O poder renunciar o Poder.

Ficou na minha lembrança uma entrevista muito interessante do Dr. Elsimar Coutinho – Especialista na área hormonal – apresentada na TV Cultura no início deste ano.

Apesar de se tratar de um médico, este registro de memória se deu por um motivo alheio à medicina… num momento qualquer, provocado pela questão de temas que envolvia a Igreja Romana, especialmente no que diz respeito à anticoncepção, ele esboçou seu pensamento com respeito à religião… disse: “O Deus da religião tem dono”!

A afirmação daquele cientista nos leva a pensar… é claro que precisamos perceber bem a fundo a sua afirmação… Deus não tem dono, Ele é inacessível e transcendente a todo poder e domínio humano… porém, mais do que questionar sua onipotência, a meu ver, o Dr. Coutinho nos desafia a refletir sobre a religião que prega o Deus que tem dono.

Talvez em cima disso poderíamos dizer que Deus não tem dono, mas isto não é porque não exista quem queira ser dono/a d’Ele… de fato, por esse aspecto, não é difícil concordar com o médico!

Aliás, a questão do mando, do comando e do poder é um tema questionante de tudo que somos… enquanto seres humanos, seres relacionais e, especialmente, como religiosos/as!

Nosso anseio mais íntimo, mesmo que o neguemos e o tentemos esconder, é mandar, dominar, decidir! Isto está em nós! Faz parte do instinto animal que se esconde em cada um/a… existe por trás de cada olhar, de cada argumentação e pensamento, um sentimento dominador que nos faz agir.

O interessante disso tudo é pensar que o grande poder que deve ser pregado e vivido pela religião, é o poder de renunciar qualquer poder! Ela nos remete sempre, e cada vez mais, quando nos deixamos envolver, ao desafio da tolerância, da conciliação, do respeito e da igualdade… características básicas de quem aprendeu que o caminho do domínio não é seu/sua, mas de Quem, realmente pode todas as coisas!

“Ser dono/a” é um sentimento que está distante de quem pretende viver verdadeiramente a religião de Cristo, ou, pelo menos deveria estar… aliás, quem opta por Ele, antes de qualquer coisa, tem que entender de maneira profunda que acima de tudo e de todos existe um Dono, que decide, de quem nada foge.

Por isso, a partir do que falou o Dr. Coutinho, o propósito principal da religião, ou do/a que se defina como tal, é não ser dono de nada, nem de si mesmo, mas ter a liberalidade de entregar-se totalmente a Deus e aos/as outros/as.

Deus é Deus, bem por isso não pode ser dominado, nem mandado, tampouco explicado ou dirigido. São nossas próprias ambições que nos fazem pensar que entendemos Deus e temos como definí-lo na miséria da nossa interpretação!

Chego a conclusão que também são nossas aspirações e cobiças que levam muitas pessoas a pensar como o médico famoso! Ao perceberem que ousamos restringir Deus somente ao nosso reduto… tentando reprimí-lo, proibí-lo de ser grande e inexplicável como realmente é! Que ironia!

De muitas maneiras a observação daquele homem me entristece… ela mostra nossa incompetência em testemunhar, nossa arrogância ao pregar, nossa inadvertência ao afirmar coisas importantes em nome de Deus! Existem muitas palavras confusas na nova religião que camuflam as aspirações mais importantes da fé… quantas vezes nos surpreendemos questionando o poder de Deus e tentando fazer prevalecer o nosso próprio!

Que nossa vida cristã possa, antes de mais nada, ser um sinal visível do poder… que se aperfeiçoa na fraqueza, se demonstra na fragilidade e se renova na misericórdia Daquele que é todo o poder, dono de tudo e de todos/as!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on abril 27, 2007 at 8:45 pm  Comments (1)  

Entre o sábado e o aleijado.

Lembro-me de uma vez que fui chamado às pressas para levar uma irmã da Igreja ao Pronto Socorro. Ela tinha dores fortes no peito e no braço – mesmo para um leigo, os sintomas sinalizavam um infarto. Depois de alguns minutos na observação – medicada apenas com um calmante – ela me chamou dizendo: “Pastor, me leva embora daqui, se não eu vou morrer!”.

Já no consultório do Cardiologista, descobrimos que ela estava com um quadro gravíssimo e, realmente, poderia morrer a qualquer momento.

Enquanto a víamos ser levada rapidamente para a UTI, eu e sua filha entramos num drama: como apresentar o “cheque de garantia” na administração do hospital, sabendo que não havia fundos para honrá-lo. Ficamos entre a cruz e a espada… o sábado e o aleijado!

Se não déssemos o cheque, ela precisaria ser removida para outro hospital – o que lhe seria fatal, segundo o especialista – se apresentássemos a caução estaríamos assumindo uma dívida que não poderíamos pagar. Em suma: ela foi internada e demos o cheque sem saber como isto seria resolvido! Graças a Deus, no dia certo, tudo foi pago!

A experiência daquela irmã, salva de uma maneira inusitada, traz à tona a questão do legal e do vital que, apesar de não serem discordantes, às vezes, na vida, aparecem como alternativas únicas. Ou optamos pelo legal ou pelo vital.

Esta discussão é evidente nos evangelhos (Mateus 12) quando Jesus se vê diante de um homem aleijado, num sábado… uma pessoa que poderia ser curada por Ele, mas como a Lei judaica proibia qualquer atividade nesse dia, isto se tornou um problema legal!

Resultado: Jesus curou o homem! Optou pela vida! Desrespeitou a convenção religiosa e questionou a lei estabelecida! E afirmou: “Ora, quanto mais vale um homem que uma ovelha? Logo, é lícito, nos sábados, fazer o bem” (Mt 12.12).

Estas discussões, infelizmente, são recorrentes no meio cristão – cristianismo, aliás, que nasceu de uma rediscussão do Judaísmo.

Repetidamente vemos gente cristã usando lei para deixar o/a outro/a morrer! Colocando o sábado, a convenção, a letra, matar a alegria, a harmonia e a comunhão de muitas comunidades! Fazendo com que o cristianismo judaizante, tão criticado por Paulo, e porque não dizer, pelo próprio Jesus, voltar a ser notícia no meio da Igreja!

Pra mim, ser cristão é mais que cumprir fielmente o que está escrito na Bíblia… mas saber contextualizar as palavras, ações e reações do Cristo que pregamos no mundo em que vivemos! Saber dar vida à lei, mais que dar leis à vida!

Tristemente acompanho posicionamentos e declarações da Igreja Cristã Mundial que mais tem a ver com a tarefa de resguardar interesses próprios do que de garantir e promover vida… aliás, uma das ênfases do cristianismo moderno deveria ser o de se preocupar mais com a vida secular, real, palpável – como ela é, seus desafios – do que com leis e regimentos!

Vivemos diariamente o mesmo dilema de Jesus entre os senhores do sábado e o sofrimento do aleijado… basta saber se temos respondido da mesma forma que Ele!

Precisamos dessa sensibilidade santa que nos ajude a dimensionar a importância das coisas… para usarmos a lei como agente de vida e não a vida como agente da lei. Precisamos viver para gerar cura, realização, sonhos, paz, libertação!

Espero, sinceramente, que sejamos bons/boas seguidores/as de Cristo… entendendo não somente suas palavras impressas em nossas Bíblias, mas, especialmente, suas ações e gestos.

Que Ele nos abençoe e nos guarde!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on abril 20, 2007 at 1:07 pm  Comments (3)  

Estátuas de Sal

No capítulo 19 de Gênesis a Bíblia conta uma história sui generes… Deus estava ofendido com a pecaminosidade de Sodoma (uma das cinco cidades do vale de SIDIM) e Gomorra (cidade que ficava na planície ao sul do mar Morto) e resolveu destruí-las.

O relato diz que Deus teve piedade de um homem chamado Ló e resolveu salvá-lo juntamente com sua família… e orientou que fugissem… e assim, “fez chover fogo” sobre ambas as cidades.

O interessante foi a recomendação dada a Ló… “não olhem para trás”! Fujam e não se voltem para a destruição da cidade… mas, talvez, por distração ou até mesmo por apego, sua mulher olhou para trás e, conta o texto, “virou uma estátua de sal”.

Sabemos bem que existem muitas maneiras de olhar pra trás… podemos fazer isto de maneira física – voltamos nossa visão ao que está geograficamente atrás de nós, ou ainda no sentido íntimo, recordando e, de certa maneira, voltando a observar coisas e fatos que se passaram.

Essa questão é importante para a vida… muitas dores que temos em nossa alma vêm de fatos que já se foram… de acontecimentos que já passaram e marcaram nossa lembrança de maneira triste e dramática.

Existe quem viva sofrendo pelo que ouviu, pelo que falou, pelo que viu ou ainda pelo que fez… situações não resolvidas, que deveriam ser deixadas no passado, cobertas por perdão, por tolerância, ou até mesmo por amor.

Pessoas que correm pra frente com olhos voltados pra trás… deixando de viver novos ares, novos tempos, novos sonhos por se encontrarem ancorados em mágoas e ressentimentos de um tempo que já se foi.

Mais impressionante é pensar que a mulher de Ló, ao olhar pra trás, foi transformada em sal… numa mulher de sal, numa vida de sal… petrificada pela aridez e a desolação do sal.

Muitos/as também estão assim… salgados/as pelas tragédias que já não existem mais… ofendidos por posicionamentos e palavras que já não são mais ouvidas ou imagens que não mais são vistas.

É por isso que em certas situações e casos, faz mal focarmos nossos olhos no que se foi… ficar preso/a ao passado… ao dissabor, sem doce, sem ser suportado/a.

Quem sabe o bom sabor da vida não esteja nessa capacidade de olhar só pra frente… especialmente quando o passado não tem muito a ensinar, a inspirar… quem sabe não é esse “saber escolher o que lembrar” que traz alegria verdadeira à vida.

A mulher morreu… transformou-se em sal, em pedra… muita gente também morre diariamente, tornando-se estátua de sal, por não conseguir superar as más experiências de sua história… que servem somente como ensinamento, não como lembrança.

Precisamos olhar pra frente… precisamos correr com olhos no futuro… nem chorando, nem lembrando, nem sonhando com o que se passou… especialmente se o nosso ontem tem a ver com pecado, dor, miséria.

Existem sim coisas pra se lembrar… mas temos que pensar se é bom pra vida, pro hoje… se o nosso presente merece a lembrança de alguns fatos!

Precisamos nos dedicar ao que adoça a vida e não o que salga e resseca, tão somente!

Que o Deus da Graça nos ajude a aprender a lição da mulher de Ló… que não sejamos surpreendidos/as pelo sal das más recordações… que não sejamos petrificados pelas tristezas que passaram… e que tenhamos sonhos de paz, de amor e comunhão!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on abril 13, 2007 at 11:22 am  Comments (43)  

Vale a pena viver!

Foi internado na semana passada em Buenos Aires o jogador argentino Diego Maradona. Muitas notícias foram veiculadas desde então dando conta de que ele passou mal por exageros que vem cometendo com cigarro, bebida e comida.

Existe, porém, uma versão mais dramática e menos divulgada pela imprensa, de que ele teria tentado suicídio após uma visita de seus pais… na verdade, é sabido que Maradona tem sérios problemas familiares, contudo, esta informação é apenas uma especulação, não podendo ser comprovada.

Infelizmente essa triste tendência tem ganhado força entre as celebridades… não é só “Dieguito” que ocupa os comentários … muitos/as outros/as já foram manchete por questões ligadas à tentativa de suicídio… e infelizmente, há quem tenha consumado, a exemplo de Elis Regina, Cássia Éler, sem pensar em casos como Fred Mercury, Renato Russo, Cazuza e Lauro Corona, que senão de uma forma aberta, pagaram com suas vidas pela distração das drogas e bebidas.

O suicídio é, antes de mais nada, uma opção pela recusa da vida… ele acontece gradualmente, de maneira lenta, sorrateira, velada… e a morte, propriamente, é apenas um desfecho de um processo maior.

Porque as pessoas desistem da vida? Porque se arriscam, se descuidam com coisa séria?

A psiquiatria, a psicologia talvez tenha explicações mais técnicas, mas, quem sabe, podemos dizer que a vida pode ser deixada de lado quando pessoas, relacionamentos, podem ser deixados de lado… ela é banalizada, quando os lugares, as conversas, perdem o valor, o interesse… e perde o sentido quando não se pode achar ao lado coisas, pessoas, relacionamentos, atitudes, causas que representem um sentido que compense a vida!

Ninguém desiste de viver por nada… existem mágoas, tristezas, ranhuras, que vão tomando proporções tão gigantescas a ponto de derrotar a vida por completo!

A páscoa tem um sentido absurdamente oposto ao da morte… porque ela nos fala da vida no ambiente da morte… num mundo que fala da morte – suicidando-se pouco a pouco em seus desencontros éticos, morais – em meio a vida!

Jesus é a imagem de quem opta pela vida em meio a morte! Não é que Ele não tivesse problemas… perto d’Ele também existiam pessoas, fatos, questões complicadas… Ele também sofria de decepção com seus amigos, de falta de condição – Ele não tinha nem um travesseiro para reclinar a cabeça – era alvo de críticas, de maus tratos, de desrespeito, de agressão, mas, mesmo assim, resolveu viver novamente… sinalizado o quanto vale a pena viver!

Não é que valha viver porque temos tudo o que precisamos – talvez, ter tudo nem seja tão importante na vida – e nem que sejamos totalmente aceitos/as e entendidos/as em tudo que falamos e pensamos – quem sabe, ser bem compreendido/a não seja o fator mais relevante da existência – ou que sejamos completamente sãos/sãs – a verdadeira saúde pode não estar na dimensão que queremos… a vida é um mistério inescrutável, sem dimensão e razão que a possa justificar!

Por isso Jesus voltou da morte… quem sabe como sinal de que a vida deve ser o objetivo primeiro da humanidade… ou ainda de que não existe nada interessante na morte que permitia desvalorizar a vida… nem a tristeza, nem o fracasso, ou a decepção, a fraqueza, o abandono, tampouco a violência, a dor ou a guerra, devem ter poder de fazer alguém desanimar da vida, porque viver é sempre a melhor escolha!

Que o exemplo do Cristo redivivo possa contagiar nossa vida… trazendo-nos a alegria em tê-la, a responsabilidade de cuidá-la, o prazer de reparti-la!

E que tenhamos vida… e que tenhamos abundância dela!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on abril 6, 2007 at 2:13 pm  Comments (1)