Espiritualidade Mórbida.

Meu querido amigo e colega de pastorado, José Fabrício Bahls, conviveu durante muitos anos com a obesidade. Lembro de ter presenciado alguns desconfortos que passava.

Depois de diversos processos de emagrece-engorda, foi diagnosticado que deveria ser submetido a uma cirurgia no estômago para o emagrecimento, o que foi acompanhado com exaustivos exames e análises médicas.

Houve uma pequena complicação pós-cirúrgica que não acompanhei de perto, mas nada que não fosse superado com alguns dias de tratamento.

Um mês depois da intervenção eu e minha família estivemos em Londrina visitando o amigo… e, para minha surpresa, ele já havia enxugado uns bons quilos e insistia numa dieta apenas à base de líquidos, que durou algumas semanas.

Quem tem proximidade com ele sabe o quanto custou abandonar os suculentos churrascos e as deliciosas porções de doces… mas o sacrifício resultou numa redução de aproximadamente 45 quilos, além de sua saúde que mudou significativamente.

O Pastor Fabrício não necessitava de todo aquele porte para viver bem… aliás, o excesso trazia complicações a sua qualidade de vida. E hoje ele sabe disso.

Obesidade mórbida, este é o quadro de quem tem que se submeter a um tratamento drástico desse.

A morbidez tem a ver com o que é doentio, enfermo, por mais que tenha aparência de saudável… e isso também não poderia ocorrer em relação à nossa espiritualidade? Não haveria uma “Espiritualidade Mórbida”, que ao contrário de nos fazer bem, trouxesse incômodos à nossa relação com Deus?

Pensar nesta possibilidade nos remete a algumas cenas pitorescas de nossas comunidades de fé… como os estereótipos… as palavras, as ações, que representam relacionamentos tão profundos com Deus mas, que, de fato, são excessos, gorduras, de uma vida com muita aparência e pouca realidade concreta, muito volume e pouca qualidade.

Parece-me que a comparação aqui entre saúde física e espiritual é propícia. Quantos casos vemos de pessoas fortes, robustas, aparentemente resistentes que caem por um simples resfriado! E da mesma forma, aqueles/as que demonstram uma firmeza religiosa tão efusiva, mas que, diante da primeira complicação, provação, cai de dores nas lamúrias de quem é fraco e mal nutrido!

Volto ao Fabrício e me lembro de sua “provação”… não poder se alimentar como antes… passar vontades, mudar o ritmo, o hábito… imagino como a tristeza o tentou abater.

Mas foi aquele “estresse” que o livrou das formas antigas e, mais que isso, do que lhe servia pouco, aliás, até atrapalhava seu bem estar.

Assim também são os estresses da fé… parecem tortura, representam tristeza, amargura e fraqueza… trazem o choro, a incompreensão, o conflito na alma… doem e tiram o sorriso… mas têm um objetivo louvável, nos livrar dos exageros, dos excessos, daquilo que só serve de aparência, e não nos garante saúde, tranqüilidade e vida!

Lembro-me de personagens bíblicos que passaram por momentos como esse… de redefinir a silhueta da fé… Jó, Davi, Paulo e vários outros/as… tiveram seus dias de enxugar as gorduras da crença, que pouco lhes valeram nos momentos mais significativos de suas vidas.

Espero, sinceramente, que saibamos reinterpretar nossas horas mais difíceis… aquelas que nos queimam a ponto de nos livrar das calorias indesejadas de uma fé estereotipada, saudável e forte por fora, mas incapaz de nos proteger das menores doenças.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on junho 29, 2007 at 1:45 pm  Deixe um comentário  

Quantos dedos você vê?

“Hunter “Patch” Adams é um médico norte-americano famoso por sua metodologia inusitada no tratamento a enfermos. Para Patch, formado pela Virginia Medical University, rir é o melhor remédio.

Aos 16 anos de idade, após perder um tio e ter sido deixado pela namorada, vivenciou uma grave crise depressiva e foi internado numa clínica psiquiátrica. Lá chega à conclusão que cuidar do próximo é a melhor forma de esquecer os próprios problemas e, melhor ainda, se isto for feito com muito bom humor e principalmente amor. Dois anos depois, ingressa na faculdade de medicina da Virginia, onde torna-se conhecido pela sua conduta excessivamente feliz e apaixonada pelos pacientes.

Atualmente Patch e sua trupe de palhaços viajam pelo mundo para áreas críticas em situação de guerra, pobreza e epidemia, espalhando alegria, o que é uma excelente forma de prevenir e tratar muitas doenças. Além de médico, Patch Adams também é autor de dois livros: “House Calls: how we can heal the world a visit at time” e “Gesundheit!: Good Health is a Laughter Matter ”. Este último inspirou o filme “Patch Adams – O Amor é contagioso”(1998), baseado na história de Patch e tendo Robin Williams como seu intérprete.” (www.pt.wikipedia.org/wiki/Patch_Adams).

O início desse filme se passa no manicômio, onde “Patch” se internou por livre vontade e conheceu um empresário bem sucedido que havia feito o mesmo. Este homem tinha a estranha mania de mostrar os quatro maiores dedos da mão e
perguntar: Quantos dedos você vê? Ao que todos/as respondiam de pronto: quatro! Desencadeando nele um ataque terrível de inconformismo.

Numa cena emocionante, Robin Williams – Hunter Adams – procura o homem para entender sua rebeldia que, calmamente, mostra a mão novamente, e faz a pergunta de sempre: Quantos dedos você vê? Quatro, responde Adam. Mas ele insiste: olhe melhor… veja além dos dedos! O que leva Adam, numa ilusão de ótica, a enxergar oito dedos! Foi aquele “louco” que chamou Hunter Adams pela primeira vez de “Patch” e o levou a ver através dos dedos!

A bela história desse doutor que aprendeu a receitar alegria como remédio, tem muito a nos ensinar, especialmente em relação a ver o que não está evidente.

Alguns momentos são difíceis de entender… e sofremos, até enlouquecemos, porque não conseguimos enxergar além dos dedos, além dos parâmetros normais que temos na vida… de certa forma, restringimos nossos sonhos às balizas que os sofrimentos desenharam em nossa história e ficamos com uma visão pequena.

Freqüentemente converso com pessoas petrificadas de alma, sem riso, sem aspiração… tolhidas por si mesmas de acreditar que o amanhã poderá ser melhor que o hoje. Uma gente que se proíbe de querer, de confiar que ainda é capaz… permanecendo encalhada em seus próprios lodos de tristeza!

Não é fácil ver o que outros/as não vêem… às vezes passamos por insanos/as, somos deixados/as de lado, à margem do que seja normal, rejeitados/as e até incompreendidos/as e mal julgados/as. Mas este é o desafio da vida… ver mais, ver além, através das complicações que nos aparecem!

Estou certo que, de alguma forma, crer, tem a ver com esta visibilidade transcendente… além dos dedos… do comum, do explicável, do aceitável, do esperado!

Como Paulo, o apóstolo, precisamos conhecer esse Deus que nos ensina ver por de trás do visível… um Senhor que excede todo o entendimento… faz infinitamente mais do que tudo que pedimos ou pensamos… vê muito além do hoje, sabe muito mais que nossa pobre compreensão!

Imagino que um dos segredos da vida próspera seja ver além dos dedos… viver, de fato, a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem, visualizando o inexplicável!

Que Deus nos abençoe e nos ajude a ver além do que está diante de nós!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on junho 22, 2007 at 1:47 pm  Comments (2)  

Integralização da Fé.

Tive a feliz experiência de fazer a Integralização de Créditos – que regulamenta o curso de Teologia junto ao MEC – na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo/SP.

O mais gratificante para mim, no entanto, foi, além de obter o reconhecimento, conviver com pessoas de diversas confissões cristãs, pastores e pastoras de diversas linhas… histórica, pentecostal, progressista, liberal, ortodoxa, fundamentalista e padres católicos também!

Quero crer que, realmente, houve créditos nessa “integralização” que puderam ser sentidos no respeito das discussões, na harmonização de pensamentos e na unidade possível, frente a todas as diferenças.

Juntos/as, dividindo o mesmo tempo, o mesmo tema, buscando o mesmo objetivo, vivemos, nessa pequena comunidade de mais de uma centena e meia de pessoas, um período de uma fé maior, acima das limitações próprias a cada um de nós.

Amizades nasceram dali… e-mails, idéias e opiniões foram trocadas… uma discussão só, de muitas particularidades, mostrando um poder renegado à fé de nosso tempo… o de fazer surgir irmandade no coração das pessoas.

Confesso que não tive sustos com ninguém… e agradeço a Deus por sentir que as diferenças confessionais não puderam tirar de nós a alegria de nos conhecermos e o prazer de vermos gente tão valorosa fora de nossos redutos – um contato imediato com a multiforme graça de Deus!

Nesse encontro de multiplicidades da fé, acolhido pela Faculdade Metodista, fomos confrontados/as por nós mesmos… especialmente ao lembrarmos das palavras de John Wesley:

“Devemos, sem discussão sobre opiniões, provocar um ao outro ao amor e às boas obras. Que os pontos em que temos diferença de opinião fiquem de lado: aqui há suficientes áreas onde concordamos, suficientes para serem o fundamento de todo o espírito e ato cristão. (…) Se não podemos ainda pensar o mesmo em todas as coisas, pelo menos podemos estar juntos no amor. Nisso, não podem errar. Pois de um ponto ninguém poderá duvidar nenhum momento: Deus é amor; e quem vive em amor vive em Deus e Deus nele.

Em nome, então, e na força de Deus, resolvamos, primeiro, a não nos ferir mutuamente; a não fazer nada descaridosa ou animistosamente, nada que não gostaríamos que fosse feito a nós mesmos. Pelo contrário, busquemos em cada oportunidade um bondoso, amigável e cristão trato entre nós.” (BARBOSA. José Carlos. Adoro a Sabedoria de Deus. Itinerário de John Wesley, o cavaleiro do senhor. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002. pág. 203 e 204).

Este “ensaio” vivido durante os três encontros que tivemos na Universidade, nos prova que o caminho da unidade é o verdadeiro plano de salvação de Deus pra nós.

Não existe fé verdadeira sem amor! Não se ama, sem respeito… não há respeito sem diversidade… não há progresso sem tolerância!

A busca do academicismo nos trouxe de volta a antiga lição… a mais importante no aprendizado da fé e da vida… de que se “… não tiver amor, nada serei” (1 Cor. 13.2).

Vimos na prática que “Ainda que eu tenha o dom de profetizar…” – e quantos profetas havia ali – “… e conheça todos os mistérios…” – e tantos irmãos/ãs de uma mística profunda – “… e toda a ciência…” – também tínhamos mestres e doutores conosco – “… ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes…” – e, sem dúvida, estávamos cercados/as de homens e mulheres de fé …nada daquilo nos valeu tanto quanto o amor, a irmandade e o respeito!

Eu espero que percebamos as lições de Deus pra nós… e que possamos crescer, livrando-nos das mediocridades que nos separam.

Que Deus nos abençoe e nos guarde!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on junho 15, 2007 at 12:12 pm  Comments (4)  

Nas filas do tempo.

Assim como existem fatos que irritam as pessoas, segundo a personalidade e a cultura de cada um, também há os que aborrecem de forma coletiva.

Ficar numa “fila”, por exemplo, parece ser algo desagradável a todas as pessoas… não me lembro de ter estado numa delas e ouvir alguém fazer elogios ao tempo gasto ali.

Não importa… seja no mercado, no banco, numa repartição pública, a fila é um mal-estar coletivo, experimentado diariamente nos mais diversos lugares.

A espera incomoda por si só, independentemente da forma da fila.

Vivemos num mundo imediatista, onde o resultado tem que ser o mais rápido possível… não importa o que seja… as coisas, pessoas, situações, no nosso tempo, são cobradas por efeitos rápidos, objetivos, claros.

Basta lembrar como agimos diante do televisor… somos implacáveis… miramos o controle remoto e, se a programação não nos agradar em três, quatro segundos, “atiramos”, descartando o canal, continuando uma busca inexplicável, para atender o atropelo da que vivemos!

A “cultura do controle remoto” vai tomando conta de nossa vida… como agimos frente à TV, atuamos em nossos relacionamentos, não tolerando uma conversa mais demorada, uma explicação mais profunda, um relato mais detalhado… perdemos a paciência rápido demais, atrás de resultados que nem sabemos ao certo quais são… mas que simplesmente nos agradem!

A pressa tem seus prejuízos! Uma vida permeada de emergências pode nos privar de experiências mais significativas, nos desviar de ensinamentos que nos melhoram como pessoas… nem sempre andar depressa significa chegar mais longe!

Isto ganha proporções importantes no que diz respeito à nossa caminhada espiritual… repetidas vezes, usamos a mesma impaciência de quando estamos nas filas da vida ou das horas que empunhamos o controle remoto, para argüir Deus… como se Ele fosse um/a mero atendente, ou um entretenimento qualquer… com a função de afagar nossos desejos!

O contexto de Daniel 10 nos ajuda numa análise do que falamos… o profeta se encontra prostrado, solitário, sem sentidos, segundo seu próprio relato.

Daniel vivia um momento de espera… daqueles que a gente chega a pensar que nada está acontecendo… que Deus não ouviu nossa oração, nosso clamor, e permanece desapercebido diante de nossos problemas e, abrindo um parêntese, como somos dramáticos/as nessas horas! Gritamos, reclamamos, choramos… e o que menos fazemos é confiar!

Mas o relato não deixa dúvidas… quando o suposto “Anjo do Senhor” começa a falar, Daniel tem a confirmação de que sua voz foi ouvida… e o mais curioso, “… desde o primeiro dia em que aplicaste o coração…” (Dn 10. 12) ou seja, a partir da hora em que começaram os clamores, embora isto não pudesse ser percebido!

Por isso, temos que admitir… Deus tem seu próprio tempo de falar, de responder, de agir, de querer… e o calendário d’Ele, nem sempre é como o nosso!

Quantas pessoas sofrem nas filas do tempo, revoltadas por não verem as coisas acontecerem! E, por mais que pareça contraditório, não significa que nada esteja acontecendo… Deus se move de maneira misteriosa e transcendente àquilo que vemos e sentimos!

Que possamos perceber que a dinâmica da pressa nem sempre é salutar à vida, e que o exercício da paciência e da confiança podem nos ajudar a ver a ação misteriosa e transformadora de Deus em nós e em nossos caminhos.

Que Deus nos abençoe e nos guarde!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on junho 9, 2007 at 3:53 pm  Comments (1)  

Vistas grossas.

Temos o mau hábito de desconsiderar os defeitos de quem amamos!

Isto me faz lembrar da música “Meu Guri”, de Chico Buarque de Holanda… uma alusão à mãe (ou pai) de um marginal mirim que faz “vistas grossas” para os “presentes” que o menino lhe traz da rua, na verdade, os frutos de seus pequenos furtos.

Infelizmente, não é só a personagem do célebre autor que tem essa “mania”… cada um/a de nós elege alguém na vida para amar cegamente, de olhos fechados!

O que não entendemos, na maioria das vezes, é que esse “fechar de olhos” age negativamente na vida da pessoa querida, na nossa própria e no meio em que se vive.

A opção por não querer ver as limitações de quem se quer bem, ao contrário do que se pensa, é sinal de ilusão e não de apoio, de negar auxílio a alguém que poderia ser melhor se tivéssemos a coragem de ajudá-la, mostrando-lhe questões a serem repensadas.

Omitir não significa resguardar, pelo contrário, só faz expor quem consideramos ao ridículo, ao equívoco e a dor!

Nem sempre, os/as verdadeiros/as amigos/as são os/as que falam palavras doces! Amigo/a, de fato, é o/a que se arrisca para salvar a gente… vem ao nosso encontro pra nos melhorar e nos livrar do que nos atrapalha.

Sabemos que perceber limitações não é um costume freqüente na vida. Gostamos de salientar qualidades, especialmente se forem nossas. Os entraves, deixamos de lado, a não ser que seja de outrem. Precisamos admitir… este é um pecado recorrente nos mais diversos ângulos sociais.

Isto nos remete a um corajoso ilustre… líder, famoso, e audacioso o suficiente para se expor, se despir, reconhecendo: “Tenho um espinho na carne”… um incômodo, uma “pedra no sapato”.

Apesar de não estarmos certos/as do que foi esse “espinho” na vivência do Apóstolo Paulo, podemos colher frutos de sua bravura em assumi-lo, ao notarmos que espinhos não são pra ficar escondidos, como segredos, íntimos, sustentando dores em nossa vida.

Aliás, é preciso entender que se há um atrapalho qualquer afligindo nossa carne, ou de uma pessoa próxima, é necessário fazer alguma coisa! Não se pode condescender com o sofrimento!

Existem farpas superficiais, outras mais profundas… umas que precisam somente de uma pinça pra sair, mas, também as que carecem de uma pequena cirurgia.

A dor pode ser grande ou bem pequena… o certo é que para nos desvencilharmos de nossos incômodos, ou ajudarmos nossos/as queridos/as a se livrarem dos seus, primeiramente, é preciso reconhecer os defeitos que fincam a carne de nossa vida, nos transformando em pessoas doloridas e problemáticas.

Para nosso próprio bem… para o bem de quem gostamos, nossos olhos devem estar abertos e atentos a qualquer desacerto.

Não resolve nada pra ninguém tentar esconder o óbvio, o que todos/as vêem, o que está evidente a qualquer um/a. Para o progresso da vida e dos relacionamentos que a sustentam, carecemos de sinceridade… é claro, não aquela que expõe e envergonha, mas a que constrói superação, melhoria e aperfeiçoamento naqueles/as que queremos bem.

Nem sempre doer é sinal de tristeza… existem dores benéficas… as que nos livram de nossos incômodos, são um exemplo bem prático!

Espero, sinceramente, que saibamos viver essa dinâmica de ajuda mútua, que não tem relação com esconder os espinhos ocultos… pelo contrário, age na remoção dos entraves que ferem nossa paz.

Que Deus nos abençoe e nos guarde!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on junho 1, 2007 at 1:58 pm  Deixe um comentário