A nossa caixinha de sapatos.

21.06.2007

Depois de alguma experiência no que se refere à vivência eclesial como membro da Igreja Metodista, minha esposa desabafou certa vez sobre os conflitos “normais” entre pessoas e confissões… disse: “… tem gente que tenta colocar Deus dentro de uma caixa de sapatos, limitá-lo a suas dimensões… como se Ele coubesse dentro dela…”.

Com muita simplicidade, esta metodista de berço com a qual me casei, descreveu o “defeito” da fé do nosso tempo… procurar um Deus que se enquadre dentro das várias convicções e pensamentos que cada um de nós carrega.

E é até comum ligarmos o aparelho de televisão e encontrarmos alguém “explicando” Deus… Ele é assim… Ele pensa “assado”… Ele age assim… Ele reage “assado”! Que pretensão! Colocar-se como “analista” do Todo-Poderoso!

Como igrejas, devemos reconhecer, especialmente nessa religiosidade exigente que vivemos, que temos nossas caixinhas, nossos padrões… que ironia… cada um/a com seu número, sua preferência, sua cor e gosto, puxando a brasa pro seu lado… querendo convencer outros/as que o “número de Deus” é do tamanho de sua caixinha.

Chega até a ser cômico… pensar que cada um/a tem um pé de um tamanho… então como ter um Deus de um tamanho só, padronizado e limitado a uma só maneira, forma? Deus é maior que todas as “embalagens” que podemos arrumar… “inquadrável”… Imutável, mas inexplicável! Ele é único e diverso ao mesmo tempo.

Há alguns dias, o Vaticano – Sede Mundial da Igreja Católica – publicou um documento intitulado Repostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja no qual afirma que “… a única Igreja de Cristo “subsiste” na Igreja Católica. “Cristo constituiu sobre a terra uma única Igreja e instituiu-a como grupo visível e comunidade espiritual, que desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá”, diz o texto. “Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele…”.

O mais deprimente a meu ver, não é saber de uma declaração destas, mas descobrir que este mal do caráter humano, que nos leva a querer a exclusividade sobre tudo e todos/as, se esconde em cada um/a de nós! Em nossos corações, igrejas, famílias, círculos de amigos, ambientes de trabalho. Somos um tipo de gente que pretende, sempre, ter a verdade em sua caixinha… ter o controle, a posse daquilo que possa explicar a vida.

Imagino que não temos muita autoridade para criticar o Catolicismo, que se coloca como “o que tem o direito de ser chamado de única igreja”… porque no íntimo, arraigado em cada um/a de nós, também trazemos essa pretensão maligna de sermos/as únicos/as e melhores.

Em vários momentos da história vimos igrejas e pessoas se levantando pra dizer que tem a palavra certa, o caminho certo… colocando-se, como o “dono da caixinha certa”.
Como perdemos tempo dizendo “nós somos”! E quanto tempo e atenção devemos para aqueles/as que gritam “nós precisamos”!

O que explica essa discussão sobre quem “sabe Deus” e quem tem exclusividade sobre Ele?

E repito, isto não se aplica somente ao caso deste documento da Igreja Católica, que é evidente neste momento, mas, especialmente à intimidade de nossa fé, de nossos relacionamentos, de nossas discussões e problemas.

Não podemos nos deixar levar pela tentação da última palavra… afinal, nada que é último é nosso… não temos o controle nem sobre o nosso próprio fim… nada é nosso!

Quem sabe fôssemos humildes o suficiente para reconhecer nossa pequenez… se abandonássemos nossas caixinhas, nossos padrões e convenções. Não que devamos deixar de ter padrões de conduta e moral que norteiem os redutos de vida e fé de cada um/a… mas quem dera, percebêssemos que toda exclusividade é pecadora em si mesma, porque traz em sua prática a conseqüência do afastamento, da repulsa, da discriminação… deixando-nos longe do/a próximo/a, da humanidade, tão necessária e, especialmente de Deus!

Quem sabe tivéssemos os olhos do profeta (Jeremias 41) capazes de contemplar um Deus diante de Quem todos/as se calam, a Quem todos/as se submetem, a Quem ninguém pretende explicar e requerer posse!

Que esse Deus inexplicável e inconcebível possa nos ajudar a nos manter distantes de nossas ambições de poder, saber, ter e dominar!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on agosto 14, 2007 at 2:24 pm  Deixe um comentário  

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