Sentimentos Dissonantes.

22.08.2007

Na minha adolescência aprendi a tocar violão com os amigos. Depois de alguns anos de dedicação, descobri que haviam formas variadas de executar uma mesma melodia… o que se chama de ‘arranjo’, que varia de acordo com a personalidade, capacidade e gosto de cada um. Isto é que explica as muitas maneiras de interpretação de uma mesma música.

Descobri também a existência de técnicas mais aprimoradas para executar o instrumento… fui apresentado àquilo que chamavam de ‘posições dissonantes’, na verdade as mesmas notas acrescidas de sétimas, bemóis, diminutas… o que, por sinal, muito me agradou e mudou minha forma de ver as antigas composições.

A partir de então, experimentei o drama vivido pelos músicos da bossa nova – pretensão minha receber críticas parecidas com as que Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes, Toquinho, Chico Buarque receberam – só que no caso deles, os comentários se transformaram em arte… exemplo disso é a música “Desafinado” composta por Tom Jobim e Newton Mendonça em 1958, uma ‘canção-manifesto’, onde os autores respondiam seus acusadores usando argumentos como: “Se você disser que eu desafino, amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor… Se você insiste em classificar meu comportamento de antimusical, eu mesmo mentindo, devo argumentar que isto é bossa nova, que isso é muito natural… O que você não sabe, nem sequer pressente é que os desafinados também tem coração”… e por aí vai.

Admiração de lado, temos que concordar que a bossa nova não foi e não é uma unanimidade. Nem todos/as apreciam sua cadência e harmonia… sem pensar na questão da poesia, quase sempre bem trabalhada e, na maioria das vezes, um pouco complexa. O fato é que aqueles sons dissonantes encontraram objeção.

Isto me faz imaginar que, de alguma forma, assim como as tendências dos sons, existem também as dos sentimentos e idéias… cada um/a de nós executa suas harmonias emocionais e filosóficas de um jeito próprio, seguindo uma escala de preferências… algumas dissonantes, outras conservadoras.

Estes gostos aproximam ou separam pessoas… formam ou destroem afinidades. Não existe somente um Tom (Jobim ou não)… é preciso conceber outras formas de ação e entendimento, de ritmo… uns dissonantes, outros não.

Não só as músicas sofrem com as avaliações… os sentimentos e idéias também… o caso é que, assim como as execuções variam, também varia a maneira de interpretar as palavras e opiniões. O drama de harmonizar um determinado arranjo numa orquestra tem a mesma complexidade quando chega no campo moral, intelectual ou técnico. Novamente devemos concluir: cada pessoa tem um gosto distinto.

A gravidade do assunto acontece quando o cenário vivido pelos compositores da bossa nova se repete. Os que apreciam valsa, balada ou bolero, se ofendem ao ouvir uma cadência nova – bossa ou não. Aí vêm as ofensas: ele é desafinado! Isso é desarmônico! Isso é antimusical!

Quando a pessoalidade de um/a se torna lei para a pessoalidade do outro, as coisas desafinam mesmo! As cordas do respeito se arrebentam. As notas do bom senso e da igualdade saem do tom! E não há orquestra que consiga continuar a apresentação!

Tenho tido a alegria de encontrar amigos/as com o mesmo gosto meu. Dissonantes, com cadência própria, assim como, de vez em quando, passo pela tristeza de ser chamado de ‘desafinado’. Não é pra menos… acredito numa harmonia bem maior que a nossa, capaz de integrar toda essa diversidade, numa maestria tão superior, com o dom de dar um só tom aos descompassos de nossa humanidade. E porque creio nisso, tenho pedido a esse Maestro Poderoso que me dê, cada vez mais, ritmo em minha tolerância, em minha resignação e longanimidade.

Permita-me lembrar a letra de um antigo cântico… dissonante em muitos sentidos, profundo, e que me embala a esperança de uma fé prática, capaz de compreender as mais diversas maneiras de interpretar o mesmo Deus… executar a mesma canção.

Seja o meu canto para sempre só pra te louvar.
Seja, tão somente, eternamente pra te adorar;
Seja o recado que tu tens hoje aqui pra dar,
Mas possa eu trazer na mente,
Que tu és quem o dá!

Seja minha vida o padrão naquilo que eu falar;
No procedimento, o exemplo aos fiéis levar;
Na pureza grande e também na fé e no amor,
Mas possa eu lembrar-me sempre,

Que dependo de ti, Senhor!

Vencedores por Cristo.

E que, assim, o Deus Eterno nos dê graça e paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on agosto 27, 2007 at 11:18 am  Deixe um comentário  

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