Saudades de onde nunca fui.

24.09.2007.

Nestas andanças todas a que o pastorado nos desafia, conheci muita gente que vivia distante de sua terra natal. Especialmente no Centro-Oeste do país, onde fui missionário, existe uma grande concentração de sulistas que se aventuraram na espera de melhores oportunidades. O caso é que a maioria das cidades que lá se formaram, passaram a ser réplicas de seu lugar de origem… onde, especialmente, se cultiva a saudade do tempo passado.

Esse sentimento que o/a brasileiro/a inventou chamado “saudade”, que se traduz pela rememorização melancólica de pessoas, lugares e acontecimentos, atinge cada um de nós.

Os negros, escravizados no começo de nossa história, por exemplo, sofriam de “banzo”… que era a dor da lembrança de seu povo, sua terra… e contam os historiadores, que até morriam por isso! Imagine, morrer de saudade!

Mas, de uma maneira profunda, penso que a saudade tem suas nuances… reinventando sentimentos, ou reinterpretado essa dor que, de algum jeito, toca o íntimo de cada pessoa.

Entendo que a Esperança é um tipo de saudade! Talvez seja antagônica esta afirmação, mas interpreto esse anseio pelo desconhecido como um inexplicável gosto por aquilo que não conhecemos, como se o soubéssemos e tivéssemos alegria em retornar lá, no futuro, no incerto!

Acredito que nossa alma tem o poder de construir, em seu desejo, um horizonte de aspirações, sonhos, onde queira chegar… e, na prática, no dia a dia, vamos sentindo, de uma maneira inexplicável, saudades daquilo que projetamos como ideal, como o que seja bom. Então passamos a ter saudades de lugares onde nunca fomos e de momentos que nunca vivemos!

Creio que grande parte das crises emocionais se escondem aí… na incapacidade de elaborar aspirações… de criar esses oásis imaginários, ou, na falta de condição de processar isto no cotidiano, reencontrar um desejo, um buscar, um querer que alimente diariamente o sentimento de esperança.

A desesperança é a falta de combustível do ser… a escassez de vontade ou daquele toque de ilusão que nos remete à lembrar daquilo que não conhecemos, mas esperamos. Quem não consegue manter o nível desse sonho dentro de si, pára, cai exausto/a, trava e, na maioria das vezes, tomba… até morre!

Nesse contexto, é importante lembrar a definição bíblica de fé: “…a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” (Hb. 11.1). Traduzo isto da minha maneira… a fé é ter certeza de alguma coisa que não existe, de fatos que não se podem visualizar… é esperar, com saudades, chegar num lugar que nunca fomos, mas que temos como meta!

Certamente, muita gente vive sem fé, sem esperança e sem objetivo… carente do que esperar, de um “porque” pra lutar… quem sabe não seja o momento de pensar no que queremos, onde queremos chegar. Basta ver se, ao longo de cada dia, somos tomados/as por momentos de surpreendente esperança, vislumbrando esses lugares – pessoas, posições, situações – esperados.

Que a fé que nos enche de certezas do que não existe, possa nos envolver, como bálsamo que refrigera a alma, a memória e a emoção e que aprendamos viver na esperança daquilo que ainda não temos, não entendemos e nunca vimos.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on setembro 30, 2007 at 6:50 pm  Deixe um comentário  

Prazeres da Alma.

22.09.2007

Sábado, fim de semana.

Uma semana agitada, levantando cedo e enfrentando o corre-corre do trânsito, da vida. Mas tivemos coisas boas… na terça, um aniversário regado a muita alegria e churrasco… ao contrário do que se imagina, o que saiu cheio não foi só o estômago… fomos repletos, completos, de emoção, afinal, cantamos durante horas a fio canções antigas… “Vencedores”, “Logos”, “Novo Alvorecer” e, claro, muito “João Alexandre e Tirza”… além de uma pitada especial de “Tu és fiel, Senhor” e do Hinário Evangélico. Há quem não goste… respeito, mas, com o passar do tempo, vamos aprendendo que certas canções ganham resignificações maravilhosas para a vida, pois vêm recheadas de lembranças e sentimentos.

Depois daquela noite, que foi curta – chegamos no dia seguinte em casa, já passava da meia-noite – fiquei que nem bôbo, andando pra lá e pra cá, entre uma atividade e outra, cantando as mesmas músicas, estendendo os bons momentos vividos.

Apesar do cantarolar, a quarta-feira trouxe de volta a agitação… e quase que num abrir e fechar de olhos, a quinta, a sexta e hoje.

A mesma pessoa do churrasco nos falou que João Alexandre – aquele da cantoria – estaria em Piracicaba hoje… ficamos num drama… onde vai ser? Entrar no site, buscar o endereço, descobrir o telefone… ligar para o pastor da Igreja, saber os detalhes.

Mas o desânimo fez sua parte. Que calor! Será que o lugar é grande? Será que vai lotar? Vamos… não vamos… vamos sim, não… vai ser um empurra-empurra… fomos!

Um ambiente pequeno… bem diferente do meu imaginário. João Alexandre toca em lugar pequeno! Que bom… assim eu tenho oportunidade de conhecê-lo pessoalmente… até que em fim!

Lá na frente um “jovem”… mais ou menos da minha idade… “cheio” da graça, mas cheio mesmo! Ô Deus, mas que dom! Ainda bem que não podemos ter inveja… seria uma boa ocasião pra admitir, porque, ter é outra história – palavra, musicalidade, voz… e como toca! Fiquei como Jó… eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te vêem… cantamos – eu e minha esposa só não sabíamos decor, duas – durante quase duas horas… que, infelizmente, passaram como minutos – coisa de fã!

Que alegria… passou, mas marcou. Voltei pra casa depois de uma rápida conversa, com dois CD’s novos e muita emoção!

Mas amanhã é domingo… começa tudo de novo… Escola Dominical, Culto… depois a segunda de manhã… de novo a correria, o trânsito, o agito. Já é quase meia-noite, de novo, e tudo se vai.

Fica, porém, a alegria de ter sentimento, de gostar de alguma coisa, de se identificar com tempos que, apesar de passados, foram e podem ser cantados e revividos com a mesma emoção.

Durmo com a paz de quem não jogou a vida fora… que cantou o que ainda pode ser cantado, que creu no que ainda pode ser crido e viveu da mesma forma, com a mesma intenção, coerente com a mesma convicção.

A semana se foi… mas não se foi a vida… permanece no fundo da alma o prazer de ter vivido, cantado e sorrido… e a esperança de ter encontrado o caminho da felicidade.

Talvez possa parafrasear Paulo… “quando eu era menino, cantava como menino… agora que cheguei a ser homem, canto como homem… e o mais importante disso tudo é que permanecem a paz, a esperança e o amor”.

Rev. Nilson.

Published in: on setembro 26, 2007 at 10:58 am  Comments (1)  

Leituras.

19.09.2007

Minha esposa leu um determinado livro, gostou muito, e resolveu presentear uma amiga com o texto. Depois soube que não teve a mesma impressão, não se agradou.

Isto me leva a pensar sobre as diversas formas de leitura que fazemos. Somos lidos/as e lemos pessoas e acontecimentos e, como nos livros, temos impressões distintas, pessoais e particulares.

Os livros podem mudar a vida de quem os lê, assim como o que construímos em nosso íntimo a respeito das pessoas tem o poder de alterar os relacionamentos. Agimos, reagimos, aproximamos e até rejeitamos baseados/as no parecer que formamos dos/as outros/as.

Pensemos em Cristo. Recordemos as descrições dos evangelhos… das pessoas que estiveram à sua volta e de como processava suas histórias.

O caso da mulher pega em adultério talvez seja o exemplo mais clássico do que falamos… uma questão difícil para ser interpretada… de um lado a lei – na imagem dos escribas e fariseus – de outro, a mulher, prestes a ser julgada e morta.

Outro momento marcante é do encontro com Zaqueu, que vivia uma crise ética, moral, apesar de ter permissão do governo da época para cometer seus abusos. E Jesus foi até sua casa, foi recebido por Ele, foi convidado, gozou do seu conforto.

Pedro também pode ser lembrado. Apesar de ser um seguidor oficial, era um sujeito duro, áspero, truculento, sem medida, sem postura… exagerado em diversas ocasiões… às vezes briguento, às vezes omisso… corajoso, mas em várias momentos, inocente, sem percepção.

E a figura de Judas? Discípulo, companheiro, homem de confiança – foi o tesoureiro – no entanto, traidor, tramador e desonesto.

Muitas outras pessoas que passaram no caminho de Cristo tiveram restrições. Talvez possamos dizer que Ele não “selecionava”, não fazia distinção a primeira vista, e, pelo contrário, tinha conversa com todos/as – é certo que em alguns momentos, tensas.

Como Jesus decifrava as pessoas? Porventura não percebia suas características mais vergonhosas, não notava seus escorregões… será que a interpretação de Cristo era falha? É lógico que não… certamente, suas leituras eram lúcidas. Por que convivia, dava ouvidos e olhos para uma gente diferente d’Ele, distante de sua norma de conduta?

Sinto que Cristo não usava seu próprio princípio em suas apreciações, não tinha como ponto de referência sua própria vida, sua forma de agir e entender… mas procurava interar-se e interagir com o “texto”… entrar nele, viver seus dramas, ver com seus olhos, entender com seus pensamentos.

Quando analisamos algo ou alguém, na maioria das vezes, desconsideramos o contexto… “lemos” de fora, julgamos de fora… sem profundidade, sem o sentimento do que é parte, do que está dentro… por isso, quase sempre, falamos e julgamos o que não sabemos.

“Ler de dentro” humaniza a interpretação… desperta sentimentos nobres como amor, misericórdia e compaixão… olhar as pessoas a partir delas mesmas pode ser uma experiência de crescimento e, além disso, pode livrar muita gente de maus comentários e julgamentos precipitados.

Podemos não gostar das leituras – pessoas e momentos – mas não temos o direito de julgar alguma coisa que não conhecemos a fundo.

Certamente o exemplo de Cristo pode ser transformador e balizar nossas leituras do dia a dia… para que tenham sempre sinais de graça e paz!

Rev. Nilson.

Published in: on setembro 21, 2007 at 9:55 pm  Comments (2)  

A língua dos anjos e dos homens.

17.09.2007

As vírgulas, pontos e sinais são fundamentais para a compreensão de um texto, mas também podem ser grandes entraves para sua clareza. Bem colocados eles dão vida, mas podem representar a morte, se mal usados… revelam surpresas, preocupação, angústia ou tristeza. Da mesma forma, as palavras… dependendo do tom, podem carregar mensagens bem mais profundas do que parecem.

Aliás, a arte de se comunicar é complexa demais… somos sempre aprendizes, alunos/as na tarefa de dizer da maneira certa o que queremos. Vivemos num constante exercício de comunicação, tentando expressar em palavras e ações o que somos, cremos e esperamos do mundo que nos cerca.

E este não é um drama novo… a humanidade sempre viveu esta crise… de alguma forma, estamos sempre numa Babel interminável, construindo e desconstruindo mensagens… interpretando e reinterpretando a vida… codificando dentro de nossa alma os sinais que vemos e ouvimos no decorrer do tempo. Somos nada mais que tradutores/as… acertando e errando na compreensão do que a história nos conta.

A maioria dos grandes confrontos se dá pelas crises de comunicação… entre exclamações e interrogações, tons, entonações, palavras, adjetivos, pausas, vamos construindo tensões, afetos e desafetos da vida.

Paulo, um dos grandes tradutores de Deus, trabalha a dimensão da língua, do idioma (1Cor. 13.1). Diz ele de duas linguagens distintas… a dos homens e a dos anjos, a do céu e a da terra… os dois pólos nobres da construção humana… o espiritual e o material, o imperceptível e o palpável.

Nesse texto, ele fundi as duas pontas da existência num simbolismo do que seja a capacidade de falar com Deus, e de Deus… ou simplesmente de falar e ser entendido/a, somente. Eis aí o caminho da vida plena, ou a comunicação plena na vida, impossível sem esses dois elementos antagônicos… a humanidade da carne e a pureza dos anjos.

Quem sabe surja aí um outro idioma, uma outra forma de falar! Quem sabe não seja essa opção por via única, o fator limitante para a comunicação verdadeira! Será possível falar a língua dos anjos e dos homens de uma só vez, com a serenidade e a leveza das coisas do céu aliada a sensibilidade daquilo que se traduz por dor, fome, desejo e carência? Será possível esse intercambio entre céu e terra de forma que as palavras nem se percam nas nuvens nem se acomodem no pó?

Penso com a tristeza de quem muitas vezes presencia o esforço de separar terra e céu, anjo e homem, Deus e comida, dor e alegria, limitação e prosperidade, fé e dificuldade. Como se no fato, na realidade e na verdade, esses temas não coabitassem!

Muitas crises são geradas pela falta de comunicação. No campo religioso isto não é diferente, principalmente porque as pessoas se negam a crer e a praticar uma linguagem onde os vocábulos do céu se confundem com os da terra e a tratar o que é falho com a sabedoria do infalível, dando ao pó, novamente, a cada drama, a cada desentendimento, o mistério e o milagre do sopro divino!

Sinto dificuldade de crer em diálogos distintos – totalmente celestes ou totalmente carnais. Tenho incapacidade em aceitar que, a partir da Palavra de Deus, não tenhamos condições de entender, interpretar e se fazer compreensível ao/a descrente, ao/a distante e ao/a diferente por nos considerarmos mais ou menos divinizados/as.

Se cremos que Deus cura nossa vida no todo, precisamos crer também que Ele pode nos ensinar a tarefa de comunicar as palavras do céu – e dos anjos – na falibilidade do homem – da matéria.

Que Ele nos ajude na tarefa de falar a língua dos anjos e dos homens.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on setembro 19, 2007 at 10:54 am  Deixe um comentário  

Espero a chuva cair.

05.09.2007

Sempre gostei de chuva. Desde que me entendo por gente sou fã dos trovões e rajadas de vento. Sinto-me até melhor para dormir quando o “céu está desabando”! Mas preciso admitir que existem momentos complicados, resultados dessas demonstrações de força da natureza.

Tenho boas e más recordações das chuvas de que tanto gosto. Lembro-me de uma tempestade ocorrida em nosso município em que muitos estragos foram vistos… o vento foi tanto que, especialmente na área rural, casas foram arrancadas e cabeças de gado mortas. Foi triste acompanhar o drama de famílias desabrigadas e saber do falecimento de várias pessoas, inclusive crianças.

Mas foi já na fase adulta que senti de forma mais séria as intempéries do tempo. Certa vez estava com minha esposa num apartamento de sobreloja que morávamos em Mato Grosso quando começou a chover. Era final de tarde… a chuva veio trazendo um alívio ao calor intenso que passávamos… mas, quando o vento se asseverou, tivemos mais preocupação… a tampa de um buraco de ar condicionado que existia na sala não resistiu e voou casa a dentro… imediatamente corri para impedir que a água nos banhasse ainda mais, mas era muito forte… o forro de PVC também não resistiu, porque a calha não tinha capacidade de vazão suficiente… em minutos vimos tudo ser tomado pela chuva… tudo molhado… televisão, aparelho de som, piano, tapete, quartos… tudo.

Continuo gostando de chuva… mas creio que tenho mais respeito quando o tempo se fecha.

Certos problemas são como as chuvas… vem, abalam, apavoram… e destroem, e se não o fazem, molham, desestruturam e nos tiram a tranqüilidade. Às vezes também vemos um céu nebuloso na ação humana… certas pessoas nos trazem o frescor e a sensação agradável de uma garoa, outras, para nossa tristeza, são como um vento forte ou como os raios e trovões… deixam um rastro de destruição, tristeza e mágoa por onde passam ou sobre quem atingem, vitimando a alegria e a paz dos/as outros/as.

Há problemas e pessoas que vêm sem avisar… entram em nossa vida fazendo portas e janelas bater… jogando sua raiva e descontrole pra dentro de nossa rotina de forma inexplicável… tirando nosso sono.

Imagino que exista uma certa natureza nisso… uma indizível força que nos escolhe, do nada, para testar a paciência… fazendo o sol dos maus e dos bons nascer sobre nós também… deixando-nos ver que não somos mais nem menos que ninguém e absolutamente passíveis das mesmas dores dos/as que sofrem e da mesma alegria dos que riem.

Mas a grande e intrigante pergunta na hora da chuva é o que fazer. Em muitas situações ficamos num corre-corre sem fim, tentando reorganizar o que a “ventania” tenta destruir, procurando agarrar os papéis de nossa vida que começam a ir pelos ares e não sabemos como agir… e se sabemos, nem sempre temos tempo, jeito, de impedir o transtorno.

Em alguns momentos não adianta gritar, correr, enervar… a não ser esperar e se proteger da melhor forma, aguardar que a “natureza” se encarregue de cumprir seu propósito.

Se cremos num Deus que é o Senhor do tempo, dos ares e das chuvas, precisamos acreditar também que Ele domina os vendavais que se formam no decorrer da vida e que sabe os porquês deles, de virem sobre nós e desarticularem nossas vidas! E assim como sabemos que é preciso esperar a chuva cair, devemos aprender que, da mesma forma, é preciso aprender que certos problemas têm sua duração.

Quem sabe pudéssemos parafrasear o sábio Salomão dizendo: Tudo tem seu tempo debaixo do céu… tempo de chover, tempo de esperar parar de chover… tempo de chuva e tempo de sol. (Ecl 3.1).

Que o Senhor de todo o tempo nos enriqueça sempre com Sua graça e paz!

Rev. Nilson

Published in: on setembro 10, 2007 at 11:13 pm  Comments (1)