Pontos de Encontro.

07.08.2007

Desde que cheguei à cidade de Piracicaba tenho notado os belos templos… as mais diversas religiões se esmeraram em construí-los com o máximo bom gosto… são obras majestosas e impressionantes. Os templos remetem à fé, à crença, à religiosidade, mas de maneira especial, servem para lembrar a imagem e a presença de Deus. Ao olharmos para uma dessas construções vemos mais do que a arquitetura, enchemos nossos olhos daquilo que procura mostrar o invisível, o indecifrável. Os templos são traduções modestas da irretratável figura de Deus.

Essa relação com a imagem do Poderoso contida nessas edificações é interessante… as pessoas procuram os templos para achar Deus… como se a representação fosse fato… e Deus, realmente, morasse ali, naquele endereço. Existe quem encontre paz e tranqüilidade para suas aflições dentro das igrejas – mesmo quando estão vazias – num momento de prece ou mesmo observando a decoração.

Infelizmente, sabemos que esses “pontos de encontro” com Deus são esquecidos na maioria do tempo… o movimento de suas ruas mostram que muita gente nem se dá conta de que está em frente a um templo. Deus não é lembrado por elas… nem no cenário das belas igrejas.

O corre – corre então, nos torna pessoas que visitam Deus de vez em quando… aos domingos… às vezes pela manhã, às vezes pela noite… como um conhecido qualquer… a quem se pergunta: “como passou a semana?”. Deus fica lá… restrito ao espaço delimitado pela nossa ilusão… na representação daquele horário, daquele local, daquele dia… o simbolismo engana nossa mente e nosso coração.

Isaias, o profeta, disse: “… eu vi o Senhor… ” . Onde será que Ele estava quando foi visto por Isaías? Em algum templo, em algum monte, reunião, acampamento… onde será? O relato fala de um trono, de anjos… mas não informa o endereço, a rua, o andar… fala de uma visão, de uma imagem tão surpreendente que abalou a vida do profeta.

Ver Deus não é como ver templos… mas deveria ser! Os templos são comuns… sabemos onde encontrá-los… sinalizam sua presença através de torres, sinos e símbolos… são diferentes, notáveis, fazem diferença, simbolizam, como já dissemos, uma determinada forma de crer.

Deveria ser normal ver Deus! Há tantas formas de vê-lo que poderiam ser comuns! Quantos retratos d’Ele poderiam ser estampados na vida, no trivial… especialmente em relação àquilo que remete a Ele, à sua essência… o amor, a boa vontade… verdade, lealdade, honestidade, liberdade, justiça e tantas outros valores… imagine se estas virtudes que, de uma forma intensa, mostram a pessoa de Deus, fossem vistas em nosso dia a dia… se encontrássemos com as imagens do Todo Poderoso no decorrer do dia, da vida, nas ruas, nas conversas, sem local definido!
Os templos e seus altares são construções maravilhosas, contudo, ainda mais especial seria se seu significado estivesse estampado nas pessoas… templos humanos… capazes de evocar a fé, a religiosidade daqueles que precisam delas.

Espero, sinceramente, ver Deus além dos templos… além dos endereços, datas, horários, encontros… cultuá-lo transcendendo o padrão dos olhos… encontrá-lo independentemente de minhas limitações e conceitos… e nunca deixar de achá-lo onde quer que eu vá.

Que Ele nos abençoe!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on agosto 14, 2007 at 2:29 pm  Comments (1)  

A nossa caixinha de sapatos.

21.06.2007

Depois de alguma experiência no que se refere à vivência eclesial como membro da Igreja Metodista, minha esposa desabafou certa vez sobre os conflitos “normais” entre pessoas e confissões… disse: “… tem gente que tenta colocar Deus dentro de uma caixa de sapatos, limitá-lo a suas dimensões… como se Ele coubesse dentro dela…”.

Com muita simplicidade, esta metodista de berço com a qual me casei, descreveu o “defeito” da fé do nosso tempo… procurar um Deus que se enquadre dentro das várias convicções e pensamentos que cada um de nós carrega.

E é até comum ligarmos o aparelho de televisão e encontrarmos alguém “explicando” Deus… Ele é assim… Ele pensa “assado”… Ele age assim… Ele reage “assado”! Que pretensão! Colocar-se como “analista” do Todo-Poderoso!

Como igrejas, devemos reconhecer, especialmente nessa religiosidade exigente que vivemos, que temos nossas caixinhas, nossos padrões… que ironia… cada um/a com seu número, sua preferência, sua cor e gosto, puxando a brasa pro seu lado… querendo convencer outros/as que o “número de Deus” é do tamanho de sua caixinha.

Chega até a ser cômico… pensar que cada um/a tem um pé de um tamanho… então como ter um Deus de um tamanho só, padronizado e limitado a uma só maneira, forma? Deus é maior que todas as “embalagens” que podemos arrumar… “inquadrável”… Imutável, mas inexplicável! Ele é único e diverso ao mesmo tempo.

Há alguns dias, o Vaticano – Sede Mundial da Igreja Católica – publicou um documento intitulado Repostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja no qual afirma que “… a única Igreja de Cristo “subsiste” na Igreja Católica. “Cristo constituiu sobre a terra uma única Igreja e instituiu-a como grupo visível e comunidade espiritual, que desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá”, diz o texto. “Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele…”.

O mais deprimente a meu ver, não é saber de uma declaração destas, mas descobrir que este mal do caráter humano, que nos leva a querer a exclusividade sobre tudo e todos/as, se esconde em cada um/a de nós! Em nossos corações, igrejas, famílias, círculos de amigos, ambientes de trabalho. Somos um tipo de gente que pretende, sempre, ter a verdade em sua caixinha… ter o controle, a posse daquilo que possa explicar a vida.

Imagino que não temos muita autoridade para criticar o Catolicismo, que se coloca como “o que tem o direito de ser chamado de única igreja”… porque no íntimo, arraigado em cada um/a de nós, também trazemos essa pretensão maligna de sermos/as únicos/as e melhores.

Em vários momentos da história vimos igrejas e pessoas se levantando pra dizer que tem a palavra certa, o caminho certo… colocando-se, como o “dono da caixinha certa”.
Como perdemos tempo dizendo “nós somos”! E quanto tempo e atenção devemos para aqueles/as que gritam “nós precisamos”!

O que explica essa discussão sobre quem “sabe Deus” e quem tem exclusividade sobre Ele?

E repito, isto não se aplica somente ao caso deste documento da Igreja Católica, que é evidente neste momento, mas, especialmente à intimidade de nossa fé, de nossos relacionamentos, de nossas discussões e problemas.

Não podemos nos deixar levar pela tentação da última palavra… afinal, nada que é último é nosso… não temos o controle nem sobre o nosso próprio fim… nada é nosso!

Quem sabe fôssemos humildes o suficiente para reconhecer nossa pequenez… se abandonássemos nossas caixinhas, nossos padrões e convenções. Não que devamos deixar de ter padrões de conduta e moral que norteiem os redutos de vida e fé de cada um/a… mas quem dera, percebêssemos que toda exclusividade é pecadora em si mesma, porque traz em sua prática a conseqüência do afastamento, da repulsa, da discriminação… deixando-nos longe do/a próximo/a, da humanidade, tão necessária e, especialmente de Deus!

Quem sabe tivéssemos os olhos do profeta (Jeremias 41) capazes de contemplar um Deus diante de Quem todos/as se calam, a Quem todos/as se submetem, a Quem ninguém pretende explicar e requerer posse!

Que esse Deus inexplicável e inconcebível possa nos ajudar a nos manter distantes de nossas ambições de poder, saber, ter e dominar!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on agosto 14, 2007 at 2:24 pm  Deixe um comentário