Desencontro

lapide

(ao amigo Gilmar Eli Cardoso)

Pensava, que num dia desses, como que por surpresa, nos encontraríamos de novo para sentarmos com nossas lembranças. Imaginava que ouviria suas histórias e lhe contaria as minhas, diríamos da vida, conquistas e desencantos. Falaríamos de tantas coisas, tantos feitos, experiências. Retomaríamos antigas conversas, lembraríamos pessoas conhecidas, do que nos fez rir e do que nos fez chorar. Revisitaríamos o passado de nossas memórias, de um tempo sofrido e bom. Seria um café e uma conversa sobre a mesa da simplicidade, da alegria e da vida.

Nutri, em meus desejos, a ideia de rever amigos como você. Revisitá-los para lhes contar e saber sobre o desenho que nos fez o tempo, reconhecê-los, e gostar novamente de sua companhia e amizade.

Pensei muito e fiz pouco. Perdi-me nos sonhos da esperança e me esqueci de que nem a muita esperança faz esperar o tempo, a matéria e a vida.

Agora, te reencontro aqui, sob a frieza desta lápide. Que desencontro terrível!

Resta a ausência das palavras, notícias e histórias, resta uma distância sem despedidas, resta um nunca mais, resta o silêncio, resta a amizade.

Nilson.

Published in: on agosto 5, 2014 at 7:19 pm  Deixe um comentário  

SINTONIA

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O velho rádio do meu avô é uma lembrança viva que tenho da infância. Mesmo que muitas famílias já contassem com um televisor, para meus avós, aquele aparelho era a imagem mais pura da alta tecnologia da época. Em certos momentos do dia todos se silenciavam diante dos programas preferidos. Naquele tempo havia poucas emissoras e não se podia optar por preferências e estilos. Na maioria das vezes, as pessoas precisavam sintonizar estações de cidades distantes e se informar de coisas que pouco tinha a ver com elas. Programações de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Rio Grande do Sul faziam parte da realidade de gente simples, como no caso deles, que viviam no interior do Paraná. Mais tarde, as transmissões se aprimoraram. O amadorismo dos antigos apresentadores foi substituído por locuções elaboradas. As emissoras se multiplicaram, fazendo surgir públicos distintos e as FM’s inovaram o padrão e a audiência deste nicho.

A imagem daquele rádio acomodado na sala principal da casa de meus avós leva a pensar em outras formas de sintonia. Na verdade, cada um de nós atua como um receptor que está permanentemente à mercê das inúmeras ondas emitidas pela vida. Através delas, nossa personalidade se forma, nosso caráter se amolda, nossos sonhos se alimentam. Como no aparelho, uma infinidade de estações está disponível para atender os diversos gostos, preferências e ansiedades. Não há uniformidade, nem obrigatoriedade. O botão que muda as estações está lá para girar ao bel prazer e critério de quem lhe comandar. O que não se pode é deixar de escolher. Quem não decide sobre o seu próprio gosto corre o risco de ouvir o que não quer e ter de aceitar qualquer tom e melodia. Num mundo tão mercantil como o nosso é preciso cuidar bem da frequência que se sintoniza, afinal, bem se sabe que uma propaganda bem feita pode ter o poder de transformar desacerto em coisa certa, desonestidade em hombridade, falcatrua em lisura. Por serem belas, bem colocadas e artisticamente ajeitadas, certas palavras podem ganhar tom de bondade, mesmo que estejam repletas de engodo e ilusão. A modernidade inventou formas bonitas de fazer maldade, levando as pessoas a agradecerem por serem passadas pra trás e a terem em alta estima quem promove seu fracasso. São as muitas frequências que desconcentram as pessoas, causando confusão de discernimento e incapacidade de pensar. No tempo de meus avós havia uma ou duas frequências para sintonizar a vida, hoje em dia a infinidade de informações faz desvairar a alma mais temperante.

Parafraseando o texto sagrado[1], “as muitas letras nos fazem delirar”, ou melhor, as muitas frequências e informações fazem enlouquecer a maioria das pessoas. Seja no campo da religião ou na conduta profissional, há quem esteja conturbado diante de mensagens estranhas e difíceis de interpretar. Há quem misture ilusão com vida real, experiência espiritual com desejo pessoal, religiosidade com distúrbio emocional, opinião própria com vontade de Deus. Ao invés de separar a fé da razão, as pessoas deveriam separar o transcendente do real, a intuição da concretude prática, deixando a religião ser o que ela, de fato, deveria ser, um instrumento preciso de solidariedade, sensibilidade, bondade e amor e não um artifício de confusão e aprisionamento.

Quem dera tantas sintonias deixassem de alucinar as pessoas, ou melhor, quem dera as pessoas se sintonizassem aos verdadeiros valores da vida e pudessem entender que, assim como a fé sem obras é morta[2], espiritualidade sem realidade, sem discernimento, sem respeito e diálogo, não transforma ninguém e, ao contrário, ilude e ludibria quem vive carente e ansioso por um tempo melhor, mais humano e justo.  

Rev. Nilson

 

 

[1] Atos 26:24

[2] Tiago 2:26

Published in: on maio 22, 2014 at 12:12 pm  Deixe um comentário  

GAIOLA

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Tive um amigo que passou a cultivar vários tipos de plantas, frutíferas e ornamentais, no quintal de sua casa. O lugar se tornou aos poucos um belo espaço verde. Quando quis ter pássaros, descobriu que poderia atraí-los. Desenvolveu um comedouro de madeira, onde colocava pedaços de frutas e pequenas porções de grãos. O resultado foi ver chegar bem-te-vis, pardais, pombas, andorinhas, além de pássaros mais raros, que eu nem saberia lembrar os nomes. Ele transformou seu quintal num belo jardim com a presença de pássaros que, nas manhãs e tardes, presenteavam a todos com seu canto.

 Aquela experiência faz pensar nos pássaros criados nos quintais das casas. Aves cuidadas, alimentadas, reproduzidas e protegidas, mas sem a liberdade daquelas outras. Cantando e embelezando, mas engaioladas, a troco de um bocado de alpiste. Mas o que mais intriga é lembrar que, de outras formas, a fé, que se organiza e se institucionaliza cada vez mais, funciona na vida de muita gente como as gaiolas dos pássaros. Gaiolas que podem até ter a intenção de preservar, cuidar, mas, mesmo assim, tiram a liberdade e a espontaneidade. Gaiola que livra do perigo das ruas, das agressões e até da morte, mas ao mesmo tempo, tira o brilho do vôo livre e natural. Sinto o dilema dos pássaros na realidade da religião, que se por um lado pode proteger, por outro, pode cair no erro de escravizar, se por um lado pode livrar da morte, por outro, corre o risco de privar da vida. O que será melhor?

Por ironia, uma amiga de minha esposa, ganhou uma gaiola e, não admitindo a possibilidade de prender pássaros, resolveu colocá-la como enfeite, sem as portas, num dos cantos de seu quintal. Mesmo assim, colocou nela frutas e alimentos para aliviar a fome dos passarinhos que passam por lá e, para sua surpresa, teve a gaiola cheia deles. Noutro dia nos contou isto e disse que quando as pessoas a visitam ficam impressionadas com os belos pássaros que possui na gaiola e quando descobrem que estão soltos, podendo entrar e sair quando bem entenderem, ficam ainda mais espantadas.

Quem dera pudéssemos reelaborar a prática da religião de forma que não se construísse no coração das pessoas esta encruzilhada que leva ou para a liberdade mortal ou para a clausura. Quem dera tivéssemos a confiança de que o que cremos pode libertar sem a necessidade de engaiolar em conceitos, costumes e interesses. Quem dera entendêssemos as palavras do apóstolo Paulo advertir que para a liberdade foi que Cristo nos libertou e cumpríssemos sua recomendação de, uma vez livres, não aceitarmos novamente qualquer forma de jugo ou escravidão!

Rev. Nilson

Published in: on maio 9, 2014 at 12:23 pm  Comments (1)  

Prefeitura cor de abóbora

cor de abobora

Há algum tempo soube por um telejornal, de uma cidade que estava indignada com seu prefeito por ter mandado pintar a prefeitura de cor de abóbora. Perguntado sobre qual a razão da pintura, ele argumentou que queria dar ao município novos ares e sinalizar o começo de um novo tempo. Para os moradores, o artifício não passava de uma estratégia de marketing para desfazer a imagem deixada pela última gestão, com o agravante de ridicularizar a imagem da cidade que se tornara notícia em nível nacional.

Contraditoriamente, a cena da prefeitura cor de abóbora me fez lembrar a frase atribuída a Isaac Newton como parte de uma carta endereçada a Robert Hooke, em 1676, que dizia “Se vi mais longe, foi porque estava sobre os ombros de gigantes”. Os gigantes da questão seriam pesquisadores como Copérnico, Galileu e Kepler, a quem atribuía grande valor, reconhecendo que não poderia ter feito tantas descobertas se não o tivessem antecedido com seus estudos.

Infelizmente, atitudes como a de Newton são cada vez mais raras. Dificilmente há quem reconheça algo ou alguém que faça parte do passado, mesmo que tenha lhe servido de degrau. O que mais se vê, são pessoas que tentam passar tinta forte sobre a história dos outros, como se coisas e projetos surgissem do nada, pelo mero acaso, sem esforço, empenho ou amor. Tentam maquiar sua insegurança camuflando a contribuição de outros, na ilusão de ludibriar a lembrança e a inteligência de todos.

Ao contrário do que se possa imaginar, Isaac Newton, ao se referir à grandeza de seus antepassados, não se fez pequeno, como alguém que depende de outro para ver horizontes mais longínquos, antes disso, mostrou-se grande também, pois quem tem a coragem de valorizar o trabalho dos outros sabe que só poderá ser valorizado a partir de uma perspectiva imaginária que estabeleça o que foi herdado e o que está sendo acrescentado.

Reconhecer não é somente um ato de respeito, mas também de grandeza. Apenas os grandes reconhecem, porque a capacidade de saber olhar à frente para descobrir novos caminhos é a mesma de olhar atrás para aprender com quem passou. A percepção é dom único. Quem não percebe o que se foi, pouco perceberá o que virá. O ombro dos gigantes só é disponível para quem se faz pequeno, dependente e aprendiz, portanto, só se servirá dele quem o puder admiti-lo.

É lamentável perceber a quantidade de prefeituras, escolas e igrejas pintadas em tom forte. Mais lamentável ainda é ver escondido seu passado, já que passado, via de regra, só pode ser lembrado através de datas, momentos e nomes. E somente o nome de gigantes pode ser lembrado. Sem os dados do passado, somem-se os gigantes, perde-se a história, empobrece-se a vida, desmotiva-se a fé. Usar cor berrante nem sempre é boa estratégia pra quem quer ser admirado. Quase sempre, ao invés de embelezar, ridiculariza. Gosto não se discute, por isso é recomendável usar cores neutras, que podem até não chamar a atenção, mas quase sempre evitam a vergonha.

Que o grande Deus de todos nós, nos ajude a encontrar o tom certo para a vida. Que o respeito e a consideração nos garantam sempre a grandeza. E que a história seja contada pela soma de muitas mãos que tiveram a leveza e a humildade de partilhar a mesma pena na escrita de uma só vida.

Rev. Nilson

Published in: on março 29, 2014 at 2:33 pm  Deixe um comentário  

O Natal de Port Clinton

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A cidade norte-americana de Port Clinton, no estado de Ohio, mostrou que o espírito de natal não aparece apenas perto do dia 25 de dezembro, eles decoraram as ruas e prepararam um natal antecipado para um garoto de 13 anos. Devin Kohlman tem um câncer agressivo no cérebro e desejava pela chegada da data. Para que seu desejo fosse realizado, dezenas de pessoas se reuniram perto da casa do garoto enquanto várias toneladas de gelo raspado foram usadas para imitar a neve. Uma árvore de Natal e luzes coloridas decoraram a cidade. Com chapéus de Papai Noel, alguns moradores se reuniram em frente à janela de Devin cantando canções natalinas e até um Papai Noel apareceu dirigindo uma moto .

O caso do natal antecipado promovido pelos habitantes da cidade americana correu o mundo através das manchetes de jornais e TVs, afinal, uma mobilização desse porte não é algo comum de se ver, especialmente numa sociedade onde as pessoas estão preocupadas consigo mesmas e dificilmente se importam com o bem estar dos outros.

O exemplo de Port Clinton faz pensar sobre um jeito de novo de comemorar o natal, que sugere a liberalidade para presentear com amor quem carece de atenção, a exemplo de Jesus Cristo, enviado por Deus à humanidade. Desta maneira, as demonstrações naturais nesta época seriam realocadas para outros períodos do ano, segundo a necessidade de quem delas precisasse. O natal aconteceria a despeito do calendário, sujeito a um compromisso de consideração e fraternidade, podendo ser transportado para a casa de um amigo que passasse por um grande problema ou para o desconforto de quem não tivesse condição adequada de vida. Quem sabe, o natal pudesse transitar por nossas vidas, por nossos dias, livremente, proporcionando conforto para o coração de quem sofre, ou para quem não tenha tempo para esperar o próximo dezembro chegar.

Então, celebraríamos o natal de uma nova maneira, através de ações de bondade, gratidão, respeito e fraternidade. Desta maneira, o natal seria, de fato, o Natal de Cristo, como no episódio de Port Clinton, segundo o exemplo do Jesus menino, pobre e desprovido de recursos que, mesmo assim, nasceu para oferecer clareza a quem vivia na obscuridade da tristeza, esperança a quem se sentia frustrado e amor a todos aqueles que estavam desprezados e sem reconhecimento.

Que Deus nos abençoe com o Natal de Cristo, e que nós também possamos abençoar as pessoas na promoção de natais enriquecidos de carinho e amor.

Rev. Nilson

Published in: on dezembro 20, 2013 at 10:00 am  Deixe um comentário  

As estrelas do Natal

estrela

Quando missionário em Tangará da Serra, no Mato Grosso, tive uma experiência inspiradora durante o período do advento. Nos três domingos que antecedem o Natal, ritualmente, durante as celebrações, a comunidade enfeitou uma grande árvore de Natal posta ao lado do altar. O diferencial da ornamentação foi que as estrelas foram produzidas de um lado coloridas e brilhantes e do outro, em papel branco, onde eram anotados, a cada culto, motivos pessoais. Em cada encontro, todos tinham oportunidade para escrever suas questões e levarem até a árvore. Lembro-me que no primeiro encontro os irmãos anotaram lembranças tristes do ano, no segundo, as boas recordações e, no último, os sonhos para o futuro.

Recordo de vivenciar momentos significativos na vida de quem participou. Nas tristezas, o lamento de perdas, frustrações, fracassos e angústias. Nas alegrias, a gratidão por conquistas, superações e vitórias. Nos sonhos, a esperança viva no olhar de cada um diante de desafios e novas possibilidades. Tudo estava lá, exposto numa mesma árvore. De um lado, o simbolismo da vida e de suas lutas, do outro, o brilho da estrela, contrastando com fragilidade da vida.

Aquela árvore trouxe um novo significado para o Natal daquela comunidade, pois mostrava a dicotomia da vida inspirada por Cristo que, se por um lado sugere a paz e a segurança, por outro, não nos isenta de momentos difíceis.

Jesus é aquele que vem para nos iluminar a despeito de qualquer dor ou tragédia. Ele não se retira, mantendo-se ao nosso lado sempre. Como as estrelas que enfeitaram a humilde árvore daquela pequena congregação, Jesus nos transmite luz, mesmo que concomitante às dificuldades e carências que venhamos ter. Basta que consigamos conceber uma fé crente, mesmo que sem paz, fiel, mesmo que sem garantias, presente, mesmo que sem perspectivas.

Que o Jesus do Natal nos ilumine sempre. Que tenhamos desprendimento para colorir nossa vida com Sua luz, que vivamos a dimensão de um Natal mágico, transcendente, e que “a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guarde o nosso coração e a nossa mente ”, para que nos encontremos a cada dia com a alegria da vida e o prazer da esperança.

Rev. Nilson

Published in: on dezembro 18, 2013 at 9:20 am  Deixe um comentário  

Encanto e desencanto

sol e lua

A definição do dicionário para “encantamento” tem a ver com uma sensação de deslumbramento, admiração e grande prazer diante de algo que se vê, ouve ou percebe. Esta sensação, ou sentimento, motiva ou desmotiva quase tudo na vida. Normalmente, o empenho, a dedicação e até a esperança, são questões dependentes de encantamentos ou de desencantamentos. É esse estado de graça inexplicável, provocado pelo “encanto”, que toma corações e mentes, e fortalece pessoas para lutar e se dedicar na conquista de seus objetivos. O desencanto, ao contrário, é o principal motivo de tanta gente se perder da vida, do gosto, do otimismo e, consequentemente, do sucesso. As relações também estão sujeitas a estas possibilidades. É o sorriso, é o agrado, o tom de voz, o jeito de olhar, é a palavra, a postura, a forma e a estética que elegem ou reprovam pessoas e situações. O encanto é capaz das mais surpreendentes conquistas, e o desencanto, principal motivo de derrotas inesperadas.

Talvez, a maior surpresa diante disto seja o fato das pessoas viverem desatentas para o valor destes sentimentos e da força que eles têm para o bem ou para o mal estar geral. Nem sempre há preocupação em “encantar”. Especialmente quando a urgência de fatos e decisões provoca a vida, é comum o alvoroço de palavras, atitudes, sem perceber e cuidar de questões emocionais. Boas palavras, ditas de maneira áspera, podem causar o mesmo mal estar de palavras duras e desesperadoras, do mesmo modo que más notícias podem ser amenizadas se anunciadas de maneira harmoniosa e sensível. O ser humano é regido por encantos e desencantos e perceber isto pode representar o sucesso ou a ruína de pessoas e projetos.

O sábio bíblico afirma que “a resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira ”, portanto, o resultado prático do que falamos não está no conteúdo das mensagens, mas na maneira que as emitimos. Mensagens difíceis, se carregadas de sentimento e fraternidade podem suscitar compreensão e admiração. Mensagens simples, se impregnadas de descaso e inabilidade, podem provocar irritação e discórdia. O que a boca fala pode ter significados diversos, pois o que se fala é sempre emoldurado pela capacidade de encantar ou de desencantar pessoas.

Por isso, nunca é demais o sorriso, a ternura e a bondade. Nem é inadequada a dedicação e o cuidado, a preocupação e a compaixão – que é o sentimento que nos coloca na tragédia pessoal dos outros e nos leva ao desejo de minorá-la – tampouco, é descartável a misericórdia, que é a sensibilidade de se afligir diante da dor de quem sofre. É esta relação mística de sentimentos que possibilita o envolvimento das palavras, posturas e decisões com humanidade necessária para envolver com significação os momentos delicados da vida. Este cuidado é capaz de transformar meros colegas em amigos próximos, relações de trabalho em ambientes harmoniosos, dilemas individuais em problemas comuns, fardos insuportáveis em tensões passageiras.

Se o rigor natural dos grandes dilemas da vida der lugar ao encantamento, a aceitação e o envolvimento serão frequentes nos contextos e ambientes que vivemos. Então, a vida poderá, enfim, ser levada de maneira amena, através de relações marcadas por admiração, boa vontade e comprometimento.

Rev. Nilson

Published in: on outubro 16, 2013 at 1:37 pm  Deixe um comentário  

O arco e o violino

 

Scilla Franco foi bispo da Quinta Região Eclesiástica da Igreja Metodista no Brasil até 1989. Dizem que sua eleição representou uma mudança nos rumos da região por significar o desejo de uma ala minoritária da Igreja. Por este motivo, sua habilidade pastoral foi mais necessária, especialmente no início de seu mandato, devido às tensões provocadas pela sucessão. Nesse clima, relatam seus contemporâneos, que numa das primeiras reuniões com a liderança, alguns membros cobraram posturas duras e rápidas, que atendessem as transformações esperadas. Conta-se que em sua sabedoria cabocla, o bispo retrucou: “Calma: isso é como tocar violino, você tem que deslizar o arco pra lá e pra cá, se não a música não toca”, numa clara alusão ao desafio de ser bispo numa comunidade tão diversa.

A fala do saudoso bispo e a sabedoria que ela trás ao concluir que determinadas circunstâncias só se viabilizariam diante da habilidade de tocar todas as notas de uma mesma música, sem partidarismos, extremismos e posições estáticas, é inspiradora, afinal, o simbolismo do arco de um violino, que se movimenta, parece suficiente para ilustrar o desafio de gerir diante da variedade de clamores e experiências, sugestões e contribuições, tão comuns a qualquer função de liderança.

Infelizmente, o que mais se vê, são tentativas frustradas de executar o violino sem a participação do arco. Nem sempre há disposição para o movimento que é capaz de compreender e invocar a potencialidade de cada corda, de cada nota. O resultado é que, na prática, a música não sai, ou, quando sai, é através de um dedilhar de cordas, mas isto nem sempre coloca pra fora todo o potencial do instrumento. Não é possível executar uma sinfonia inteira sem o arco.

Certamente, a imagem da última ceia de Cristo, ilustra a lição do violino, ministrada com sabedoria pelo bispo Franco. Ali se sentaram homens e mulheres diversos, com histórias e particularidades tão próprias que somente a generosidade de um líder como Jesus poderia reunir e, mais que isto, promover neles e nelas a harmonia necessária para que suas diferenças não se sobrepusessem à utopia de, mesmo nos ambientes difíceis, tensos e perturbadores, executar uma canção harmônica, coletiva, que trate de amor, que traga esperança e que sinalize a paz.

Rev. Nilson

 

Published in: on setembro 16, 2013 at 1:35 pm  Deixe um comentário  

Trilhos

 trilhos

Numa conversa informal, ouvi de um jovem algo profundo. Falando sobre “liberdade”, ele ponderou: “o meio de transporte terrestre mais rápido que existe é o trem, e isto só é possível porque ele tem trilhos, ou seja, tem referências que lhe asseguram a rapidez”. Esta reflexão me causou surpresa, especialmente pela maneira simples e objetiva que o rapaz encontrou para dizer que a liberdade, por si só é muito bela, porém, pode não significar sucesso ou realização. Na figura do trem que alcança sua eficiência através de uma orientação pensada, refletida e estudada pelos profissionais que projetam e constroem os trilhos, existe inspiração suficiente para se concluir que a vulnerabilidade de projetos e sonhos que não se referenciam a ninguém e a nada pode estar na ausência de compromissos práticos com algum tipo de ordem ou orientação.

Infelizmente, o sonho da liberdade leva muita gente a negar a importância dos “trilhos” por considerá-los instrumentos de opressão ou restrição, mas nem sempre isto representa a verdade, mesmo porque, quem procura viver sem eles, dificilmente consegue chegar a algum destino. Viajar sem rumo pode ser um erro gravíssimo para a vida. Viajar sobre trilhos significa considerar a experiência de quem já viajou antes, abrindo picadas, avaliando possibilidades, estudando o terreno, machucando-se, frustrando-se, experimentando caminhos, até chegar a uma conclusão adequada, capaz de conduzir quem viesse depois, com segurança e rapidez.

A liberdade eficaz e construtiva, mais que sugerir uma caminhada sem rumo, se relaciona ao direito que cada pessoa tem em escolher estradas e destinos, e é preciso escolher bem antes de sair em viagem, para não correr o risco de passar a vida indo e vindo, fazendo e desfazendo planos, sem concluir nada. É triste ver pessoas que, em nome da liberdade, envelhecem frustradas por não chegar a lugar nenhum, sem sucesso e sem realização. Contam suas histórias através de tentativas e frustrações, porque não tiveram lucidez para refletir antes sobre bons e maus destinos.

Ao se referir à liberdade, o apóstolo Paulo adverte: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão[1]”. De alguma forma o apóstolo diz que a liberdade, ao mesmo tempo em que nos dá o direito de levar a vida como bem entendemos, oferece o risco de nos deixar cair em armadilhas que nos aprisionam, por isso, salienta a necessidade de estarmos “firmes”, ou seja, de usarmos a razão, mais que a emoção, para balizar nossas escolhas. Mostrar boas estradas é dever das pessoas que nos amam, mas decidir sobre um bom futuro é dever de cada um de nós.

Que Deus nos ajude a usufruirmos bem da liberdade que temos. Que consideremos a existência e a necessidade dos “trilhos” que nos conduzem pela vida. Que saibamos escolher bons destinos e que a vida nos seja agradável, segura, cheia de acertos e alegrias.  

Rev. Nilson


[1] Gálatas 5:1 

Published in: on agosto 28, 2013 at 1:29 pm  Deixe um comentário  

O elefante e a verdade

 

elefante

Há uma parábola antiga, bem conhecida, que vale relembrar. Conta de um príncipe que mandou chamar um grupo de cegos de nascença e os reuniu no pátio do palácio. Ao mesmo tempo, mandou trazer também um elefante e o colocou diante do grupo. Conduzindo os cegos pela mão, levou-os até o elefante para que o tocassem. Cada um examinou uma parte do animal, então, o príncipe ordenou que explicassem, uns aos outros, como era o elefante. O que tinha apalpado a barriga, disse que o elefante era como uma enorme panela. O que tinha apalpado a cauda discordou e disse que o elefante se parecia mais com uma vassoura. O que apalpara a orelha, interrompeu, dizendo: “Se alguma coisa se parece é com um grande leque aberto”. Outro ironizou, dizendo: “Vocês estão por fora. O elefante tem a forma, as ondulações e a flexibilidade de uma mangueira de água”. “Essa não”, replicou o que apalpara a perna, “ele é redondo como uma grande mangueira, mas não tem nada de ondulações nem de flexibilidade, é rígido como um poste”. Os cegos se envolveram numa discussão sem fim, cada um querendo provar que os outros estavam errados, e que o certo era o que ele dizia. Cada um se apoiava na sua própria experiência e não conseguia entender os demais. Quando o príncipe percebeu que eram incapazes de aceitar que os outros podiam ter tido outras experiências, ordenou que se calassem. “O elefante é tudo isso que vocês falaram.”, explicou[1].

Este conto, lamentavelmente, ilustra a realidade de várias discussões da sociedade contemporânea sobre temas que estejam sujeitos à diversidade de pensamentos e impressões e que requeira tolerância, respeito, altruísmo e, acima de tudo, humildade para reconhecer que o conceito de verdade é muito extenso para se adequar a um ou a outro ambiente ou contexto. Este tem sido o desafio da maioria das discussões do mundo, falta de prudência para ouvir, de sobriedade para refletir ou mesmo de humildade para, vez ou outra, reconhecer equívocos. Nem sempre há disposição para uma mesa de conversa, principalmente, se na mesa estiverem desiguais, ou quem seja alheio ao contexto analisado.

 O desafio de avaliar elefantes, através do diálogo e da troca de informações é, cada vez mais, necessário para os diversos lugares da vida. Sem isto, é impossível conviver, unir, reunir pessoas, propósitos, interesses e desempenhar projetos de sucesso. Sem isto, é impossível encontrar a verdade, porque a verdade não sobrevive a uma única ideia, a uma única visão e forma de interpretação. A verdade é, sempre, coletiva, e é capaz de morrer na clausura. A verdade é livre e, por isso mesmo, transcendente, abstrata e pesada demais para um só ombro, carecendo de muitas mãos e muitas mentes para ser sustentada.   

 Salomão disse que “na multidão de conselheiros há segurança[2]”. Talvez, seja possível parafraseá-lo e dizer que na multidão de conselhos é que se encontra a verdade que nos dá segurança. Que Deus nos agracie com leveza de espírito para admitir que a verdade não está só em nossas mãos, mas na diversidade das impressões. Que haja humildade para conhecer elefantes, contextos, culturas, momentos e ideias. Que possamos admitir a contribuição de quem está ao lado e, mesmo assim, tem outras formas de interpretar a vida e os problemas. Que quem está ao lado tenha humildade para acolher nossas impressões sobre aquilo que nos é comum. Que possamos, assim, reunir visões, vivências e capacidades para encontrar as verdades da vida, especialmente as necessárias para nos dar esperança e paz.

 Rev. Nilson


[2] Provérbios 11.14

Published in: on agosto 9, 2013 at 11:56 am  Deixe um comentário  
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