Caçadores da Arca Perdida

Tento imaginar o porquê de Pedro ter se voltado aos jovens de maneira especial no final de sua primeira carta, e mais, parece alarmado, preocupado com eles… os previne utilizando a figura de um leão que anda ao redor, buscando alguém para devorar.

Me sinto como Pedro, incomodado, porque, afinal de contas, quando existe um leão rondando, ou vários deles, não é momento para descontração!

Certamente Pedro via alguns leões em sua época… e quais seriam os da nossa?

Creio que os leões do nosso tempo são muito perspicazes e tem tido habilidade surpreendente para não serem notados. Um deles, muito sagaz, age dentro dos espaços do templo, do culto, da emoção… atinge aquilo que nos é mais precioso, e perigoso, nossa auto- estima, utilizando como matéria prima nossas frustrações, receios, anseios, recalques, e a partir disso, nos fascina, com os encantos que deveriam ser naturais, como o aplauso e o elogio.

Muitos/as jovens estão se deixando levar pelas garras dos shows que acontecem dentro das igrejas, porque nosso inimigo sabe que não há nada mais atraente do que um pequeno reconhecimento para quem já foi pisoteado pela vida – e igreja é mesmo lugar de cura emocional – mas isto tem que acontecer de maneira certa. O engano, tem feito muitos/as jovens cair na tentação de colocar-se no lugar d’Aquele que merece toda a atenção, todo o aplauso, toda honra e toda glória.

Isso é tão notório que, basta alguém questionar de alguma forma as “apresentações” nas igrejas, para as garras desse leão aparecerem!

Existe também o leão que leva a pessoa a contrariar tudo o que está feito. Normalmente, é na juventude que vivemos o drama de achar que tudo está errado! Isto não é diferente nas comunidades de fé! Para quem está aprendendo, é comum o questionamento, mas o que freqüentemente se vê é um questionamento vazio, sem propósito, sem ponderação, sem aprofundamento, a tudo o que está instalado!

Como metodista, indago a fé que procura sobrepor a Experiência (pessoal) à Tradição, especialmente porque não tenho percebido muito a utilização da Razão, e uma evidente despreocupação com a Criação, e pior, muitas vezes baseando-se na Bíblia de forma fundamentalista, sem diálogo, sem lucidez!

Não há como ser metodista sem esse equilíbrio salutar entre Experiência, Tradição, Criação e Razão, a partir de uma leitura crítica e inteligente da Bíblia!

O leão do “não”, pelo simples prazer de contrariar, é um assassino de muita gente descuidada!

Mas, acredite, esses leões não me apavoram tanto, o que mais me assusta, é um que tem crescido bastante, e com uma saúde admirável, à custa de muito alimento que tem recebido. Ele ronda procurando, e com freqüência conseguindo, tirar não somente dos/as jovens, mas de um bom número de cristãos/ãs, a essência maior do cristianismo, a Graça!

De muitas formas, vemos a Graça, esse presente formidável que Cristo nos oferece, ser substituída pela Arca, que contém a Lei, o sacrifício… repetidamente, vemos pessoas voltando a contextos do Antigo Testamento, cantando a guerra, a escravidão, o preço a ser pago… dando ao culto cristão uma mensagem equivocada, como se Cristo ainda não tivesse vindo, morrido e nos tirado daquele jugo.

Ao invés de lermos o Antigo Testamento a partir do Novo, temos invertido a ordem das coisas, lendo o Novo, a partir do Velho, correndo atrás da Arca, da Lei!

Precisamos cantar, falar e viver a Graça que Cristo nos deu! Temos que pensar no próximo, como alvo da Graça que temos em Jesus! Se não, se Cristo não morreu, como diz o apóstolo, é vã a nossa fé!

Não é fácil reviver o drama de Pedro falando aos/as jovens! Sinto claramente, lendo parte do capítulo 5, que jovem é jovem em qualquer tempo. Também é possível perceber que os conselhos continuam os mesmos! Estão voltados à submissão – e nem é necessário comentar, especialmente em relação a pais/mães, pastores/as, professores/as! Tratam ainda da questão dos relacionamentos – tão problematizados pelo contexto excludente em que vivemos; Também com relação ao tema da humildade – sem comentários; E, finalmente, com respeito à sobriedade e vigilância!

É… os leões estão aí, e os conselhos também! E quem escreve a nossa história somos nós mesmos/as!

Por isso, olhos atentos!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:50 am  Deixe um comentário  

A Síndrome do Desencanto

Fiquei muito entristecido quando soube de dois amigos que se afastaram de suas comunidades de fé na minha cidade de origem. Apesar de conhecê-los bem e crer que não se distanciarão de Deus, lembrei das palavras de Paulo: “… nos últimos dias, muitos apostatarão da fé” (1 Timóteo 4:1).

Depois de conversar com aqueles queridos irmãos, refleti bastante sobre os episódios e o mais lamentável é que, a partir daquilo, percebi outras pessoas que também vivem a ponto de desistir.

Na verdade, percebo que esta “apostasia” não começa na fé, muito menos em Deus, ela tem se originado nos diversos meios de convívio. Os lugares onde nascem o coleguismo, a amizade e a admiração, são os mesmos onde nasce a decepção.

Essa descrença pela fé – religião – que se alastra em nossos dias, é resultada pela descrença nas pessoas, porque, qualquer meio social, seja de fé ou não, é feito de gente, e o grande drama vivido nos redutos da fé é que a utopia da fé – que é a força pra viver a partir de Deus – tem que ser praticada no meio da fraqueza humana!

Não é fácil aceitar os fracassos – resultados naturais de nossa humanidade – lado a lado com a mensagem de Deus!

Como é difícil ver uma pessoa desencantada, decepcionada com a outra… o triste da história é que isto tem sido cada vez mais freqüente! A mentira, o cinismo, a falsidade, a indiferença, são distúrbios lamentáveis de nossa alma! E, dizer pra alguém “deixar pra lá” é uma tarefa muito complicada!

Como pastor e conselheiro encontro grandes dificuldades para ajudar as pessoas no resgate da crença, especialmente na crença em irmãos/ãs, amigos/as causadores/as de alguma decepção. É muito fácil resgatar a amizade entre uma pessoa e Deus, mas fazer isto num contexto de pessoas que convivem, é um desafio sem fim!

Então o que pode ser feito de maneira prática para não cairmos nas armadilhas da decepção e da descrença?

Os extremos são perigosos… em todas as áreas da vida, e também no campo das convivências. Tive um professor no colegial que não cansava de repetir em suas aulas a frase: “tudo que é demais faz mal, até a água. Água demais também mata!”.

E ele estava certo! Até a água que é o simbolismo da vida e da purificação, em excesso, pode trazer contratempos! Assim também são as ligações de amizade… elas precisam de espaço, de tempo, para serem processadas dentro de nós… talvez, por isso, Salomão disse: “Não sejas freqüente na casa do teu próximo, para que não se enfade de ti e te aborreça.” (Prov. 25:17).

É preciso haver dose certa em tudo! De proximidade, de receptividade, de liberdade, de respeito, de tolerância, de afeto, de franqueza, de admiração e confiança. Boas amizades são construídas da medida certa daquilo que as envolve. Se houver algum exagero, desequilibra.

Estabelecer limites é sempre sinal de sabedoria. Porque as linhas que dimensionam os espaços dos relacionamentos, são, na verdade, uma forma de entender que existem áreas boas e ruins dentro de cada pessoa e só as boas é que possibilitam o nascimento dos verdadeiros e saudáveis laços de fraternidade!

É preciso que tenhamos, para evitar desapontamentos, o discernimento de que nem tudo naquele/a com quem convivemos é salutar. Ou haveremos de tolerar e adentrar nesses espaços ou respeitar e nos mantermos fora deles!

Neste processo de proximidades e distâncias, aceites e recusas, é que podemos conviver com as diferenças que temos! Se não entendermos isto cairemos facilmente nas ciladas de nós mesmos.

Busquemos nos inspirar em Cristo, em seus relacionamentos… lembremos de suas lutas junto àqueles que o acusavam e provocavam a cada momento… mais ainda, pensemos na companhia dos/as discípulos/as, únicos/as amigos/as próximos d’Ele, e que, no entanto, não entendiam totalmente o que Ele falava, nem o que era, nem o que queria… pessoas que estiveram tão próximas e mesmo assim não perceberam a grandeza de Quem andava com eles! Homens e mulheres que O decepcionaram também, cada um de sua maneira, traindo, fugindo, negando… mas Ele perdoou porque não os/as julgou segundo o que era, mas segundo o que eles/as eram… limitados/as e desapercebidos/as!

Que Deus nos abençoe!

E que tenhamos paz!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:48 am  Deixe um comentário  

Adubação Nitrogenada

Trabalhando em uma cooperativa agropecuária, aprendi que as chuvas de verão, que normalmente se apresentam com fortes trovões e raios, apesar de seu aspecto assustador, trazem benefícios significativos para a plantação, especialmente para as gramíneas.

A explicação é que as descargas elétricas disponibilizam porções generosas de Nitrogênio, elemento essencial para o milho e o arroz, por exemplo, chegando a quantias que vão até 70 kg/ha durante todo o ciclo!

Com esta lembrança, me surpreendi pensando no momento em que vivemos, especificamente em relação à intolerância, já que esta tem sido uma prática bastante freqüente e absurdamente destruidora.

Seja olhando para os conflitos do Oriente ou paras as discussões nas rodas de amigos, a capacidade de tolerar e conviver tem sido cada vez mais difícil… pelos mais diversos motivos as pessoas se afastam umas das outras por conta das diferenças de pensamento, de gosto ou de opção… mesmo que as questões nem sejam tão graves, a separação tem sido a alternativa mais escolhida.

Não é exagero dizer que as nuvens da intolerância pairam sobre o mundo… em diversos momentos somos apanhados/as no repente pelas tempestades, ventos, raios e trovões dela… que amedrontam, apavoram, fazendo escurecer os pensamentos, causando agitação e transtorno nos mais diferentes níveis da vida humana.

Nossos dias estão sendo marcados pelos frutos do fanatismo, do absolutismo, do desrespeito, da descriminação e por todas as formas de segregação.

O diferente, hoje em dia, é objeto de desprezo, simplesmente pelo fato de ser diferente, sem avaliação, sem acolhimento, sem consideração, sem chance!

Como diz Boff, “O mundo está em franco retrocesso. A atual sociedade não se explica mais, como queria a sociologia clássica, por fatores sociais, mas por forças impessoais e não sociais como o medo coletivo, o fundamentalismo, o terrorismo, a balcanização de vastas regiões da Terra e as guerras cada vez mais terroristas por vitimarem populações civis.” (www.leonardoboff.com.br artigos: “O novo paradigma: a guerra infinita”.)

Isto é tão forte e apavorante como as tempestades de verão, mas com um diferencial… isto tem matado em muito maior número do que as tempestades naturais… ainda mais se considerarmos como morte todos os sinais do desprezo e discriminação!

É uma chuva que cai e que mata, de forma assustadora, pessoas, relacionamentos e comunidades!

O lado bom dessa questão é o que chamamos de efeito de adubação destas “descargas de intolerância”. Assim como na agricultura, os efeitos não são totalmente ruins… a chuva forte que causa os estragos da erosão também adubam a plantação promovendo um reverdejar promissor… uma esperança nova, revigorada com os quilos a mais do “nitrogênio da tolerância”!

Se de uma forma os aguaceiros trazem pânico, de outra ele traz esperança de novos brotos, de nova estrutura foliar que, queira ou não, acarretará alguma conseqüência na produção!

Se a intolerância cresce, a ponto de formar densas nuvens, a tolerância, de algum modo, também passa a rebrotar em muitos corações e mentes! Por isso, se o pós-chuva tem seus resultados indigestos, saibamos que ele também terá os bons e saborosos, apesar de nem sempre conseguirmos visualizar isto com a mesma urgência da decepção e da tristeza!

Creia, existem lições preciosas da agricultura para a vida! Uma delas é que em certos momentos, crises e horas de escassez podem se reverter em produções fantásticas! Eu poderia citar muitas coisas na agricultura que parecem ser duras e tristes, mas que, aplicadas com técnica e inteligência, tornam-se diferenciais expressivos de produção e lucro! E, com sinceridade, confio bastante nesse Agrônomo Eterno que dirige nossa ‘plantação’!

Se os sinais do extremismo e absolutismo formam suas nuvens, saibamos que o Criador tem seus meios para transformá-las em bênçãos!

Portanto, olhemos mais para os renovos que surgem, frutos das tempestades! Sem dúvida, eles já podem ser percebidos… mesmo que ainda existam rachaduras nos solos da paz, mesmo que existam folhas retorcidas e flores ao chão… mesmo assim, é preciso perceber o verde da esperança!

As tempestades são normais… produtos de nossa humanidade e fraqueza… elas sempre existiram! A serpente do jardim; a inveja de Caim; a esterilidade de Abraão; a cova dos leões; o Egito; o mar vermelho; a cruz; o calvário; o sepulcro… e no entanto, não foram suficientes para destruir o amor, a compaixão, a misericórdia, o perdão, a redenção!

Creiamos que se as tristezas ameaçam, elas também adubam e fortalecem as alegrias!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:45 am  Deixe um comentário  

Tirando o pó das sandálias

Confesso que fico surpreso com as palavras de Cristo em Lucas 9.5 (“… se forem mal recebidos, saiam logo daquela cidade. E na saída sacudam o pó das suas sandálias, como sinal de protesto contra aquela gente” – NTLH). Me pergunto qual foi, exatamente a intenção Dele quando instruiu os discípulos para agir assim.

Indignação a quem não ouvisse a mensagem? Seria um “lavar as mãos”? Isentar-se de qualquer responsabilidade?

Prefiro ver nessa recomendação algo mais leve. Quero crer que, de alguma forma, sacudir o pó das sandálias, tenha a ver com a questão da tolerância.

Não é fácil falar, ensinar, e não ser ouvido/a! Como é deprimente ter a experiência de sentir a indiferença daqueles/as a quem dedicamos cuidado e atenção… mas acontece! E, pode ser que o desafio disso esteja em compreender esta atitude como desatenção ou despreparo.

Não é questão de sentir-se superior/a, mas de entender que, nem sempre, quem recebe alguma coisa está preparado para acolher bem a novidade.

Certa vez, trabalhando em Extensão Rural no interior do Paraná, entrei numa propriedade onde nunca estivera antes… os donos dela eram imigrantes Poloneses e arredios a qualquer presença estranha… mesmo assim arrisquei. Entrei com o carro vagarosamente pelo carreador, mas fui logo surpreendido por um senhor com uma foice na mão… era o filho do dono – ele tinha pouco mais de cinqüenta anos, apesar disso era solteiro e vivia só ele e seu pai com alguma coisa perto dos setenta.

Pois bem: ele me perguntou com um sotaque bem carregado quem eu era e o que queria… me identifiquei e, commuito custo, consegui me aproximar da casa e conversar com o pai… que apesar de me receber, demonstrou-se muito receoso e relutante a qualquer proposta de ajuda que eu pudesse oferecer.

Não tive muito sucesso com aqueles Poloneses… eles passaram a falar comigo quando me encontravam na cidade, mas sempre “pé atrás”. Nunca consegui ganhar a confiança deles totalmente!

Existe quem não tenha como nos receber, não porque não queira, mas porque não entende, ou não confia. E precisamos respeitar isto! Nossa aparência é diversa para quem nos vê!

Cada um tem uma imagem diferente do que somos, mesmo que sejamos pessoas sinceras e únicas de caráter, mas as leituras pessoais levam tempo… dias, meses e, até anos! Isto é complexo, como é complexa a diversidade cultural, étnica, social e religiosa!

Por isso, em certos momentos, não como desaforo ou represália, mas por tolerância e amor, é preciso tirar o pó das sandálias! Dar um tempo, dar espaço, respeitar!

Imagine quanta dor Jesus sentiu na cruz. Ele fora preso, espancado, xingado, ofendido, traído, abandonado! Tinha todo o direito de se voltar ao “mundo” e dizer: “vocês são ignorantes, não entenderam nada do que falei, do que fiz. São uns ingratos, não têm alcance!”. Mas apesar de ter essa prerrogativa, preferiu tirar o pó das sandálias… não com arrogância, mas com longanimidade e amor, pedindo o perdão de Deus dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lc 23.34).

Num mundo tão cheio de direitos… que nos dão tanto poder… poder processar, direito de resposta, poder de “puxar o tapete”, direito de se negar… somos desafiados/as a tolerar, andar a segunda milha, tirando o pó das sandálias!

Tenho pra mim que esta é uma lição preciosa para o cristianismo contemporâneo… porque agindo assim, não pecamos por não falar, não oferecer a Graça e Deus, mas sim por não agimos mal com quem agiu mal conosco!

De certa forma, bater esse pó é deixar a semente no chão, na esperança de que um dia nasça… é registrar que nossa tarefa foi cumprida, e não há mais nada a fazer. Quem dera tivéssemos sempre a sensibilidade de tirar o pó das sandálias no momento certo… antes de sermos postos fora com sandália, pó e tudo!

Quantas vezes passamos da medida… insistindo com quem não tem condição de absorver mais do que aquilo… e quanta confusão acontece por isso!

Para tirar o pó na hora certa é preciso ter segurança do que se quer e do que se tem – potenciais humanos também têm seus limites. Mais que isto, é preciso ter humildade de entender que não é na hora, mas com o tempo que as sementes nascem… que as plantas crescem… que as flores surgem… que os frutos se formam e amadurecem.

Não podemos gastar sandália à toa! É preciso, de vez em quando, renová-la, retirar-lhe a poeira, para que seja útil de novo… mesmo que não seja no mesmo chão, no mesmo pó!

Creio que esta lição nunca foi tão necessária… porque mais que na insistência, o crescimento e o resultado acontecem através da tolerância e do tempo.

Que Deus nos abençoe… e nos faça respeitar, esperar, caminhar!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:40 am  Comments (2)  

Esperando o telefone tocar

Foi notícia em toda imprensa nacional a morte de uma das filhas de Pelé, Sandra Regina Arantes do Nascimento que faleceu de câncer nos seios no último dia 17 (terça-feira).

Apesar de ser lembrada muito mais pelo sobrenome famoso do que pelos dois mandatos de vereadora na cidade de Santos – SP, é sabido que o relacionamento entre pai e filha nunca foi normal.

Somente a custa de uma batalha judicial que durou cinco anos (1991 a 1996) que o reconhecimento de paternidade foi feito, ainda assim, segundo consta, o relacionamento propriamente dito, nunca veio!

O mais dramático nesta história “real” é que, segundo o jornalista Francisco Basso Dias (www.clicerechim.com.br acesso em 19/10), “Sandra teria dito no hospital, antes de morrer, que um de seus últimos desejos era ver o pai ou receber um telefonema dele. Infelzmente, Pelé não apareceu e muito menos telefonou”.

O máximo que aconteceu foi o “rei” ter enviado uma coroa de flores ao funeral da filha para o que comentou a mãe, traumatizada pelo momento: “há coisas que podiam ter sido feitas em vida. Flores não vão fazer efeito neste momento”.

Mais que “real”, o impasse entre Pelé e sua filha estimula nossa emoção e fé em direção a uma reflexão profunda sobre as coisas que temos pra fazer, mas não fazemos. Questões que vamos deixando, dia a dia, serem petrificadas dentro de nossa alma e que, antes de machucar os outros, acabam por ferir a nós mesmos/as.

Infelizmente, este drama não acontece somente nos noticiários, mas, de uma forma muito expressiva, está presente na vida de muita gente que reluta consigo mesma.

São relacionamentos de pai e filho/a, mãe e filho/a, pai e mãe, entre sogros/as e noras/genros, entre irmãos, entre primos/as, entre amigos, entre conhecidos/as, entre rivais políticos, enfim, nos mais diferentes níveis e contextos de relacionamentos.

Quantas pessoas, a exemplo da filha de Pelé, estão morrendo amarguradas, depressivas porque esperam por dias, semanas, meses, anos, o telefone tocar!

Quanta gente vive desafiando o tempo, a dor, a morte, a paz, porque não faz o que seria preciso fazer e, por conta disso, afunda-se, cada vez mais nas areias do rancor, da tristeza e da morte.

Telefones que não tocam… vidas que não saram… angústias que se agravam.

Tento imaginar a dor daquela jovem senhora, no leito de um hospital, sentindo a agonia da morte, suplicante por paz de espírito… aguardando apenas um telefonema!

Da mesma maneira, penso como é lastimosa a recordação para seu pai… saber que poderia ter feito diferença na vida daquela filha, apesar de todas discórdias, apesar de toda a resistência… e nada aconteceu.

Que lembranças terão os/as que viveram de perto esta trágica história… que lembranças teremos do “rei”, com tão pouca nobreza?

São marcas que ficarão… de feridas que poderiam ser tratadas a tempo, mas não, se agravaram, se complicaram, sem remédio, sem cuidados, sem socorro, e se transformaram em cânceres da alma e do espírito.

E quantas mazelas do corpo, da emoção, da razão, são frutos amargos dos desacertos que temos durante a vida… tumores que afloram gerados pelas amarguras que nascem no íntimo do coração!

Salomão aconselhou os jovens em Eclesiastes 12:1e 2 dizendo: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento; antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva;”.

Talvez, parafraseando Salomão, devamos dizer nesse contexto, lembra-te de fazer o que tens para fazer, antes que venham os maus dias… antes que venha a dor, antes que venha a angústia, a tristeza, a depressão, a morte.

Se Pelé tivesse reconhecido sua filha… se tivesse falado com ela… se, ao menos, tivesse telefonado! Mas o telefone não tocou… e veio a dor, e veio a tristeza, e veio a morte e, por conseqüente, a separação sem reparos no coração de quem foi e de quem ficou!

Que Deus nos ajude e nos inspire!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:35 am  Deixe um comentário  

Ao vencedor, as batatas.

A emoção humana é algo problemático. As pessoas encontram questionamentos nos mais diversos contextos da vida e isto pode ser doce ou amargo conforme as interpretações que se fazem.

Existe um ângulo particular que constrói dentro de cada um/a reações bastante diversas. O que é muito bom e agradável para um/a pode ser escândalo grave para o/a outro/a. A cultura, a condição social, as experiências emocionais – traumas, frustrações, certezas, alegrias, acertos e erros – são impressões únicas, peculiares, resultando diversidade de análise e de conclusão nos mais diversos fatos do dia-a-dia.

Imagino que este seja um dos fatores fundantes das discussões, das diferenças, das guerrilhas travadas nos vários lugares do cotidiano.

Estas batalhas são limitadores da paz e da tranqüilidade, causando inimizade e transtorno… quantos/as vivem sem cruzar olhares por conta de pequenos conflitos. Quantos chegam ao distanciamento, mesmo à separação por haver idéias, posições diversas.

E não podemos culpar quem quer que seja… o que tem valor aqui, pode não ter ali… o que é importante lá, pode não ter relevância alguma, acolá! Os gostos, as preferências, os desejos e sonhos são múltiplos, como é múltipla a vida! Ninguém pode ser julgado por sua particularidade… um fala “sô”, outro “uai”, outro “tchê”… e “assim caminha a humanidade”!

Importâncias e futilidades são frutos dessa massa histórica e cultural que cada pessoa traz dentro de si… e isto precisa ser respeitado para haver paz! Caso contrário haverá guerras por questões tolas e desprezíveis!

Como dizia Agostinho, “no essencial, unidade, no não essencial, liberdade…!”. Existem medidas diversas sobre questões sinônimas, contudo, há aquelas que têm um grau de relevância indiscutível… acima de padrões e conceitos, enquanto outras são, reconhecidamente insignificantes!

Não podemos sair em peleja por fatores medíocres, que não acrescentam, que não causam diferença… só por capricho, ou gosto pessoal!

Precisamos refletir sobre as mensagens subliminares desta citação do personagem Quincas Borba, da obra de Brás Cubas, de Machado de Assis: “Ao vencedor, as batatas” e perceber que em determinados momentos nos digladiamos por um mísero punhado de batatas! Existem assuntos que só fazem magoar, que nem deveriam ser tocados, discutidos, porque são nada mais do que um modesto grupo de batatas, sem importância, sem peso, sem valor!

Existem momentos que presenciamos discussões tão acirradas como se estivesse em jogo a vida de alguém, mas quando vamos perceber melhor, somos informados que há quem esteja disposto a morrer por nada!

É preciso pensar sobre as motivações das pelejas que travamos em nossas vidas… se elas compensam… se são mesmo necessárias… se o que se tem a ganhar é algo que represente mais do que a amizade, o respeito de quem será inquirido! Não podemos arriscar sentimentos nobres como honra, consideração, por coisa pequena!

Também é necessário aferir nossos valores. Dar importância àquilo que tem importância e pouco valor àquilo que não representa nada.

Em quantas situações travamos batalhas vultosas e quando somos dados por vencedores, recebemos como prêmio somente um pequeno punhado de batatas? Então nos perguntamos: é esse meu prêmio? Foi por isso que eu fiz questão? Que me indispus?

Pode parecer estranho, mas existem muitas “batatas” que nos atrapalham a vida: ambição, orgulho, última palavra… batatas que só fazem pesar nossa comunicação, nossa lucidez, nosso discernimento… complicando gravemente qualquer tipo de convívio.

E não é incomum vermos gente com batatas estragadas na mão… desfilando com elas… como se fossem troféus… sinalizando sua pouca flexibilidade, sua incapacidade de ceder, de tolerar, de ser amistoso e longânimo!

Vivemos num mundo que se destrói pouco a pouco… fruto daqueles/as que se orgulham pelas poucas batatas conquistadas… um tempo pobre, medíocre, longe da grandeza… bastante aquém da nobreza. Somos testemunhas de um período em que batata vale mais que vida, que amizade, que respeito.

Sinceramente, espero que possamos, como povo, superar nossa pequenez… que cresçamos, que evoluamos. Talvez seja propício recordar as palavras de Isaías : “Levantai os olhos para os céus e olhai…” (Is 51:6) e não somente na questão física, mas, sobretudo, que isto atinja nossa visibilidade emocional, espiritual, ética, moral… que prestemos atenção naquilo que é maior… que nossa vida seja gasta em assuntos relevantes e que rompamos com as mesquinharias que nos amarram aos porões da alma, da vida e da fé!

E que sejamos felizes!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:32 am  Deixe um comentário  

Coentros, pequis, pimentas…

Existem coisas na vida que permanecerão sempre no tempo presente… nunca conseguiremos conjugá-las no passado de nossas lembranças. Assim acontece com momentos preciosos vividos na presença dos irmãos que nascem no decorrer de nossa história.

Vilmar e Leila, pra mim, são assim… apesar de conviverem comigo somente nas lembranças, são pessoas que serão conjugadas sempre no tempo presente.

Nossa amizade, ocorrida no tempo de missão no Mato Grosso, é o sinal visível de que, realmente, o amor supera todo medo, como dizia o apóstolo.

Ele, Mineiro de nascimento, criado em Goiás, é um apreciador inveterado de Pequi – uma frutinha amarela que todo Goiano insiste em dizer que é gostosa – e, como tal, nos convidou para experimentar o tão afamado prato – que por sinal, exige do degustador uma habilidade especial, já que a frutinha é cheia de espinhos.

Fomos nós comer o “pequi com frango” do amigo Vilmar… não precisamos dizer que o frango acabou em minutos, enquanto que o Pequi permaneceu lá, imóvel na panela.

Além dessa novidade amarelinha, esse querido irmão, como todo Goiano que se preze, aprecia, como ninguém, uma boa pimenta… o que, realmente, também não faz muito sucesso conosco.

Os anos de convivência foram muito bons… mas não aprendemos a comer pequi, nem a apreciar pimenta. Entretanto, não foi isto que impediu nossa amizade, nosso amor e consideração um pelo outro.

Com a comunhão, necessária a irmãos/ãs, descobrimos pratos em comum – Vilmar e Leila cozinham como ninguém – foram inúmeras vezes que nos sentamos juntos/as, nos divertimos… vezes como convidados, vezes como anfitriões… nossas mesas foram sempre fartas em alimentos, em alegrias, em desabafos, em testemunhos, em lágrimas, em sorrisos.

Apesar de nosso gosto culinário ter suas diferenças, soubemos, no decorrer do tempo, achar cardápios comuns e apreciados com o mesmo apetite por ambos os lados… nossas diferenças não foram capazes de nos afastar, mas de nos unir ainda mais, a ponto de descobrirmos que existiam pratos deliciosos para comungarmos juntos.

No desejo da união, aprendemos a preparar novas mesas, novos gostos, novos temperos que despertasse a mesma alegria em cada um de nós!

Imagino que, de alguma forma, como sociedade, carecemos dessa mesma abertura experimentada por nós e por nossos irmãos no Mato Grosso… não somente em relação ao que experimentamos em nossas mesas, mas também no que experimentamos em nossa convivência, precisamos achar gostos comuns.

Caso isto não ocorra, não haverá mais mesas de comunhão… onde todos/as encontrem alegria e assento… e permaneceremos sempre no desconforto e na fome.

É preciso generosidade, liberalidade… é preciso abertura, boa vontade, para que haja proximidade.

A diversidade que nos afasta deve redescobrir seus efeitos em nós… e ao invés de causar repulsa, deve, antes de tudo, despertar nossa criatividade no desenvolvimento de novas receitas, novos temperos, na partilha de novas idéias capazes de unir, mais que desunir.

Precisamos entender que existem cardápios de comunhão e proximidade, infinitamente mais deliciosos do que qualquer comida ou bebida… que existem palavras e gestos, absurdamente mais saborosos que muitos banquetes.

Se não calibrarmos nosso paladar, sofreremos o desagravo de, dentro de algum tempo, não encontrarmos mais lugar nas mesas, nas rodas, nos grupos… correndo o risco de nos encontrarmos famintos e desprezados/as.

Espero, sinceramente, reencontrar em breve meus queridos Vilmar e Leila… para saborearmos novamente aquele “frango caipira” que só eles sabem fazer!

Mas espero também, estar cada vez mais disposto a me abrir para os novos temperos que Deus tem pra me mostrar… não quero correr o risco de cair no equivoco de Pedro em Atos 11:9 e ouvir Deus me dizendo: “Não chame de impuro aquilo que Deus purificou”.

Que Deus nos abençoe.

Que exercitemos a comunhão, a proximidade, a abertura.

Que encontremos lugar nas mesas da vida.

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:29 am  Deixe um comentário  

Controladores de Vôo

O feriado de finados desse ano foi muito diferente dos demais, principalmente para quem dependeu do transporte aéreo. Por conta da ‘operação padrão’ dos controladores de vôo, as viagens de avião ficaram absurdamente prejudicadas.

Os noticiários deram conta de que os profissionais da área, impactados com a tragédia do acidente do vôo 1907 envolvendo o avião da “Gol”, passaram a controlar um máximo de 14 aeronaves – o que é regulamentar – deixando o excedente – em torno de 6 rotas – sem autorização para decolar.

Segundo a imprensa, o caos criado pela atitude dos controladores chegou a um extremo de 600 operações canceladas num só dia, o que representou num estrondoso alvoroço nos aeroportos mais importantes do país, além de vultuosos prejuízos para as empresas aéreas, de transporte, turismo e hotéis.

As cenas ao vivo na televisão me fizeram pensar sobre os mais diversos vôos que temos durante a vida… aqueles momentos em que nos encontramos com os pés fora do chão, com a cabeça nas nuvens, distantes do cotidiano, da normalidade… nos ares.

Entendi que assim como existem momentos de viagens físicas, também acontecem as viagens ao irreal… talvez seja isto que as pessoas tentam dizer quando brincam umas com as outras com expressões como “viajar na maionese” ou “cair na real”!

De fato, em determinadas horas, “viajamos na maionese” mesmo! Saímos do chão, nos perdemos em nossos devaneios, em nossos sonhos… temos o corpo presente, mas nos deixamos levar pelas nuvens da ficção!

Quem sabe, por isso, assim como os aviões, também precisamos de “controladores de vôo”, para nos ajudar a retomar em meio as abstrações de nossa consciência e razão.

O texto sagrado conta uma história que, para mim, foi um desses vôos a que me refiro. A Bíblia mostra Moisés num fogo cruzado. O povo estava sedento e ele pediu uma providência a Deus. Foi orientado para que falasse a uma determinada rocha… e ela jorraria água. Mas o relato diz que Moisés se empolgou… fez um pequeno discurso, repreendeu o povo e, numa demonstração de força, bateu na rocha duas vezes. A água saiu, mas Moisés foi duramente repreendido por Deus!

Entendo que no afã de fazer a coisa acontecer, Moisés voou alto demais, viajou! Pegou o avião que Deus tinha lhe dado e, ao invés de fazer só o trivial, começou a dar piruetas e rodopios. A ordem era para falar à rocha… e ele inventou em cima… fez discurso, bateu duas vezes…!

Nós também não estamos livres desses vôos! Vez por outra queremos dar o nosso “toque” naquilo que nos é orientado… dificilmente perdemos a oportunidade de mostrar “nosso estilo” nas coisas que fazemos… é aí que voamos, que sonhamos, que rodopiamos com os aviões que não nos pertencem… umas vezes nos livramos, mas, na maioria delas, ficamos tão zonzos/as que caímos… e nos machucamos!

Não é fato que precisamos de “controladores de vôo”? O complicado é entender os sinais que o Supremo controlador de todos os vôos nos dá!

Há momentos em que Deus está nos sinalizando e não queremos entender! Horas que Ele coloca pessoas amigas, próximas para nos advertir sobre os perigos que corremos… quase sempre existem luzes acesas nos painéis da nossa alma nos prevenindo dos riscos e dos prejuízos que poderão resultar das alturas que tanto nos fascinam! Mas como é difícil entender, como relutamos!
Sofremos, morremos e matamos por ignorar os alertas de Deus!

Entristecemos a nós mesmos/as e aos/as nossos/as queridos/as quando menosprezamos os perigos de viver nas nuvens.

As alturas nos afastam da realidade, do chão, dos conselhos, dos/as amigos/as, do comum, da lucidez, da razão… as nuvens são belas, porém, podem ofuscar nossa visão, nosso controle, nossa capacidade de orientação!

Precisamos uns/umas dos/as outros/as, precisamos de Deus! Ele é nossa referência maior, nossa condição de controle… inspiração para nos ajudarmos mutuamente a manter o controle da vida, do pensamento, da emoção.

Deus é a possibilidade de haver vôos tranqüilos, sem percalços, sem quedas, sem desvios!

Que possamos confiar n’Ele e nas orientações que tem pra nós!

Que sejamos controlados/as pela serenidade do céu e que tenhamos sempre boa orientação em terra firme ou nos vôos que a vida nos prepuser!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:26 am  Deixe um comentário  

Fora das Medidas

Acredito que grande parte da população ficou inconformada como eu, em relação à morte da modelo Ana Carolina Reston, de 21 anos, em São no último dia 14, em conseqüência de uma anorexia nervosa.

Se isto já não fosse suficiente, no domingo, 19/11, morre uma segunda jovem da mesma maneira, desta vez, uma estudante de moda, Carla Sobrado Casalle que faleceu com a mesma idade de Ana Carolina, 21 anos.

Segundo dados da imprensa, a anorexia está entre as doenças psiquiátricas mais fatais, matando entre dez a 20 por cento dos doentes. Atinge, sobretudo, as mulheres jovens, mas também afecta crianças e homens.

O caso é tão sério que tempos atrás a Espanha proibiu qualquer modelo adulta de desfilar se tiver um Índice de Massa Corporal (IMC) de risco, ou seja, inferior a 18,5, indicado pela Organização Mundial de Saúde. E, a que tudo indica, outros países devem seguir o mesmo exemplo.

Mas se pensarmos bem, veremos que a tragédia deflagrada pela morte dessas duas moças não se restringe ao circuito da moda, pelo contrário, ela é ampla e desastrosa!

Tenho comigo que a causa da morte dessas meninas não foi a anorexia por si só… mas o exagero, o excesso… o descontrole da vaidade, da competitividade, da escravidão do mercado modista.

Alíás, se o exagero, sob todos os aspectos, fosse diagnosticado como moléstia, os índices de mortalidade a ele atribuidos seriam vultuosos! Nas mais variadas direções, existem pessoas morrendo de exagero, de falta de medida das coisas que fazem, que comem.

Uns/umas, sofrem de magreza, outros/as, de gordura… uns/umas, de excesso de açúcar, outros/as da falta dele, nuns/numas, o coração é forte demais, noutros/as, fraco ao extremo.

E não é só na questão física, existem ainda os exageros no campo emocional, intelectual, até no espiritual, que também matam, que, de igual modo, degradam o comum da vida e excedem a normalidade, causando desequilíbrio e doença!

Precisamos entender que os exageros fazem mal sempre! Toda vez que existe abuso, excesso, a saúde, sob qualquer aspecto, fica ameaçada!

Mesmo as coisas boas, em exagero, fazem mal! Agradar uma pessoa, por exemplo, é muito bom, mas se não tiver medida, sufoca! Tomar água, da mesma forma, faz um bem enorme, no entanto, se isto extrapolar, causa dor e até morte! Talvez não haja algo mais agradável que cantar, porém, se isto for em exagero, pode causar um distúrbio vocal ou mesmo no ouvido e, quem sabe, na paciência de quem estiver por perto!

Um texto interessante na Bíblia, na verdade um conselho de Salomão, fala sobre a questão da amizade e diz: “Não sejas freqüente na casa do teu próximo, para que não se enfade de ti e te aborreça” (Prov. 25:17). Isto pode nos causar muita estranheza, uma vez que a maioria das pessoas entende que a amizade verdadeira tenha a ver com abrir a geladeira da casa do/a amigo/a sem pedir licença, mas Salomão nos surpreende atribuindo também aos relacionamentos de amizade o princípio de que tudo que é demais faz mal, mesmo amizade, mesmo proximidade, mesmo liberdade!

Nesse prisma, é preciso pensar e repensar a vida de forma geral… se ela não está fora das medidas do bom senso, da naturalidade, do que seja adequado, saudável.

A morte daquelas duas jovens traz à discussão um tema muito relativizado em nosso tempo: a medida certa das coisas.

Não foi a vaidade que levou aquelas moças à morte, tampouco a anorexia! A doença foi uma conseqüência do exagero, da quebra dos limites da normalidade… foram vítimas do mesmo mal que tira a vida dos/as obesos/as, dos/as alcoólatras, dos/as dependentes químicos, dos/as fumantes, dos/as sedentários/as, dos/as fanáticos/as de toda sorte!

Medidas erradas de coisas boas também matam, e de maneira sutil!

Espero, sinceramente, que exista bom senso em tudo que fizermos! Espero que saibamos dar valor, tempo, crédito, atenção, dedicação a coisas e pessoas na medida certa para não cairmos no engodo do exagero!

E que tenhamos vida plena, como Cristo desejou pra nós!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson

Published in: on janeiro 24, 2007 at 10:16 am  Deixe um comentário  

O descartável

Sou do tempo em que existiam poucas coisas descartáveis. Lembro-me das canecas plásticas desmontáveis (sanfonadas) que levávamos para a escola para bebermos água… naquele tempo não existiam os bebedouros de hoje com copos à disposição.

Também é muito clara a memória das garrafas de refrigerante… mantínhamos vários engradados com inúmeras delas na despensa. Além daquilo, o trabalho que as mães tinham com as fraudas dos bebes… os varais logo denunciavam a presença de mais um/a membro na família.

A qualidade dos bens de consumo eram outros. Não se adquiria na expectativa de substituição… tudo era avaliado pela durabilidade e o pensamento de obter sempre estava associado a alguma coisa que nos levava a um “pra sempre”.

As coisas mudaram! Em nossos dias o descartável tomou um lugar inquestionável… os valores são inversos… agora o melhor é, quase sempre, o descartável… até por uma questão de segurança e saúde, já que o fator “contaminação” nos aflige cada vez mais.

Mas é preocupante esta nova perspectiva social porque o descarte tem se alastrado para ambientes nunca imaginados! De forma notória e trágica, pessoas, vidas, amizades, pensamentos, preceitos, foram incluídos na lei do “usa e joga fora”! Assim como as seringas, os copos e as fraudas, os bens da alma e da razão têm sido igualmente banalizados!

Não só o relacionamento entre casais – namoros, noivados, casamentos – se tornou alvo de um prazo de vencimento cada vez mais curto, agora, isto atinge valores nunca concebidos. Há pouco tempo a mídia reportou o caso da condenação de uma jovem rica que, com a ajuda do namorado, tramou e executou o assassinato dos próprios pais!

É assim que a sociedade reinventa seus valores… com um absurdo padrão de frieza… dando ao “novo” toda importância e ao “usado”, uma condenação impiedosa!

Falo como o salmista… sinto abatida a minh’alma, especialmente em ver gente ser tratada como papel velho, como copo usado… valores serem trocados de hora pra outra como se nunca tivessem significado nada… e se ainda significam alguma coisa pra alguém, não importa, importa a mudança a qualquer custo, mesmo que seja pra pior!

Imagino como é complicado para os/as jovens acreditar em frases tão expressivas como: “… na alegria ou na tristeza, na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença…”, porque pra mim tem sido cada vez mais difícil saber em quem acreditar, e confesso, os dedos da minha mão têm sido muitos para contabilizar os/as verdadeiros e fiéis amigos/as que tenho!

Credos, crenças, verdades, lemas, sonhos, isto agora é balela!
Foram trocados por modismos, por popularidade, “ibope”! Infelizmente as pessoas se compram e se vendem numa velocidade astronômica! O descartável atingiu até mesmo a moral e a ética, que são moeda de troca para obter status, aplauso e louvor!

Espero a hora de ser descartado também… este parece ser o fim de cada um de nós… parece que nesta dinâmica a gente vai sendo condenando, pouco a pouco, se pensa por muito tempo a mesma coisa, ou se não consegue disfarçar aquilo que nos dá sentido, especialmente se isto não provoca o “frisson” popular!

Existe porém um certo acalanto… houveram outros/as que também foram descartados/as… Jesus Cristo, porque não conseguiu a maioria na votação que o condenou à morte… e por motivos diversos, Pedro, Paulo, Lutero, Wesley!

Quem dera pudéssemos voltar o tempo em que as coisas, pessoas, verdades, conceitos, sobreviviam com maior facilidade… tempo em que existia um valor maior nas palavras e atitudes, por isso, eram melhor pensadas e mais comportadas… mais respeitosas!

Um tempo onde existia lugar pra todos/as, pra toda gente de todo tempo, mesmo que seu tempo já tivesse passado… onde nos assentávamos em nossas diferenças e formas pais, mães, avós, avôs, netos e netas… passava o tempo, mas permanecia o respeito, a honra, o tributo e a admiração!

Não podemos, como cristãos/ãs admitir este novo modelo de vida… aceitar que sejamos descartáveis uns/umas para os/as outros/as… somos gente, carne e sangue, alma e espírito… somos a magnífica criação que Deus fez, por isso mesmo, dignos/as de consideração, aceitação e espaço!

Caso admitamos este processo social, correremos o risco de nos transformarmos numa sociedade excludente, que lança fora tudo o que não pareça ser padrão, ou que exija algum grau de esforço, humildade e flexibilidade!

Os assassinatos trazem dentro de si o mesmo princípio do descarte. Os assassinatos que freqüentemente vemos são nada mais que resultados radicais de uma sociedade que entende que o “que não agrada”, ou não concorda, deve ser posto fora!

Que o Deus Eterno, que não descartou nenhum de nós, a despeito de nossa pobreza, nos ajude a livrar nossa vida e sociedade desse equivoco absurdo que vivemos!

Na graça e na paz,

Rev. Nilson.

Published in: on janeiro 23, 2007 at 10:14 am  Deixe um comentário