O lugar comum

Certamente nossa humanidade nos faz conviver com algum tipo de ansiedade. Cada um de nós luta para realizar sonhos, e é isto que nos faz sofrer… a expectativa de chegarmos à conquistas que tanto queremos.

De alguma forma somos caminhantes, andarilhos/as à procura do lugar onde mora a realização do que queremos.

Freqüentemente observamos que nosso sofrimento existe não porque não temos objetivo, mas, porque mesmo sabendo onde queremos chegar, não sabemos como fazê-lo.

É aí que reside a nossa fé… é nesse espaço que ela atua, como esperança de que existe um lugar onde as coisas acontecem e se concretizam.

A meu ver, ter fé em Deus é crer que Deus é este lugar. Um lugar onde os sonhos e esperanças se encontram, fazendo surgir a felicidade.

Mas que lugar é Deus? Quem pode chegar a Ele?

Deus é o objetivo natural de toda a humanidade. Cada um/a de nós, de alguma maneira, de algum jeito, procura andar em sua direção. Existe uma devoção particular em cada pessoa.

Mas o que conflita a fé, ou Deus, ou o lugar onde todos/as queremos chegar, é o fato de existirem ações humanas que demarcam o caminho e, pior, procuram restringir o caminho a Deus a moldes próprios, peculiares.

É assim que Deus se torna um ambiente distante, difícil e até proibido a muita gente!

Na dinâmica da fé os conflitos acontecem mais pela forma de entender o caminho de Deus do que pelo caminho, propriamente dito! Em diversos momentos, as tensões são causadas não porque não queiramos andar em direção à fé, mas porque existe confusão sobre o que isto significa!

Quando o parecer pessoal age como regra e condição para o caminho, o caminho passa a ser uma questão de imposição, de interpretação e especialmente de transtorno!

A cena da Ceia é o exemplo mais clássico do caminho de Deus. É desafiadora demais para a nossa limitação humana! A mesa é um espaço comum onde Cristo chama a todos/as para cear com Ele.

Alimentaram-se do pão e do vinho pessoas desiguais… pescadores rudes e ignorantes se sentaram ao lado de um médico, de um ex-coletor de impostos, e até de um traidor!

Jesus não excluiu ninguém! E Ele sabia profundamente de todas as intenções que o cercavam naquele momento… não concordava com muitos interesses dos que o acompanhavam, porém, mesmo assim, considerava o simbolismo da mesa importante como processo de crescimento, e porque não dizer, até, de conversão!

Quantas vezes vemos gente cercando as mesas, impedindo que desiguais participem juntos/as! Criando critérios, condições, salientando mais a diferença do que a utopia da unidade. Negar o pão e o vinho ao/a próximo/a, porque o/a próximo/a não comunga das mesmas idéias, porque não tem a mesma tradição e costume, porque tem crenças que divergem, é negar o Cristo Salvador a quem Ele mesmo fez questão de se entregar!

Em diversas situações vemos discussões acirradas sobre diferenças religiosas, mas essas diferenças da fé são nada mais nada menos, que reflexos das diversidades pessoais impressas em cada um de nós! A intolerância é uma só com faces variadas e é dela que nascem problemas de crença, de racismo, de cultura, de discriminação social, e por aí vai.

Se as diferenças tiverem o poder de nos afastar, então de quem seremos próximos/as? Em maior ou menos grau, somos múltiplos em pensamentos, em potenciais, em discernimento! É preciso haver uma constante tolerância na vida, até para que hajam relações na sociedade, na igreja e na família! Tolerar é arte de respeitar e conviver mesmo na diversidade!

Da mesma forma que não concordamos com o pensamento de algumas pessoas, assim, também, existe quem não aceite a nossa maneira de ser, mas isto deve ser encarado com naturalidade, parte de nossa humanidade, não como desagravo, desconsideração… é aí que Deus nos ensina a convivência, com o que Pedro chamou de multiforme graça de Deus, (1Pe 4:10) que é multiforme porque também nós somos multiformes!

Achando pontos de equilíbrio nesta heterogeneidade é que sobrevivemos como pessoas e comunidades!

A mesa de Cristo está muito acima disso! Porque se a mesa fosse se pautar de acordo com as nossas fraquezas, e aberta somente aos/as semelhantes, então necessitaríamos de uma mesa para cada um de nós! E isto seria participar da nossa própria mesa e não da de Cristo! Porque a mesa d’Ele é oferecida a todos/as e o critério de participação é uma análise pessoal e não uma norma institucional! Pode até ser que nos neguemos participar desta refeição de desiguais, que não aceitemos assentar nesta “roda” onde o pão e o vinho são um só pra todo mundo… mas foi isto que o nosso Mestre fez!

Creio que Jesus é o lugar comum, o lugar de todos/as, onde nos aproximamos para sermos curados/as, abençoados/as e transformados/as! Que Ele nos abençoe!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

(mais…)

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Published in: on janeiro 23, 2007 at 10:09 am  Deixe um comentário  

… o anel que tu me deste era vidro e se quebrou…

Não há nada mais profundo na vida do que os sentimentos que envolvem os relacionamentos humanos… alegria, carinho, consideração, fidelidade… mas, na mesma intensidade, também não há nada mais triste do que os fatores que os abalam… mentira, desprezo e traição.

Na verdade, os grandes distúrbios da humanidade existem porque existem distúrbios nas relações das pessoas.

A solidão, realmente, amedronta, deprime, porém, mais que ela, as mágoas cruéis e destruidoras da vida, nascem dentro dos meios de convívio que temos… são as más palavras, as ações e reações desacertadas que nos fazem sofrer de maneira mais trágica!

As desilusões amorosas geram muitos traumas, mas precisamos lembrar que o amor não existe somente nos romances, ele também é o laço que une e sustenta as grandes amizades.

Sentimentos como o ciúme, a desilusão, a decepção, a infidelidade, a deslealdade, acontecem tanto nos casamentos como nas amizades. Assim como existe o amor que atrai um homem a uma mulher, e, vice-versa, existe também o que sustenta o companheirismo capaz de atravessar vidas inteiras.

Existe o amor Eros que acontece entre marido e mulher, mas também existe o Fileo, que trabalha os contextos de amigos/as.

Assim, as crises que existem lá, existem cá! Não só os esposos e esposas são traídos/as, ou considerados/as, correspondidos/as, valorizados/as… estas questões também sustentam ou destroem os laços de amizade que temos com as pessoas.

Por isso, os conflitos vividos nos dois ambientes são iguais… igualmente felizes, ou igualmente traumáticos!

Mas talvez, o cume dessa questão esteja em saber até onde, a amizade e a consideração, podem resistir aos tropeços naturais a qualquer relacionamento. Ou seja, em qual material foi lapidado o relacionamento, qual a durabilidade, a resistência do respeito e da estima utilizados!

A tradicional música “Ciranda, cirandinha”, que tem domínio público, nascida da sabedoria popular, aborda de maneira muito modesta, mas absurdamente profunda, isto que falamos.

Num dos versos ela retrata a tristeza de um relacionamento construído com material barato, sem resistência… diz: “O anel que tu me deste era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou”.

Este é o drama das relações que temos… muitas amizades são lapidadas em vidro ou em cristais quebradiços, de pouca durabilidade, que se despedaçam nos pequenos acidentes da vida… “afinidades” que não podem passar por muito frio, nem por muito calor… sem condições de cair de vez em quando, muito menos de superar as trombadas mais graves.

São pedras sim, mas que devem ficar dentro de redomas… não ornamentam o dia a dia, não podem ser usadas sempre, e se forem, devem ser alvo de muito cuidado, muito jeito… nunca farão parte da normalidade, da naturalidade! Serão sempre carentes de flanelinhas, de afagos para não estragarem, não trincarem.

Imagino que este é o motivo das alianças, os anéis que simbolizam o matrimônio, serem de ouro… que não se dissolve facilmente!

Mas além do anel, é preciso haver ouro, ou metal nobre, também dentro dos corações, das mentes, das palavras, das atitudes, envolvendo, protegendo e resistindo qualquer intempérie que a natureza humana reservar!

Porque desta forma, não quebraremos a qualquer momento, pelo contrário, seremos o anel, o sinal, a lembrança de uma amizade segura, sólida, duradoura!

Ninguém suporta um/a amigo/a “casca de ovo”! mas existem milhões de pessoas querendo achar uma amizade de ouro… dessas que não é qualquer fogo que é capaz de desfazer!

É muito triste chegar na constatação desta “musiqueta” de roda… de que aquela amizade era de vidro, e se quebrou… de que o amor, a consideração, a admiração, eram poucas e se acabaram!

No Salmo 89.3, Deus faz uma declaração de amizade a Davi dizendo: “Não violarei a minha aliança, nem modificarei o que os meus lábios proferiram.” Uma afirmação de ouro, de fidelidade, de amor, que não se acaba facilmente!

Realmente, Deus é o exemplo supremo de amigo verdadeiro, a toda prova, a qualquer tempo! E é n’Ele que devemos nos inspirar. Imagine se o amor de Deus por nós fosse de vidro?
Como ficaríamos nos momentos em que os embates viessem?

Por isso, vamos pensar e repensar os relacionamentos que temos, especialmente do que são feitos e até onde podem resistir.

Que Deus nos abençoe e nos guarde!

E que sejamos felizes,

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 23, 2007 at 10:00 am  Comments (1)  

Desculpe o transtorno, estamos em reforma.

Já se vão quarenta anos de igreja e de vida. Na verdade, eu posso dizer que sou um daqueles/as que só não nasceu na igreja porque não era dia de culto!

De pai, mãe e avós evangélicos, fui gerado, nascido e criado em berço cristão.

Mas isto não é privilégio meu. Convivo com irmãos/ãs que contam muito mais tempo nesta jornada cristã. Conheço octogenários que nunca se afastaram desse mesmo caminho em que estou! E isto é muito bom!

Mas existem perigos nessa contabilidade de fé. O passar dos anos, a experiência do tempo, é uma armadilha sagaz, capaz de confundir, é claro que em menor escala, até mesmo quem tenha status para ensinar!

A fé, assim como a vida, é um aprendizado constante, diário, sem diplomas, sem formatura! E não entendê-la assim, pode trazer conseqüências desastrosas a qualquer pessoa!

Assim como não existe quem possa explicar Deus, também não existe quem possa dizer que sabe tudo da vivência com Ele! Nossa ligação com Deus é um processo sem fim, como a respiração. Se parar, morre!

Somos uma grande e valorosa edificação nas mãos de Deus. Estamos sempre sendo melhorados por Ele. A reforma é constante, é freqüente, trazendo a cada novo tempo mais melhorias… às vezes precisamos ser quebrados e novamente refeitos/as, tem horas que as paredes, as portas e janelas de nossa alma precisam ser redimensionadas, reavaliadas e, assim, vamos passando por todas as adequações necessárias.

Os maiores problemas da fé acontecem quando não entendemos esta dinâmica em relação a nós e aos/as outros/as!

Se por algum motivo nos consideramos prontos/as, completos/as na fé, corremos o risco de nos envaidecermos, de nos considerarmos produtos acabados, portanto, à frente de outros/as! Que ilusão! Como poderíamos conviver com a perfeição e a fraqueza? Nossa humanidade sempre insiste em nos estragar de alguma forma, a todo tempo! É um conserta aqui, estraga ali, constante!

E a conseqüência de nos considerarmos melhores, é sermos tentados/as a tomar a prancheta das mãos do grande arquiteto, Senhor de todas as reformas, e começarmos a opinar sobre o que precisa mudar na vida do/a outro/a! Isto é terrível! Quantos desacordos surgem, resultado deste impulso!

Mas, ao contrário, acertamos o rumo de nossa fé quando entendemos as carências que existem dentro e fora de nós! É nesta hora que surgem sentimentos fundamentalmente cristãos como a fraternidade, a tolerância, a compaixão, a misericórdia e o amor!

É assim que se torna possível o sonho da paz, ao nos considerarmos todos/as em reforma… com transtornos, sim, com erros e acertos, alegrias e tristezas, mas, sempre, num objetivo maior, de melhoria, de edificação!

Quem sabe não tenha sido esta a inspiração de Paulo ao nos recomendar: “transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm 12.2). Quem sabe ele já não tenha entendido há muito tempo, que o bom andamento da vida e da fé está no fato de aceitarmos esta contínua transformação!

Certamente, se pudéssemos visualizar uns aos outros com uma daquelas plaquetas colocadas nos reparos dos prédios, dizendo: “Desculpe o transtorno, estamos em reforma”, seríamos bem mais seguros de que nós mesmos e aquele/a que está conosco, na verdade, somos seres em construção, em adequação, incompletos, matérias-primas do Amor e da Paciência de Deus!

Que o Senhor nos ajude a termos esta visão, especialmente, quando pisarmos nalgum prego perdido, ou toparmos com algum canto de madeira pelo caminho de nossas convivências.

Que nossa vida e fé tenham sempre esta visão de que somos nada mais, nada menos, que edifícios inacabados manuseados pelo grande reformador de todos os tempos!

E que tenhamos paz!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 23, 2007 at 9:45 am  Deixe um comentário  

O vendedor de dúvidas.

Assisti uma reportagem sobre uma mega-igreja nos EUA que abriga 16.000 pessoas por celebração, com uma freqüência de mais de 38.000 durante a semana.

O que chamou a atenção foi ouvir no comentário da repórter que o Pastor daquela comunidade – que não tem denominação específica e onde participam pessoas de todas as denominações – nunca faz alusão a pecados. Segundo ela, ele sempre procura abordar os temas positivos da fé e motivar os/as fiéis a focar somente as vitórias que ela pode dar.

Isto me fez pensar que, de maneira geral, as pessoas concebem dois Jesus… um aceitável, agradável, de palavras “mansas”, e um outro, mais severo, mais duro, questionador, exigente, e conseqüentemente, menos popular.

A meu ver é isto que tem acontecido no tempo presente… uma tendência pelo Cristo ameno e uma rejeição ao Cristo austero! Uma opção pela doçura da mensagem divina e uma recusa sem precedentes a tudo que seja amargo e desconfortável em relação a Deus e as renúncias que o relacionamento com Ele possa exigir.

Em meio a estas preferências todas, observo uma faceta interessante do ministério de Jesus que talvez desagradasse a muitos/as… seu poder de colocar as pessoas em dúvida… não em relação a Ele próprio, mas em relação a si mesmas.

Existem alguns eventos de profunda reflexão… a história conta que um jovem rico o procurou para perguntar como herdar a vida eterna… a primeira resposta de Cristo foi uma pergunta: “Por que me chamas bom?

Num outro momento, Jesus é surpreendido por um cego que lhe procura para ser curado e, apesar da necessidade evidente, Ele indaga: “O que queres que eu te faça?”.

Há tantos outros questionamentos de Jesus… quando Ele se dirige aos seus próprios discípulos perguntando: “E vós, quem dizeis que eu sou?”… e em outra ocasião, em relação aos tributos, novamente questiona: “De quem é esta efígie e descrição?”.

Eu sei… você está pensando: “A fé é a certeza…!” e, o que procuramos na fé, são respostas para nossas vidas e não dúvidas… concordo! A fé que Jesus quer nos apresentar, que mora por trás das dúvidas, é muito maior, muito mais ampla!

Na verdade, a dúvida é um caminho para a certeza… na minha compreensão, quando Jesus nos pergunta, nos desestabiliza, Ele quer que trilhemos na direção certa em relação a Ele… quer que olhemos para nós primeiro… que pensemos sobre nossa condição mais íntima e, a partir disso, reconhecendo nosso estado, O busquemos de maneira concreta e consciente do que Ele é, mas também do que nós somos!

A dúvida tem seus benefícios! Quando estamos em dúvida, procuramos aferir nossas bases… nos momentos de dúvida é que temos condição de refletir no que realmente cremos, no que somos, do que, de fato, necessitamos… ela nos faz avaliar nossa condição, nossa verdade, postura, acertos e erros! A dúvida nos distancia de nossas próprias seguranças e nos faz depender uns dos outros e de Deus! Ela nos afasta dos pedestais que construímos para nós mesmos e nos faz aceitar que precisamos de alguma forma de ajuda!

Duvidar de vez em quando é bom… principalmente quando isto for em relação as nossas próprias certezas… à nossa própria capacidade, à nossa própria verdade. Quem duvida um pouco de si mesmo é mais aberto/a às conversas, aos diálogos… quem tem muitas certezas sobre si mesmo raramente pára pra ouvir e dificilmente aceita alguma sugestão!

Podemos ter dúvidas extremamente nocivas para a vida e para a fé! Precisamos saber quem somos, no que cremos, em quem esperamos, mas, na medida certa! As certezas podem nos levar para um extremismo absurdo e nos fazer fechar olhos e ouvidos!

Existem dúvidas benéficas e carecemos delas para dosar bem nossas convicções!

Não quero defender que sejamos duvidosos/as sobre o que somos e o que cremos, mas, imagino que essa dúvida saudável tenha a ver com a auto-análise, o reconhecimento, a capacidade de perguntar-se, de criticar-se de observar-se.

Um dos apóstolos mais chegados de Cristo – Pedro – foi colocado em dúvida quando seu mestre estava preso… por três vezes ele negou aquilo que era inegável… e naquele momento de dúvida, de questionamento, de auto-exame, Pedro se definiu de maneira profunda, encontrando, finalmente, toda a certeza de que precisava para tornar-se um verdadeiro seguidor de Jesus.

Que saibamos equilibrar nossas certezas e dúvidas de tal modo que conheçamos o evangelho integral, profundo e transformador de que tanto precisamos!

Na graça e na paz!

Rev. Nilson

Published in: on janeiro 2, 2007 at 1:34 am  Deixe um comentário  

Línguas Estranhas.

No ano passado, quando nossa comunidade acolheu o projeto “Voluntários em Missão” dos EUA, passei por uma experiência complicada.

Logo após a chegada dos/as irmãos/ãs americanos/as, por ocasião do lanche, tentei me comunicar com uma senhora, professora universitária, que fazia parte do grupo… ela se alegrou com minha iniciativa e começou a “despejar” seu inglês sobre mim… na tentativa de advertir a minha falta de domínio da língua, chacoalhei a cabeça e coloquei o indicador na testa, sinalizando a incompreensão.

Para minha surpresa, ela se ofendeu e quando chamei um dos tradutores para mediar a conversação, fiquei sabendo que ela interpretou meu gesto como se estivesse dizendo que ela era “louca”.

Depois daquilo entendi que, nenhuma outra forma de comunicação, a não ser a falada, e em bom inglês, deveria ser experimentada com o grupo.

E como é significativa a questão da diversidade de idiomas também em outros contextos da vida… não são somente as línguas, os dialetos dos países espalhados pelo mundo… são, especialmente, as falas distintas, os linguajares restritos, as peculiaridades dos diversos grupos que formam o todo que se chama mundo.

Existem questões que influenciam diretamente esse meio de comunicação chamado fala… a cultura, a informação, a questão social, a questão acadêmica, o contexto profissional, familiar, os redutos de interesse mútuo, as demandas de fé, de crença, de religião, de orientação sexual, enfim, interferem na maneira de dizer e de ouvir, de olhar e de interpretar a vida, os costumes e as pessoas!

As comunicações são distintas, como distintas são a cor dos olhos, dos cabelos, da pele, da terra… variáveis como a intensidade do sol, a força do vento, o sabor da água.

Falamos o que sentimos, o que olhamos… somos resultado do povo, das montanhas, dos rios e o dos ares que nos cercam, por isso, distintos/as. De diversas maneiras, nos mais variados lugares, existem idiomas próprios, resultados de sua grandeza ou de sua pequenez… de sua capacidade de integrar o todo ou de sua limitação em transcender seus espaços e restrições.

Ouvi um ditado quando criança que dizia que “o cavaco não cai muito longe da árvore…” – isto era uma alegoria à tarefa do lenhador que golpeia a árvore com o machado e faz sair pequenas lascas de madeira. Estas lascas são chamadas de “cavacos” que não caem longe da árvore cortada, como nós também, durante a vida, não nos distanciamos muito dos costumes, dos modos, orientações que nos foram incutidos pela nossa forma de viver, pela influência cultural que tivemos quando formávamos nosso caráter e personalidade. Não temos como cair muito longe daquilo que um dia aprendemos a ser com nossos pais, parentes e amigos/as!

Imagino o que poderia significar um dedo apontando para a própria testa, juntado a um sorriso, ao maneio da cabeça… talvez um deboche, uma acusação de ignorância, de atraso! O que este gesto representava pra mim, quem sabe tivesse outros significados para a irmã americana que me olhava… mesmo que minha intenção não fosse a de ofender, foi isto que ela interpretou!

A maioria das pessoas encontra dificuldades em se comunicar… por isso existem tantas desavenças e diferenças.

Nem sempre palavras ininteligíveis são sinais de erro ou pecado… mas o pecado pode nascer pela indisposição de ouvir, de entender, de converter!

O pecado do povo que crucificou Jesus Cristo, a meu ver, esteve mais na incapacidade de esperar e compreender do que na compreensão do que Ele dizia!

De muitas maneiras corremos o risco de pecar por não admitirmos que possam existir mensagens edificantes em línguas estranhas às nossas! E por isso, ficamos sujeitos/as a não conquistar as melhorias que nos estão sendo propostas!

Precisamos refletir sobre a história de um Cristo que, segundo o Evangelho de João, “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (1.11), e que, segundo Isaías era “Era desprezado… rejeitado … e dele não fizemos caso.” (53.3), ou seja, a quem não foi dado atenção, não se parou pra ouvir!

A questão dos idiomas deve, antes de tudo, nos prevenir para estarmos abertos/as às mensagens que nos pareçam estranhas, porque, mesmo estranhas, podem conter palavras de salvação para nossos fracassos e erros!

Que Deus nos ajude a aprendermos outras línguas no decorrer da vida.

E que nunca nos separemos de Deus e de sua Vontade por sermos incapazes de discernir novos idiomas!

Que nos entendamos… que tenhamos vida!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson
5ª Região Eclesiástica.

Published in: on janeiro 2, 2007 at 1:01 am  Deixe um comentário  

… o que decidimos esquecer…

Fiquei espantado com o quadro “Tempo – O Dono da Vida” (Fantástico – Rede Globo – 03.12.2006) apresentado pelo médico Drauzio Varella.

A abordagem da semana foi em relação à questão da memória que, ao contrário do que se pensava, não perde sua capacidade com a idade, na verdade, segundo a constatação dos estudos sobre a memória, ela, apesar de ser incrivelmente ampla, tem um espaço restrito, esgotável.

Chamou-me a atenção a afirmação de Ivan Izquierdo, diretor do Centro de Memória da PUC/RS, de que é preciso esvaziá-la para poder acrescentar novos dados… existe uma reestruturação… sai o que tem menor valor, entra o que tem maior. E o mais impressionante: segundo ele “Nossa história pessoal é única, feita daquilo que lembramos e, também, do que decidimos esquecer”.

Confesso que fiquei impactado com a colocação daquele estudioso… nossa história também é feita do que decidimos esquecer!

Isto nos faz pensar que na vida existem coisas, acontecimentos, pessoas, momentos que são para lembrar e outros que devem ser esquecidos para dar lugar àquilo que seja mais significativos, mais importantes, que mereçam mais nossa lembrança.

Diante desta constatação científica fui remetido às palavras de Paulo em Filipenses 3:13 ao dizer: “…mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo…”. O apóstolo já sabia dessa dinâmica da memória… há muito, ele entendeu o quando esta prática é importante para a saúde, para a vida! Imagine se Paulo mantivesse na lembrança todas as dores, tragédias, horrores que viveu? Certamente não conseguiria caminhar, preso na tristeza e na depressão!

E quantos/as vivem o oposto do apóstolo… com a memória completa, repleta de más recordações, preenchida pela angústia, cauterizada pelo desgosto… vidas que estão ancoradas no passado, estagnadas em tudo que foi ruim… negando espaço para as boas surpresas da vida!

Somos o que queremos lembrar e o que decidimos esquecer!

Está em nós o poder “deletar” – jogar fora – tudo o que nos impede de sorrir, de sonhar… está em nós a tarefa de escolher o que é bom, o que nos faz crescer, o que nos leva à frente, o que possibilita alçar velas aos ventos do amanhã e da felicidade.

Precisamos da sabedoria que nos ajuda a escolher o que lembrar… é preciso agir como o apóstolo… deixar certas coisas para trás e prosseguir… não podemos permitir que nossas vidas se prendam nos atoleiros da pequenez humana, nas emboscadas da limitação alheia… é preciso criar espaços para recordações importantes, que tenham valor… nossa memória não pode se prestar a ser um mero arquivo de tudo o que os outros queiram depositar em nós… somos nós quem decidimos o que ficará guardado!

O mesmo Paulo, em outro texto nos adverte sobre o em que pensar, ao recomendar no mesmo livro aos Filipenses (4:8): “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”… e porque não dizer: a vossa memória!

Assim como existe o lixo que deve ser lançado fora, também existem questões que devem ser esquecidas, jogadas de nós… para não corrermos o risco de passarmos uma vida inteira carregando entulhos.

Mais uma vez ciência e religião se somam em favor da vida… e nos ensinam que existem lembranças que precisam ser deixadas pra trás… por decisão nossa… para nossa própria felicidade!

Que o Deus Amor, Pai e Criador de nossa alma, de nossa emoção, nos ajude a cuidar bem de nossas lembranças… nos dando a capacidade de selecionar o que guardamos nela… para sermos saudáveis, pacíficos/as, agradáveis, sem marcas, sem rancores, sem feridas, pessoas que conseguem lidar bem com os valores da vida passada, presente e futura.

Que saibamos decidir por esquecer tudo o que precisa ser esquecido!

E que tenhamos paz… a paz dos/as limpos/as, dos/as puros/as, dos/as justos/as.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on janeiro 2, 2007 at 12:55 am  Deixe um comentário  

Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais…

Pra quem cresceu acostumado com a idéia de que “Lula” era sinônimo de socialismo, de esquerdismo, de protesto, movimento e passeata, é, realmente, intrigante saber de suas últimas declarações diante de empresários e intelectuais ao receber o prêmio “Brasileiro do Ano” da revista “Istoé” na cidade de São Paulo.

Segundo a “Folha Online” (www.folha.com.br acesso em 12.12.2006) o presidente declarou que a esquerda é uma ideologia tipicamente da juventude, e satirizou, “Se você conhece uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problema”… “Se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, é porque também está com problema”. O Presidente argumentou que, com o passar dos anos, “Quem é mais de direita vai ficando mais de centro, e quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos a esquerda. As coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos, e de acordo com a responsabilidade que você tem. Não tem outro jeito”. E pasme, Lula mencionou que, “depois de 20 e tantos anos criticando”, agora é amigo e aliado de Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda (1967-1974)”.

Diante disso, instintivamente, brota na memória aquela frase: “quem te viu quem te vê!” e cabe uma pergunta: foi o Lula que mudou ou foi a vida que continuou sendo a mesma?

Porque será que as pessoas mudam? Tem sido até comum ver quem tinha um posicionamento radical, extremado, repensando suas atitudes, suas palavras… parece até que existe uma força que vai condicionando as pessoas às situações… basta assumirem as responsabilidades – pelas quais acontecem as disputas mais acirradas – para “rever seus conceitos”.

Imagino que cargos e responsabilidades são como a maturidade… fazem as pessoas pensar melhor… pensar por todos/as… passar do íntimo para o comum!

Já vi gente sendo criticada severamente por quem os/as apoiava ferrenhamente… considerados/as como traidores/as… com acusações do tipo “virou a casaca”! Não é assim… nem sempre os compromissos assumidos são baseados em maturidade! É muito diferente estar fora e estar dentro… ser expectador e ser peça principal!

Lembro-me de ter ouvido de que quando o Bispo Scilla Franco assumiu o Episcopado na 5ª Região da Igreja Metodista, declarou que sua posição – de Bispo – era parecida com a de um violinista, dizia ele: “O arco tem que subir, mas também tem que descer, se não o violino não toca… não sai som”, numa evidente referência ao trato com a diversidade na vida da igreja que, como líder, tinha que tratar de forma respeitosa e amorosa.

Como disse Lula, “a sua idade –60 anos– é o ponto do equilíbrio. “Porque a gente não é nem um nem outro [nem novo nem velho]. A gente se transforma no caminho do meio, aquele que precisa ser seguido pela sociedade” (Folha Online). E este é o desafio… o caminho do meio… longe dos extremos da imaturidade… sem as tendências da infância, sem as tragédias da adolescência, sem as utopias da juventude!

Nos momentos de transição ouvimos todo o tipo de afirmação… “agora vai mudar”, “agora a coisa anda”, “enfim, veio que esperávamos”! Mas quando a direção, realmente, muda de mão, e o peso do ofício, de fato, recai sobre quem de direito, a força da vida, as ondas do tempo, da razão, da consciência e da sobrevivência descortinam a realidade dura das coisas… ditando o compasso certo de cada tempo, de cada ato, de cada caso!

Não sabemos se o Lula muda o Brasil ou se o Brasil muda o Lula!

Acredito no meio termo. Os dois mudam! Assim como o ofício muda o sacerdote e o sacerdote muda o ofício! É natural, é lógico, é fato! As coisas precisam de tempo e de jeito… aquele milagre que tanto sonhamos não acontece de hora pra outra. É preciso trabalho e esperança para que as transformações da vida ocorram!

Não podemos esperar mais do que as pessoas podem nos dar! Se são “pessoas”, “gente”, aqueles/as que nos guiarão, então vamos tratá-los/as como tais… aguardemos pelas suas vitórias, mas também pelos seus erros… entendamos seus desafios, assim como sua boa vontade.

Certamente não tratarão de todos nossos anseios… algumas questões ficarão sobre a mesa… pode até ser que abandonem seus antigos posicionamentos… pode ser que se frustrem e nos frustrem!

Nesse contexto de pensar e repensar caminhos, de mudanças e expectativas, me reporto a Paulo ao dizer… “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido”.

Que possamos lembrar sempre de nossa humanidade… esta que deve nos ensinar cada vez mais a pensar, mas também a repensar, a crer, mas também a esperar, a poder, mas também a respeitar.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on janeiro 2, 2007 at 12:45 am  Deixe um comentário