A canção do regimento.

Meu pai tem saudosa lembrança de seu tempo de serviço militar… freqüentemente conta experiências que teve lá… recordo ter ouvido muitas, mas, uma em especial, me vem à mente, a de quando correram quilômetros em um treinamento. No início os soldados estavam bem… até cantavam enquanto corriam, mas, depois de alguns tempo, o cansaço começou a ser sentido e já não podiam mais agüentar.

Para a surpresa do meu pai e de todos, o tenente que ia ao lado deles começou a correr de costas e, motivando o grupo, dizia que cantassem a canção do regimento.

Eles não sabiam o que fazer… estavam exaustos e aquele comandante corria na velocidade deles, de costas, cantando a “canção do regimento” para incentivá-los!

Isto nos leva a pensar sobre motivação e desmotivação.

Imagino que não seja só minha a experiência de encontrar pela vida pessoas que esteja desmotivadas… acho até que isto é seja mais freqüente que ver as que estão motivadas.

Se pensarmos bem, notaremos à nossa volta quem não esteja mais resistindo a corrida… e cansados/as, esperam algum tipo de motivação.

Quantos/as sofrem com as câimbras da alma, e vagam pela tristeza da exaustão… sem forças para prosseguir.

É nessa hora que precisa haver alguém mais resistente, mais animado/a… que tenha disposição para cantar… e até pra correr de costas, se preciso for.

Contudo, o que mais me surpreende nessa dinâmica da motivação, é a questão do preparo de quem motiva.

Correr de costas não é pra qualquer um! Quando todos/as vivem o drama do desânimo, quando o grupo está mais com o desejo de parar do que continuar é necessário que alguém de mais fôlego tome a responsabilidade do ânimo em suas mãos e passe a dar o tom da canção!

Qualquer um/a se abate ao ver aquele/a que deveria estar entusiasmado, enfraquecer, esmorecer a cada passada! E isto não dá pra enganar… motivação, ânimo, são sentimentos que se mostram no olhar, no timbre da voz.

Se não existir um “eu” motivado capaz de incentivar primeiramente a si mesmo, não haverá animo nem pra correr, quanto mais para entusiasmar os outros/as!

Não resolve muito na vida ouvir alguém dizer: cante! Se você sente que ele/a mesmo/a não tem ar nem pra falar! Da mesma forma que dizer creia, reaja, fique em pé, se isto não vier com um toque de exemplo, de vida e vontade!

Isto me faz lembrar de Paulo falando aos Coríntios, na primeira carta, dizendo: “Sede meus imitadores, como eu também sou de Cristo”. Pra mim, aquilo era, nada mais, nada menos, que correr de costas, cantado! Enquanto aquele grupo estava incerto e desorientado, disse: olhem pra mim, e se sentirão motivados a correr, a buscar, a agir bem nos momentos complicados da vida.

Fico pensando nas pessoas perdidas em seus próprios questionamentos… desorientadas, enfraquecidas, exaustas, dispostas até a dar fim à sua carreira… carentes de ânimo, de apoio, de direção… de quem possa lhes dirigir… e, o pior, quantas dessas estão caindo, sem fôlego, porque não encontram pra quem olhar, em quem se inspirar.

Imagino se a tarefa cristã não tem a ver com isso… em sermos aqueles que correm de lado, marcando o ritmo, o compasso a quem precisa.

Mas, infelizmente, me entristeço porque poucos/as estão preparados… normalmente também estão esperando alguém para lhes assistir… ficam sempre como necessitados/as, não chegando ao ponto de poder ajudar também!

É preciso superar os limites do desânimo para assumirmos os postos de motivação diante de todos/as os/as que necessitam!

Que Deus nos abençoe a fazermos isto!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on maio 25, 2007 at 1:12 pm  Comments (1)  

Fechado pra balanço.

Aos quatorze anos tive meu primeiro emprego numa loja de utilidades domésticas.

Uma das lembranças que tenho daquela época era o período de “balanço”. Em um ou dois dias fazíamos um mutirão para contar peça por peça, item por item. Havia necessidade de sabermos o que tínhamos em estoque para avaliar a loja.

Numa dessas ocasiões fomos surpreendidos ao remover pilhas de tapetes no depósito… encontramos lá em baixo, amassadinho como uma folha de papel, um rato morto… que eu fui incumbido de remover.

Passados mais de vinte e cinco anos, aqueles dias exaustivos me fazem pensar sobre os momentos de “balanço” que a vida nos requer… os cálculos de quantas andam nossas vidas, nossos créditos e débitos diante de nós mesmos e daqueles/as que nos rodeiam.

Nem sempre esta solicitação encontra boa acolhida… muita gente reluta em parar pra pensar, analisar como estão seus passos, suas atitudes… nem sempre é confortável voltar os olhos para nós mesmos/as… olhar pra fora das janelas da nossa intimidade é uma tarefa mais tranqüila.

Aliás, meditar, seja sobre a própria vida ou sobre a vida de maneira geral, tem sido uma prática em desuso… talvez, por isso mesmo, vejamos tanta confusão na maioria das questões… a moral, a ética, é cada vez mais relativizada sob a argumentação de que “cada um cuide de sua própria vida”… e assim, os valores da vida vão se perdendo, já que ninguém se preocupa em conservá-los!

Lembro-me da cena repugnante do rato encontrado debaixo da pilha de tapetes… não é fácil descobrir coisas desagradáveis na face interna de nossa vida… é complicado ter que enfrentar o desconforto da sujeira que muitas vezes mora lá dentro.

Quem sabe esta seja uma justificativa da indisposição, da falta de coragem para, de tempos em tempos, nos fecharmos pra balanço.

Se pensarmos um pouco na história bíblica de Davi, o rei, lembraremos de alguém reprovável… sanguinário, adúltero, mal pai… mas que foi considerado segundo o coração de Deus (At. 13.22)… e qual a lógica disso? Imagino que está no fato de que Davi, apesar de errar em sua impulsividade, sabia que era preciso parar de vez em quando para essa verificação da alma… e se abrir, e se expor, e se despir, dizendo: “Sonda-me, ó Deus… prova-me e … vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno”.

É preciso ter muita coragem… e humildade… é necessário reconhecer, aceitar… e o mais complicado, voltar atrás! Rever antigos lugares, confrontar conhecidos rostos… estender a mão, oferecer sorrisos… abrir a alma!

Caso isto não ocorra, os ratos permanecerão lá… por debaixo de nossas belezas, de nossos enfeites… estragando o
ambiente, incomodando nossa paz.

Uma loja sem “balanço” não sabe o que tem, o que é, do que carece… não tem controle sobre sua estabilidade, se tem com que contar… se tem o que oferecer ou precisa pedir a alguém.

Assim também é a vida… não adianta empurrar os dias com a barriga, as tristezas pra debaixo do tapete.

É preciso estar aberto/a para a existência, mas isto só pode acontecer se houver momentos de fechamento, de estar retirado/a do todo, a sós com a própria emoção… enfrentando medos, dúvidas, acertos e desacertos!

Que o Senhor Deus Eterno, conhecedor de tudo e de todos/as, possa nos ajudar a termos sempre a predisposição para os momentos de balanço. E que, a partir disso, possamos saber melhor quem somos, o que temos, o que não temos, para que a vida seja de mais certezas, mais clareza, mais tranqüilidade e paz!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on maio 23, 2007 at 11:04 am  Comments (1)  

Ser Mãe…

Flertar… admirar, enamorar… aproximar, acreditar, confiar… comprometer-se… compromissar, pactuar… casar… fecundar!

Transformar-se… emocionar-se… perceber a vida… ter mal estar… enjôos, dores, incômodos… perceber-se modificar… a silhueta… a forma… admirar… temer… chorar… sorrir!

Perder o sono… sonhar… esperar, esperar, esperar!

Os primeiros movimentos, perceber mãozinhas, pesinhos, cotovelinhos, joelhinhos… o ventre mexer… sonhar!

Preparar roupinhas, lençoisinhos, travesseirinhos, caminhas, moveisinhos, quartinhos… comprar, comprar, comprar… esperar, esperar, esperar!

Escolher cores… vestidinhos ou terninhos? Sonhar!

Temer… chorar… sofrer… confiar, pedir, orar… gritar… conceber!

Sorrir… chorar, sorrir! Sonhar… beijar, afagar, admirar… proteger!

Cuidar, cuidar! Amamentar, trocar, afagar, consolar, acarinhar, vestir, banhar, aquecer, refrescar, alimentar, medicar… perder o sono… preocupar!

Ver sentar… cuidar… ver engatinhar… cuidar… ver cair… machucar… ver sujar… ver sorrir… ver brincar… cuidar… ver se apoiar… ver se firmar… ver andar!

Ensinar! Usar o banheiro, comer, se comportar, respeitar, orar, cantar, crer!

Ver crescer, ver correr… ver falar!

Cuidar… roupas, sapatos, alimentação, instrução, saúde, aparência, higiêne, modos, vocabulário, caráter, personalidade, seriedade, responsabilidade, sonho, perspectiva, profissão!

Brigas na escola, relacionamento com professores/as, notas, deveres de casa, tempo no computador… obrigações.

Orientar! Vida espiritual, emocional, física, acadêmica… amizades, lugares, horários, opções de estudo… impor limites… aconselhar!

Sofrer! Com as indecisões, com a ansiedade, com os atritos, com os relacionamentos, com a competitividade, com as injustiças, com as decepções, com os erros, com os fracassos… discutir… chorar… temer… perder o sono… perder a paz… orar, amar!

Acostumar-se com a independência… com a distância… ver sair, ver entrar, ver correr, ver se soltar… andar sozinho/a, pensar sozinho/a, querer sozinho/a!

Perceber os próprios caminhos… as direções… os horizontes… orar, orar!

Ver estudar, estudar, estudar… orar, jejuar… ver chegar o vestibular… orar!

Consolar/festejar, chorar/sorrir… permanecer ao lado… sempre… na alegria ou na tristeza… amar!

Ver partir… se desligar… chorar… temer, orar!

Esperar, ver chegar, abraçar, agradar, dengar, beijar… ver partir… chorar!

Receber telefonemas… saber dificuldades, saber vitórias… vibrar, sofrer, lembrar, temer, sonhar, orar… providenciar recursos, providenciar viagens… decidir… providenciar livros, roupas, materiais… gastar… economizar… abdicar, sacrificar, torcer, sonhar, orar!

Ver formar! Roupas, viagens, convites, parentes, amigos, festas, celebrações… alegria… tristeza… lembrança… emoção!

Ver flertar, ver admirar, enamorar… acreditar, confiar… comprometer-se… compromissar, pactuar… casar… fecundar!

Conhecer outros rostos… brincadeiras, novos filhos/as… netos/as! Novas paixões, novos amores… novas preocupações!

Participar novamente dos mesmos dramas, das mesmas dores, aflições, alegrias… rever antigas cenas… reviver momentos eternos!

Mostrar caminhos, prevenir, alertar, ajudar, dividir, emprestar, doar!

Instruir, aconselhar, aconselhar!

Ter saudades… lembranças… ternura… gratidão!

Comprar presentes… telefonar… mandar cartões, e-mails… agradar!

Amar, dedicar, oferecer, sonhar, acarinhar, proteger, querer, perceber, discernir… Ser mãe!

Rev. Nilson

Published in: on maio 23, 2007 at 11:01 am  Deixe um comentário  

É a bobina!

A família da minha esposa traz uma alegre lembrança de um tio querido, casado com uma das irmãs do meu sogro. Recordam que numa determinada visita ao casal, notaram que o aparelho de TV estava quebrado e sempre que questionavam o tio sobre a questão, ele respondia batendo os dedos da mão sobre a mesa e dizendo: É a bobina! É a bobina!

O mais interessante é que depois de um ano retornaram a casa e encontraram o aparelho da mesma forma e com o mesmo lamento do tio que insistia: É a bobina! É a bobina! Sem tomar providências para o conserto.

A memória daquele parente que tinha um televisor movido à bobina nos faz pensar sobre nossa passividade diante de muitas questões da vida. Os problemas e complicações acontecem a todo instante e vão de um eletrodoméstico quebrado a dramas que envolvem a própria preservação da existência… a vida está cheia de bobinas queimadas! O fato é se reagimos para mudar nossas situações!

De vez em quando somos surpreendidos/as por constatações infundadas… que se tornam reclamações, lamentos, choros, pelo que não sabemos com certeza – às vezes é mais fácil manear a cabeça e dizer: é a bobina, do que levar a questão a quem entende do assunto.

Existe quem se aborreça antes da hora, por hipótese, por medo, sem ter coragem de se certificar da realidade. Existem momentos que só um/a especialista em “bobina” é que pode dizer do que sofremos! Na hora dos problemas precisamos buscar conselhos de quem entende!

Outro fator importante dos dramas não tratados é a ação, ou reação… não resolve nada ficar com uma mão no queixo, outra batendo na mesa, olhando para o televisor… é preciso agir! Se alguém não tirar o aparelho dali e encaminhá-lo para um/a técnico/a, ele permanecerá imóvel e quebrado!

A experiência do tio relutante é a mesma daqueles/as que adiam dia a dia a felicidade que poderia existir hoje… por não fazer a coisa acontecer!

Problemas não são resolvidos por constatações, nem de reclamações, nem de passividade… eles devem ser tratados, trabalhados, questionados, conversados… e, quase sempre, o maior empecilho é a distância entre a dificuldade e quem tem condição de resolver! Às vezes só falta juntar os dois pra vida se tornar mais leve e menos dolorida!

Isto tudo me faz lembrar do relato de Lucas 5, quando Jesus se surpreendeu com um grupo de pessoas agindo diante de um problema seriíssimo… um aleijado. O texto mostra que, querendo levar o homem a Jesus, perceberam que a aglomeração os impediria, mas o levantaram até o telhado e o desceram.

Descobrimos através do evangelho que aquele homem foi curado… mas isto não é o mais importante, o que de fato interessa, é o exemplo daquela gente… que não ficou no lamento, na imobilidade, no medo… eles
trataram de procurar quem podia solucionar a questão – vemos que conhecer o sofrimento não é tudo, o importante é procurar alívio.

Eles agiram… usaram a cabeça, não se intimidaram diante da multidão que cercava Jesus – se não dá pra ser no convencional, vamos inovar – levantaram o pobre e o desceram pelo teto… não tiveram preguiça… colocaram as mãos e a imaginação pra funcionar!

Durante a vida vemos gente se comportando das mais diversas formas… uns/umas choram pelo leite derramado… outros/as, pela bobina quebrada… e o prático de tudo isso não é o grau de lamento, nem a dificuldade do problema, mas se a vida torna a andar, se existe superação, progresso, conserto!

Espero que saibamos, nas mais diversas situações, buscar soluções para nossos anseios… que sejamos ágeis, ativos/as, produtivos/as e abençoados/as!

Na graça e na paz,
Rev. Nilson

Published in: on maio 10, 2007 at 11:03 am  Comments (2)