A voz dos loucos.

Conta-se que um determinado viajante notou um dos pneus de seu veículo furado. Após parar, desmontar e montar novamente percebeu que havia perdido todos os parafusos da roda. Preocupado com um desfecho para a situação, viu que um moço observava afastado. Após se aproximar, o rapaz pediu licença para sugerir uma solução, pois acompanhava o drama desde o começo.
– “Por que o senhor não retira um parafuso de cada uma das outras rodas? Assim, todas as rodas ficarão com três parafusos e não haverá risco para o carro”!

O viajante agradeceu muito o estranho e perguntou se morava por perto. Para sua surpresa, ficou sabendo que se tratava de um interno de um manicômio próximo dali.

Moral da historia: “Loucura e inteligência são questões distintas”!

Infelizmente tem sido comum classificar quem não pensa igual como “Louco/a”. Normalmente as pessoas se fecham dentro de seus redutos de igualdade para menosprezar e desconsiderar outras. O que é louco/a pra um, é mestre para outro, o que causa atração pra um, causa desprezo pra outro.

Paulo comenta este fato dizendo em 1 Coríntios 3:19 que “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” e em 1 Coríntios 2:14 que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura”.

Esta questão, sem uma interpretação mais profunda, pode nos levar para um caminho perigoso… o da exclusão. Os/as “divinizados/as” se distanciando das “loucuras” dos “humanizados/as”. Assim vão sendo recriadas castas de sabedoria – ou de loucura – separando pessoas e grupos… loucos, sábios… com isso, fica problematizado o evangelho do amor e da unidade, já que todos/as nós estamos, queiramos ou não, passíveis de loucuras e abstrações.

Devemos voltar nossa atenção a Cristo. Ninguém mais que Ele deu ouvido aos/as “loucos/as” – esquisitos, diferentes e marginalizados/as – foi chamado de glutão e beberrão, deu atenção aos/as pobres, a samaritanos/as – discriminados/as sociais pelos judeus – mulheres – inferiorizadas pela questão de gênero – ricos desonestos, doutores, religiosos, políticos.

Jesus deu voz aos/as loucos/as! Deixou-os/as falar, deu-lhes direito, respeito, alternativa, defesa, atenção, compreensão, procurou descobrir suas bondades e, quem sabe, entender suas maldades… deu-lhes perdão, transformou-lhes.

E nós, que não somos o Cristo, o que fazemos?

O mais comum é a auto-exclusão, auto-divinização. Recolher-nos ao mundo-santo, separado, alheio, à parte e distante do que seja humano. Longe do mundo e de sua “loucura”… construindo novamente a antiga demência dos muros de separação.

Ouvir a voz dos/as loucos/as tem a ver com a humildade de não considerar-se Deus, de aceitar-se gente, limitação, pobreza e, porque não, loucura.

Ouvir a voz dos/as loucos/as é não ter a pretensão de entender Deus, não absolutamente, não de maneira explicável. Quem se imagina detentor/a do conhecimento de Deus, já está louco… da pior qualidade! O louco bom é aquele que não entende tudo, só vê parte e nem aspira o que não pode… ser sábio/a plenamente.

Ouvir a voz do/a louco/a é acolher a gente que fala com a gente de maneira natural, só por ser gente, nada mais… pó como nós, matéria, nada mais que nós, gente!

Ouvir a voz do/a louco/a faz bem… pro louco e pra gente… porque nos deixa na mesma estatura, com pequenas variações de loucura, cada qual com a sua preferência.

É preciso ouví-los/as todos/as… é preciso ouvir!

No desejo de graça e paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on outubro 29, 2007 at 4:53 pm  Deixe um comentário  

Confissão.

Senhor, mesmo quando nos intitulamos doutores, podemos não distinguir nossa mão direita da esquerda – tem piedade de nós!

Mesmo quando temos o dom de perdoar, ainda existe em nós a soberba e, várias vezes, nos sentimos mais benevolentes do que nossos semelhantes – tem piedade de nós!

Quando somos piedosos, ainda assim, não conseguimos preencher todo o nosso tempo com bons pensamentos, e preces, e jejuns – tem piedade de nós!

Senhor, ao sentirmos a eternidade plantada por Ti em nossos corações, nos divinizamos e esquecemos a nossa essência, o pó – tem piedade de nós!

Meu Deus, com relação às nossas mãos, que deveriam estar sempre estendidas, as levantamos, e nem sempre pra Te adorar, mas para ferir, para amedrontar – tem piedade de nós!

Tem piedade, Senhor, porque vemos por espelho! Por mais que Tu nos reveles, ainda vemos em parte, em parte o nosso erro, em parte o nosso irmão, em parte a nossa missão, e fazemos, em parte, nossa confissão!

Márcia Regina de Moraes Silva.

Published in: on outubro 26, 2007 at 6:47 pm  Comments (2)  

Isaías 6 (Paráfrase).

No ano da morte do grande Paulo Autran, eu ví o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono e a as abas de suas vestes enchiam o templo…

Os anjos O adoravam e grandes líderes do seu povo se metiam em sujeiras e falcatruas que envergonhavam o nome do evangelho sobre a terra…

Ví pastores se aproveitando da boa fé de pessoas sinceras para enriquecerem e ganhar favores que lhes proporcionassem mordomias…

Ví uma igreja que ao invés da preocupação com a vida e a dignidade, preocupava-se com números e poder…

Ví homens e mulheres morrendo sedentos de uma palavra, de um cuidado, de um afeto… mas encontrando fardos pesados que não suportavam carregar…

Ví instituições preocupadas em discutir sobre quais as pessoas podiam ser consideradas irmãs (espíritas, católicos, budistas) e pouco preocupadas com a miséria humana que precisa de mãos que se estendam com amor.

… e a casa se encheu de fumaça.

Então disse eu: Ai de mim!

Estou perdida! Porque sou homem (mulher) de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos Exércitos!

Senti meus lábios em brasa, pois o Anjo do Senhor me tocou.

E disse Deus: A quem enviarei?

E eu disse: Eu? Eis-me aqui!

Pequena, frágil, perpléxa…

E Ele disse: Vai!

Márcia Regina de Moraes Silva.

Published in: on outubro 23, 2007 at 6:57 pm  Deixe um comentário  

Batalha Naval.

19.10.2007

Sabe aqueles dias em que você fica em frente à televisão, passando canal por canal, sem nada específico para fazer? Pois bem, numa brincadeira dessas sintonizei um filme “começado” que acabou me colocando pra pensar.

“O outro lado do céu” é uma história verídica, passada nos anos 50, a experiência de John Groberg (Christopher Gorham), um jovem missionário americano que embarca em uma longa viagem com os nativos da ilha Tongan. Deixa pra trás a noiva e a família. Por todo período, escreve para seu amor relatando as aventuras para sobreviver em uma terra desconhecida, cheia de desafios e barreiras. Ao mesmo tempo, descobre a cultura e faz amigos nos três anos que passa longe de casa.

Uma das cenas mais importantes acontece em alto mar, onde, no ufanismo de uma viagem evangelística, o missionário e mais dois companheiros naufragam e quase perdem a vida. Nesse momento de dor e pânico ele chega a uma das mais singelas e profundas lições da vida, ao concluir que “às vezes Deus não acalma a tempestade, mas acalma o coração do marinheiro”.

Essas palavras bateram duro dentro de mim – é interessante pensar como Deus trabalha conosco em todas as horas da vida – quase me deprimi lembrando que a grande maioria das pessoas não encara os mares do dia a dia com a serenidade de quem crê na salvação e no livramento, independentemente de haver ou não um barco flutuando.

Lembrei de quantas afirmativas ouço nos altares dos templos, em muitas canções e sermões… aliás, mais que isso, ouço decretos, determinações, ordens para que os mares se abram, os barcos flutuem, as pessoas andem sobre as águas.

Eu sei, Jesus fez milagres, andou sobre as águas… Moisés abriu as águas do Mar… Jesus acalmou a tempestade… mas a minha tristeza é que a fé que tenho visto não vai além disso… são cenários prontos, sem inovações… crenças que só crêem no sucesso, na vitória, na saúde, na riqueza, na força.

Eu seria linchado se dissesse que pode existir fé e situações onde o mar não se abre? Seria mal interpretado se insistisse que existe Deus em meio a angústias e lutas?

Eu creio!

Lembro-me de vários momentos significativos da vida de irmãos/ãs! Há vários anos o “Irmão João” enfartou. Depois do corre-corre pra salvar sua vida e alguns dias de hospital, um parente dele ouviu de alguém: “Deus existe mesmo! Salvou a vida do João!” e prontamente respondeu: “Mas Deus continuaria existindo se o João não tivesse se salvado!” – isso é crer, apesar do mar!

Quando éramos adolescentes fazíamos visitas freqüentes à Igreja de uma cidade próxima à nossa… um dia fomos visitar um senhor que estava com câncer na perna. Entramos dentro do quarto apreensivos/as, imaginando o que encontraríamos… mas a cena era bonita, apesar da dor… um homem com aparência de idoso, sofrido pela grave enfermidade, mas, curiosamente sorridente. Ele dizia: “Quanto mais esse câncer me corrói, mais me chego a Deus”. Outro mar fechado… outro marinheiro consolado por Deus!

Poderíamos pensar em tantas ocasiões difíceis… simbolismos de barcos que, na interpretação de muitos/as, afundaram nas águas da existência, levando homens e mulheres fiéis. O espinho de Paulo – águas fechadas diante de um dos mais expressivos nomes da história bíblica – a dificuldade de Moisés para falar; a prisão de João na “ilha chamada Patmos”; a perseguição do menino Jesus, fazendo José e Maria se aventurar em fuga… e quantos outros relatos mostram a realidade afirmada pelo próprio Cristo ao dizer: “no mundo tereis aflições”!

Vivemos um momento perigoso em nossa fé. As pessoas se negam à normalidade. Ser servo/a de Deus passou de devoção a privilégio barato. Nosso credo tem sofrido alterações problemáticas… e as afirmações, agora, não são mais de fé, mas de vitória, de derrota, de ganho e sucesso. Grande parte dos/as fiéis não admite uma fé sem saúde, dinheiro e força. Uma fé que não desafia ninguém a nada. É cômodo ter fé sem provas!

A Igreja, de forma geral, tem se lançado em águas perigosas… em batalhas navais complexas, desprezando a condição humana que nos cerca… fazendo levitar a imaginação de muita gente, deixando de lado questões sérias como a realidade de que “o sol nasce sobre maus e bons”… e que, nem sempre, é da vontade de Deus que as águas se separem à nossa frente.

Fico com a lembrança do terrível naufrágio daquele missionário e seus amigos… guardo a cena de quando se debatia nas águas do mar em fúria… e louvo a Deus. Pelos mares que se levantam, pelos barcos que se afundam, pelas dores que nos ameaçam, pelos riscos que nos fazem lembrar que “às vezes Deus não acalma a tempestade, mas acalma o coração do marinheiro”.

Peço a Ele que me faça lembrar sempre disso, na esperança de um dia poder vencer as batalhas nos mares que navego todos os dias… mares da cobiça, do preconceito, do desamor, da separação.

No desejo de graça e paz,

Rev. Nilson.

Published in: on outubro 20, 2007 at 1:03 pm  Comments (3)  

A criança, a bacia e a água suja.

Existe uma expressão popular muito interessante que diz mais ou menos assim: “jogou a água da bacia, com criança e tudo”. Na verdade, esta é uma forma simples de expressar indignação ao notar que, na intenção de se livrar de algo incômodo e repugnante, as pessoas acabam pondo no lixo questões e coisas profundamente valiosas. De certa maneira, o ditado da criança, da bacia e da água, trabalham alguns dramas vividos por nós, especialmente no que diz respeito à dimensão dos nossos julgamentos pessoais que elaboramos ao longo da vida.

Nosso julgamento é diverso, como nós somos diversos… interpretamos as ações e reações da vida e dos outros a partir daquilo que somos e que temos em nosso espaço moral e ético… cada um de nós tem uma lente própria, resultado do conjunto de experiências acumuladas ao longo do tempo.

E não é errado termos nossas lentes pessoais… é isto que nos forma e nos baliza enquanto personalidades distintas… isto faz toda a diferença, mas também constrói a dinâmica do debate, da razão e do crescimento.

Então porque jogamos as crianças fora, junto com águas sujas da vida?

Não sou um especialista na vivência humana, porém, arriscaria dizer que jogamos as crianças junto com a água porque não temos a preocupação de separar criança de bacia, bacia de água e água limpa de água suja.

Certamente, se usássemos a alegoria desta bacia em nossas vidas, diríamos que todo conjunto tem suas virtudes e pecados… ninguém, nem qualquer associação, grupo, pode ser considerado exato ou correto sob todos os aspectos. A fragilidade humana nos limita e nos lança sempre em direção da imperfeição. Porém, podemos pensar, que os equívocos que achamos nos contextos que julgamos, não representam a totalidade… ninguém e nenhum grupo é plenamente perfeito ou imperfeito… bom ou ruim… todo conjunto ou personalidade, possui acertos e erros, uma mistura de coerência e incoerência, bondades e maldades!

Erramos em nossos julgamentos por isso… tratamos tudo e todos como uma coisa só, sem divisões, sem variações, sem momentos e situações distintas… julgamos de uma vez só, e, infelizmente, às vezes, para sempre!

Desta forma perdemos muitas crianças junto com a água suja da bacia, ou seja, na preocupação de rechaçar o mal que está no/a outro/a, jogamos fora também o bem que está contido nele/a… lançamos bacia afora tudo, de uma só vez, sem examinar se existem valores, benefícios… ficamos sem as ruindades e sem as benesses que poderia haver ali.

O exemplo de Cristo nos faz repensar sobre as bacias que encontramos pela vida… Ele, mais que ninguém separou as coisas… assentou-se no meio de pecadores, aproximou-se de uma mulher de vida duvidosa, conviveu com um coletor de impostos, com vários pescadores pobres, foi jantar na casa de um fiscal corrupto e, finalmente, morreu no meio de dois ladrões!

Ele, seguramente, encontrou boas coisas naquelas pessoas discriminadas… e elas encontraram nele a possibilidade de superar seus problemas… eram nada mais que crianças perdidas no meio de água suja!

Vamos, assim, observar mais as bacias sujas e descobrir as crianças que se encontram no interior delas!

Feliz dia da Criança!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on outubro 11, 2007 at 3:23 pm  Comments (1)  

Luz da Cidade

01.10.2007

De onde moro, vejo, toda tarde, o acender de um grande outdoor. Numa noite dessas deitei bem tarde e notei que a enorme placa é apagada depois da meia-noite. Percebi como o ambiente se transforma sem aquela luz e como é estranho ficar sem ela. É interessante que não havia observado isso antes… tantas vezes passei por lá… nossa varanda é, noite após noite, iluminada por ela, mas não tinha reparado o quanto ela modifica o lugar.

Fui levado a pensar em Cristo ao nos chamar de “luz do mundo” (Mt 5.14), e refletir nos desdobramentos que isto tem – ou deve ter – em nossa vida.

Pensei na luz da placa. A luz não fala, nem dialoga, nem concorda, nem descorda… ela não é, nem deixa de ser, pelo que pensa – a luz não pensa – nem age, nem reage, ela não anda, nem pára, as mais ousadas, piscam… a maioria é imóvel.

A luz é dependente, é simples, pequena ou grande, ela é carente da energia de outrem…não decide onde fica, é mecânica, sem alma, sem decisão própria, sem apelo, nem desejo, nem ambição… é luz, somente.

A luz não é nada e é tudo ao mesmo tempo! É carente e potente, pequena e grande, modesta e notável, fraca e forte.

E se ela não existir, haverá trevas, desorientação, medo… faltará brilho, clareza… e, na perspectiva de Cristo, faltará cristianismo e testemunho.

O outdoor permanece lá… parte do cotidiano, perdido no comum, no dia a dia, quase despercebido, grande e discreto, iluminando a cidade.

Sinto Deus nos chamando a todo instante pra sermos luzeiros… pequenos ou grandes, modestos ou sofisticados… luzes da cidade, dos lares, da sociedade… referenciais, como Cristo… não pelo muito falar, nem pelo muito agir… sinais visíveis do amor e da graça invisível de Deus.

Brilha Jesus, mostra ao mundo o amor de Deus Pai
Espírito de Deus vem refulge em nós!
Faz transbordar sobre os povos Tua graça e perdão,
Vem ordenar que haja luz, oh Senhor! – Graham Kendrick.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson da Silva Júnior.

Published in: on outubro 5, 2007 at 11:59 pm  Comments (1)