seus filhos/as… e, o mais triste, consigo mesma. Cega diante do que é seu – posturas, pensamentos, posições, filosofias – defendendo com unhas e dentes valores de que não se tem certeza, crenças que não são bem claras, direções sombrias.

Tem gente morrendo por motivos baratos… brigando, se desentendendo por banalidade… fazendo questão do que não conhece a fundo, cantando a vanglória de filhos/as delinqüentes… porque não quer parar, criticar e criticar-se, ouvir, esperar, humilhar-se, aceitar.

Que Deus – o pai sincero e crítico – nos ajude com lucidez e bom senso… diante de nós mesmos/as, diante do que criamos, diante de quem está conosco.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on fevereiro 29, 2008 at 11:45 am  Comments (4)  

Filho de pais separados.

Sou filho de pais separados. Lembro-me de como foi amarga a experiência de ver minha família sendo fracionada… isto aos doze anos de idade ganha uma proporção ainda mais desastrosa. Recordo como foi difícil para meu pai achar uma explicação para o que estava acontecendo… fiquei dias impactado com a noticia.

Depois da separação em si, os problemas foram ainda mais complexos. Se eu já não tinha meu pai presente o tempo todo – era representante comercial e viajava muito – com a oficialização do divórcio, aconteceu um distanciamento ainda maior. Ele praticamente não me visitava e, se eu quisesse vê-lo, tinha que viajar até sua nova residência.

Com o passar dos anos o relacionamento com meus pais passou por um processo triste. Para evitar que os rancores viessem à tona, o melhor a fazer era não falar de um pro outro. Se estava com meu pai, evitava assuntos que lembrassem minha mãe, mesmo porque ele imediatamente, contraiu novo casamento, e o ambiente não seria propício. Se estivesse com minha mãe, agia da mesma forma.

Após muito tempo passado a animosidade diminuiu, mas as lembranças daquela época não são boas.

Numa situação assim, quem fica à berlinda é o/a filho/a… por amar além do fato, das razões, dos equívocos. Para um/a filho/a, o que acontece nas desavenças de pai e mãe, são menores do que o amor, o carinho e o respeito que se tem.

Normalmente o que acontece é que os dois lados quer que o/a filho/a entenda sua forma de ver e interpretar e lhe dê razão. Não é uma situação cômoda ficar no meio, além da desarmonia.

Um coração de filho/a, tem outras preocupações. Pai e mãe, são referencias de amor e consideração. As lembranças do cuidado e da dedicação são infinitamente maiores do que os desafetos… superam por amor.

Imagino que o coração de um cônjuge numa situação dessas esteja tão magoado que não consiga coordenar devidamente seu ritmo. A tristeza do fracasso de um sonho, especialmente na área conjugal, deve ser traumático.

Em alguns momentos, de outra maneira, revivo essa situação toda que passei há quase trinta anos diante de pessoas que gosto, mas que não têm harmonia entre si. Especialmente nas dimensões da Igreja, sinto-me, novamente, como ‘filho de pais separados’… entre pensamentos, posturas, interpretações.

Seja entre carismáticos e tradicionais, progressistas e pentecostais, ecumênicos e não ecumênicos, sinto-me tolhido de pensar, agir, gostar e me aproximar de um ou de outro.

Vivemos um momento que se você não tem um estereotipo que o identifique numa tendência evidente, você é taxado como “pecador” por ambas as parte e rejeitado.
Sinto-me traído por quem me discipulou num evangelho onde o amor lança fora todo o medo, a amargura, o desrespeito. Sinto-me triste em conhecer um ‘outro evangelho’, onde a pessoa tem que vestires uniformes de carismatísmo ou de tradicionalismo, de progressismo ou de pentecostalismo para ser aceita e sobreviver, e pior, onde gostar de um ou de outro tem representações políticas.

Quero, em nome de Deus rejeitar essa tendência. Quero gostar de quem quiser! Quero bater palmas quando quiser, e ficar quieto também, se assim me aprouver… e quero ter liberdade de pensar, de viver e de sonhar num mundo e numa Igreja onde o amor seja maior que a ambição, o respeito continue tendo lugar de privilégio, onde o Espírito Santo tenha liberdade de converter pessoas, opiniões, e de desfazer mal entendidos, desfazer inimizades e, mais que tudo, onde haja lugar para perdão e reconciliação!

Não quero mais me sentir como me senti há trinta anos. Nunca mais quero ficar dividido, impedido de dizer que amo esse/a ou aquele/a… quero viver esse evangelho utópico que me ensina a Bíblia e me inspira João Wesley, onde seja possível sonhar com unidade em meio a diversidade, onde coisas não essenciais sejam tratadas como tal e o essencial seja alvo de tolerância, de amor e paz!

No desejo de graça e paz,

Rev. Nilson.

Published in: on fevereiro 25, 2008 at 11:09 am  Comments (1)  

Absorção de Impacto

Há duas ou três semanas fomos surpreendidos por um barulho estrondoso – nosso prédio se localiza numa avenida bem movimentada – e logo associamos a confusão a um acidente de trânsito. Dito e feito. Dois veículos colidiram fortemente em frente a nossa janela da cozinha.

Para a nossa surpresa, ninguém se machucou gravemente. Veio a polícia, os bombeiros, para-médicos, macas e, óbvio, dezenas de curiosos.

Um dos carros sofreu mais, ficou com a dianteira destruída. O interessante é que se tratava de uma desses jipes importados, com aquelas rodas grandes… que nada, retorceu tudo. Como que um papel, a lataria, aparentemente tão reforçada, moeu, dobrou.

Foi aí que lembrei… a nova tecnologia das carrocerias tem exatamente esta intenção, “sanfonar” o carro… é um processo interessantíssimo… a parte frontal e traseira são feitas para absorver… e o habitáculo, o espaço onde abriga os passageiros, preparado para resistir, preservar a vida de quem ali está. A tecnologia prepara a aerodinâmica e a estrutura para facilitar e preservar o essencial… a vida. O motor, o pára-choque, pára-lamas, tudo é predisposto para estragar com mais facilidade, diante de um impacto violento.

A lógica automobilística agora não aceita mais aqueles ferros rígidos nas extremidades do carro – lembra daqueles pára-choques feitos de trilho de trem? Todos os ocupantes morriam, mas o automóvel ficava intacto – que ironia!

Olhando para aquele carro retorcido pensei sobre a vida, o cotidiano… lembrei dos impactos que temos nas esquinas de nossas histórias… as frustrações, desilusões, decepções… e isto não é privilégio de um ou de outro, cada um de nós vive coisas difíceis… problemas sérios, que chegam com a mesma surpresa dos acidentes… sem ter como evitar, como desviar… violentando, agredindo, impactando a calmaria, a tranqüilidade… acidentes e incidentes que nos surpreendem, enfermidades, mortes… embates complexos para a alma, para a vida!

A filosofia do carro retorcido, que absorve o impacto e desconsidera sumariamente a possibilidade de resistir, a meu ver, tem muito a nos ensinar.

Em nossa tendência natural, somos programados para resistir ataques… imagino que em nossa alma instintiva isso também aconteça… diante da agressão, automaticamente, resistimos… enrijecemos músculos, retraímos o corpo… procuramos uma forma de rechaçar as ameaças… a exemplo daqueles pára-choques feitos de linha de trem. Não choramos, não falamos, às vezes até sorrimos, como se isso fosse coerente com as horas de impacto… nos mostramos fortes, imbatíveis, para passar uma impressão equivocada de resistência, de rigidez e firmeza.

O que realmente sofre com isso é a nossa emoção. Em nome da aparência, destruímos sonhos, esperanças, ternura, amor. Para não “darmos o braço a torcer” vale dilacerar nossa alma, causar feridas, rancores e mágoas profundas naquilo que temos de mais precioso para enfrentar o dia a dia, nossa emoção.

Na maioria das situações, não absorvemos os impactos. Não cedemos, não paramos, não destruímos a beleza aparente em detrimento da preservação da alegria e harmonia interior.

Recordo-me de Davi, o Rei, o homem. Capaz de ser tão destruidor nas guerras e conquistas, mas tão sofrido e quebrantado diante das dores da vida. Hábil para reinar, decretar, festejar, cantar em horas de calmaria e, com a mesma sinceridade, se trancar num quarto, chorar, lamentar, sofrer e se arrepender.

Quem sabe a vida não seja melhor diante desse equilíbrio, desse rompimento com o orgulho da força aparente. Quem sabe não sejamos melhores se aprendermos a absorver, a aprender e aceitar com mais naturalidade os momentos de provação que temos nos cruzamentos do dia a dia.

Desejo estar sempre preparado para absorver os embates… em nome de minha alma, de minhas emoções… em nome de me aceitar, sempre, humano, passível diante do sol que nasce sobre maus e bons.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on fevereiro 21, 2008 at 11:53 am  Deixe um comentário