O caminho das pedras

Desde que me conheço por gente vejo as pessoas trocarem receitas… inúmeras vezes vi tias, avós, conversando com minha mãe sobre formas diferentes e novas de fazer pão, bolo, pratos especiais.

Mas, pasmem, também já vi receita de “instalação de antena”! Uma vez meu pai e um senhor que eu não conhecia ficaram trocando idéias perto de mim sobre quais as melhores técnicas de se instalar uma antena de TV… trocando receitas… como se montava, se cortava as “fitas” utilizadas na época.

Creio que o nosso povo tem receita pra tudo… pra bolo, pra instalação de antena, pra macarronada, pra se curar de alguma enfermidade e até pra “subir na vida”… na verdade, sinto que cada um/a, inconscientemente, procura descobrir o “caminho das pedras” para chegar ao sucesso nas mais diversas áreas.

Então onde está este “caminho” que leva à realização? Qual será a receita, a maneira mais adequada pra vida?

Alguém poderá dizer que ter uma família bem estruturada… sem dúvida, é uma força magnífica para o sucesso… outro/a poderá dizer que seja a realização profissional, ou a prosperidade econômica… a saúde, estaria também num dos primeiros tópicos da lista… o equilíbrio emocional, o preparo acadêmico, tudo isto é importante, mas creio não ser tudo!

Li, uma vez, um pensamento extremamente sábio de um pastor americano chamado C. H. Spurgeon sobre o melhor a fazer diante da vida para não sairmos do caminho certo… dizia ele, “… Tenho tentado ultimamente não me importar com o louvor do homem mais que do que sua censura, mas simplesmente repousar sobre esta verdade – sei que tenho uma motivação pura no que tento fazer; estou consciente de que me empenho em servir a Deus com vistas apenas à sua glória; portanto, não preciso receber o louvor nem a censura do homem, mas permanecer independentemente sobre a rocha do fazer o que é certo”.

Achei impressionante a lucidez do escritor… seu ponto de vista mostra que um grande atrapalho para a vida moderna pode não ser o fato de não termos ou não atingirmos objetivos e sonhos, mas de andarmos demasiadamente atormentados/as por este fato, ou ainda perturbados/as por tê-los atingido!

Os fracassos são tristes, é óbvio… mas o segredo está em darmos a ele uma tristeza proporcional à sua intensidade… a realização é ótima! Engrandece a vida, fortalece a esperança, a auto-estima, mas se a festa não condisser com a graça, destoa, extrapola, e vem o desequilíbrio do mesmo jeito!

O bom da vida não é só estarmos felizes, mas estarmos felizes na intensidade certa… a muita glória também desvirtua, confunde o bom caminho.

Da mesma forma, o mal também não é mal somente em si mesmo… ele pode se tornar bem maior, mais agressivo e destruidor se dermos a ele valor em excesso.

Talvez, então, o mal e o bem, bem dimensionados em suas causas e efeitos dentro de nós, sejam mais do que desvios de conduta em nossas vidas… sejam tão somente o que são, parte indispensável de um processo de vida, onde bondades e maldades, bem codificados, transformem-se tão somente em experiência e aprendizado!

Muitas pessoas sofrem em exagero… ficam doentes, entram em “parafuso”, perdem o equilíbrio, enquanto outras tantas festejam em excesso, deixando-se tomar pela arrogância, soberba… e se perdem também!

Salomão disse que “tudo tem seu tempo”! talvez o segredo da vida esteja mais ou menos nessa direção… em saber que existe tempo para tudo, propósito para tudo, choro para tudo e risos para tudo! Ou seja, intensidade certa para cada coisa ou evento da vida!

Será que não está aí o “Caminho das Pedras”, em dar dose certa para os acontecimentos, problemas e felicidades que a vida nos apresenta?

Que o Senhor Deus, dono do tempo, da alegria e da tristeza, nos ajude a calibrar bem nossa vida.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

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Published in: on março 30, 2007 at 10:49 am  Comments (1)  

A língua dos Anjos

Eu ainda era muito jovem quando me disseram que precisava ter o “dom de línguas”… era uma obsessão de muitos/as de nossa comunidade naquele tempo… lembro-me de que as pessoas se reuniam para buscar esse dom… oravam, se ajoelhavam, choravam… mas muitas frustrações também encontravam lugar na emoção daqueles/as irmãos/ãs!

Quando amadureci na fé e na vida, entendi que existiam questões mais emergentes como referencial cristão… o dom de se relacionar, o dom de respeitar, o dom de apoiar… também conheci muitos/as que falavam línguas que eu não conhecia… do desamor, da intolerância, do desafeto… mas insistiam que dominavam o “idioma dos anjos”.

Hoje, como pastor, tendo ciência da Glossolalia, continuo a mesma reflexão que tinha na época de adolescência… qual a língua dos anjos? O que eles falam…. qual seu vocabulário… seu tom de voz, sua mensagem?

Acredito que esta linguagem angelical tenha seus mistérios… mas podemos divagar sobre alguns de seus desdobramentos.

Quero crer que ela não traga o propósito exclusivista de deixar alguém de fora da conversa… os anjos são amistosos, pacíficos, compreensivos… não se furtariam a nenhuma tendência ou pensamento… dialogariam com os desiguais… imagina? Uma língua compreendida pelas diferenças de protestantes, católicos, tradicionais, pentecostais, progressistas?

Ou não… será que haveria um código com imposições e restrições na linguagem celeste, uma senha de poucos/as escolhidos/as por mérito ou espiritualidade?

Haveria essa língua capaz de transcender os limites da diferença… de ser ouvida, entendida, aceita… inteligível o suficiente para encontrar eco, reestruturar significados, desfazer desavenças, disputas, reorganizar sentimentos e mudar sentidos?

Se é que o idioma do céu tem sido falado na terra, onde está sua diferença… apesar de ser estranho, dissonante em nossos ouvidos, ele não deveria dizer alguma coisa, alguma novidade, gerar algum fruto em nossa vida?

Ou nós é que não temos tido a capacidade de traduzir, de decifrar suas mensagens e desafios? Será que temos falado idiomas diversos e divergentes do que se fala na Glória de Deus?

Onde estão os vocábulos da unidade, as consoantes da harmonia, as trovas da compreensão… os parágrafos da tolerância, os pontos do respeito, as frases da igualdade?

Lembro-me novamente dos tempos de adolescência de quando insistiam comigo que precisava falar a língua dos anjos… e penso que realmente devo buscar esse aprendizado… mas a língua que quero falar, e que imagino ser de fato a que deva ser falada por ministros/as de Deus, tem que ser audível e compreensível a todos/as… não pode estar fechada em redutos… mas harmoniosa e pacífica, consoladora, unificadora, conciliadora, edificante e desafiante, terna, amável.

Quero falar a língua dos anjos… desde que minhas palavras se traduzam em bênçãos para os homens e mulheres a quem fale… desde que nela hajam mensagens de entendimento, amor, arrependimento, Graça, salvação.

Que o Senhor do céu nos ajude a falar, a sentir e a ouvir as doces palavras que saem dos lábios dos anjos e que essas palavras inspirem nossas vidas!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on março 23, 2007 at 11:54 am  Comments (18)  

Receita da Feijoada

Desde o Brasil Colônia temos tido como povo uma sucessão de acertos e desacertos… a escravidão é um desses equívocos de nossa herança cultural… mas a vida é uma escola infinda que traz sempre novas formas do saber. Talvez esta seja a explicação mais acertada para encontrarmos pontos positivos em nossas tragédias.

Um fato interessante do período escravagista no Brasil é o surgimento da “feijoada”… conta-se que os ‘senhores’ ao matar os porcos, reservavam as partes “descartáveis” – pés, orelhas, rabo – que não lhes apetecia, e davam aos escravos… imagino que quase como uma afronta ou tentativa de ofensa, como quem dissesse: Vocês ficam com as sobras… vocês não merecem comer o melhor.

Pois bem, com aquilo que era “pior” da carne dos porcos, os escravos misturavam o feijão e se fartavam com o que é hoje um dos pratos mais admirados e nobres da culinária brasileira.

Este evento histórico nos adverte em muitas direções… especialmente quando nos sentimos como “sobras” ou como aqueles/as de “menor valor”, desprezados/as, rejeitados e marginalizados/as!

Não são em todos os momentos que somos centro das atenções… em quantas situações somos colocados/as de lado como parte pior da consideração e atenção de alguém! Existem horas em que nos sentimos rejeites sociais em meio a um bando de quem foi colocado à parte!

Nessas horas precisamos nos lembrar da lição dos escravos, cozinhando o desprezível, juntando a ele ingredientes que possam transformá-lo em algo bom, apetitoso!

Quando estamos “por baixo” temos a oportunidade de transformar restos de porcos em uma deliciosa feijoada!

Devemos aprender a trabalhar com o que temos… porque é o que temos à mão que nos sustenta, que nos alimenta, que garante a vida… não basta chorar pelo que os “senhores” têm… é preciso aprender a transformar desprezo em prato nobre, derrota em alegria, medo em esperança!

Isto me faz lembrar de Davi quando fugindo de Saul se refugiou na “Caverna de Adulão”, pra onde foram com ele, segundo o texto, uns quatrocentos homens… e sabe qual a situação dessa gente? O relato diz que eram endividados e que se achavam em aperto e ainda mais, amargurados de espírito (1 Samuel 22).

E o que Davi fez com os homens de Adulão? Tornou-se chefe deles… fez uma feijoada com os desprezados sociais. Quem sabe, tornou-se esperança para eles, o horizonte que precisavam!

Não é incomum na vida sermos surpreendidos/as por problemas que nos deixam alarmados/as… são horas em que ficamos, como se diz no popular: “na mão”, “sem eira, nem beira”… com pouquíssimos recursos para garantir nossa caminhada… é aí que precisamos saber combinar os ingredientes que temos para transformar a situação de calamidade em uma festa de fartura.

Que o Senhor da vida nos faça lembrar que a fé move montanhas, transforma vidas, situações, e olhando ao redor poderemos notar recursos deliciosos, disponíveis para nos tirar das tristezas e dos desencantos.

Boa feijoada!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on março 16, 2007 at 10:44 am  Comments (1)  

Complemento divino de nossa alma – pelo dia Internacional da Mulher

Aprouve Deus que elas saíssem de nós… de nossa costela… há quem diga ser este um simbolismo de nossa responsabilidade em abrigá-las e protegê-las… que brincadeira, nós é que viríamos a depender delas… de seu cuidado, de sua doçura e proteção.

Elas receberam o duro encargo da gestação… dos incômodos, das dores… mas trabalharam isto de uma forma tão natural a ponto de ser este o desejo intrínseco da maioria delas… ser mãe.

Deus equipou essa “costela” maravilhosa com novidades… melhorias que faltavam em nós… deu a elas o poder de temperar a vida… refletiu em seus rostos a imagem do amor, do aconchego, do carinho e da ternura… sem o que não poderíamos resistir.

Deus as fez mulheres… Deus as fez amor.

Algumas coisas na vida, imagino, são especialidades das mulheres… harmonizar, apaziguar, acalmar, consolar, incentivar, aconselhar… o que seria de nós sem esta coordenação amorosa nos momentos mais complicados da vida!

Basta um abraço… namorada, esposa, irmã, mãe, não importa, para fazer reviver em nosso coração sentimentos como esperança e tranqüilidade.

A história não foi bondosa com esta criação aprimorada de Deus… houve indiferença, discriminação… foram tratadas como objeto, adereço somente, no decorrer dos tempos… e infelizmente, não podemos negar, ainda são em muitos lugares.

A “primeira” criação, o homem, não entendeu a intenção de Deus ao receber o magnífico presente… tratada somente como “segunda”, a mulher ficou, por muito tempo, impedida de cumprir seu majestoso papel de adoçar, de perfumar, de colorir e pensar a vida humana… que ironia… era tudo que o homem mais queria e precisava!

Mas ainda há tempo! Há muito que saborear de seu encanto… de seu sorriso, de seu afago.

Queira Deus sejamos sensatos e sensíveis a ponto de reconhecermos esse complemento divino da nossa alma… esse pêndulo glorioso de nossa alegria… capaz de tranqüilizar nosso ânimo e instigar nossos sonhos e esperanças chamado “Mulher”!

Queira Deus saibamos entendê-las e protegê-las das tristezas do mundo e de nós mesmos, especialmente de nossa falta de percepção, de sentimento.

Que sejamos dignos de sua brandura e singeleza… aptos de seu amor, preocupação e cuidado.

Para que a vida se complete em nós, como sonhou Deus ao concebê-las… para que haja cores em nossas aspirações, sorrisos nas horas de frustração, ternura nos momentos de desilusão.

Que sejamos enriquecidos/as pelo dom maravilhoso de conviver, homens e mulheres.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on março 10, 2007 at 1:56 pm  Comments (1)  

Os espaços da diferença.

Uma das surpresas que os cientistas tiveram por ocasião da primeira clonagem – da ovelha “Dolly” – foi perceber que a clone apresentava um envelhecimento mais acelerado do que a original, caindo por terra, pelo menos naquele instante da história, a possibilidade de haver dois seres totalmente semelhantes.

Na verdade, esta é uma constatação antiga… desde que a humanidade é humanidade, a diferença é alguma coisa que incomoda.

Não basta ser da mesma família, nem da mesma cidade ou da mesma etnia… as diferenças ocorrem de muitas maneiras e formas… seja na cor da pele, na altura, na maneira de se comportar, nos costumes alimentares, cada um/a de nós é exclusivo/a por natureza… Deus nos fez pessoais, de um jeito próprio, com uma distinção, inconfundíveis!

Não considero nada de errado nisto… acredito até que esta diversidade toda tem uma intenção divina de fazer melhorar nossas habilidades.

O grande drama em relação às diferenças é que, na prática, elas nos distanciam!

Basta notarmos falta de idéias comuns para querermos sair, separar, dividir… como se a discordância não tivesse proveito!
Estes espaços entre diferentes é que atrapalha a convivência… se não nos evitássemos ao descobrirmos nossas desigualdades… se nosmantivéssemos com a mesma doçura e respeito como dantes… se as diversas maneiras de ser funcionassem mais como atração que como repulsa, teríamos uma gama bem maior de experiências para lembrar, pra contar e para ajudar nossas decisões!

É preciso entender que ser diferente não é pecado! Talvez seja um pouco incômodo, um pouco desgastante… mas, na maioria das vezes, dado o devido tempo, pode ser muito benéfico.

Como perdemos boas oportunidades por estarmos distantes… como deixamos de perceber a abrangência total da vida, do tempo, da humanidade!

É triste notar que existe quem se feche em sua exclusividade e se negue a comungar, a compartilhar… por conta de um pensamento diverso, de um costume incomum, afasta-se.

Gosto de pensar no exemplo de Cristo… que atraiu e convocou pessoas diversas para caminhar consigo… umas rudes, incultas, outras astutas, espertas… mas fez questão de estreitar relações com todas… cada qual com seu jeito, seu estilo, seu interesse… fazendo parte de um só grupo.

Jesus sabia com quem andava… elas é que não se conheciam bem entre si… mas à medida que conviveram, que se tornaram seguidoras de um mesmo mestre, as coisas vieram à tona… vieram as amizades… e as inimizades… as proximidades e os distanciamentos.

No ápice do conhecimento mútuo, após três anos de convivência, quando já havia um espírito de família – em todos os sentidos que isso possa ter – Jesus propõe uma refeição, um sentar-junto, uma reunião de todas as diversidades, num só encontro, numa só mesa, e, nesse cenário, propõe a maior de todas as lições do cristianismo… a unidade.

De alguma forma Ele, na mesa da comunhão, ensina que diferença não deve ser motivo de distanciamento, mas de conversa, de tolerância e entendimento… é preciso sentar para conversar, para repartir, para comungar pensamentos, pontos de vista, para achar espaços de relacionamento e unidade.

Nosso maior erro é mantermos essa distância com aqueles/as que não são iguais… porque não cantam o que cantamos, porque não comem o que comemos, porque não riem com nossas alegrias e nem choram com nossas tristezas… mas é preciso reverter… caminhar em direção contrária… em direção das pessoas, especialmente daquelas que não são tão próximas.

Se agirmos assim, diminuiremos espaços… aumentaremos as possibilidades de convivência… diminuiremos as diferenças, aumentaremos as oportunidades de afeição e respeito.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on março 2, 2007 at 1:59 pm  Deixe um comentário