Obrigado/a.

É interessante pensar no significado desta palavra tão presente nos mais diversos momentos de nossas vidas… seja em horas de extrema alegria ou de extrema tristeza, ela sempre permeia nossos cumprimentos, encontros e despedidas.

O “obrigado/a” já tomou um espaço bem maior do que uma simples palavra… ele tem um apelo mais profundo… tem peso de sentimento, de gratidão. Como termo tem duas vias mestras de interpretação. Pode se referir a uma obrigação ou a um reconhecimento… a alguém que seja obrigado/a a realizar uma determinada tarefa ou a quem sinta-se devedor/a de um favor, grato/a por um gesto ou uma amabilidade.

O surpreendente é entendermos que esta palavra também nos encaminha em dois sentidos divergentes da vida… um que nos aponta uma realidade de jugo, de peso, quase que sacrificial, outro que nos leva em direção da alegria, do despojamento, da liberalidade, da gratuidade da Graça!

Mais extraordinário ainda é lembrarmos que nossas vidas e relacionamentos têm este livre arbítrio para escolher em que sintonia vamos nos pautar.

Infelizmente, nosso dia a dia está cheio de obrigações… que nos escravizam e nos deprimem… não há quem se sinta tranqüilo/a diante de questões impostas, irremediáveis, inegociáveis… freqüentemente nos sentimos mal por conta das imposições do tempo e do mundo em que vivemos.

Mas, a vida “obrigada” não leva ninguém a lugar nenhum, pelo contrário, reprime, enfraquece, tolhe o ânimo, o prazer e a satisfação de qualquer pessoa. Exatamente por isso, é preciso repensar a vida.

Há quem esteja tão enfronhado/a nessa dimensão da obrigação que não consiga viver. Fecha-se dentro de seus compromissos, funções e não pensa em outra coisa que não seja em suas responsabilidades pessoais… coloca-se dentro de uma condição de clausura e passa a viver em função de si mesmo/a e daquilo que faz.

O triste desta forma de vida é que, normalmente, quem faz esta opção, passa a exigir de outrem que faça o mesmo… viver sob a mesma tensão… e, a partir disso, desencadeia-se um processo de obrigação coletiva, e instabilidade coletiva.

Existem pessoas que se sentem escravizadas dentro de seus lares, de seus empregos e, o mais lamentável, dentro de muitas igrejas. Diante disso, a vida se torna infeliz… sem sorrisos, sem abraços, sem música, sem amizades.

Daí vem os processos de distúrbio emocional… quem vive só por obrigação, sem prazer, sobrevive tão somente!

Também é preciso advertir que a vida não é só deleite… se somos “alguém”, devemos lembrar de nossas responsabilidades em relação a nós mesmos e aos que dependem de nós, em todas as dimensões que isto possa ter.

Precisamos entender que o espírito voluntário, sem pressões e “obrigações” trabalha bem melhor do que o que está submetido a imposições!

Talvez pudéssemos ousar dizer que a tônica central do cristianismo esteja aí: desobrigar as pessoas… se antes de Cristo elas eram dirigidas pelo dever, somente, a partir d’Ele, são chamadas ao voluntarismo, ao oferecimento desinteressado, por vontade, por disposição, por alegria, por admitir o prisma cristão do “melhor é dar do que receber!”.

Imagino que se nossa sociedade absorvesse essa proposta libertadora de Jesus, as coisas seriam bem diferentes… se ao invés de vermos as coisas e pessoas como alvos de nossa intolerância e imposição, as acolhêssemos como objetos de nossa atenção e cuidado, trocaríamos a dimensão da obrigação pela da gratidão e do prazer… conquistaríamos mais e teríamos mais carinho em nossos relacionamentos.

Que o Senhor Eterno nos ajude a entender e viver a amplitude da Graça, mais que da Lei, do despojamento, mais que da imposição.

Certamente, ao compreendermos que ninguém na vida é obrigado a nada, que as pessoas trabalham melhor se forem respeitadas e que o trabalho será bem menos árduo se representar mais prazer que obrigação, nos tornaremos pessoas melhores, comunidades melhores, com comunicação mais clara, com abraços mais intensos, com alegria mais profunda.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

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Published in: on fevereiro 25, 2007 at 8:14 pm  Deixe um comentário  

Retrato em branco e preto

Eu não sou da época dos retratos em branco e preto… é certo que quando meus pais se casaram, o usual no in-terior era apenas aquela foto de estúdio depois da cerimônia e mais nada.

Mas a maioria das fotografias antigas da família são assim… só com estas duas cores.

O que me lembro bem é da televisão branco e preto… praticamente cheguei na mi-nha casa junto com o aparelho… meus pais contam que a vizinhança toda arrumava uma visitinha à noite para ver a novidade.

Na meninice assisti a maioria dos filmes americanos na “Sessão da Tarde” e sabia todas as canções da “Vila Sésamo” décor.

Naquele período, quando os primeiros aparelhos coloridos surgiram, lembro-me bem de uma inovação que fizeram… era um tipo de papel colorido que se colocava por cima da tela… eles diziam que transformava o televisor branco e preto em colorido… era horrível! Os personagens apareciam em “dégradé”, uma vez que aquilo não passava de um papel cheio de listras coloridas na horizontal. Não adiantava nada, pelo contrário, só piorava!

Acho que foi só a par-tir de 1980/81 que nós lá em casa descobrimos que o sangue dos americanos também era vermelho como o nosso e que as árvores deles também eram verdes, já que os filmes eram em branco e preto!

Na verdade, depois de algum tempo, e especialmente com a Teologia, aprendi que esse “daltonismo” não se restringe somente à nossa visão física e que, assim como na evolução tecnológica vivida nas décadas de 60, 70 e 80, no Brasil, nossos olhos emocionais, intelectuais e espirituais, precisam desenvolver esse discernimento divino de perceber outras cores que não só o preto e o branco!

De muitas maneiras e formas, necessitamos desse poder sensitivo para reconhecer as variações naturais da vida!

Uma vida em branco e preto é uma vida limitada à apenas duas situações, duas possibilidades… rígida, sem detalhes, nuances.

É claro que o simples contraste das duas cores é be-lo… mas considerar apenas duas possibilidades em todo o tempo, desconsiderando a existência dos semitons, das sombras, das luzes, é limitar a criação, a razão, o sentimento e a percepção!

De maneira prática, percebemos que a vivência mútua exige, cada vez mais e com maior intensidade, esta abertura para a análise dessas novas cores que a sociedade faz surgir… não que tenhamos que gostar, nem aprovar ou aceitar… mas precisamos perceber, observar, para sabermos como agir!

Não basta ignorarmos tão somente… resistir com nossas próprias cores e preferências… não, precisamos rejeitar o que não for ético, não for saudável, não for coerente… mas antes disso, é preciso notar, analisar cada cor, cada proposta… de forma madura, profunda, aberta e bondosa!

A vida pinta, a cada momento, novos quadros di-ante de nós, e perceber isto é o primeiro passo para não fi-carmos estagnados/as diante da evolução das cores!

A Bíblia conta, no Evangelho de João, que num dia daqueles, Jesus parou perto de um poço onde estava uma mulher e lhe pediu água para beber. Nada demais, não é? Pois bem, acontece que naquela cultura – judaica – homem não se dirigia à mulher, ainda mais se estivesse desacompanhada, que era o caso.

Ainda mais grave: ela era de Samaria – um lugar perto dali, de uma gente que os judeus tinham ojeriza. E mais: ela era de vida “incerta”. Jesus conversou com ela e graças àquela con-versa, a mulher mudou sua história!

Jesus percebeu as novas cores daquela nova cena de sua vida… não ficou só no branco e preto… não se limitou apenas à primeira imagem… Ele olhou com mais cuidado, percebeu os detalhes, teve paciência para discernir o que havia entre os tons mais fortes.

Em muitos momentos de nossa história, por padronizarmos muito as imagens que temos uns dos outros, somos impedidos de notar o que os retratos querem nos passar.

Talvez pela correria, não gastamos tempo com novas figuras e deixamos que muito da nossa emoção e percepção se vá.

Fechamos os o-lhos pra tudo que seja diferente e exija atenção maior. Ficamos com nossas pinturas em branco e preto, desconsiderando a existência de outras cores e perdemos pessoas, amizades, conhecimento.

Diante desse mundo tão mutante, tão dinâmico, se é que não queremos passar “em branco” pela vida, precisamos parar pra pensar no de-safio de reconhecer que existem novas combinações em cada minuto de nossa existência… que merecem, no mínimo, nosso olhar.

Que o Senhor Deus Eterno e Criador nos envolva com sua luz e nos ajude a perceber que belos quadros poderão ser pintados no decorrer da vida se nos aceitarmos em nossas diferenças.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on fevereiro 19, 2007 at 12:11 pm  Deixe um comentário  

Não sejas excessivamente nada.

Algumas coisas me perturbam a alma… a tragédia do menino João Hélio Fernandes de seis anos que morreu de traumatismo craniano por ter ficado pendurado no carro de sua mãe roubado por alguns menores… a falta de consciência ecológica que desencadeia um perigoso aquecimento global… e as festas de carnaval.

Sinto um desarranjo, um incômodo amargo dentro de mim por essas questões, especialmente porque retratam, de formas diferentes, o mesmo mal, o mesmo desajuste.

O que leva alguns adolescentes abordarem um carro onde estavam mãe e dois filhos e, na ânsia do roubo, ignorar uma criança, indefesa, sendo morta a pancadas, pendurada pelo sinto de segurança?

O que justifica o descaso com o meio ambiente, a ponto de colocar em risco a própria existência?

Qual a lógica de, em nome da alegria, da festa, desconsiderar fatores como moral, saúde, fidelidade, bom senso?

Sinceramente, penso que, como sociedade, estamos tão desorientados/as que vivemos na tênue do descontrole… à beira de colapsos que nos trarão frutos ainda mais dramáticos do que já temos colhido.

Se pudéssemos precisar algum diagnóstico social, se tivéssemos a capacidade de análise tão apurada, certamente encontraríamos respostas que nos ajudassem… mas somos tão perturbados pelas notícias, que só podemos reconhecer que o mundo está em desequilíbrio!

Talvez a palavra nem seja desequilíbrio, mas exagero, falta de dose… naquela linha de “tudo que é demais faz mal”.

O Rev. Caio Fábio escreveu algo bastante profundo no perfil de seu orkut… “Não sejas excessivamente nada… Nada em excesso faz bem… Não sejas excessivamente bom para que não te enredes em tua própria bondade, e, assim, te corrompas na presunção de tuas próprias leis de nobreza e misericórdia. Não sejas excessivamente justo para que a tua justiça não se torne em perversidade… Não sejas completamente inclusivo, pois, assim, perderias o teu caráter. Não sejas completamente exclusivo, pois, assim, perderias a tua alma e tornar-te-í-as empedrado… Não busques nem as alturas e nem os abismos. Se tu chegares num desses pólos… que tenhas sido apenas levado pela vida, não por ti mesmo. Antes, busca o caminho do equilíbrio e a vereda plana.Todo excesso destrói o ser!”

Isto me faz lembrar um pouco de Salomão… talvez pudéssemos parafraseá-lo dizendo “Tudo tem sua dose, debaixo do sol”. E como somos exagerados/as! Isto é que nos atrapalha, nos complica a vida… o que somos, até, nem é tão complexo em nós… mas quando exageramos é que sofremos e causamos sofrimento.

Repetidamente somos exigentes em exagero, criteriosos/as, reais, muito mais que os reis, passivos/as, omissos/as, protestantes… por vezes pacientes demais… esperançosos/as, crédulos/as, incrédulos/as… ágeis e inertes, felizes ou tristes, amistosos/as ou receosos. Como diz o Rev. Caio, excessivos/as!

O nosso mal não está nas nossas virtudes ou nas nossas vicissitudes… mas no exagero delas… as virtudes são louváveis na quantia certa, assim como as vicissitudes também podem ter seu valor! Tive um professor que nos dizia sempre: tudo que é demais faz mal… até água… você pode morrer afogado/a!

Espero mais equilíbrio… de mim mesmo e do mundo… não podemos deixar nada nos ameaçar a vida… nem as carências sociais, nem as fantasias sociais, nem o descaso social… temos que achar caminhos de equilíbrio em tudo o que fazemos, que somos, que pensamos… a custa de ameaçarmos a vida, o bem estar que tanto almejamos.

Nem só de pão o homem viverá… nem só de alegrias, nem só de tristezas, nem só de acertos, nem só de fracassos, nem só de lucros, nem só de déficits! É preciso entender que a vida é uma grande mescla de muitos valores, de muitos pesos e quando equilibrados, na medida certa, podem ser benéficos muito mais do que têm sido!

Que Deus nos ajude a viver abundantemente como Ele desejou… coerentemente, de maneira saudável, harmoniosa!

Que Ele nos ajude a não sermos excessivamente nada para que não nos percamos em nossos próprios exageros!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on fevereiro 17, 2007 at 8:25 pm  Comments (1)  

Foto 3/4.

Foi somente nestas férias de janeiro que conheci o filme “Dois Filhos de Francisco” (Conspiração Filmes/Globo Filmes), o que me comoveu muito, porém, o mais impressionante foi uma expressão de Zezé de Camargo no Making of do filme: “… não deixe ninguém te enquadrar numa foto ¾ – a vida é uma tela!”.

É realmente de espantar a história triste da família Goiana que se aventura no sonho de ver seus filhos cantores famosos, mas, o que a frase daquele artista é bem mais que um sonho, é a receita prática do seu sucesso!

Infelizmente, existem pessoas que, apesar de pensar como ele – cientes de que têm de se guiar por sua própria ambição e desejo – agem em direção contrária… absorvendo o que a maioria acredita e deixando-se levar ao bel prazer da incredulidade.

O resultado é claro: os sonhos se perdem, escapam pelos dedos e a frustração toma conta da vida.

Independentemente do credo, da cor, da condição social, cada um de nós está sujeito/a a ser levado/a por esta onda desastrosa que destrói muitos projetos… e é preciso reagir à doença da incredulidade para transformar uma pequena foto ¾ em uma linda tela.

O primeiro passo é acreditar… e aqui vai uma questão fundamental… precisamos crer em Deus, mas também em nós… lembra do pedido de Salmos? “Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos.” (Sl 90:17). A bênção está vinculada primeiramente ao trabalho, ao envolvimento e ao acreditar e, finalmente, à confirmação, ou seja, ao endosso de Deus no que está sendo feito!

Muita gente não crê em si mesma, em seu trabalho, então, como Deus vai chancelar a obra de suas mãos, vai confirmar um trabalho que nem aquele/a que o exerce confia?

Havemos de crer em Deus, mas também em nós! Se duvidarmos de nós, construiremos edificações duvidosas! Nossas palavras e atos devem ser revestidos de crença, de fé, de certeza, de confiança… disso é que depende o resultado final das aquarelas que pintamos durante a vida!

É preciso ter horizonte… não se pode pintar um belo quadro preso dentro de um cômodo fechado! Precisamos escolher bons cenários… que nos inspirem, que nos levem além do que já fizemos antes.

Lembro-me das palavras de Isaías… “Levantai ao alto os olhos e vede…” Is 40:26. Se olharmos pra baixo, poderemos desenhar nada mais que formigas… se olharmos pra cima, encontraremos montanhas, árvores, céu, sol, nuvens que certamente nos moverão a pinturas mais coloridas!

Não basta pintar bem sem boas paisagens! Não basta trabalhar muito sem saber aonde quer chegar, sem ter em mente a imagem que se quer como resultado final!

Há quem viva preso/a em suas próprias idéias sem ouvir, sem conhecer, sem buscar novos lugares que possam sugerir bons sonhos, bons objetivos… permanecem fixas nas mesmas cenas de outrora, sem se deixar influenciar pela inovação e pela descoberta de novas cores. Sonhar tão somente é pouco, é preciso sonhar bem!

Não é necessário dizer que as palavras do cantor são profundas e práticas, afinal, sua vida mostra o que ele fala… existiram recusas, negativas, talvez ofensas, enganos, humilhação… mas ele não parou de acreditar em si mesmo, da mesma forma que soube olhar para o alto… para lugares que poderiam ficar na lonjura da lógica para a maioria das pessoas, mas não para quem crê!

É triste ver pessoas que tentam restringir o sonho do/a outro/a… limitar o pensamento e o desejo… é lamentável, mas acontece… quem sabe nem por má intenção… pode ser até por medo de ver um/a amigo/a se frustrar… mas não podemos aceitar que as pessoas nos tenham por uma pequena foto ¾ se dentro de nós existe alguma coisa que diga que podemos pintar uma linda tela!

Temos é que acreditar, trabalhar, sonhando com aquilo que queremos… vislumbrando, imaginando, vendo, esperando a beleza e a alegria da conquista… como que se por espelho, como diz o apóstolo!

Que o Senhor da Vida nos ajude nos sonhos que temos!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on fevereiro 9, 2007 at 6:13 pm  Deixe um comentário  

A cruz de Coventry

Em seu livro intitulado “O Estilo de Liderança de Jesus”, Michael Youssef conta que “No dia 14 de novembro de 1940, a força aérea alemã – Luftwaffe – bombardeou a cidade de Coventry, na Inglaterra. Foi a maior incursão aérea sobre a Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial. Quando o bombardeio terminou, os habitantes da cidade foram ver os estragos e constataram que sua bela catedral havia sido arrasada.

Mas pelo menos alguns dos moradores não permitiram que aquela trágica destruição, sem sentido, do seu lugar de culto e adoração servisse de desculpa para vingança. No dia seguinte, membros daquela congregação pregaram duas traves do teto e prenderam uma à outra, assim mesmo retorcidas e chamuscadas como estavam, e levaram para o lugar das ruínas onde antes estivera o altar. As duas traves formavam uma cruz. Os paroquianos pintaram duas palavras numa tabuleta e a colocaram ao pé da cruz: ‘Pai, perdoa’.”

Esta historia verídica, acontecida há mais de sessenta anos num país muito distante do nosso, traz à tona um dos maiores temas do desafio cristão, o perdão.

De muitas maneiras e formas, no decorrer da vida, participamos desses “ataques” de crueldade… hora como alvos, hora como agressores/as… e isto não é privilégio de um ou de outro, cada um/a de nós corre o risco de se ver diante dos escombros da incompreensão e da intolerância… isto faz parte da vida como o simples ato de respirar.

Não é incomum vermos pessoas jogando bombas sobre as outras em defesa de seu pensamento – como se a verdade fosse posse de alguém – assim como também não é raro encontrarmos os/as que estão mutilados de alma por conta do fogo e da destruição emocional.

E se não existe maneira de desfazer os ataques que sofremos ou provocamos, já que fazem parte do passado, é preciso descobrir o que fazer em relação a eles.

Os moradores de Coventry nos inspiram… é preciso juntar os cacos daquilo que foi destruído para construir perdão!

É importante notar que a narrativa do Dr. Youssef nos mostra pessoas que souberam transformar ruínas em perdão… elas não ficaram apegadas aos destroços… sua atitude foi de gastar tempo e energia para mudar a cena, mudar o discurso, ir além do que estava diante de seus olhos!

Com aquela gente aprendemos que não resolve nada permanecer debruçado/a sobre tijolos velhos, queimados… é preciso responder ao drama com sensatez, lucidez… não podemos gostar de chorar pelo leite derramado… é necessário mais que isto para dizermos que somos, de fato, seguidores/as de Cristo, é preciso ousar, transcender, perdoar!

Também devemos lembrar que diante dos entulhos da tristeza, questões banais perdem o valor… tornam-se pó! E quase sempre, a dureza da tragédia nos faz ver que a intolerância e o desamor nem sempre nascem sem motivo… em quantos momentos nos surpreendemos como destruidores/as dos nossos próprios sonhos, mesmo que de forma sutil!

A descrição da plaqueta da Cruz de Coventry nos remete à Cruz de Cristo, e às suas palavras… “Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lc 23:34).

E em quantos momentos estamos ouvindo palavras equivocadas de pessoas que também não sabem o que falam… observando ações de quem não sabe o que faz, sem a mesma grandeza de Cristo para entender suas limitações, seus desencontros! Quantos aborrecimentos não poderiam ser evitados se discerníssemos mais o que ouvimos e vemos!

Que, portanto, diante da cena das nossas próprias cruzes e escombros, tenhamos os exemplos de Cristo e de Coventry… perdoando a incompreensão, mais que “incompreendendo”, perdoando a intolerância, mais que “intolerando”… transformando os entulhos dos bombardeios da vida em cruzes de perdão e de amor.

Segundo o relato do livro, a cruz construída com as traves retorcidas e chamuscadas da antiga catedral continua no mesmo lugar, ao lado da catedral que foi reconstruída… não como sinal da guerra e do ódio, mas como marco do perdão e do cristianismo daqueles/as antigos/as moradores que souberam transformar ofensa em perdão!

Que Deus nos ajude a fazer o mesmo e reconstruir tudo o que foi destruído em nós a partir do perdão!

Na graça e na paz,
Rev. Nilson.

Published in: on fevereiro 8, 2007 at 9:13 pm  Deixe um comentário