Minhas descrenças.

23.11.2007.

É difícil falar do creio, posto que creio no sobrenatural, no inacessível, no transcendente… por isso, talvez, seja mais fácil entender bem o que não creio… disso, com maior propriedade, estou certo…

Não creio em quem se considera superior… quem o é, de fato, não se considera, pois o superior genuíno entende sua missão em servir, em nivelar as desigualdades da vida, do ser… bem mais, não creio no que tem fé em si mesmo… pra mim, quem tem fé autêntica, duvida, especialmente de si mesmo, já que a fé se concretiza na constatação do que não se pode ver, ter.

Não creio em quem tem uma explicação pra tudo… acho que os que assim agem, o fazem por engano, na verdade, procuram em suas explicações, por certezas e conclusões que não têm… deflagram em suas conclusões mais certas, sua insegurança, pois quem está seguro mesmo, nem sempre explica, já que a segurança é sempre parte do abstrato de cada alma, de cada vida…

Não creio no amor excludente… amor é includente por natureza… amor é o sentimento da acolhida, da integração, da não prevenção… amar é vencer obstáculos e não construí-los… amar é procurar incansavelmente formas de proximidade, vias de facilitação, de comunhão.

Não creio na modéstia, especialmente na falsa… quem é modesto de verdade, aceita-se totalmente, critica-se, ouve, absorve… fala baixo, cala-se. Modéstia não é simplicidade. Modéstia tem a ver com realidade, com auto-aceitação. Quem é modesto vê seus acertos e erros da mesma forma, entendendo-se gente, igual aos outros, passível de louvores e críticas.

Não creio no que não aceita. Aceitar é um ato de reconhecer-se carente. De alguma forma, todos, sem exceção somos. Quem não aceita – críticas, opiniões, favores, observações – não é digno de confiança, porque, aceitar, tem relação com aceitar-se, confrontar-se e, acima de tudo, requerer melhora de si mesmo.

Não creio em quem dissimula. Pra mim a dissimulação é o grau mais alto da traição, pois quem assim age, trai a si mesmo, negando-se, disfarçando-se… e não há nada mais nobre que a autenticidade, a transparência e a lealdade. Trair por si só é um ato lamentável. Trair a si mesmo é entender-se incerto, inconstante e não confiável.

Não creio na falta de reconhecimento. Quem não tem a quem reconhecer, não tem história, nem conhecimento, nem valor. Não reconhecer quem veio antes, seus acertos e seus erros, é não compreender o processo natural da existência, as dificuldades, as oportunidades. E mais, é desconsiderar-se como alvo da vida, sujeito às mesmas humanidades e vicissitudes de quem passou.

Não creio no exclusivismo. Quem se entende assim, tem parte com o diabo. O maior sinal de que Deus está em alguém ou em algum lugar é a possibilidade do outro. Sem união, sem igualdade, sem comunidade, não há Deus, porque Ele não se presta somente a um, Ele é comunitário em sua essência – trina – portanto, incapaz de desprezar, de rejeitar e menosprezar – princípios tão básicos do exclusivismo.

Não creio na omissão. Quem pode – ajudar, salvar, reunir – e não o faz, não é digno de ser reconhecido irmão. Temos, cada um de nós, em algum momento, o agir em nossa mão, e isto, quase sempre, é obrigação e não opção.

Não creio na fé barata, não creio na paz forjada, não creio na benção alienada.

Não creio… talvez até para crer mais, para questionar mais meus amores, minhas convicções, meus desejos, minhas apreciações… pois a crença, pra mim, tem um algo de descrença no que sou, pois só assim, ciente de minha própria fragilidade, posso entregar-me, confiar-me plenamente, Àquele que é digno da minha crença total, da minha fé total, da minha certeza total, o Deus que creio.

Rev. Nilson.

Published in: on novembro 24, 2007 at 7:15 pm  Comments (2)  

… preciso jejuar!

08.11.2007.

Preciso jejuar… principalmente de palavras, pensamentos e impressões…

Acredito que devo me abster de alguns anseios… existem desejos complexos demais para serem esperados… ou necessitam de espaço cronológico para se formar por completo.

Tenho que economizar… preciso ser econômico… até de sorrisos, que tristeza… de sentimentos… é melhor não sentir certas coisas… existem benefícios em não realizar alguns tipos de vontade.

Espreitar… necessito aprender que a espreita nem sempre se relaciona com algo mal… há também possibilidade de mirar com paciência coisas boas, sonhos bons… horizontes de terras prometidas, desejadas…

Devo me esquivar do que me decepciona, do que me tira a paz… encontrar atalhos que me façam fugitivo das mazelas que sempre estão diante de mim… minhas e de outros… devo descobrir caminhos que me levem para longe delas… à segurança, à tranqüilidade… que me tragam prazer e contentamento…

Tenho que jejuar… sentir minha fraqueza, minha pouca autonomia, meu pouco poder… sentir-me só entre pessoas, inseguro em calmarias, carente no aconchego, escasso na fartura… conscientizar-me de minha humanidade, lembrar-me do pó que sou.

Preciso do silêncio, entender que na quietude existe ensino, que quando me calo, sou mais ouvido, que quando espero sou mais atendido… há um tempo certo de todas as coisas!

Devo perceber que não ter o que dizer diante de certas atitudes, pode ser bênção… dando-me chance de ponderar, repensar, absorver, esclarecer… pausas santas… educadoras, condutoras de amadurecimento!

Preciso jejuar…

O jejum me dá incertezas, medo, indisposição… ele ameaça e desestabiliza… leva-me ao encontro de meus temores e me ajuda a aprender que quando sou fraco é que sou forte… que desnutrido, posso ser alimentado e, abstinente, abastecido…

Dessa abnegação é que preciso… porque nela encontrarei certezas que as certezas que construí no decorrer do tempo, não me dão… na evidência da morte, é possível encontrar vida, assim, como na entrega, ganho.

Eu preciso vencer minhas tentações mais íntimas, minhas pretensões, meus gostos, preferências e ilusões, para tornar-me sábio, ciente do quão pequenino sou e quão indefeso diante de mim mesmo.

Que Deus tenha piedade de mim… ensinando-me a privar-me de quem sou, para que em minha renúncia, haja espaço suficiente para surgir quem devo ser…

Que Ele me alimente com o Pão do Céu e me dê forças para jejuar… para me esvaziar de meus temores e desejos, nutrido, enfim, somente, exclusivamente, simplesmente, pela Graça que um dia me alcançou.

Rev. Nilson.

Published in: on novembro 12, 2007 at 10:20 pm  Comments (3)  

Recolhimento.

Fecho minhas portas para balanço.

Recolho minha alma para cálculos imprecisos.

O que perdi,o que lucrei,o que sonhei…

Perdi noites preciosas, ansiosas, temerosas…

Lucrei rancores, decepções, mal entendidos, amores, amigos… gatos…

Sonhei.

Sonhei sonhos que se cumpriram, outros não, outros talvez…

Portas fechadas.

Não são portas fechadas por covardia. São portas que ao se fecharem abrem horizontes dentro de mim…

Contabilizo pessoas, gestos, omissões… muitas vezes minhas…

Percebo coisas que poderiam ter sido diferentes… mas não foram.

Situaçóes que tomaram rumos que não desejei…

Compliquei muita coisa.

Nem sempre tive olhos para ver, ouvidos para ouvir, paciência para aguardar.

No final das contas, calculo juros e comprometo-me com o que devo… mais confiança…. esperança…

mais empenho, abrir as portas pro novo, de novo…

Márcia Regina

Published in: on novembro 11, 2007 at 4:31 pm  Comments (1)  

Fragilidade, força, vida.

07.10.2007

Há aproximadamente dezoito anos o mundo assistiu a comovente cena de um jovem chinês frente a tanques de guerra na Praça da Paz Celestial em Pequim, na China. Aquele cenário lamentável retratava, além da revolta de um povo e da coragem de um frágil rapaz, temas que provocam, de alguma forma, nosso cotidiano: A força, a fragilidade e a vida.

De diversos modos, resistimos à fragilidade, buscamos a força e procuramos viver. Resistir, negar ou dissimular nossa fraqueza, faz parte do jogo da existência. Infelizmente, o senso comum insiste que pessoas fracas não devem ter espaço – é a lei da natureza, que seleciona a raça e privilegia os genes mais notáveis – daí as demonstrações mais bizarras de força se apresentam com mais veemência no tom de voz, na simetria da estética, nos poderes sociais de uma moda que não se aparta de nós, a saber, os processos ilusórios do ter, do ser e do poder.

Há algo dentro de nós que persiste tentando nos convencer que somos fortes, que podemos, que é preciso derrotar inimigos/as, que é preciso ter força para continuar vivendo, vencendo, tendo e decidindo.

Enquanto a natureza carnal nos enreda pelo caminho da força, a natureza ética e sensorial, nos desafia em direção contrária, rumo a processos de paz e tolerância, que podem até se confundir com fraqueza e fragilidade… esse é o dilema existencial que envolve cada um de nós.

Paralelamente, a religião alimenta os dois pólos. Para quem busca fé para ser forte e encontrar o poder, a religião tem seu cardápio, para os/as que querem razões para uma reflexão priorizada pelo altruísmo e abnegação, ela também apresenta contribuição. Disso nascem os pensamentos e posturas extremados de um lado e de outro, numa junção absurda que envolve o radicalismo de um “11 de setembro” a uma passividade monástica.

Mas Deus, e é sempre bom lembrarmos d’Ele com o cuidado de o desassociarmos das fragilidades naturais da religião e da humanidade, trabalha ordens antagônicas em seu catálogo de sugestões da vida… fazendo da fraqueza e da fragilidade sua maior demonstração de força e de vida.

Bastam os retratos da escolha de um povo pobre e pequeno – Israel – como referencial de Sua presença… a imagem de um rapaz franzino, infante, chamado Davi, como vencedor de um gladiador poderoso, Golias… de um fraco – Gideão – da tribo mais fraca, convocado a liderar um exército de trezentos homens com a tarefa de vencer uma milícia mais forte em número e poder… e tantos outros… o próprio Cristo, o Emanuel, nascido num estábulo, acolhido num comedouro de gado, sem assistência, sem recursos, sem direitos e honras.

Nessa perspectiva se desfaz o organograma ilusório que a fantasia humana gera em nós do que seja força e fraqueza… ao percebermos que o Criador não segue o nosso compasso, mas age no contratempo da nossa lógica, propondo uma reflexão que nos leve em direção do reconhecimento de limites e alcances.

Diante de Deus, descobrimos que a força nasce da fraqueza – tão contraditório para nossa pequenez – que a sabedoria e o conhecimento vem da dependência, e o sucesso, nem sempre, está nos aplausos e ovações.

Frente a esse mundo novo da força do fraco, vemos quanta pobreza e fragilidade se esconde por trás de ações toscas como “medir força”… e só então entendemos o quanto deveríamos nos preocupar mais em aceitarmos fraquezas, de maneira mais séria, as nossas.

Quem dera quiséramos desistir de atropelar processos e pessoas… de desvirtuar contextos, agredir feridos, gritar em nossas intolerâncias, esmurrar em nossas intransigências… quem dera… seriamos fortes, verdadeiramente… regidos pelos princípios de Deus… libertos de nossos próprios interesses, absolvidos de nossos pecados mais tolos…

Quem dera… entenderíamos quão forte foi o moço frente aos tanques… quão frágil era aquele exército… quanta vida nascia ali!

No desejo de graça e paz,

Rev. Nilson.

Published in: on novembro 9, 2007 at 8:17 pm  Deixe um comentário  

Prece pela alegria.

30.10.2007.

Senhor;

Dá-me paz quando eu não puder sorrir…

Dá-me consolo diante da dissimulação e piedade frente à pequenez humana…

Dá-me sabedoria quando for surpreendido.

Faça-me astuto como a serpente, mas não permitas que me afaste da simplicidade das pombas…

Quando ultrajado, dá-me humildade,

Quando confrontado, ajude-me a silenciar…

Faz com que eu aprecie o gosto do tempo…

Deixe-me experimentar a doçura da espera… e ser trabalhado por ela.

Senhor;

Não permita que eu desista de te servir, e de crer…

Especialmente, livra-me de desacreditar na possibilidade da amizade… e de que é possível confiar!

Ajuda-me a viver longe da malícia… protege-me da trama… da falsidade.

Conserva-me a pureza e a devoção…

Possibilita-me estar leve… protege-me em minhas distrações…

Desvia-me do desencanto, salva-me da decepção…

Faz possível, Senhor, em mim, a ternura e a alegria da criança…

Abençoa-me com inocência, mas ensina-me a discernir a maldade que se disfarça na aparência vã…

Para que a alegria aformoseie, sempre, meu rosto…

Para que eu não me aparte, não me isole, e recuse a comunhão, vínculo do amor…

Para que eu viva com prazer… principalmente, prazer de ser chamado teu filho,

Amém.

Rev. Nilson.

Published in: on novembro 2, 2007 at 2:18 pm  Comments (5)